Saúde

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Por Bianca Morais 

O dia do beijo é comemorado hoje, 13 de abril. O beijo é um gesto mundialmente conhecido como forma de demonstrar afeto a alguém que amamos. Tem beijo no rosto, na testa, na mão, na boca! Beijo entre casados e namorados, entre parentes e amigos. 

Em meio a maior pandemia mundial vivida nos últimos tempos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou claro que beijos não são aconselháveis. Mas, engana quem pensa que apenas nesse momento de covid-19 que podemos ser contaminados pelo beijo. Pelo contrário,  um beijo é capaz de transmitir várias doenças.

Uma curiosidade que vale a pena ser contada nesse dia, é que em 1439, o rei Henrique VI proibiu o beijo para evitar proliferação de bactérias. E não é para menos, em um beijo são transmitidas cerca de 250 mil delas, através boca e da saliva, sendo a maioria infecções por vírus, bactérias e fungos.

Confira algumas delas:

Mononucleose: A mais conhecida das doenças, que inclusive recebeu o nome de “doença do beijo”, é transmitida por um vírus, através da saliva. Ela apresenta sintomas como fadiga, febre, irritação na pele e glândulas inchadas. O tratamento é feito com analgésicos, antitérmicos, repouso e muito líquido. 

Herpes: Infecção direta através do beijo, causa pequenas lesões com líquidos, feridas ou bolhas na região dos lábios, que podem causar coceiras e ardor. Alguns medicamentos podem acelerar a cicatrização e diminuir sua recorrência.

Candidíase: Também conhecida como sapinho, é transmitida por um fungo. Provoca o aparecimento de lesões brancas na língua e bochecha. O uso de anti fúngico é usado no tratamento e o consumo de iogurte sem açúcar ajuda a restaurar a flora natural de bactérias da boca inibindo a proliferação.

Sífilis: É uma doença sexualmente transmissível, de origem bacteriana, que também pode ser transmitida pelo beijo através de um machucado na boca. Inicialmente é uma ferida incolor que pode evoluir para uma doença crônica que se dissemina por todo corpo. O tratamento é feito através de antibiótico, a penicilina injetável.

Gripe e resfriado: Causada pelo vírus do tipo Influenza, alguns dos sintomas são febre alta, dores no corpo, cabeça, garganta, tosse, espirro e congestão nasal. O tratamento consiste no uso de analgésicos e antitérmicos, além de repouso e hidratação. 

Catapora: Infecção viral e muito contagiosa. Os principais sintomas são o surgimento de pequenas bolhas na pele que se espalham pelo corpo e se tornam feridas, também ocasiona fadiga, febre e mal estar. A vacina para a catapora está disponível nos postos de saúde e o tratamento pode ser feito limpando as feridas e remédios para dor e febre. 

Caxumba: Transmitida por um vírus, a doença afeta as glândulas salivares e pode causar febre, dor de cabeça e no corpo, e inchaço na região da mandíbula. O tratamento é feito com medicamentos para a dor e por meio de vacinação. 

Para ocorrer de fato a transmissão dessas doenças, deve existir uma carga infectante em uma pessoa e uma baixa imunidade na outra. Não existe beijo 100% seguro, porém é possível evitar certas chateações tomando alguns cuidados. E atente-se: quem beija muitas bocas diferentes ainda está mais aberto a contraí-las! 

É sempre importante ressaltar que uma boa higiene bucal e visitas periódicas ao dentista podem evitar essas situações, uma vez que a porta de entradas para essas enfermidades são principalmente inflamações na boca. Uma boa alimentação também é significativa para fortalecer o sistema imunológico.

Apesar de muitos malefícios, está na hora de registrar que o beijo, do mesmo modo, traz muitos benefícios. Ele ajuda a liberar o hormônio ocitocina, responsável por combater sintomas de estresse, ansiedade e angústia. Ainda por cima libera a endorfina, que diminui a tristeza, melhora o bom humor e aumenta a autoestima.

Em tempos de pandemia a orientação é sem beijos, a não ser naquela pessoa que está em isolamento social junto com você. Agora se isso de fato não for possível, não deixe de demonstrar seu carinho mesmo que virtual para aquela pessoa querida, em tempos difíceis é essencial nos acolhermos. 

 

*Edição: Daniela Reis

 

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O Transtorno do Espectro Autista afeta 70 milhões de pessoas no mundo sendo 2 milhões apenas no Brasil

Por Italo Charles

Após uma demora no processo de andar e por volta dos 2 anos de idade, Miguel Gaspar dos Santos – hoje com nove anos – apresentava, também, um atraso na fala, sintoma pouco comum para crianças da mesma faixa etária.

Foi então que sua mãe, Maria Beatriz Gaspar, 49, percebeu que algo diferente estava acontecendo e resolveu procurar informações e auxílio médico para entender a situação.

Na época, a procura por profissionais a fim de entender o que havia era incessante e custosa. Miguel e sua mãe, Beatriz, foram a quatro médicos pediatras que alegavam que o atraso na fala era normal, entretanto, já cansada, Beatriz pediu ao último pediatra consultado um encaminhamento para neurologista.

“Nós fomos em quatro pediatras diferentes e todos falavam a mesma coisa, que o atraso na fala era comum e que eu esperasse fazer 4 anos. No último pediatra, já estava cansada, falei que tinha plano de saúde e pedi encaminhamento para um neurologista com a esperança de conseguir um diagnóstico mais preciso”, comenta Maria Beatriz.

Com o encaminhamento em mãos, novamente mãe e filho presenciaram certa dificuldade para encontrar um especialista para a idade de Miguel. Quando encontrado, a consulta demorou, visto que havia poucos especialistas e uma demanda de pacientes enormes.

