TBT

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Por Bianca Morais 

Há dois anos, no dia 16 de junho de 2019, um domingo, o marido da deputada federal Flordelis (PSD), o pastor Anderson do Carmo de Souza, foi morto a tiros em sua residência, em Pendotiba, Niterói. No primeiro momento, a polícia iniciou a investigação como um latrocínio, roubo seguido de morte.

Naquela madrugada, logo após ser alvejado, Anderson foi levado ao  hospital por familiares, mas não resistiu aos ferimentos. Até então,  o assessor da deputada dava nota à imprensa afirmando que ela estava muito abalada. 

A nota dizia:

“A família Flordelis, com dor, comunica o falecimento repentino do Pastor Anderson do Carmo, um servo de Jesus Cristo. A deputada Flordelis, muito abalada, ainda não tem como se pronunciar. Neste momento, apertamos as mãos de Deus e imploramos o conforto Dele. O Pastor Anderson estava cumprindo um ministério maravilhoso de redenção de almas, em uma luta diária para evitar que o ódio continue a ceifar vidas por falta de Deus no coração dos seres humanos. Hoje é um domingo muito triste, muito triste em nossas vidas”.

Flordelis estava com o marido no momento do crime,  os dois voltavam de uma confraternização, ao chegar e já dentro da casa, Anderson voltou à garagem para buscar algo, momento em que foi baleado. De acordo com a esposa, ela ouviu os tiros. Testemunhas relataram à PM que a deputada teve a sensação de estar sendo seguida por duas motos durante a volta do evento. 

Reviravolta

Após a liberação do  laudo do IML, que informou que o pastor havia levado 30 tiros, os investigadores passaram a desacreditar na versão do crime de latrocínio e que quem atirou em Anderson, fez com o propósito de matá-lo. As câmeras de segurança da casa da família não mostraram ninguém diferente entrando ou saindo do local, o que levantou a questão de que alguém de dentro efetuou os disparos. 

No dia do enterro, o filho de Flordelis foi preso e segundo a polícia ele tinha um mandado de prisão em aberto por violência doméstica. 

Quatro dias após a morte de Anderson, o filho de Flordelis, Flávio dos Santos, deu seu depoimento à Polícia Civil e admitiu ter sido ele quem disparou seis tiros contra o padrasto. Ele ainda afirmou que o irmão, Lucas do Santos, o teria ajudado a conseguir as armas. Os dois foram presos.

A versão dos irmãos fugiu um pouco do laudo do IML e cabia à investigação descobrir o que motivou aquela atrocidade.

Os dois filhos da deputada foram denunciados pelo Ministério Público do Rio, pelo assassinato de Anderson, eles foram acusados de homicídio qualificado com pena prevista de 12 a 30 anos.

De viúva a vilã

Depois de prender os irmãos iniciou-se uma segunda fase das investigações, nela todo o contexto familiar seria investigado. Isso porque Flordelis e o falecido marido, tinham uma família grande, com 55 filhos adotados, até então todos seriam suspeitos.

A cada depoimento prestado, a deputada caia em contradição. Em um primeiro ela dizia que dormia e acordou com tiros, como moravam perto de uma comunidade e sempre escutava os barulhos voltou a dormir, minutos depois foi acordada por gritos dentro de sua casa e foi quando encontrou o esposo morto. 

Ainda neste depoimento, ela se contradiz, ao dizer que tinha saído com o Anderson e ao retornar para casa, entrou primeiro e depois ouviu os tiros vindo da garagem.

Novas revelações feitas por um dos filhos, fizeram a polícia desconfiar cada vez mais da participação da esposa na morte do marido. Segundo ele, a mãe e três irmãs colocavam veneno na comida de Anderson, e por isso, o homem sofria de muitos problemas de saúde. O mesmo garoto também afirmou que o irmão recebeu 10 mil reais para matar o pastor.

Nesse depoimento, um filho, que não foi identificado, afirmou que na noite do crime, viu o irmão Flávio, ao lado do corpo ensanguentado e recolhendo o telefone do pastor que foi entregue à mãe. Celular inclusive de grande importância para a investigação e que nunca foi encontrado. 

