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Mercado Central completa 90 anos permeado de histórias e personagens. De cima para baixo, em sentido horário: Nem, da loja do Nem, Geraldo Andrade, José Campos da Silva do Ponto do Queijo, Waldir Pereira, da barraca Xexeu do Abacaxi. Foto: Jéssica Oliveira.

O Mercado Central de Belo Horizonte completou, recentemente, 90 anos de atividades; o espaço, que guarda histórias e atrai turistas, consagrou-se como o queridinho da cidade

Por Bianca Morais*

Inaugurado no dia 7 de setembro de 1929, o Mercado Central de Belo Horizonte completou, neste mês, 90 anos. Localizado no coração da capital mineira, o lugar é conhecido por sua variedade de produtos. Por lá, é possível encontrar de tudo, desde frutas, queijos, carnes, peixes, temperos e artesanatos.

Cartão postal da capital mineira, o mercado é conhecido mundialmente. Em março de 2016, foi classificado como o 3° melhor do mundo, permanecendo atrás apenas do Mercat de la Boqueria (em Barcelona, Espanha) e o Borough Market (em Londres, Inglaterra).

O Mercado Central tem, hoje, 700 lojas, e vende de tudo um pouco. De lá, de acordo com José Agostinho de Oliveira Quadros, o famoso Nem, diretor financeiro do estabelecimento, saem em média 6 mil caixas de cerveja e 380 toneladas de queijo por mês.

Esses números colocam o mercado como um dos maiores centros comerciais do país. No local, onde se encontra de tudo, até mesmo ingredientes para uma feijoada legítima ou bacalhoada, o que atrai é a qualidade dos produtos, quase sempre artesanais, e a diversidade. É o que comenta grande parte dos seus frequentadores.

Além dos alimentos, o mercado conta com bares e restaurantes, onde você pode comer e beber bem, e ainda saborear um dos pratos mais tradicionais da cozinha mineira, o fígado acebolado com jiló.

Você conhece a história por trás do famoso fígado com jiló? Nas décadas de 1950 e 1960, havia no Mercado Central, como conta Nem, um abatedouro. Era comum, na época, as pessoas irem ao local para abater animais como porcos, carneiros e garrotes. As pessoas chegavam muito cedo e não tinham o que comer, com isso elas pegavam aqueles miúdos e o jiló, um dos produtos mais baratos da época, refogavam com cebola, na chapa, e comiam. O prato se popularizou e se tornou um dos mais tradicionais gastronomia mineira.

“O mercado é a minha vida”

No mercado, quase todos os feirantes e quem trabalha nele está lá há muito tempo. Dos 700 estabelecimentos do Mercado Central, boa parte é passado de pai para filho. Há, também, funcionários que estão ali desde o princípio, começaram a trabalhar ainda jovens e permanecem até hoje.

O mercado se confunde com a vida e história de quem, dia após dias, retorna a ele, para tirar o seu sustento. Quando se indaga o que o Mercado significa para essas pessoas, a resposta é: “O mercado é a minha vida. É tudo para mim”, “Tudo que eu conquistei foi graças ao mercado”.

Dos personagens que deixaram sua marca no Mercado Central, um todo mundo conhece. É o Nem, o José Agostinho Oliveira Quadros, 69 anos, da Loja do Nem. Ele trabalha no mercado há mais de 50 anos. O Nem veio para Belo Horizonte, da zona rural da cidade mineira Carmo Cajuru, quando tinha entre 13 e 14 anos, com o intuito de ajudar os irmãos.

Quando chegou à capital, passou a vender, no bairro São Cristóvão, picolés que pegava no Conjunto IAPI. Certo dia, Nem resolveu vender o produto em outro lugar. Desceu, então, a avenida Antônio Carlos e a rua Curitiba, e chegou em um quarteirão fechado por madeirite.

“Pensei que fosse uma obra, vim vender o picolé e me colocaram para fora, falaram que era proibido vender dentro do lugar”, relembra. Foi então que descobriu que ali era o Mercado Central. A primeira pessoa com quem conversou lá lhe arrumou um emprego e ele então está lá até hoje.

“Quando eu entrei aqui era chão batido, não tinha piso, lojas de alvenaria não existiam, eram barracas de madeira, de lona, tabuleiro. Hoje é esta maravilha, piso bonito, lojas de alvenaria, estacionamento, elevador, carrinho de compra, todo coberto”, compara. Para Nem, o mercado é um dos espaços mais aconchegantes de Belo Horizonte.

O Nem tem vários capítulos de sua vida atrelados ao Mercado Central. “Primeiro, eu fui funcionário, e depois aluguei uma loja, fui inquilino, mais tarde comprei uma loja, passei a ser associado, fui por mais de 20 anos conselheiro, quatro anos como diretor financeiro, quatro anos como presidente, dois anos como diretor financeiro. Eu entrei na administração em 2009 como diretor financeiro, em 2013 eu virei presidente e, em 2017, voltei a ser diretor financeiro”, orgulha-se.

Segunda casa

Geraldo Andrade, 75 anos, trabalha no Mercado Central há 44 anos e, prestes a completar 45 anos dedicados ao espaço, comemora cada ano de trabalho e de atividade do centro comercial. Ele trabalha em uma loja que vende utensílios de madeira, vini e vidro. Seus produtos vêm de diversas partes do Brasil e do mundo. Sua loja tem 126 modelos diferentes de cestas.

Andrade é, também, locador. Com sete lojas dentro do mercado, três bares, ele ama investir no lugar que, segundo ele, é a sua segunda casa. Ele preza pela conversa, que, em sua opinião, é um dos diferenciais do Mercado Central, em comparação a outros lugares de vendas em Belo Horizonte.

“A melhor coisa é você bater-papo com o público. Todo dia que você vem ao mercado tem gente, e a loja que sempre tem cliente é a minha, porque eu trato todo mundo bem”, diz.