Chegada a consulta, ao examinar Miguel e perceber alguns gestos, a neuropediatra  questionou Beatriz se seu filho sempre repetia o mesmo gesto e se havia outras características. Beatriz então começou a perceber que Miguel dispunha de vários comportamentos específicos. No final da consulta, a médica encaminhou Miguel para avaliação com psicólogo, fonoaudiólogo e psiquiatra a fim de colocar um laudo para o caso.

“Após a consulta comecei a observar alguns aspectos. Miguel só comia macarrão, podia ser de todo jeito, mas só macarrão. Percebi que ele sempre repetia o mesmo gesto, brincava somente com carrinhos vermelhos, ele tinha muitos brinquedos, mas só brincava com carrinhos vermelhos e, também, usava só um tipo de roupa”, destaca Beatriz.

Outra grande dificuldade foi encontrar os especialistas para idade de Miguel, porém, dado momento e já com  acompanhamento psicoterapêutico Beatriz se viu em uma situação inesperada. “Em uma das consultas, conversei com a psicóloga e disse que a neuropediatra havia solicitado um laudo para poder dar o diagnóstico, mas a psicoterapeuta me disse que já havia o diagnóstico de Autismo, nessa hora eu fui ao céu e voltei”.

Com a notícia e explicações, Beatriz, em casa, começou a se adaptar à situação e fez pesquisas na internet para obter mais informações sobre o Autismo. Ao longo dos anos, com devido tratamento e acompanhamento Miguel evoluiu e é identificado com a “Síndrome de Asperger”.

Transtorno do Espectro Austista

Segundo dados do DCD (Center of Deseases Control and Prevention) em português “Centro de Controle e Prevenção de Doenças”, o autismo afeta 70 milhões de pessoas em todo mundo. Só no Brasil a estimativa é de 2 milhões de pessoas.

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) faz parte do grupo de Transtornos do Neurodesenvolvimento. De acordo com a Psicóloga Jeniffer Viana Lobemwein, o TEA é caracterizado pela dificuldade  persistente na comunicação social e na interação social incluindo dificuldade na reciprocidade social, em comportamentos não verbais de comunicação usados para interação social em habilidades para desenvolver, manter e compreender relacionamentos.

Ainda não se sabe a causa exata do TEA, mas, um estudo publicado  pelo JAMA Psychiatry em 17 de julho de 2019 sugere que 97% a 99% dos casos de autismo têm causa genética, sendo 81% hereditário. O trabalho científico, com 2 milhões de indivíduos, de cinco países diferentes, sugere ainda que de 18% a 20% dos casos tem causa genética somática (não hereditária), e o restante, aproximadamente de 1% a 3%, devem ter causas ambientais, através da exposição de agentes intrauterino, como drogas, infecções e possíveis traumas durante a gestação.

O autismo, de acordo com pesquisas da área, pode se manifestar desde o primeiro ano de vida da criança com indicadores de falhas na comunicação e interação. Os primeiros sinais podem ser observados entre os 15 e 18 meses, embora seja uma fase precoce para a conclusão do diagnóstico. Os especialistas apontam como idade ideal para avaliação e diagnóstico da síndrome a faixa etária dos dois aos três primeiros anos de vida da criança.

Psicóloga Jeniffer Lobemwein

Jeniffer explica que segundo o DSM- 5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) o TEA possui  3  níveis de comprometimento, são:

  • Nível 1 (leve): Os pacientes necessitam  de apoio, possuem dificuldade para se comunicar, interagir ou não têm interesse em se relacionar, apresentam resistência a mudanças e problemas de organização e planejamento. 

 

  • Nível 2 (moderado): Existe a necessidade de apoio substancial, apresentam déficit notável nas habilidades de comunicação tanto verbal quanto não verbal, possuem pouca interação social com outras pessoas (praticamente sem diálogo), evitam mudança na rotina pois tem dificuldade em lidar com ela. O nível 3 é o meio termo entre o leve e o severo.

 

  • Nível 3 (severo) : Necessitam de apoio muito substancial, apresentam dificuldade severa na comunicação verbal e não verbal, demonstram muita limitação para interagir com outras pessoas, não suportam mudanças na rotina, apresentam comportamentos repetitivos e restritivos que interferem diretamente na vida (do paciente) e das pessoas em suas volta, são mais dependentes dos pais para realizar as atividades do dia a dia, como, por exemplo, se vestir ou comer.

Dentro da categoria Nível 1 está identificada a Síndrome de Asperger – Transtorno que se assemelha e enquadra ao Autismo. O termo foi suscitado em homenagem ao pediatra e psiquiatra Austríaco Hans Asperger que, quando criança, apresentava sinais de transtorno.

Segundo Jeniffer  as pessoas com Asperger apresentam-se mais funcionais e em grande parte dos casos não manifestam atrasos nos marcos do desenvolvimento.

“Embora costumem apresentar interesses restritos e comportamento mais excêntrico, não há deficiência intelectual e algumas apresentam QI superior ou altas habilidades. Também não há atraso significativo na aquisição da fala, porém, a Síndrome de  Asperger conta com particularidades: repertório verbal extenso e mais formal, alteração na prosódia, timbre e altura de voz. Costuma existir falhas na compreensão de figuras de linguagem, gírias, piadas, mímicas faciais e linguagem corporal, interpretações mais literais, além de dificuldades em iniciar e manter uma conversa. A fala geralmente é mais para demanda própria do que para compartilhar”, explica. 

O TEA apresenta sintomas ou sinais, na maioria dos casos ainda enquanto crianças. “Alguns se manifestam com maior ou menor intensidade ou podem não ser observados”, explica Jeniffer.

  • Pouco contato visual;
  • Atraso na fala;
  • Manias (ter um jeito próprio);
  • Não ter medo de situações perigosas;
  • Acessos de raiva;
  • Hiperatividade;
  • Gostar de brincar sempre com o mesmo brinquedo;
  • Dificuldade em expressar seus sentimentos com fala ou gestos.