Cerca de um mês depois do crime, o inquérito concluiu que o pastor foi morto por questões financeiras e poder na família, e que a deputada federal Flordelis, foi a mandante do crime, porém não pode ser presa devido sua imunidade parlamentar. A mulher também foi responsável por fraudar uma carta em que um de seus filhos confessou ter matado Anderson a mando de um dos irmãos.

A operação contra a família de Flordelis, ficou conhecida como “Lucas 12” e na época do crime chegou a prender diversos membros da família por participação, entre eles: Marzy Teixeira da Silva (filha adotiva) e Simone dos Santos Rodrigues (filha biológica), como participantes no envenenamento; André Luiz de Oliveira (filho adotivo) ex-marido de Simone, foi flagrado em conversas com Flordelis combinando o envenenamento; Carlos Ubiraci Francisco Silva (filho adotivo) por participação no planejamento da morte;

Adriano dos Santos (filho biológico) auxiliou no episódio da carta falsa; Andreia Santos Maia (mulher do ex-policial Marcos) auxiliou no episódio da carta falsa; Rayane dos Santos Oliveira (neta) buscou por assassinos para as tentativas anteriores; Marcos Siqueira (ex-policial) auxiliou no episódio da carta falsa; além de Flávio autor dos tiros, Lucas por participação e a mãe Flordelis dos Santos como mentora do crime.

No dia 8 deste mês, o Conselho de Ética da Câmara, decidiu por 16 votos a 1 cassar o mandato da deputada Flordelis, mas é o plenário da Casa que dará o resultado final, para que ela perca o mandato são necessários 257 votos.

Flordelis hoje anda com tornozeleira eletrônica e responde por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de meio cruel e de recurso que impossibilitou a defesa da vítima), tentativa de homicídio, uso de documento falso e associação criminosa armada. 

 

Edição: Daniela Reis

 

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Por Keven Souza

Há uma grande questão no Brasil que é o impacto da violência na vida de pessoas que utilizam o transporte público. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), até setembro de 2019, uma pessoa foi assaltada dentro do ônibus a cada 33 minutos na capital carioca. 

E o nosso TBT de hoje é de um caso desse tipo de violência que aconteceu há vinte anos e foi manchete em todo Brasil e também no cenário internacional. O famoso e trágico sequestro do ônibus 174, na cidade do Rio de Janeiro. 

Na tarde do dia 12 de junho de 2000, o jovem Sandro Barbosa do Nascimento protagonizou o sequestro de dez reféns na linha 174, rota para Gávea-Central. O indivíduo, que usava roupas simples, embarcou no bairro Jardim Botânico com a finalidade de efetuar um assalto

Às 14h20min, com ação motivada por sinal de um dos passageiros, uma patrulha da Polícia Militar interceptou o veículo e a partir daquela operação o pânico já havia se instalado. Sem ter para onde fugir, Sandro fez passageiras de reféns, com o intuito de chamar a atenção da mídia e negociar a preservação da sua vida junto aos policiais. 

O sequestrador que naquela altura  estava sob vários holofotes da mídia e com transmissões ao vivo pela televisão, utilizou a estudante Janaína Lopes Neves, 23 anos, como porta-voz e escudo dentro do coletivo.  Ali apontou a arma na cabeça da vítima e a fez escrever nas janelas, com batom, frases como: “Ele vai matar geral às seis horas” e “ele tem pacto com o diabo”. 

Após horas de tensão dentro do veículo, aproximadamente às seis da tarde, o assaltante decidiu sair do ônibus usando a professora Geísa Firmo Gonçalves como escudo. Ao descer, um policial do Grupamento de intervenção tática, obteve uma ação precipitada, que almejou pará-lo com uma submetralhadora, acabou errando o tiro e acertou a refém de raspão no queixo. Tendo em vista a confusão, a moça de 20 anos levou outros 3 disparos nas costas promovidos por Sandro, e acabou falecendo.