A sua vida gira em torno do mercado. Seus cinco filhos trabalham com ele. “Eu faço parte da história do Mercado Central”, defende Andrade.

As transformações passadas pelo mercado

José Campos da Silva, 70 anos, ainda se lembra da época em que estavam construindo a cobertura do mercado. “O pessoal estava fazendo a soda lá em cima, e, se pingava algo na camisa da alguém, eles davam outra. Tinha um cara que todo dia deixava pingar para ganhar outra camisa”.

José começou como carpinteiro no Mercado Central, no dia 1º de janeiro de 1973, e passou 21 anos pela administração e 20 anos trabalhando em lojas do lugar. Hoje trabalha como balconista em uma das lojas mais antigas do mercado, o Ponto do Queijo.

Espaço aconchegante 

Waldir Pereira trabalha há cerca de 50 anos no Mercado Central. Ele começou na loja do pai vendendo legumes e há 18 anos tem uma barraca de abacaxi, os famosos abacaxis, aquele cortado na hora e bem gelado.

“Existem várias mercados e supermercados em Belo Horizonte, mas como o Mercado Central não há. Existe um diferencial, na qualidade dos produtos e no atendimento. Além das amizades que criamos com os clientes, tudo aqui faz nos parecer que estamos em casa. Para mim, é isso que o mercado me faz sentir”, expõe.

História

Quando criado, em 1929, o Mercado pertencia a prefeitura de Belo Horizonte. Porém, em 1964, durante a ditadura militar, o então prefeito Jorge Carone alegou dificuldades em administrar o local e o colocou à venda. Os funcionários do mercado então formaram uma associação e concorreram com a Cooperativa Agrícola Cotias, que na época era uma das maiores empresas distribuidora de hortifruit do país, e queria arrebatar o mercado, justamente para transformá-lo em uma cooperativa.

Os 700 funcionários do mercado, naquele momento, se uniram e conquistaram o espaço, que deixou de ser municipal e se tornou privado. Hoje, o Mercado Central tem 520 associados; esses 520 elegem um conselho de 31 pessoas, esses 31 conselheiros elegem três diretores: diretor presidente, diretor secretário e diretor financeiro.

No começo, o mercado era tido como o centro abastecedor de Belo Horizonte. Por muito tempo, não existiu na cidade a variedade de supermercados que encontramos hoje em vários bairros. O mercado era dominado por cerca de 90% pelo comércio hortifruit-granjeiro, e, por isso, ele vendia para pequenas mercearias, quitandas, feiras, lanchonetes e restaurantes. No entanto, com a criação do Ceasa, em 1974, grande parte da sua freguesia migrou para o lugar, o que forçou uma diversificação de seus produtos.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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A capital mineira é reduto de bares e restaurantes e destino de uma culinária rica e original. Foto: Ítalo Charles.

A capital mineira é candidata a rede de cidades criativas da Unesco por meio da gastronomia; chefs de Belo Horizonte acreditam que o título irá internacionalizar ainda mais a cultura culinária da cidade

Por Moisés Martins*

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Belotur, formalizou junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a candidatura de Belo Horizonte ao título de Cidade Criativa da Gastronomia. 

A capital mineira destaca-se no campo da gastronomia há décadas. Com sua culinária local, a cidade se consolida com seus bares e restaurantes noturnos. Além de ter um dos maiores mercados do mundo: o Mercado Central, localizado na região central de Belo Horizonte.

A candidatura é reforçada pelo fato da cidade ser polo gastronômico. A capital mineira apresenta uma culinária apinhada de tradição e diversidade, além de transmutar o simples ato de comer em um momento único e peculiar, o modo em que os pratos são servidos e a boa recepção é algo característico de nós mineiros, fazendo com que o público se sinta em casa e avalie positivamente esses espaços. Belo Horizonte conta com chefs de cozinha reconhecidos nacional e internacionalmente, que passam por constante qualificação, renovação, inovação e inspiração.

 A candidatura ao título de Cidade Criativa da Gastronomia segue duas etapas. Na primeira, a capital mineira concorreu com 23 cidades brasileiras por uma das 15 vagas oferecidas pela Secretaria Especial de Cultura, integrante do Ministério da Cidadania. E ficou com o 5° lugar geral, tendo a melhor nota no segmento gastronomia. Na segunda etapa, a cidade entregou um dossiê no dia 30 de junho. A candidatura oficial do processo ocorreu no dia 3 de abril, com a publicação do edital por parte da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

“Acredito que esse título da Unesco seria apenas reconhecimento da força do turismo gastronômico em BH. A nossa cozinha vem sendo reconhecida ao longo dos anos como patrimônio imaterial e possui relevante papel social. Temos vários festivais gastronômicos na cidade, como o Comida di Buteco e o Fartura, que fortalecem a nossa cozinha, sem contar a relação entre a cozinha com os pequenos produtores e o fortalecimento de iniciativas e cooperativas”, afirma a jornalista gastronômica do jornal O Tempo, Lorena Martins.

A jornalista ainda destaca a qualidade dos produtos mineiros, como os queijos, para reforçar esse título de cidade da gastronomia. “Até os franceses, famosos no mundo inteiro por seus queijos, estão se rendendo cada vez mais aos produtos que vêm de Minas Gerais”, ressalta. A afirmação se confirma com o destaque que o estado obteve no Mondial du Fromage, Concurso Mundial de Queijos, realizado em Tours, na França. Outro destaque é a produção de café, azeites, cervejas artesanais e vinhos.

O jornalista da 98 FM, Daniel Neto, mais conhecido como o Nenel do blog Baixa Gastronomia, é grande entusiasta da cultura culinária da capital mineira. Ele percorre o centro e bairros belo-horizontinos em busca de pratos e quitutes, ao mesmo tempo, autênticos e acessíveis a todos os públicos. E é, exatamente, por promover e divulgar a culinária local que ele acredita que o título de cidade criativa trará ainda mais reconhecimento e visibilidade para Belo Horizonte. 