Como no caso de Miguel, é importante que os pais e familiares percebam possíveis sinais que possam levar ao diagnóstico de Autismo e assim realizar o acompanhamento. 

Para compreender melhor o processo de diagnóstico, a psicóloga Jeniffer explica que o  diagnóstico do TEA é apenas clínico e que para certificar que uma pessoa é autista, é preciso observar o comportamento do paciente e analisar informações coletadas com pessoas que convivem com o mesmo, “Todo o processo é delicado e, por isso, é necessário ser realizado por profissionais capacitados”.

Jeniffer ressalta que de acordo com a faixa etária do paciente os profissionais a serem procurados são diferentes. Enquanto crianças neuropediatras e pediatras, no caso de adultos neurologistas e psiquiatras “Depois de uma avaliação dos mesmos eles encaminham para os profissionais que acharem necessário para realizar o fechamento do diagnóstico e acrescentar no acompanhamento da criança/adulto”, salienta.

Adquirir o diagnóstico precoce possibilita que o paciente seja condicionado aos tratamentos que tendem a propiciar condições melhores ao desenvolvimento a partir do momento em que os profissionais começam a trabalhar as principais habilidades, sobretudo aquelas que estão ligadas à comunicação e à sociabilidade.

As possibilidades surgidas durante esse processo são inúmeras, a começar pelas orientações que os médicos e os demais especialistas dão em cada consulta. A informação repassada aos pais é essencial para a condução da criança, seja no ambiente doméstico ou até mesmo escolar.

Desenvolvimento e impacto

O TEA em meninos é mais comum. A proporção é de quase 5 meninos afetados por cada menina. Os sintomas iniciais apresentados pelos meninos autistas incluem maneirismos, comportamentos repetitivos e interesses altamente restritos. Acredita-se que os sintomas menos reconhecíveis em meninas estão levando não só ao diagnóstico tardio, mas também a uma sub-identificação da condição.

Como no caso de Miguel, o atraso na fala pode ser muito comum, entretanto, com o tempo pode ocasionar sérias consequências quando não diagnosticado e tratado. 

“O atraso da fala pode trazer sérias consequências para o processo de aprendizado, assim como para as interações sociais. É a partir do quarto mês que o bebê começa a balbuciar e emitir alguns sons repetitivos, esse é um dos marcos principais para o desenvolvimento da fala. Por isso, se o bebê não está balbuciando, é preciso investigar “, comenta Jeniffer.

Não somente o atraso na fala, há também comportamentos repetitivos que podem ser importantes para a identificação do autismo. Denominado hiperfoco ou interesse restrito é uma condição intensa de concentração em um mesmo tema ou tarefa. 

Em pessoas com TEA o hiperfoco acaba fazendo parte da categoria de padrões comportamentais restritos e repetitivos. A estereotipia que consiste em bater os pés, balançar o corpo, girar objetos, emitir sons repetitivos, entre outros, são movimentos auto regulatórios feitos para buscar sensação de bem-estar ou ainda para aliviar o estresse.

Mitos relacionados ao Autismo

O Transtorno do Espectro do Autismo carrega em si muitos estigmas e mitos, muitos deles podem e são ofensivos aos autistas e seus familiares.

 

  • O autismo é causado pela falta de afeto dos pais;
  • O autismo é causado pela exposição a determinados materiais tóxicos, como o mercúrio;
  • Uma criança autista pode ser curada com uma intervenção psicoterapeuta
  • A única coisa que pode ajudar uma criança autista são as intervenções médicas
  • O autismo passa com a idade;
  • Nenhuma terapia é realmente útil: na verdade, não há nada a fazer;
  • O autismo é um distúrbio muito raro;
  • Uma criança autista é, na verdade, um gênio;
  • Se a criança fala, não pode ser autista;
  • Uma criança autista só precisa de amor;
  • Autismo é causado por vacinas;
  • Autistas não conseguem olhar nos olhos;

Desafios e Direitos

Assim como Beatriz, muitos pais não possuem informações do Transtorno do Espectro do Autismo. Além da dificuldade em encontrar profissionais capacitados, existe também a dificuldade de encontrar espaços sociais que incluam a criança.

Jeniffer Lobemwen possui 15 anos de experiência na psicologia, durante sua formação e carreira trabalhou com locais que atendiam pacientes autismo. Ao longo do tempo, foi pesquisando e aprendendo mais sobre o transtorno.

Em determinado momento, Jeniffer se viu em uma situação parecida com a de Beatriz. Para além de psicóloga, Jeniffer é mãe do Cauã Viana Lobemwein Brandão, 9 anos, portador da Síndrome de Asperger.

A dificuldade para Jeniffer, diferente de Beatriz, era menor por ter mais informações e ter experiências com autistas, mas os desafios e aprendizados diários foram se apresentando durante o tempo.

Além das dificuldades encontradas no percurso da vida, é importante ressaltar que existem direitos que auxiliam os pacientes autistas e seus familiares para manutenção da vida e tratamento. 

No Brasil há leis específicas para pessoas com deficiência (Leis 7.853/89, 8.742/93, 8.899/94, 10.048/2000, 10.098/2000, entre outras). Cada município ou estado também possui suas leis. 

No geral, os benefícios incluem atendimento na Assistência Social (CRAS e CREAS), Benefício de Prestação Continuada, que é um benefício socioassistencial regulamentado pela Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS (Lei 8.742/93), atendimento educacional especializado (mesmo em escola regular, é possível um acompanhamento de um profissional específico com conhecimentos em Transtornos do Neurodesenvolvimento), na Saúde, com atendimento terapêutico e dentário, entre outros, além de passe livre no transporte público (consulte as leis municipais ou estaduais da sua região).

Existem também vagas específicas para deficientes em estacionamentos que podem ser asseguradas a quem tem Autismo ou acompanha um autista, inclusive há a possível redução da jornada de trabalho sem redução de salário em alguns casos. 