Resultado do sequestro

A situação ao todo durou cerca de cinco horas consecutivas, e Sandro por sua vez foi morto por asfixia mecânica, quando cinco policiais militares tentaram imobilizá-lo no camburão que seguia rumo ao Hospital Souza Aguiar. Após alegações de que sua morte foi ocasional por parte da familia, os policiais responsáveis pelo óbito de Sandro foram levados a julgamento por assassinato e foram declarados inocentes. 

O caso do ônibus 174, desencadeou uma série de ações, iniciativas, eventos e mobilizações por partes civis e da população carioca. A sociedade, na época, se mobilizou em algumas passeatas, uma delas realizada pela organização não-governamental (ONG) Viva Rio, que promoveu um calendário de manifestações a partir do slogan “Basta! Eu quero paz!”.

É notável o esforço da prefeitura do Rio de Janeiro, na troca da linha, visto que no ano seguinte (2001), a linha 174 mudou de número para 158 e no ano de 2016, para Troncal 5. O objetivo talvez seja fazer com que a linha inicial do coletivo não desencadeasse, na sociedade, lembranças daquele episódio violento que foi o sequestro do ônibus 174.

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Créditos: Luís Alfredo - Revista O Cruzeiro

Por Dani Reis

Você já ouviu falar sobre o holocausto brasileiro? Ele aconteceu aqui em Minas Gerais, precisamente na cidade de Barbacena, entre os anos de 1930 e 1980. O mesmo intitulou um livro, lançado em 2013 e que já vendeu mais de 250 mil exemplares. Esses episódios que aconteceram em terras mineiras, precisamente dentro do Hospital Colônia de Barbacena, também foram pautas para documentários e objetos de muitas pesquisas relacionadas ao tratamento de pessoas com transtornos mentais.

Calcula-se que cerca de 60 mil brasileiros morreram, ou foram mortos sob tortura, choques intensos e banhos gelados. O nome holocausto se deu, pois a instituição de saúde poderia ser comparada aos campos de concentração e extermínio. Os pacientes eram enviados para o hospital à força, mas suspeita-se que cerca de 70% não possuía sequer algum tipo de doença mental. O local abrigava crianças abandonadas pelos pais, portadores de deficiências físicas, mulheres adulteras e até criminosos.

A imagem que ilustra nosso TBT de hoje é do fotógrafo Luis Alfredo, da Revista O Cruzeiro. Ele foi o primeiro a divulgar as atrocidades que aconteciam dentro do hospital. Eram diferentes tipos de tortura, os pacientes passavam frio, fome, nem vestimentas eram fornecidas, os mesmos circulavam pelas dependências, praticamente nus.

O Hospital Colônia foi fechado no final dos anos 80. Dentre os que sobreviveram durante e depois, adicionando os que fugiram, soma-se um total de 200 pessoas.

Em memória daqueles que foram exterminados na Colônia Barbacena, no mesmo local, foi aberto o Museu da Loucura em 1996. As barbáries cometidas por detrás das paredes do local foram crimes institucionalizados, tendo o Estado como o responsável. Contudo, nunca houve uma reparação formal, nem mesmo com os que sobreviveram, apenas um fechar de olhos permanente, um desviar de atenção para a nossa história. O trem da loucura tinha lugar certo para parar, mas as cicatrizes dessa viagem mal assombrada vão além da pele, estão esculpidas na alma.

 

*Revisão: Bianca Morais

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Por Bianca Morais 

Há seis anos, o termo Fake News ainda não era muito usado e nem tinha a visibilidade que tem atualmente. As conhecidas “notícias falsas” foram responsáveis por manipular eleições, destruir reputações e até vidas. Acontece que as fake news sempre estiveram presentes em nossa sociedade, porém com o avanço da internet ela passou a alcançar um número muito maior de pessoas.

Em 2014, um caso teve grande repercussão no Brasil e ficou conhecido como um dos primeiros episódios da nossa história em que uma postagem falsa na internet acabou com uma vida. O linchamento de Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, aconteceu no dia 3 de maio daquele ano, a mulher foi confudida com uma raptora de crianças e, por isso, brutalmente assassinada por dezenas de pessoas que resolveram fazer justiça com as próprias mãos. 