“Acredito que o título ajudará a mostrar ao mundo como Belo Horizonte é uma cidade rica gastronomicamente. Dos botecos mais simples aos restaurantes tocados por grandes chefs, temos opções que seduzem a todos os paladares. Em Belo Horizonte temos uma mistura da cozinha da roça com a contemporânea. Ou seja, conseguimos ser uma metrópole sem que perdêssemos o toque ‘caipira’. E isso é fantástico”, avalia Neto.

Caso conquiste o título, Belo Horizonte fará parte da rede internacional de cooperação que envolve outros setores criativos e incrementará a indústria criativa local. “A gastronomia ganhou, ao longo do tempo, muita visibilidade, que vai além dos bares e restaurantes. É um setor que traz muita mão de obra. O mercado é amplo, composto por variadas atividades. Hoje podemos falar até em reality show de culinária. Que traz um benefício para o marketing da gastronomia. Temos redes de escolas culinárias, que atendem a muitas pessoas com interesse em buscar conhecimento e capacitação para começar um empreendimento na área”, conta a chef pâtissier, Daniele Andrade.

No evento de abertura da semana da economia criativa no Centro Universitário Una, no campus João Pinheiro, a gerente de desenvolvimento turístico da Belotur, Ana Gabriela, apresentou a candidatura de Belo Horizonte à rede de cidades criativas da UNESCO, que concorre através da Gastronomia.

“Enxergamos diversas potencialidades no setor, a gastronomia tem a versatilidade de conversar com outros segmentos, de inovar, de agregar, e Belo Horizonte tem esse potencial. A gastronomia reflete a nossa cultura e tradição. Minas Gerais é o estado da gastronomia e a gente quer apresentar essa vitrine, para o país e para o mundo. Queremos mostrar  a nossa potencialidade e através deste trabalho gerar fomento nas indústrias, conectando setores. Vamos trabalhar isso de uma maneira sustentável. O título vai ser apenas uma coroação, o mais importante é o caminho que vamos trilhar ”, destaca Ana Gabriela.

A cultura e as cidades criativas

As cidades cada vez mais têm investido no resgate a sua história e cultura como forma de fortalecer o turismo e reforçar a sua identidade. As cidades são vocacionadas para determinadas atividades. A capital mineira, por reunir uma profusão de tradições, sobretudo, em se tratando da cultura culinária, propiciou o surgimento de uma cozinha original. 

“A Gastronomia é por excelência um segmento multidisciplinar que envolve todas as áreas desde a agricultura, manejo e processamento à logística e transporte, estoque, serviços de restaurantes com chefs, cozinheiros, garçons, maîtres e Sommeliers, escolas, arquitetura e decoração (Mobiliário e decoração), jardinagem, turismo, hotelaria, comunicação e marketing, moda e designer”, concluiu professora de gastronomia do Centro Universitário Una Rosilene Campolina, que integra a Frente da Gastronomia Mineira (FGM) e a Federazione Italiana Cuochi (FIC).

A professora destaca que o título de cidade criativa abre o leque de oportunidades para serviços e produtos que estabelecem diálogo com quase todas as áreas. “Comer é um ato social e assim sendo tudo que envolve o alimento tem a ver com o homem e a cultura em quaisquer circunstâncias ”, conclui.

Importantes prêmios e eventos

A gastronomia mineira está em ascensão desde que Minas Gerais foi escolhido para representar o Brasil no Madrid Fusión em 2013, o maior festival gastronômico mundial. “A escolha não foi por acaso. Minas se destaca pela biodiversidade, riqueza de produtos e de gente talentosa e criativa com uma capital como Belo Horizonte, que se reinventa a todo momento e se supera em número de bares, restaurantes e eventos, entre outros empreendimentos gastronômicos e de entretenimento”, afirma Rosilene Campolina.

A capital se consolida pela realização de um dos maiores eventos gastronômicos de Minas Gerais e do Brasil, o Comida di Buteco, criado em 1999 pelo gastrônomo Eduardo Maya, e lançado no ano 2000 na cidade de Belo Horizonte.

Quase 500 botecos disputam em categorias como higiene, temperatura da bebida, atendimento e, principalmente, tira-gosto. Os vencedores são escolhidos não só pelos jurados mas também por votação popular.

De acordo com um dos organizadores do evento, Filipe Pereira, o concurso é planejado sempre com um ano de antecedência. “Nós, organizadores, nos reunimos e levantamos possibilidade de temas, que possam ser encontrados no Brasil inteiro, com disponibilidade ao longo do ano, com preços compatíveis com os botecos e que possam gerar histórias”, ressalta. 

O produtor do Comida di Buteco aposta no sabor mineiro e diz ter grandes expectativas para o resultado do concurso a qual a cidade concorre. “Nossa capital, ao representar o estado, traz uma diversidade única, sabores únicos, e isso ninguém conseguirá copiar. Possuímos ingredientes exclusivos, e temos muito orgulho disso. Nascemos para resgatar essa cozinha de família, cozinha afetiva, que os botecos têm, comida de casa”, exalta Pereira.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno. Revisão: Felipe Bueno e Kamille Lobato).

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Filme Bacurau, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é a representação da distópica sociedade brasileira. Foto: Divulgação.

A produção do cinema nacional vive, paradoxalmente, o seu melhor momento, enquanto vem enfrentando ameaças de desmantelamento pelo governo federal 

Por Bianca Morais*

O cinema sempre foi uma área sensível no Brasil. Isso porque, entre todas as expressões artísticas, é a que mais tem sido afetada, ao longo dos anos, por interesses políticos. Talvez por ser a narrativa cinematográfica uma forma de documentar e expor com contundência a realidade social e política. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), vem interferindo diretamente no edital da Agência Nacional do Cinema (Ancine), principal órgão de fomento ao setor audiovisual. 