Por lei, o CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) deve prestar atendimento às pessoas diagnosticadas com TEA. Porém, há poucos pelo Brasil. Cerca de 31 Unidades de Atendimento Infantil no país (dados de 2017).  Além disso, a inclusão da pessoa com TEA é assegurada por diversas leis, a principal delas, a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Lei Nº 12.764, ou Lei Berenice Piana), sancionada em 2012. Segundo esta, o indivíduo com TEA também é considerado portador de deficiência. Desse modo, a Lei Nº 7.853, que dispõe apoio à pessoas portadoras de deficiência e sua integração social, torna-se aplicável.

 

“Falar sobre Autismo é quebrar estigmas e estereótipos levando às pessoas informações que propiciam conforto e cuidado! No dia 02 de abril é celebrado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, a data foi instituída pela ONU em 2007”.

 

Edição: Bianca Morais e Daniela Reis

 

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Por Bianca Morais

Há mais de um ano, o Coronavírus chegou ao Brasil e mudou completamente a rotina de milhões de pessoas. O isolamento social foi uma das primeiras medidas tomadas a fim de evitar a transmissão do vírus. Escolas e faculdades fecharam, empresas de serviços não essenciais passaram a adotar o home office como medida de manter os funcionários em casa e não os expor aos riscos. 

As relações passaram a ser online, a solidão tomou conta de muitos que moram sozinhos e o estresse daqueles que dividem a casa com seus familiares. As condições do trabalho remoto, a falta de limites entre profissional, vida pessoal e atividades domésticas somadas a uma maior carga horária e pressões diárias despertaram nos brasileiros, além de todos esses sentimentos, um quadro de ansiedade e depressão.

A covid-19 não contamina apenas os pulmões, mas também a saúde mental. No ano passado, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou uma pesquisa que mostrou que 80% da população brasileira se tornou mais ansiosa durante a pandemia. A ansiedade é algo comum entre todas as pessoas, ela funciona como um aviso de perigo e faz com que o corpo do sujeito se prepare para enfrentá-lo, no entanto, ela passa a ser um problema quando atrapalha o dia-a-dia de alguém e cria um sofrimento daí a necessidade de procurar ajuda de especialistas.

O Brasil sempre ocupou um lugar de destaque em relação ao número de indivíduos com ansiedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) 9,3% dos brasileiros apresentam algum transtorno de ansiedade, e com a pandemia esses números só crescem. O momento de incertezas e a constante angústia afeta diretamente o psicológico aumentando as crises.

Um dos mais relevantes sintomas de uma crise de ansiedade é também um dos mais conhecidos da covid, a falta de ar, por isso, principalmente no começo, a população se assustou muito. Além disso, essa inquietação também é responsável por dores de cabeça, tensão muscular, palpitações, suor excessivo, tontura, ondas de frio e calor, vontade de urinar constante, entre outras. 

A verdade é que esses sintomas são parecidos com os de várias outras doenças, desta forma ela se torna um tormento diário, afinal as pessoas evitam ao máximo ir a consultas médicas e hospitais, por medo de pegar a covid, preferem ficar em casa e sentir essa angústia que poderia ser facilmente resolvida de outras formas. 

A ansiedade está diretamente ligada a problemas da vida do indivíduo e muitos desses foram criados pela pandemia, as incertezas sobre o futuro, o medo de contrair a doença e passar a algum familiar, a falta de contato físico, tudo isso provoca diversas reações, como tristeza, cansaço, insônia, irritabilidade, aumento de peso, sistema imunológico fraco, alteração do sistema gastrointestinal, enfim, a doença é desencadeadora de muitas situações ruins.

Um fator relevante que espalhou o afligimento pelo país durante a pandemia foi a atual situação socioeconômica. Muitos empresários foram à falência por não poderem abrir seus estabelecimentos, milhares de trabalhadores perderam seus empregos. A população em geral passa por dificuldades financeiras e esse é um importante ponto que se torna gatilho a favor desse tormento. A incerteza do cidadão se terá ou não dinheiro para arcar com as contas do mês cria nele não apenas a ansiedade como até a depressão.

Nesse mês de março, o Brasil bateu recorde em mortes por conta da covid-19 e está no pico da doença. Minas está na fase roxa, ninguém pode sair de casa, temos toque de recolher e a aflição só aumenta. O mais indicado nessa situação é manter a calma, procurar ajuda com psicólogos, psiquiatras, terapeutas, profissionais da saúde mental. Outras maneiras, também, podem ajudar a enganar essa agonia e uma delas é a alimentação. 

A nutrição e a saúde mental

Uma boa alimentação em si já ajuda e muito na melhora da qualidade de vida. Entretanto, pesquisas recentes mostram que determinados alimentos podem ajudar a combater os indícios da ansiedade. Nutrientes ricos em vitaminas e aminoácidos têm a capacidade de melhorar o humor, tranquilizar e trazer mais disposição.

Quem tem uma alimentação que inclui muitas comidas calóricas, consequentemente, tem uma deficiência de nutrientes considerados bons ao funcionamento do corpo e principalmente do cérebro, como vitaminas, minerais, aminoácidos e ácidos graxos essenciais. Para um bom funcionamento do cérebro do ser humano, é preciso a energia que os alimentos nos proporcionam, estes últimos, são muito significativos porque têm efeitos antioxidantes, antinflamatórios e neuroprotetores que ajudam a combater sintomas do estresse.

Em 2015, um trabalho publicado na BMC Medicine, apresentou uma pesquisa feita por alguns cientistas que observaram que uma ingestão menor de alimentos com poucos nutrientes e uma maior quantidade de comidas pouco saudáveis se associa a um menor volume do hipocampo esquerdo. 