Conheça o caso

Fabiane era casada e mãe de duas filhas, dona de casa e muito religiosa. Naquele sábado, dia 3 de maio, ela levantou pela manhã e foi até a igreja que frequentava no bairro Matozinhos, na periferia da cidade de Guarujá (SP), buscar a bíblia que tinha esquecido. A mulher também passou no trabalho do marido. Depois dali ela andou até o mercado, comprou bananas e seguiu seu caminho.

Não se sabe ao certo como tudo teve início, mas segundo relatos a mulher ofereceu uma banana para uma criança na rua, ao ver a cena a população ao redor a confundiu com a “bruxa do Guarujá” e avisou um rapaz da biqueira, que já chegou agredindo Fabiane. Em pouco tempo, o linchamento começou a tomar proporções gigantescas, já não era possível mais saber a quantidade de pessoas que assistiam enquanto a mãe de família era arrastada, chutada e espancada. Homens, mulheres e crianças assistiam ao massacre.

A Bruxa do Guarujá

Dias antes do linchamento, uma publicação em uma página no Facebook, com cerca de 56 mil curtidas, chamada Guarujá Alerta, dizia que uma mulher estava raptando crianças para realizar magia negra. Na postagem ainda havia um retrato falado e a foto de uma loira, seguidos da frase: “se é boato ou não devemos ficar alertas”. Nenhuma das mulheres mostradas se pareciam com Fabiane, mesmo assim ela foi confundida e atacada. 

A criminosa mencionada no Guarujá Alerta nem sequer existia, posteriormente a polícia descobriu que não havia nenhuma denúncia recente de sequestro de crianças em Guarujá, e quanto a foto do auto-retrato, se tratava de um crime ocorrido no Rio de Janeiro, dois anos antes.

Uma semana antes de sua morte, Fabiane, que tinha os cabelos compridos e pretos, teria cortado na altura dos ombros e tingido de ruivo, como não gostou do resultado, na noite anterior ao linchamento os descoloriu de modo a voltar a cor preta. Os cabelos descoloridos fizeram com que ele remetesse ao loiro, assim como o da foto da mulher que circulava no facebook.

A pena de morte à Fabiane

Durante quase três horas, Fabiane Maria de Jesus sofreu diversos tipos de agressões. O povo ao redor nada fez para ajudá-la e muitos ainda gravaram com seus celulares todas as atrocidades cometidas. Nenhum daqueles moradores se preocupou em checar a veracidade da notícia ou confirmar se aquela espancada na frente deles era realmente a das fotos. A única preocupação deles ali era condenar uma pessoa que eles acreditavam ser a culpada de um crime que nunca existiu.

Enquanto era espancada a socos, chutes, pauladas e até uma bicicleta atravessada sobre sua cabeça, a multidão em sua volta viu a bíblia que ela carregava em suas mãos e diziam ser um livro de magia negra e os santinhos dentro dela, fotos das crianças que ela sequestrou.

Uma viatura da polícia e uma equipe de resgate tentaram chegar ao local, porém foram impedidos pelos populares que exigiam a presença da imprensa para registrar a captura da criminosa. A TV Record foi até o local e fez a gravação.

Fabiane chegou a receber atendimento médico, mas morreu na manhã de segunda-feira. As lesões foram tão graves que os médicos disseram que caso ela sobrevivesse iria apresentar sequelas para o resto da vida.

Julgamento

As gravações feitas pelos celulares e divulgadas na internet ajudaram a identificar os culpados. Cinco homens foram condenados a penas de até 40 anos, entre eles: 

Lucas Rogério Fabrício, passou a bicicleta por cima dela;

Carlos Alex Oliveira de Jesus, bateu a cabeça dela contra o chão várias vezes;

Abel Vieira Batalha Junior, proferiu diversos golpes a cabeça da mulher;

Jair Batista dos Santos, jogou Fabiane da passarela;

 

Valmir Dias Barbosa, aplicou pancadas com um pedaço grosso de madeira na cabeça da vítima. Esse último pegou menos anos de prisão por ter confessado o crime.