Em discurso, ora o presidente tem ameaçado extinguir a Ancine, ora tem sugerido passar um filtro nos projetos, em clara tentativa de censura a alguns temas. Apesar das ameaças que o cinema brasileiro vem sofrendo, o setor está em seu melhor momento. Diversas produções nacionais têm sido destaques em festivais mundo afora. 

O diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho que havia provocado uma catarse no público ao exibir, em 2016, o filme Aquarius, no festival de Cannes, saiu ovacionado da mostra francesa, na edição deste ano, com o seu mais recente filme, Bacurau (2019). O longa-metragem, dirigido em parceria com Juliano Dornelles, levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e está em cartaz nos cinemas do país inteiro (inclusive em salas de shopping centers, rompendo com a ideia de que cinema independente é uma arte restrita a um público pequeno).

Outro nordestino destaque em Cannes, o cearense Karim Aïnouz venceu a mostra Um Certo Olhar com o filme A Vida Invisível, que retrata com delicadeza e força, ao mesmo tempo, a vida de duas irmãs, em um universo machista, ambientado na década de 1940. A produção foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro. 

Minas Gerais em cena 

Se por um lado, o nordeste tem provado, há um bom tempo, ser um expoente do cinema nacional. Em Minas Gerais, novos realizadores têm alavancado a produção local por conta de uma linguagem própria, narrativas que surgem da rotina dos cineastas, e paisagens, até então, nunca enquadradas por uma câmera. O reconhecimento vem de festivais nacionais e internacionais.

O longa mineiro Arábia (2017), dirigido por Affonso Uchôa e João Dumans, que aborda o cotidiano da classe operária, foi exibido em vários festivais ao redor do mundo e conquistou o prêmio de melhor filme no 50º Festival de Brasília, e venceu nas categorias de melhor ator, com Aristides de Souza, montagem e trilha sonora. A produção faz parte de uma safra de filmes mineiros que vêm se destacando e elevando o núcleo Belo Horizonte e Contagem a um dos mais importantes polos de cinema do país.

A exemplo disso, os diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia, que juntos comandam a produtora Filmes de Plásticos, já foram agraciados com mais de 50 prêmios. No Coração do Mundo (2019), longa-metragem dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, em cartaz em todo Brasil, foi um dos selecionados para a mostra International Film Festival Rotterdam, na Holanda.

A produtora nasceu da vontade de Gabriel Martins e Maurilio Martins de ter uma assinatura para os filmes que criassem, uma identidade comum para os projetos. Ambos moravam na periferia de Contagem e tinham a vontade de produzir juntos. E, hoje, a Filmes de Plástico vem provando que, em meio às adversidades, é possível, sim, fazer cinema. 

O longa-metragem Temporada (2018), escrito e dirigido por André Novais, consta no catálogo da poderosa plataforma de streaming Netflix. O filme, que foi o grande vencedor do 51º Festival de Brasília,  com cinco Candangos, inaugurou a parceria com a atriz Grace Passô, que vive a personagem Juliana, uma mulher que se muda do interior de Minas Gerais para Contagem, onde passa a trabalhar como agente de prevenção de epidemias da prefeitura. 

Em entrevista ao jornal Contramão, Gabriel Martins fala sobre a importância do cinema mineiro e seu olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras.

Para ele, o que o cinema mineiro e brasileiro tem de unidade é “a sinceridade e criatividade dos filmes, a visão de mundo que busca refletir sobre importantes e sensíveis questões sociais, o olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras”.

Martins acredita que exista um potencial imenso no cinema nacional pelo número cada vez mais crescente de mentes criativas e qualificadas. Porém, alerta para a necessidade de investimentos e políticas públicas voltadas para o setor. 

“Os cortes e falta de projetos dizem sobre um desconhecimento total da importância do setor para a economia nacional e também de como ele funciona e pode melhorar. Diz também do despreparo do novo governo para gerenciar o país em tempos de polarização, tornando a máquina pública um instrumento de rivalidades tolas e bastante preconceituosas. Não existe um projeto, portanto, a discussão é feita de forma rasa e antiquada”, pontua.

Criatividade esbarra no financiamento 

A Filme de Plásticos vem financiando os filmes via editais federais e estaduais, e a distribuição é feita por meio de parceiras com a Vitrine Filmes e a Embaúba Filmes. O cineasta mineiro sai em defesa do financiamento a arte e cultura, e, em especial, a projetos audiovisuais, que requerem mais recursos para produção. 

“[Os financiamentos] trazem a possibilidade dos projetos terem a personalidade de produtoras que talvez nunca seriam financiadas pela iniciativa privada. Esse investimento possibilita que projetos importantes sejam feitos de forma honesta e investigando temas de forma profunda. Como vimos em casos recentes, as políticas públicas podem inclusive se utilizar de ações afirmativas de forma a tornar a arte brasileira mais plural e inclusiva”, argumenta.

Sobre esse cenário, Gabriel Martins afirma que o principal gargalo enfrentado pelo cinema mineiro continua sendo o investimento. Para ele, existe uma vontade imensa de produção e resultado que precisam ser revertidos em políticas mais estáveis, investimentos mais constantes e um projeto de cinema na região que possa sofrer menos com instabilidades políticas.

“Nós somos hoje um dos estados com maior resultado em suas produções. Para dar um exemplo, os últimos três festivais de Brasília tiveram filmes mineiros premiados como melhor filme. Estes mesmos filmes e outros mais circularam por grandes festivais mundiais e também foram premiados”, comenta. 

Mesmo com os cortes, o diretor ainda acredita que o cinema mineiro tem fôlego e seguirá seu curso. “As pessoas que realizam filmes aqui [em Minas Gerais] tem um histórico de resistência e perseverança na forma de produzir, tendo passado por diversos momentos difíceis de financiamento e vindo de origens de um cinema independente, feito na guerrilha. O cinema mineiro vai continuar relevante simplesmente pela série de boas produções e força da geração que filma atualmente e das novas que vem chegando”, conclui Martins.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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Funk “Popotchão” traz forte crítica aos padrões sociais. Foto: Guilherme Jardim.