A psiquiatria nutricional é um novo plano de estudo relacionado a transtornos mentais, anormalidades metabólicas e doenças crônicas. As pesquisas são atuais e, tudo é muito novo, existe uma base sólida de evidências que afirmam que a qualidade da dieta dos indivíduos está relacionada ao risco de transtorno mentais comuns, e ainda há muito o que descobrir. A área vem crescendo e em alguns anos  poderemos identificar descobertas muito importantes nesse campo da ciência.

Estudos iniciais mostram uma relação entre a ansiedade e o consumo excessivo de alimentos com cafeína, açúcar e bebidas alcoólicas, a má hidratação e o hábito de fumar também estão relacionados. Em contrapartida, comidas que estimulam a produção de neurotransmissores tais quais a serotonina e melatonina, substâncias que ajudam no bom humor e qualidade de sono, são sempre super bem vindos. 

Boa alimentação contra a ansiedade

Alimentos não são remédios, mas muitos deles podem ajudar a controlar o início dessa aflição que tanto tem tomado conta da rotina das pessoas. 

Denise Alves Perez é nutricionista e professora do Centro Universitário Una. A especialista ajudou a elaborar algumas dicas de alimentos que podem diminuir os níveis de ansiedade em um momento tão delicado. Confira abaixo.

Dica 1 – Coma alimentos fonte de triptofano. O triptofano é um aminoácido que participa da formação da serotonina, um neurotransmissor que está associado a sensação de bem estar, e podendo assim, reduzir sua ansiedade. Aqui vão alguns desses alimentos: Ovos, leite, carne, soja, cereais, brócolis, couve-flor, berinjela, tomate, kiwi, ameixa, banana, nozes, peixes, frutos do mar e cacau.

Dica 2- Alimentos ricos em gorduras boas, vitamina C e Vitamina E, têm demonstrado serem excelentes aliados para combater os males da ansiedade em excesso. Alguns estudos mostram que o estresse causado por essa angústia resulta em uma maior liberação de radicais livres que podem prejudicar o funcionamento do nosso corpo! Então abuse dos alimentos a seguir: peixes, linhaça, chia, castanhas, nozes, laranja, goiaba, limão, acerola, vegetais verdes escuros.

Dica 3- Alimentos ricos em vitamina do complexo B também são excelentes para auxiliar e combater a ansiedade! As vitaminas B6, B9 (folato) e B12 auxiliam na formação da serotonina, que nem dito acima, um neurotransmissor que está associado a sensação de bem estar. Podemos encontrar essas vitaminas nos seguintes alimentos: feijão, vegetais de folhas verdes (espinafre, aspargo, brócolis, couve), abóbora, batata inglesa, cenoura, carne vermelha, carne de porco, abacate, laranja, maçã, milho, ovo, queijo e leite.

Além da alimentação, a prática de atividades físicas também são muito importantes, afinal para uma boa qualidade de vida é necessário corpo e mente saudáveis. 

E lembre-se, essa é uma fase passageira, mesmo distantes um do outro, ninguém está sozinho, é momento de empatia e acolhimento. A qualquer aparecimento de indícios de depressão ou ansiedade procure ajuda de um profissional da saúde. Ocupe sua mente, alimente-se bem e hidrate-se.

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“O Transtorno Afetivo Bipolar não é uma simples mudança de humor”

Por Italo Charles

O termo “bipolar” se tornou muito comum nos últimos tempos. Quem nunca ouviu, ou até mesmo disse que alguém é bipolar e muda de humor a todo momento? Mas, para além disso, é importante entender que todo ser humano passa por variações de humor em alguns momentos.

De toda forma, o que não pode se tornar banal é o uso do termo bipolaridade, uma vez que se trata de uma doença séria. Hoje, 30 de março, é lembrado o Dia Mundial do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), a data marca o aniversário do pintor, pós-impressionista, Vincent Van Gogh, diagnosticado postumamente como provável portador do distúrbio.

O TAB é compreendido como um distúrbio de humor grave. Suas características mais notáveis são as oscilações de ciclos de depressão e euforia (mania e hipomania) entre momentos assintomáticos. As crises podem alterar a periodicidade e grau de intensidade (leve, médio ou alto).

As transições de humor possuem reações negativas em relação a conduta e desempenho dos pacientes. Para a Dra. Olivia Duarte de Oliveira, Médica da Família e Psiquiatra na Rede Consultar, “o humor pode ser caracterizado como o elemento que dá “cor” às vivências do indivíduo, aumentando ou diminuindo o peso das experiências reais, modificando assim o sentido do que foi vivido”. 

Na maioria dos casos o distúrbio se inicia precocemente, tanto em homens quanto mulheres por volta da adolescência e predomina um dos pólos da doença. De acordo com relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) existem 300 milhões de pessoas ao redor do mundo com Transtorno Afetivo Bipolar.

Segundo os manuais internacionais de classificação diagnóstica (CID-10 e DSM.IV), existem diversos tipos de TAB alternando em níveis de mudanças comportamentais, são eles:

TIPO 1

A pessoa portadora do distúrbio Tipo 1 geralmente manifesta de forma acentuada ciclos de mania, que duram em média 7 dias, e uma fase depressiva que pode se estender por um longo período. Em ambos períodos sintomáticos as mudanças comportamentais se tornam bem visíveis e podem afetar o comportamento familiar, social e desempenho profissional do portador.

TIPO 2

Nesta definição existe a oscilação de sintomas parecidos com o Tipo 1, entretanto ocorre de forma mais leve definido como “Hipomania”, dessa forma o dano comportamental é menor.

Transtorno Bipolar Não Especificado 

O TAB Não Especificado demonstra alguns sintomas, o que sugere o diagnóstico, mas não são definidos como suficientes nem em duração (tempo) e grau de intensidade para ser caracterizado como Tipo 1 e Tipo 2.

Transtorno Ciclotímico

Essa classificação apresenta os sintomas leves do TAB, manifestando oscilações crônicas da doença, que podem ocorrer no mesmo dia. Neste caso o indivíduo varia entre os sintomas de mania e hipomania (de forma leve), mas que em muitos casos podem ser considerados como personalidade forte ou irresponsabilidade.