Todos os acusados alegam que não tiveram a intenção de matar e agiram pela revolta ao saberem que a mulher  sequestrava crianças para praticar magia negra. 

O Brasil é um dos países onde mais acontecem linchamentos no mundo, o perfil dos linchadores é sempre o mesmo, pobres, habitantes de comunidades carentes e periféricas, onde o Estado não se faz presente. O boato que circulava entre os cidadãos daquela comunidade era que a sequestradora pegava crianças para arrancar-lhes o coração em rituais de magia negra. O medo tomou conta daqueles moradores, as mães temiam os filhos brincarem na rua, afinal, não tinha quem os proteger a não ser eles mesmos.

Com certeza hoje, sete anos após a morte de Fabiane, muitos indivíduos daquela multidão furiosa guardam remorsos e uma consciência pesada. Agiram de forma injusta, julgaram e mataram uma inocente. O ser humano erra e a justiça é falha, pena de morte deve ser muito bem aplicada, pois como no caso de Fabiane, o julgamento foi errado.

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Bianca Morais

Dia 25 de abril irá completar 53 anos do mais mais desastroso acidente nuclear do mundo. Em 1968, o reator 4 da Usina V.I Lenin, conhecida como Usina Nuclear de Chernobyl, explodiu e difundiu material radioativo na atmosfera. A tragédia matou muitas pessoas e contribuiu para apressar o fim da União Soviética.

Contexto histórico

Após a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética investiu intensamente em energia nuclear, em tempos de Guerra Fria, o governo sovietico acreditava que esse tipo de energia mostraria ao mundo uma União Soviética com ciência e tecnologia avançada. A Usina de Energia Vladimir Ilich Ulianov, popularmente chamada de Usina Nuclear de Chernobil, começou a ser construída em agosto de 1972 e comissionada no dia 26 de setembro de 1977.

A usina foi construída a 20 km a noroeste de Chernobyl, uma cidade foi criada para abrigar a Usina e seus funcionários. Nomeada Pripyat, a cidade foi fundada no dia 4 de fevereiro de 1970, e era habitada por aproximadamente 50 mil trabalhadores da usina e suas famílias, a infraestrutura do município era impecável, contava com escolas, hospital, parque, cinema, academia, entre outros. 

O acidente

No dia 25 de abril de 1968, um teste iria acontecer no quarto reator da central de Chernobyl. Os engenheiros responsáveis iriam testar se o reator funcionaria mesmo se a usina ficasse sem energia. Durante a avaliação, os operadores burlaram alguns protocolos de segurança sobrecarregando o reator, os técnicos tentaram desligá-lo completamente, porém invés disso acabam sobrecarregando-o, o que provocou uma série de explosões em seu interior e fez com que o núcleo ficasse exposto e lançasse material radioativo na atmosfera. 

Imediatamente bombeiros foram acionados para tentar apagar as chamas, porém como não trouxe resultado helicópteros passaram a despejar materiais, como areia, em uma tentativa de conter a contaminação. Duas pessoas morreram na explosão e diversos bombeiros e operários foram internados devido a exposição às partículas radioativas.

De início a União Soviética, negou o acidente nuclear, pois sua divulgação significava um grande risco político. Apenas no dia 28 de abril eles fizeram o anúncio oficial, nessa altura o vento já havia espalhado a radiação para o mundo. Foram identificados altos níveis de radiação em locais com Polonia, Austria, Suécia, Bielorrussia e até lugares mais distantes como Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. A irresponsabilidade do governo sovietico foi enorme e acarretou consequências desastrosas. 

Um dos cenários que mais chama a atenção nesse desastre é que apesar da explosão e do iminente perigo, ninguém nas imediações foi evacuado nas primeiras 36 horas após a tragédia. Quando foi evacuada em 1200 ônibus enviados pelo governo, a população foi informada de que seria algo temporário, por isso, não levaram seus pertences. 