Lua Zanella lança funk “Popotchão”, influenciada pela sonoridade do gênero que estourou nos anos 2000; representante da Drag Music, Lua surfa na onda que tem levado Drag Queens ao estrelato

Por Patrick Ferreira*

“Meu movimento de luta, aquilo que busco destruir e incendiar pela visão de uma paisagem apocalíptica e sem remissão, é Minas Gerais. Meu inimigo é Minas Gerais. O punhal que levanto, com a aprovação ou não de quem quer que seja, é contra Minas Gerais. Que me entendam bem: contra a família mineira. Contra a literatura mineira. Contra a concepção de vida mineira. Contra a fábula mineira. Contra o espírito bancário que assola Minas Gerais. Enfim, contra Minas, na sua carne e no seu espírito. Ah, mas eu a terei escrava do que surpreendi na sua imensa miséria, no seu imenso orgulho, na sua imensa hipocrisia. Mas ela me terá, se for mais forte do que eu, e dirá que eu não sou um artista, nem tenho o direito de flagelá-la, e que nunca soube entendê-la como todos esses outros ⎯ artistas! ⎯ que afagam não o seu antagonismo, mas um dolente cantochão elaborado por homens acostumados a seguir a trilha do rebanho e do conformismo, do pudor literário e da vida parasitária. Ela me terá ⎯ se puder. Um de nós, pela graça de Deus, terá de subsistir. Mas acordado. ” (CARDOSO, 1960).

Evoco o manifesto do escritor mineiro Lúcio Cardoso (1912–1968), proferido em entrevista a Fausto Cunha, e publicado no Caderno B do jornal do Brasil em 25 de novembro 1960, para apresentar Lua Zanella, 22 anos. Ela é gay, drag queen, performer, cantora, e, sobretudo, um contraponto ao conservadorismo presente na tradição de Minas Gerais, apontada pelo escritor em suas obras, principalmente no romance Crônica da casa assassinada (1959).

Lua Zanella, para além de resistência, representa uma ruptura dos padrões sociais e artísticos. Em seu primeiro single, “Popotchão”, lançado nesta última quinta-feira, dia 9, e disponível nas principais plataformas digitais, a cantora belo-horizontina faz uma crítica ao padrão heteronormativo, presente também dentro da comunidade LGBTQ+.

A música começa com uma batida leve e se desenvolve com uma forte pegada funk, inspirado na sonoridade do ritmo que explodiu nas rádios nos anos 2000. Do tipo irresistível, é difícil não se render à batida de “Popotchão”.

O interesse da estudante de Cinema e Audiovisual pela arte despertou ainda muito cedo, aos 11 anos, quando aprendeu a tocar violino na igreja. Mais tarde, aos 15 anos, participou do Canto Coral, no programa do governo estadual Valores de Minas.

A cantora é representante de um estilo em ascensão no país, a Drag Music, uma das variações do pop nacional. Não é de hoje que as drag queens fazem música em todo o Brasil, mas foi com o estouro de Pabllo Vittar, em 2017, que elas saíram do gueto e conquistaram espaço em toda mídia.

Lua também flerta com outros estilos. No duo InMorais, formado com seu irmão, ela canta canções autorais com fortes influências da Música Popular Brasileira. O trabalho pode ser visto no canal do YouTube InMorais Oficial. Juntos, os irmãos venceram o Festival da Canção da PUC Minas, com a música “Riqueza Roubada”. Lua Zanella, agora, concentra suas atenções na carreira solo, no momento impulsionada pelo lançamento de “Popotchão”.

Acerca de seu primeiro voo solo, ela sente-se orgulhosa. Minas Gerais ainda não possui representantes da Drag Music com projeção nacional e Lua Zanella é a promessa do gênero. Em entrevista ao jornal Contramão, Lua revela as suas referências musicais e fala sobre seu trabalho.

Jornal Contramão: Em “Popotchão”, há forte referência do funk dos anos 2000. Dezoito anos depois, outra geração, o que te motivou revisitar esta sonoridade?

Lua Zanella: Meu amigo André, produtor do meu clipe, sugeriu colocar as cornetas que flertam com o funk da década passada, e me sinto muito motivada a trazer sensações nostálgicas para as pessoas. “Popotchão” também tem sintetizadores e uma estrutura em que tento referenciar o Pop dos anos 2000 e sua essência marcante, chiclete e dançante.

JC: No single, vemos uma crítica à heteronormatividade presente na comunidade LGBTQ+. Como surgiu a ideia dessa composição?

LZ: Vejo que, infelizmente, as manas afeminadas, antigamente chamadas pejorativamente de “Pocs”, ainda sofrem uma certa pressão e tentativa de limites dentro da própria comunidade LGBTQI. Quebrar padrões na canção é uma menção a quebrar barreiras, a mudar o mundo sendo você mesmo, a você incomodar tanto para que um dia não seja mais um incômodo.

JC: Como é a construção da imagem da artista Lua Zanella? E de que maneira a sua equipe está imbricada nisto?

LZ: A construção da imagem da Lua foi feita ao longo da minha vida, em experiências e vivências, no apoio da minha família e amigos e há uma equipe que está me ajudando em tudo, em ideias, conceitos, figurinos, arte, fotografia. O que está acontecendo na minha introdução à música se deve à essas pessoas, e eu sou extremamente grata. Guilherme Jardim, meu fotógrafo, André Castro, meu produtor criativo, Samuel Fávero, meu diretor de Arte e Mathaeus Tota, meu editor.

JC: O momento político-social, atualmente, marcado pelo conservadorismo, vem acompanhado de grande reação das minorias, historicamente oprimidas. Como você vê o enfrentamento dos artistas?

LZ: Vejo muita força e resistência nesse período cinza, porém essa é minha deixa para dizer que compus algo sobre essa nossa força. Então, aguardem!