Causa

Dra, Olívia Duarte de Oliveira – Psiquiatra

 

Ainda não existe a causa exata do transtorno bipolar, mas considera-se que um conjunto de fatores possam influenciar no desenvolvimento do distúrbio, tais como estrutura do cérebro e ambiente. De acordo com a Dra. Olivia Duarte de Oliveira: “A herança genética tem grande importância na gênese do transtorno”.

Em alguns casos já foram comprovados a predisposição na manifestação de sintomas de alteração de humor advindas de pessoas com histórico genético, essas manifestações se estabelecem como: ciclos periódicos de depressão, estresse prolongado, entre outros.

Diagnóstico

Para a Dra. Olívia Duarte o diagnóstico não é simples e pode demorar, uma vez que se baseia na história do sujeito, em geral cíclica, envolvendo melhoras e recaídas. 

“O diagnóstico é inteiramente clínico, exige-se ao menos um episódio de mania ou hipomania (semelhante, porém menos grave que a mania). Devem também ser excluídas doenças da tireoide, outras doenças que alteram hormônios e o uso de medicamentos ou drogas estimulantes. Nestes casos os exames bioquímicos podem ajudar”, explica.

Sintomas

Os sintomas variam conforme a fase em que o doente se encontra. 

Em depressão pode ter tristeza:

  • Falta de prazer nas coisas;
  • Cansaço fácil; 
  • Alterações do sono ou apetite; 
  • Sentimento de culpa; 
  • Dificuldade de tomar decisões e pensamentos de morte.

Já na fase de mania o paciente pode experimentar:

  • Elevação da auto-estima; 
  • Sentimento de grandiosidade; 
  • Irritabilidade, aumento da energia; 
  • Pouca necessidade de sono; 
  • Falar mais que o normal; 
  • Facilidade em se distrair;
  • Pensamento acelerado e envolvimento em atividades com potencial para riscos (jogos, direção imprudente, gastos excessivos , comportamento sexual de risco,  investimentos insensatos, etc).

Em casos mais graves pode haver delírios e alucinações. “Frequentemente há a incapacidade de perceber a própria doença, achando que estão na melhor fase de suas vidas. Além disso, os sintomas são tão graves que os impedem de exercer suas atividades no trabalho, escola e vida familiar”, conta a Dra Olívia Duarte. 

Tratamento

O Transtorno Afetivo Bipolar não tem cura, mas pode ser controlado. O tratamento é realizado através de uso de medicamentos, acompanhamento psíquico e psicoterapia a fim de minimizar as manifestações sintomáticas. 

De acordo com a Dra. Olivia, o acompanhamento e conhecimento da família acerca da doença é imprescindível para o progresso durante o tratamento. “Como o paciente não tem noção que está doente é a família que leva ao médico, isso faz com que o paciente tome a medicação ao longo do tempo e forneça ao médico  informações essenciais para diagnóstico e acompanhamento do caso”.

Nos casos em que o portador ainda não foi diagnosticado, muitas vezes por desconhecimento dos familiares, os prejuízos podem ser grandes. “A vida do paciente com TAB não controlado pode ser devastada. Através de acidentes, perda de emprego e relacionamentos, dilapidação de patrimônio, internações hospitalares e suicídio, dentre outras”, finaliza a Dra. Olívia Duarte.

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

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Por Daniela Reis

Muito se fala nos cuidados durante a pandemia do novo coronavírus. Mas, o que muitos esquecem é que a saúde bucal é de extrema importância nesse período, por isso, o Jornal Contramão entrevistou a ortodontista e especialista em harmonização facial, Cristiane Oliveira, que vai explicar e dar dicas de como se cuidar.

Sabemos que a boca é uma das principais vias de contaminação do novo coronavírus, como fazer a higienização bucal nesse momento?

Manter a higiene bucal também é uma importante forma de prevenção nessa pandemia.Temos que ter cuidados redobrados com a higiene das mãos, usando protocolos corretos antes de higienizar a boca, escovar os dentes no mínimo 3 vezes ao dia, fazer uso do fio dental corretamente.

O uso de enxaguatório bucal é indicado?

Então, ainda não há evidências o suficiente para comprovar a eficácia do enxaguatório no caso da covid. Mas, estão sendo feitos alguns estudos em animais e seres humanos como voluntários que têm apontado um possível efeito desses produtos na redução temporária da carga de vírus presente na saliva.

Devemos ter algum cuidado específico com as escovas de dentes?

Sim! Pode se higienizar as escovas de dentes com peróxido de hidrogênio a 0,5%. Faz-se uma mistura de 150 ml de água destilada com 30 ml de água oxigenada e deixá-las por 10 minutos.

Pode -se também borrifar álcool 70% sobre toda superfície por um minuto, pois o vírus tem baixa resistência a essas substâncias desinfetantes e após, lavar em água corrente.

Não deixar escovas próximas umas das outras, guardando-as na posição vertical e com cerdas para cima .

As pessoas que foram contaminadas por vírus devem trocar a escova após passar a infecção.

E no caso de quem utiliza próteses e dentaduras?

A higienização das próteses dentais, pode ser realizadas com escovações diárias, após as alimentações, com escova individual, sabão neutro e lavagem em água corrente. Podemos  associar com o uso de produtos de higiene com imersão em substâncias químicas como hipoclorito, peróxidos alcalinos, pastilhas limpadoras de dentaduras antibacterianas entre outros.

Caso tem alguém com covid quais procedimentos relacionados a saúde bucal.

Higienizar bem a cavidade bucal , para evitar o máximo placas bacterianas.

E necessário ir ao dentista durante a pandemia? Quais os cuidados profissionais e pacientes devem tomar?