A União Soviética chegou a evacuar quase 335 mil habitantes e definiu uma zona de exclusão com um raio aproximado de 30 km do reator, mas a essa altura já era tarde demais e os problemas estavam apenas no começo

Na época, cerca de 800 mil pessoas participaram de uma comissão criada pelo governo sovietico para ajudar a conter a dispersão do material radioativo. Eram soldados, cientistas, bombeiros, mineiros, operários, enviados às pressas para a região, muitos deles não sabiam do risco que corriam ao trabalharem naquele local, porém o salário oferecido a eles, e até o patriotismo, os incentivaram a ficar. 

A explosão colocou aproximadamente 100 toneladas de material radioativo no teto da usina e era necessário conter sua dispersão, a construção de um sarcófago foi elaborada, porém a única forma possível de realizá-la era retirando os resíduos do telhado. No começo, robôs foram usados, porém em determinada parte do processo, chegou-se à conclusão de que os melhores robôs seriam os humanos, os chamados “biorobos”. Esses indivíduos vestiam roupas especiais e ficavam entre 40 e 60 segundos no telhado e utilizavam pás para retirar os destroços. No total passaram em torno de 5 mil trabalhadores por esse serviço e 90% dos escombros foram retirados por elas.

Depois da retirada dos entulhos, a estrutura conhecida como “sarcófago de Chernobyl” foi colocada sobre o telhado. Em novembro de 2016 uma nova estrutura foi construída, custou mais de dois bilhões de euros e é capaz de suportar terremotos de baixa intensidade e promete funcionar até o final do século XXI.

Consequências do acidente

Foram 30% de 190 toneladas métricas de urânio emitidas na atmosfera. Uma das mais importantes e relevantes consequências do acidente de Chernobyl, sem dúvidas, foi o aumento da quantidade de câncer na população ucraniana e no país vizinho, a Bielorrússia. 

A demora na evacuação da população e a mão de obra utilizada para conter a radiação, levou milhares delas à exposição. Mais de 600 mil pessoas trabalharam nos meses seguintes à explosão para ajudar na descontaminação da área. O Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica, informou que mais de 6 mil crianças e adolescentes desenvolveram câncer na tireoide após a exposição à radiação.

Os indivíduos expostos à radiação foram favorecidos com uma compensação do governo, muitos ganharam uma pensão, alguns foram aposentados por invalidez e outros receberam tratamento médico especial. Até hoje não se sabe ao certo a quantidade de mortos por em razão da tragédia, uma vez que, a exposição a radiação levou muitos a morte nos anos seguintes.

Além de abalar diversas vidas humanas, a tragédia de Chernobyl causou uma destruição imperdoável nas florestas e na fauna silvestre. Logo após o acidente, uma área próxima de dez quilômetros quadrados recebeu o nome de “Floresta Vermelha”, pois muitas das árvores ficaram marrom-avermelhadas e morreram após receber radiação. O país mais afetado por Chernobyl foi a Bielorrussia, que teve 23% de seu território contaminado e perdeu aproximadamente 264 mil hectares de terras cultiváveis. 

Para além dos danos humanos e ambientais, a União Soviética também sofreu enormes prejuízos econômicos. Calcula-se que o desastre custou cerca de 235 bilhões de dólares em danos e ainda estimulou o movimento global contra o uso da energia nuclear.

Julgamento

A tragédia de Chernobyl poderia ter sido evitada, o que aconteceu naquela madrugada do dia 26 de abril de 1986 foi uma falha humana, um problema técnico. Seis pessoas foram julgadas pelo acidente e três condenadas a dez anos de prisão, contudo, cumpriram cinco anos e foram anistiados. 

Chernobyl hoje

Anos depois, algumas árvores voltaram a crescer na região e com a ausência de humanos cientistas percebem uma vida selvagem crescendo. Muitos animais silvestres como linces e alces, também lobos e javalis, tomaram conta daquele lugar. Ao redor da área da central nuclear existem muitas fontes de água, como lagos, rios e nascentes. 