JC: Qual é a recepção do público ao seu novo trabalho? LZ: Muito positiva, todas as pessoas estão dizendo que a música é pegajosa e não sai da cabeça e eu me sinto muito honrada por isso. JC: Quais são os projetos para o futuro?

LZ: Tudo que eu consigo pensar é em quantas coisas eu ainda posso oferecer através da arte. Na minha mente, surgem várias ideias o tempo todo, “Popotchão” é o pontapé inicial que eu tanto sonhei.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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No Brasil, a representação política das mulheres saltou de 10% para 15%; popularidade baixa vem carregada de estigmas de décadas

Por Marcelo Duarte*

Há exatos 33 anos, o Brasil passou por um processo de redemocratização, e, mesmo depois de tantos anos e mudanças, as mulheres ainda não ocupam cargos políticos com a proporção devida. Elas representam aproximadamente 52% da população do país, mais da metade, mas a sua participação na política não chegava a 10%, de acordo com os dados compilados pela União Interparlamentar, que têm como base as informações fornecidas pelos parlamentos nacionais, até o dia 1º de setembro de 2018.

Nas eleições recentes, o percentual da participação da mulher na política aumentou, mesmo com a dificuldade que encontraram dentro do partido para terem suas campanhas financiadas. Segundo levantamento feito pela Campanha Libertas, que tinha como intuito dar visibilidade às candidaturas das mulheres, quase metade das candidatas mineiras não foram contempladas com recursos de seus partidos para realização de suas campanhas. O balanço feito mostra que apenas 53% delas receberam verbas dos diretórios estaduais ou nacionais das siglas.

No 1º turno das eleições 2018, que ocorreram no dia 7 de outubro, foram eleitas 77 deputadas federais, contra 51 em 2014. No Senado, que neste pleito tinha duas vagas por federação, foram eleitas sete deputadas, como em 2010. Junto às mulheres da bancada atual, que ocupam a vaga até 2020, foram eleitas sete senadoras, o que representa um total de 12 cadeiras num universo de 81.

Ainda de acordo com o balanço pela campanha Campanha Libertas, com base nos dados das últimas eleições para o legislativo, as mulheres finalmente alcançarão 15% de representação no Congresso Nacional, a partir do dia 1º de janeiro de 2019. O número representa um aumento de cinco pontos percentuais. Ainda que seja um avanço, uma conquista histórica, as mulheres enfrentam muitos desafios na construção da representatividade política.

A mineira Áurea Carolina é um contraponto a este cenário já desenhado e cheio de vícios. Nas últimas eleições municipais, em 2016, foi eleita vereadora de Belo Horizonte, a mais votada naquele pleito. Depois de ter conquistado uma votação expressiva para a Câmara de Vereadores da capital mineira, lançou-se como candidata a deputada federal, pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), por Minas Gerais. Foi a 5ª mais votada, conquistando mais de 162 mil votos, e irá representar, entre outras bandeiras, a das mulheres, na Câmera dos Deputados, a partir de janeiro de 2019.

Para Áurea, na política ou em qualquer outro campo profissional, as mulheres ainda enfrentam desafios para serem reconhecidas. “Nós mulheres enfrentamos problemas históricos seríssimos de não reconhecimento da nossa plenitude como pessoas capazes, que devem ser respeitadas e que devem estar em condição de igualdade com os homens. Isso é refletido nas mais diversas áreas, na saúde, na educação, no mundo do trabalho, na política. Muitas vezes, reproduzimos esse tipo de política, essa que nos obriga a falar mais alto para sermos ouvidas, que nos obriga a sermos duras para estarmos em pé de igualdade, mas aos poucos vamos mostrando outra forma de fazer política, a política do afeto e da convivência coletiva”, expõe Áurea Carolina.

Na corrida para a eleição 2018, a candidatura de mulheres para os cargos de deputados (as) estaduais e federais representaram 30%. Para o senado, governo de estado e presidência da república, o número foi ainda menor. Apenas 16% das candidaturas eram femininas.

Ainda de acordo com Áurea Carolina, a baixa proporção de mulheres nas esferas de poder institucional é uma consequência do sistema patriarcal, que produz a exclusão sistemática de mulheres das instituições políticas. “A questão se acentua quando falamos sobre mulheres negras. Nós somos sub-representadas nos espaços da política institucional: atualmente na Câmara dos Deputados, por exemplo, somos menos de 1% na Câmara dos Deputados. Essa é uma confirmação de como o nosso país é racista e machista”, pontua.

Histórico precisa ser mudado

Nos cargos municipais, nas eleições de Belo Horizonte em 2000, apenas 4 mulheres foram eleitas. Já nas eleições de 2016, mais de uma década e meia depois, o número de mulheres eleitas foi o mesmo, estagnado em quatro. Para a vereadora de Belo Horizonte, pelo PSOL, Cida Falabella, o machismo e a misoginia são estruturantes de uma Câmara Municipal. “O contrário é que é quase impossível ter alguma facilidade por ser mulher. A forma de organização do espaço, a disputa pelo microfone, o silenciamento dos colegas, tudo está muito ligado a esse universo macho, que não é nem machista, é macho mesmo, esse universo da virilidade, do que é ser homem, do que é ser um homem na política. Em contraponto, a relação com as outras mulheres, embora de campos políticos opostos ao nossos, é sempre uma relação de muito respeito, colaboração e escuta. Toda vez que nós estamos juntas, os homens chegam e perguntam ‘o que é que o clube da luluzinha tá fazendo?’ sendo que eles estão sempre agrupados e a gente nunca pergunta ‘e aí, como está o clube do bolinha?’. A gente tenta construir algo muito diferente disso e, para isso, temos que mostrar o tempo inteiro que somos pelo menos duas vezes mais capazes que um homem”, explana.