Claro. Postergar o atendimento odontológico apresenta riscos consideráveis à saúde. Condições não graves como uma restauração fraturada, podem piorar se ignoradas, e limpezas dentais simples são essenciais. Há inclusive, por exemplo, uma relação direta entre a saúde das gengivas e o diabetes, assim como uma conexão com doenças cardíacas, e a própria assepsia pode estabiliza a condição gengival.

Os cuidados do profissional começam bem antes do paciente chegar ao consultório

Fazemos um questionário de pré-triagem sobre o estado de saúde do paciente, que inclui perguntas sobre  febre, tosse, possível contato com pacientes infectados, dentre outros.

Nós dentistas estamos seguindo rigorosamente os protocolos exigidos pela OMS. Estamos fazendo nossa parte para nos proteger e proteger nossos pacientes e colaboradores.

Sabemos que o cuidado com os dentes vai além de estética. Quais outras doenças que a falta da higiene bucal pode causar? A falta da higiene bucal pode levar a problemas do coração?

A principal doença por falta de higienização é a endocardite bacteriana que acontece quando as bactérias que colonizam a boca caem na corrente sanguínea e chegam ao coração

Mas além dessa doença têm varias, dentre elas: periodontite, caries, gengivites, diabetes, parto prematuros, etc.

 

*Revisão e edição: Bianca Morais e Italo Charles

 

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Por Bianca Moraes

Nas últimas semanas trouxemos uma série de reportagens que abordavam os obstáculos que estudantes de todo o país têm enfrentado devido a pausa nas aulas presenciais e, sobretudo, o novo método de ensino remoto.

Além da dificuldade em de fato conseguir absorver tanto conteúdo através de uma tela, seja de celular, tablet ou computador, existe também a falta de troca entre os alunos e professores. O isolamento social passou a ser um grande causador de problemas ligados à saúde mental e as crises de ansiedade, pânico e  depressão são alguns dos exemplos do que essa pandemia acarreta.

Toda essa frustração por conta da quarentena, que já completa um ano, faz com que os alunos se sintam pressionados e tensos pela rotina monótona e o resultado disso é o estresse e os demais prejuízos que ele causa. A procura por profissionais especializados no bem-estar psicológico aumentou muito desde o começo do isolamento, aquela pessoa que jamais pensou fazer terapia ou aquela que sempre teve vontade mas não via a hora certa de começar encontraram no atendimento psicológico um conforto em tempos de medos e incertezas.

Sejam crianças, jovens ou adultos, a drástica mudança na rotina da educação, o alto nível de cobrança e até mesmo as dificuldades técnicas trazem um completo abalo no aluno que tem seu ensino comprometido.

Patrícia Barbosa, 44 anos, é Psicóloga e Neuropsicóloga. Atua há 18 anos na área e trabalha diariamente com pacientes de diferentes idades. Em entrevista ao Jornal Contramão, a especialista abordou algumas das principais temáticas relacionadas a essa didática do ensino online e a melhor maneira que os alunos, junto a pais e professores podem passar por essa fase. 

Qual diferença você percebe no comportamento das crianças que hoje vivem a rotina do ensino remoto?

A Escola é, sem sombra de dúvidas, um importante espaço de socialização e interação, e de uma forma muito brusca as crianças tiveram que se adaptar a um novo modelo de ensino, onde elas não estavam preparadas e nem tampouco os professores e os pais para essa nova modalidade.

No meu consultório chegam crianças e adolescentes inseguros, ansiosos e sempre fica nítido em seus discursos o tédio como sentimento mais recorrente. Os pais por sua vez, chegam “desesperados” por apoio e orientação sobre como agir neste momento tão delicado.

Sempre existiu discussões sobre crianças muito novas terem acesso a computador e celular. Qual sua opinião, como psicóloga, dessa nova forma de ensino que as colocam desde muito cedo na frente de uma tela para ter aula?

Ao meu ver, o uso excessivo de telas é muito prejudicial ao desenvolvimento como um todo das crianças e deixam marcas significativas, principalmente ao que se refere à parte psíquica-emocional. Como não temos outra saída neste momento em relação ao ensino, a não ser o remoto, oriento os pais a estarem interagindo com os filhos nos horários livres e não os deixando à mercê do uso exagerado de computadores, tablets e celulares.

Antes da pandemia, o celular e o computador eram instrumentos de lazer para as crianças (para jogos, vídeos, etc.). Hoje, esses aparelhos eletrônicos têm a função de “educar”. Como fazer com que as crianças e adolescentes consigam diferenciar a hora de brincar e a hora de estudar?

O problema maior que observo é exatamente esse, as crianças associavam computadores e celulares ao lazer, e o próprio lar como espaço de relaxamento e descanso. Trazer a sala de aula para dentro de casa é um desafio não tão fácil assim aos pais. Isto implica em diálogo, onde novas regras deverão ser estabelecidas e também a aquisição de uma nova rotina com horários e atividades que deverão ser cumpridas a fim de que se consiga aproveitar ao máximo essa nova modalidade de ensino. Não há dúvidas que a disciplina será uma ferramenta essencial ao ensino, o conduzindo de maneira eficiente.

Existem dois tipos de crianças, aquelas as quais conseguem aprender com mais facilidade e as que apresentam um déficit e precisam de uma ajuda a mais na escola. Como você enxerga a recente situação dessas crianças que não conseguem mais ter o apoio psicopedagogo tão presente como antes?

As crianças que apresentam algum déficit ou transtorno relacionado à aprendizagem, inevitavelmente, terão uma maior dificuldade com o ensino remoto. Estas deverão ser acompanhadas mais de perto pelos pais, verificando sempre se os filhos estão conseguindo acompanhar todo o processo escolar. Para essas crianças ou adolescentes, os pais devem apropriar um espaço bem organizado, sem distrações, para que este momento não seja tão difícil. Quem tem condições eu sugiro a contratação de um Pedagogo particular que ajudará muito a criança a se direcionar sem causar muita tensão e ansiedade a mesma.