A região de Chernobyl, no entanto, deve permanecer inabitada pelos próximos 20 mil anos até que se torne novamente segura para habitação humana, o local hoje é uma cidade fantasma e recebe turismo. 

A tragédia de Chernobyl aconteceu há 53 anos atrás, mas sua repercussão será eterna.

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Por Bianca Morais

No dia 7 de abril, foi comemorado o Dia do Jornalista. Esses profissionais incansáveis, que estão sempre correndo atrás de uma boa reportagem e nunca perdem um furo de notícia.

O Tbt de hoje do Jornal Contramão homenageia dois jornalistas que ficaram mundialmente conhecidos após revelarem um dos maiores escândalos políticos dos Estados Unidos: Bob Woodward e Carl Bernstein. Provavelmente, a uma primeira vista você não reconheça esses nomes, porém com certeza já ouviu falar do Caso Watergate, que foi investigado por esses repórteres do Jornal Washington Post, e posteriormente levou à renúncia de um dos presidentes mais detestados dos Estados Unidos, Richard Nixon. 

Entenda o caso

Watergate é o nome dado a um complexo de escritórios localizado na capital dos Estados Unidos. Na noite do dia 18 de junho de 1972, cinco homens foram detidos após serem flagrados quando instalavam escutas e fotografavam documentos na sede do partido Democrata. 

A história dessa invasão chamou a atenção de dois jornalistas, Bob Woodward e Carl Bernstein, de um dos jornais mais importantes da capital do país, o Washington Post. Durante meses os repórteres trabalharam junto a um informante conhecido como Garganta Profunda. Os encontros aconteciam em um estacionamento e apenas algum tempo depois que se descobriu a identidade desse delator, ele era William Mark Felt, diretor assistente do FBI.

Quanto mais pesquisava, mais havia indícios de uma ligação entre o caso e a Casa Branca. Um dos homens pegos na noite da invasão estava na folha de pagamento do comitê que trabalhava para Nixon e um outro havia recebido um depósito de 25 mil dólares.

O presidente da época era o republicano Richard Nixon, ele havia sido eleito no ano de 1968. Nixon era o terceiro presidente dos Estados Unidos a ter que lidar com a Guerra do Vietnã e concorria à reeleição contra o democrata George McGovern, vencendo de maneira esmagadora, ganhando em 49 dos 50 estados americanos.

Nixon era conhecido por gravar tudo que se passava em vários cômodos da casa branca, indo de conversas a chamadas telefônicas, com o único objetivo de criar arquivos pessoais sobre sua trajetória. Durante a investigação do Caso Watergate, essas gravações foram solicitadas ao presidente, que entregou com resistência aos federais, porém muitas delas foram cortadas, o que levantava bastantes suspeitas quanto à sua participação no escândalo. 

O advogado de Nixon alegava que ele tinha prerrogativas de cargo, que é resumidamente, o poder que o presidente, como autoridade maior, tem de cometer crimes e não ser julgado por eles. A popularidade de Richard caia, e em 24 de julho de 1974 foi julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos e obrigado, por votação unânime, a apresentar as gravações originais, que provaram que Richard sabia das operações ilegais contra o partido democrata e ainda tentou atrapalhar as investigações.

A essa altura, a população já pedia o impeachment de Richard Nixon, que posteriormente, no dia 9 de agosto pediu a renúncia de seu cargo, que foi substituído pelo seu vice Gerald Ford. 

O trabalho dos jornalistas do Washington Post foi fundamental para o desenrolar desse caso. Se esses dois repórteres não tivessem seguido as pistas e feito a investigação sobre o Watergate, talvez essa trama política de espionagem, sabotagem e suborno do governo de Nixon jamais teria sido descoberta. 

O jornalismo investigativo praticado pela dupla, de trabalhar com uma fonte, confiar na nela, checar as informações, mostra a importância e o poder que os jornalistas têm. Sem dúvidas Bob Woodward e Carl Bernstein criaram uma notoriedade na área do jornalismo investigativo e uma imprensa mais corajosa.