Em 2018, em todos os partidos, as mulheres são minoria, inclusive no Partido da Mulher Brasileira, o PMB. Essas dificuldades no Legislativos e Executivos são ainda maiores, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, entre 77 cadeiras, apenas seis são ocupadas por mulheres. “É muito importante incentivar as mulheres a ocupar os espaços políticos institucionais e apoiar essa escolha cotidianamente. Acredito que a população brasileira também tem enxergado isso e percebido que as mulheres têm a mesma capacidade que os homens para ocupar os espaços de poder que, por centenas de anos, foram um espaço exclusivamente masculino”, comenta Áurea Carolina.

Durante o período que compreende o primeiro mandato da ex-Presidenta Dilma Rousseff, entre 2010 e 2014, houve um aumento de aproximadamente 13% no número de mulheres se candidatando. Em 2016, após seu impeachment, esse número voltou a cair. Áurea Carolina acredita que a deposição de Dilma, um golpe em sua opinião, produziu no imaginário que as mulheres não têm capacidade de estar na política ou de fazer um bom trabalho como agentes públicas.

“Com o golpe, criou-se uma associação de que a Dilma foi uma presidenta incompetente, incapaz e corrupta. Esse pensamento está presente no senso comum, mas estamos confrontando isso nestas eleições e intensificando as campanhas para que mais mulheres estejam nesta empreitada. É necessário que as mulheres ocupem os espaços de poder, pois é justamente por conta dessa violência machista que a presidenta Dilma foi atacada. Têm surgido muitas iniciativas nesse sentido, com a candidatura de mulheres, negras, indígenas, quilombolas, lésbicas, bissexuais e transexuais para a política institucional”, exemplifica Áurea Carolina.

A pauta sobre representatividade feminina abre espaço também para pensar em outros grupos de minorias que não se sentem representadas politicamente. A sigla LGBT, por exemplo, vem tentando romper essa barreira e construir uma representação nas diversas esferas da política.

Transpondo barreiras

As eleições de 2018 vêm rompendo várias barreiras. O número de pessoas transexuais candidatas para cargos políticos multiplicou dez vezes em relação à última eleição, em 2014. Só neste ano, foram 55 candidaturas, aponta lista divulgada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

A secretária de articulação política da Associação Nacional de Transsexuais (ANTRA) e membro da diretoria da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), Bruna Benevides, destaca o ineditismo e a necessidade de pessoas transexuais ocuparem os espaços institucionais da política. “A importância de ter pessoas trans e travestis nos lugares de poder é principalmente para que possamos ocupar lugares que antes não eram possíveis para nossa população e principalmente para pontuar as demandas e as políticas públicas necessárias para o resgate da cidadania e pensando em questões de representatividade, legitimidade e pertencimento, que quem vive com essas situações pode de alguma forma refletir de ações e medidas para o combate dessas violências e violações”, argumenta.

O partido que mais contém candidaturas de pessoas transexuais e travestis é o PSOL, com cinco representantes em 12 estados; seguido por PT e PCdoB com cinco candidaturas em quatro estados cada; e PMB, com quatro candidatas em três estados. As eleições 2018 trouxeram duas candidaturas a deputada distrital pelo Distrito Federal; 17 a deputada federal; e 32 a deputada estadual, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Erica Malunguinho da Silva, mulher, negra, natural de Pernambuco, foi a 1ª transexual eleita deputada estadual em São Paulo. No total, três deputadas estaduais trans foram eleitas, todas do PSOL.

A professora de literatura Duda Salabert, primeira candidata travesti ao senado fala sobre a importância de termos grupos, que são dados como minorias, conquistando alguns cargos na política. “Historicamente, o senado é ocupado por senhores mais velhos. A idade mínima para pleitear esse cargo é 35 anos, que a idade de expectativa de vida de uma travesti no Brasil, dando a entender que não é um cargo feito para travestis. E esses 35 anos tem um valor muito simbólico para nós, e mais do que isso, o senado é ocupado por senhores mais velhos que têm o papel simbólico de moralizar a sociedade, e aí entra mais uma questão, o meu corpo, e o corpo das pessoas trans é lido tradicionalmente como imoral, então nós vamos rivalizar um conceito de moral, um conceito de política e um conceito de ética, para propor de fato uma nova forma de construir política e colocar em choque com esse modelo antigo”, defende.

Com o efeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que garantiu direitos constitucionais ao grupo, os candidatos transgêneros puderam usar o nome social na urna eletrônica e participar da cota feminina dentro dos partidos.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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A cineasta Ana Carolina Teixeira Soares no set de filmagens

Em entrevista exclusiva ao jornal Contramão, a diretora Ana Carolina Teixeira Soares revela o nome do seu novo projeto e rememora sua trajetória no cinema

Por Rebeca Francoff*
Aluna do curso de Cinema e Audiovisual

“Vão à luta!”. Esse foi o conselho da diretora Ana Carolina Teixeira Soares para jovens realizadores de cinema no Brasil frente ao atual período político e cultural do país. Nascida em 1945, em São Paulo, Ana Carolina, independentemente do momento, revela, ao longo da carreira, ser uma artista por excelência, resistente e irreverente. As suas obras destacam-se pela coragem, personalidade e escolhas cinematográficas inventivas.

Em entrevista ao jornal Contramão, a cineasta Ana Carolina expõe, com fluidez, o que pensa sobre política, influências, possibilidades cinematográficas e reflexões acerca da trilogia Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa. Na conversa, a diretora também revela o nome do próximo projeto, “Paixões Recorrentes no Atlântico Sul”.

Realizadora cinematográfica há mais de quatro décadas, a produção de Ana Carolina reúne obras emblemáticas como Lavra-dor (1968), Getúlio Vargas (1974), Mar de Rosas (1977), Das Tripas Coração (1982), Sonho de Valsa (1987), Amélia (2000), Gregório de Mattos (2003), A primeira Missa ou Tristes Tropeços, Enganos e Urucum (2013). Ana Carolina Teixeira Sores também dirigiu óperas, escreveu peças de teatro e livros.

JC: Ana Carolina, você acredita em qual tipo de cinema?

AC: Querida, eu sempre acreditei somente em bons filmes!