Como os pais podem orientar e acompanhar o ensino remoto dos filhos?

Como disse anteriormente, a prática do diálogo e compartilhamento de responsabilidades devem ser bem definidos. Uma nova dinâmica deverá ser estabelecida e os pais deverão sempre checar se as atividades e os trabalhos estão sendo entregues. Este momento que estamos vivendo irá exigir mais dos pais nesse sentido. Mas se todos da família estiverem dispostos a colaborar este processo poderá ser enfrentado de uma maneira mais fácil e tranquila para todos.

Para os adolescentes que enfrentam o ensino médio online, você acha que eles demonstram uma dificuldade maior para escolher qual curso irão fazer na faculdade? Se sim, por que?

Esta decisão fora de um confinamento já é delicada para um adolescente. Ele se sente pressionado a escolher uma profissão tão precocemente que irá definir toda a sua vida. Nos processos de Orientação Profissional que faço, percebo neles muita indecisão e angústia quanto a essa escolha. Na pandemia todos os sentimentos se intensificam. Eles relatam que não estão aprendendo comparado ao ensino presencial. Além disso, estamos vivendo um momento econômico com muita instabilidade não só no Brasil, mas no mundo. Juntando todas essas variáveis e o momento da fase que é a adolescência, eles demonstram sim uma maior dificuldade.

Quais métodos podem ajudar no exercício de concentração e desempenho durante as aulas online?

A criança deverá estudar em um ambiente bem organizado para o estudo sem muitas distrações. Um local sem muitos barulhos e o trânsito grande de pessoas que podem atrapalhar o foco, seria o mais adequado. Uma rotina de obrigações e horários que ela deverá cumprir ajuda e direciona melhor a criança, onde ela se sentirá mais segura. Conversar com ela sobre o momento da aula remota ser tão sério como era presencialmente e mostrar a criança o seu apoio, que você estará ali para acompanhá-la e ajudá-la neste processo, fará com que ela se sinta mais confiante.

Um momento do dia ou alguns dias da semana onde a família possa se reunir e interagir, é bastante propício nesse momento. Uma boa dica são os jogos pedagógicos (os de tabuleiro são uma boa opção), porque além de divertir e aproximar todos os membros da família, trabalha o raciocínio, atenção e o foco.

A atividade física é essencial neste momento, pois promove a produção de hormônios que geram o bem estar, facilitando a concentração, além de práticas de relaxamento e meditação.

Já é complicado ter atenção dos alunos presencialmente, online é ainda mais. De qual forma você acha que os professores devem se preparar para dar esse tipo de aula?

Utilizando-se de instrumentos que irão chamar a atenção dos alunos, para que não fique algo tão maçante e monótono. É claro que nesta modalidade de ensino remoto o professor deverá utilizar muito mais da sua criatividade. Vale a pena utilizar muito mais de todos os recursos disponíveis, como efeitos audiovisuais, vídeos mais curtos e interessantes para incentivar a participação dos alunos. Apostar também em adereços bem coloridos, músicas e objetos para representar e associar aos conteúdos de cada disciplina.

Crianças menores costumam ter o primeiro contato com outras no primário. De qual forma você avalia essa falta de troca entre elas? Acredita que isso possa prejudicar alguma relação no futuro?

O contato com outras crianças é indiscutivelmente muito importante no processo de socialização e aprendizagem. Saímos do espaço sólido a que estamos acostumados, para experimentações dentro do espaço virtual. A grande vantagem das crianças é que elas são muito capazes, bem mais que os adultos, a se adaptarem a novas situações. Nós adultos devemos fazer o possível para que esse momento seja a elas e a nós vivido de uma forma mais tranquila. Temos que usar a criatividade através de brincadeiras que podem ser feitas em casa mesmo, promover a interação entre as crianças com os amiguinhos e parentes próximos virtualmente. Esta ação já minimiza os danos causados pelo distanciamento social, e podemos sair disso muito mais unidos e fortes com toda certeza.

Ainda sobre relações interpessoais, você acha que esse isolamento social pode atrapalhar a saúde mental dessas crianças, jovens e adultos?

Se soubermos ajudá-los neste momento, os impactos futuros ao meu ver não serão tão intensos. A criança precisa ser bem orientada e com limites bem claros e definidos, até mesmo para se desenvolver bem psiquicamente. Estamos com uma oportunidade de reinventarmos nossas relações, de fortalecer nossos vínculos. Talvez tenhamos uma geração mais disposta a valorizar os contatos reais e os espaços de integração social. Acredito sim, em uma geração com mais consciência social, empatia e respeito ao próximo.

Como os pais devem agir com as crianças que estão sofrendo com ansiedade neste momento?

Não cobrar demais da criança e levar em conta que esta modalidade de ensino exige muito mais dela. Com muito apoio e transmitindo segurança é fundamental. Conversar com elas que este momento é temporário e que vai passar. Como disse anteriormente, atividade física, relaxamento e meditação podem ser ótimos aliados também. Se os pais perceberem que a criança está sofrendo muito com a situação, o ideal é procurar a ajuda de um profissional capacitado que possa ajudá-la.

O que fazer para amenizar a situação de angústia e sentimento de incapacidade que os estudantes estão sentindo nesse atual momento?

A prática do diálogo e compartilhamento de responsabilidades entre as instituições de ensino e a família também é uma ferramenta muito eficaz para enfrentarmos juntos esse momento o qual estamos vivendo. Escola e família devem caminhar juntas, uma complementando a outra, potencializando assim a aprendizagem. O vínculo e o respeito ajudará muito nesse processo de aprendizagem. Devemos juntos centrar os esforços em estratégias de reflexão que não tem o foco só nos resultados. Dessa maneira estaremos amenizando muito o sentimento de angústia e incapacidade dos estudantes.

 

*Revisão: Italo Charles

**Edição: Daniela Reis