JC: A trilogia Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa são produções cinematográficas precursoras de uma linguagem bastante particular. Filmes extraordinários. Você poderia partilhar conosco algumas de suas influências?

AC: Confesso que em toda a trilogia, a narrativa desses filmes se apresentou, para mim, iminentemente pessoal, ou seja, fui realizando a tarefa de filmar apenas sentindo o que ocorria em cena. Eu não estava raciocinando, eu estava sentindo. No entanto, tenho consciência que, já naquela época, carregava paixões intelectuais e cinematográficas tais como Eisenstein, Resnais, Truffaut, Buñuel, Monteiro Lobato, Glauber Rocha, Gilberto Freyre, Gregório de Mattos e Nelson Pereira dos Santos.

JC: No movimento Cinema Novo, artistas tiveram a esperança revolucionária de lutar pela transformação política através da cultura. No decorrer dos anos, o movimento sofreu mudanças com a ditadura. O filme Mar de Rosas foi feito neste período de transição e é marcado pela dialética entre humor e dor, esperança e incredulidade. Como foi fazer filmes na ditadura? Quais as barreiras e os impulsionamentos na época?

AC: Por incrível que possa parecer… é exatamente igual a hoje. A dificuldade não estava no percurso de produção, a interdição crucial ocorria na exibição. A interdição era política. Hoje é mercadológica. À isso se dá o nome de incoerência histórica.

JC: Em Mar de Rosas, a mãe Felicidade, não é nem um pouco feliz. Ser mãe pode ser um desafio difícil. Como você enxerga a relação mãe e filha construída no filme?

AC: Não posso partir do princípio que todo mundo tenha lido Freud, ou tenha experiência psicanalítica, mas o que importa é estarmos atentos a todas as características humanas, cruéis, exasperadas e irracionais, que se apresentam nas relações de poder.

JC: Todos os seus atores ganham uma proporção enorme na tela. No filme Das Tripas Coração é quase difícil falar quais são os personagens principais. Em Mar de Rosas, a personagem representada por Norma Bengell chama muita atenção. Não conseguimos imaginar o papel sendo representado por outra pessoa. Quais foram os seus critérios para a direção de atores e para a escolha dessa atriz?

AC: Nenhuma escolha importante na vida obedece a critérios objetivos. As melhores e mais importantes são feitas pelo coração. Brecht e o Teatro do Absurdo sempre ajudam!

JC: O ator Antônio Fagundes é também alguém bastante marcante e enigmático em Das tripas Coração. Quais foram as motivações para a escolha dele como o interventor sob a ótica do sonho para retratar os desejos recalcados das personagens?

AC: O Fagundes é um grande amigo e um grande ator! É um ator consciente e colaborativo! E nós sabemos que, em determinada etapa da nossa vida, tentamos nos “enquadrar” nos sonhos masculinos.

JC: O som cumpre papel valoroso em seus filmes. Gostaríamos de saber sobre a escolha da potência confusa dos diálogos e músicas cantadas pelas personagens. Como, por exemplo, na cena em que Felicidade canta em inglês no carro ou nas cantigas entoadas pelas estudantes em Das Tripas Coração. O que pretendeu atingir com esses trabalhos sonoros? Além disso, como o piano é visto em Das Tripas Coração?

AC: Sempre dediquei muito cuidado e muito trabalho na dramaturgia sonora dos meus filmes, conhecendo bem a grande importância do Som em matizar melhor as diversas nuances dos sentimentos presentes em cada cena. O piano é um personagem! Na verdade o piano é o estorvo social que nos oprime!

JC: Em Das Tripas Coração, a repressão e a liberdade, a felicidade e a tristeza vivem em extremos no espaço escolar. Poderia discorrer um pouco sobre as instâncias de poder e esses corpos vigiados que gritam por liberdade?

AC: O filme se passa dentro de um colégio interno, onde as alunas adolescentes demonstram, claramente, aos gritos, e desobediências incessantes, a força do poder repressor. Ora, não é o personagem do interventor, o homem que adormece e sonha que detém o poder destruidor? Você ainda não acredita que o sonho de poder é dos homens e das mulheres?

JC: Qual a sua opinião sobre as produções cinematográficas brasileiras de hoje? Há realizações que lhe interessam?

AC: Citando Paulo Emílio, “O pior filme brasileiro sempre será melhor do que o melhor filme estrangeiro”! Não tenho acompanhado a produção cinematográfica brasileira atual, mas posso lhe dizer que gostei muito dos últimos filmes brasileiros que assisti.

JC: Enfrentamos panorama sombrio para as políticas culturais neste momento do país. De que maneira você acha que isso pode influenciar o cinema brasileiro? Há algum conselho para jovens homens e mulheres que queiram se tornar realizadores de cinema?

AC: Qualquer panorama político e cultural vivido por uma nação, sombrio ou não, influencia a criação artística. Seja ela qual for. Os verdadeiros criadores são antenas a serviço do bem-estar da sociedade contemporânea. Você deve saber que os conselhos existem para não serem seguidos, mas sempre é de bom alvitre pelo menos escutá-los! Portanto, vão à luta!

JC: Como você tem acompanhado o contexto político atual, caracterizado por uma onda conservadora crescente? Você acredita numa possível repetição do passado?

AC: A história não se repete! Se ocorrer, não terá esse nome, não será aquela que já vivemos. Temos que estar atentos para descobrir como reagir. Acredito que viveremos uma atmosfera que favorece o recolhimento. Vamos trabalhar em silêncio por algumas conquistas que julgávamos imprescindíveis.

JC: Você fez filmes críticos sobre ditadura militar e viveu esse período. Vale lembrar que vivemos um momento em que várias pessoas querem uma intervenção militar. Como você encara isso?

AC: Querer não é poder! Temos que aprender a viver, no fácil e no difícil, para cumprir aquilo que temos de fazer. E aí, fazendo, fazendo, está feito!

 

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).