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*Por Mariana Aroni

Como vim parar aqui? Que lugar é esse? E esse chão quente?!

– Ronc! – assustei. Que barulho é esse? – Roooonc! – Opa, algo tremeu aqui dentro. – Roonc!

Isso… está dentro da minha b-barriga?! Não sei o que é, mas dá uma vontade imensa de comer alguma coisa. Ah, deve ser essa tal fome de que mamãe tanto falava.

Andar, andar, andar… De não sei onde para não sei onde. Agora, essa tal fome está piorando! Ah, lixo! Espero que tenha alguma coisa para comer. Hummm… Cheirinho bom! Será que é pizza?!

– Sai daqui, cachorro imundo! Fica mexendo e bagunçando o lixo todo. Rasga tudo e deixa espalhado aqui. Sai! – a mulher bateu palmas de forma furiosa, e tentou me chutar.

Ela me assustou de tal forma que saí correndo, uma vez mais, para sei lá onde.

Não consigo entender: o que tem de errado comigo? Chamam-me de imundo. Eu nem sei o que é isso.

Continuo andando, a barriga continua roncando. Vixi, agora também quero água. Vou ter que parar, minhas pernas não aguentam mais. Acho que estou ficando tonto. Ah, uma sombra. Que maravilha!

Hum, que preguicinha gostosa! Acho que tirei um cochilo. Por alguns minutos, consegui me desligar dessa loucura toda, de pessoas para todo lado, asfalto quente, gente querendo me machucar.

Sai! Sai! SAAAAAAAI DAAAQUI! – Que loucura! Tive nem tempo de terminar de pensar. Antes mesmo de terminar a frase mental, já estava virando a esquina. Não estava mexendo no lixo, nem latindo. Estava, apenas, deitado na calçada. Qual era o motivo de aquele homem ficar tão bravo?

Ah, não!

– Roooooooonc! – A fome deve estar pior agora! Preciso de algo urgente para comer. Meu corpo nem se mexe direito. Onde estou? Que besteira! Nem sei por que me pergunto isso ainda. Nunca sei onde estou. Sinto saudade da mamãe e dos meus irmãozinhos. Não lembro de muita coisa.

Mamãe estava dormindo com a gente, quando ouvi um barulho muito forte e acordei. Ela começou a chorar, mas não se mexia, e saía um líquido vermelho de sua cabeça. Não sei o que é. De repente, outro barulho muito forte. E foi aí que vi uns moleques, com um pedaço de madeira na mão, correndo e rindo. Acho que mamãe estava muito mal. Ela chorava baixinho, e estava estranha. Eu tentava falar com ela, mas ela não respondia. Meus irmãozinhos estavam com medo, assim como eu. O Toby corria para debaixo de um pneu, Alissa tentava falar com mamãe, assim como eu. Martie saiu correndo atrás dos moleques, gritando e xingando eles. Não sei onde ele está agora.

TOC. TAC. BUUUM. Ah, não. Cachorrinho infeliz, quis dar um de valente e se deu mal Acho que os moleques o machucaram também. Mas, o que nós fizemos? Mamãe, mamãe! – Alissa, agora, chorava. Acho que mamãe… Ah, meu deus! Mamãe morreu!

Corri para ver Martie. Ele também não estava bem, deu-me uma última olhada e pediu para eu cuidar dos outros. Em seguida, os olhos dele se fecharam. Ele não era apenas meu irmão; era meu melhor amigo.

Voltei para ver Alissa e Toby. A tristeza me invadiu de forma brutal. Não consegui nem me aproximar dos outros. Minhas pernas não funcionavam. Tinha algo salgado escorrendo por meu rosto. Eu chorei. Não de medo, mas por perder duas das criaturas que eu mais amava.

Quando voltei, Toby havia sumido. Não o encontrei mais debaixo do pneu, nem em nenhum outro lugar. Alissa continuava abraçada à mamãe, chorando.

Alissa, precisamos sair daqui. Se aqueles moleques voltarem, vão nos machucar, também. Acho que ela percebeu a urgência e a tristeza em minha voz.

Bart, por que fizeram isso com eles? Mamãe disse para ficarmos longe dos humanos ruins e nos trouxe para cá, justamente, para ficarmos seguros. O que nós fizemos de errado? Ela me disse isso em meio a lágrimas e soluços.

Eu não sei. Eles são cruéis. Mas vamos ficar bem. Venha, precisamos nos proteger. Não encontrei Toby. Já o chamei, mas não sei onde ele está. Não podemos mais ficar aqui. Tentei parecer forte. O desespero e a tristeza me inundavam de forma que não conseguia suportar.

Não conhecia o mundo direito, mas mamãe já tinha nos preparado para o que poderia acontecer. Foi ela quem nos falou sobre a violência, a fome, a tristeza, o frio e a sede.

Alissa se convenceu do que eu falava e decidiu vir comigo. Andamos pertinho um do outro, nem sei por quanto tempo. Não encontramos Toby.

Que gracinha, mãe! São filhotinhos. Posso ficar com um? Uma menininha estava brincando com a gente. Fez carinho em mim e em Alissa. Adoramos ela!

Tadinhos! Devem estar sozinhos e perdidos. Podemos levar só um, os dois não dá. Pega a fêmea, é mais fácil de cuidar, faz menos bagunça. 

Alissa ficou radiante e me chamou para também ir. A menininha a pegou no colo. Eu as segui, andando atrás dela e de sua mãe, mas a mulher me afastou e disse que não me levaria. Eu continuei andando atrás delas, até que elas entraram em um carro e foram embora. Não consegui entender o que Alissa disse.

E eu, mais uma vez, estou perdido em devaneios. O passado é o passado. Agora, preciso encontrar algo para comer. A fome só aumenta.

Onde estou?

– Ah, Bartolomeu, pare de se perguntar isso! Você está perdido na cidade. Nunca vai saber onde está e nem para onde vai. Procure comida, que é o mais importante agora! – gritei, para mim mesmo, em minha mente.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

 

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*Por Daniela Reis

A receita de hoje é de Luis Felipe Castilho Assis e é uma excelente sugestão para o final de semana!

Descrição do prato: Nhoque de beterraba na manteiga de ervas acompanhado de pernil suíno e tomates sweet grape.

Quantidade de porções: 8

Tempo de preparo: 1h

Categoria: Prato Principal

Nível de dificuldade: Fácil

Ingredientes:

Nhoque de Beterraba
– 600g de beterraba cozida, sem casca e processada no mixer ou no liquidificador.
– 150g de farinha de trigo
– 130g de cebola
– 4g de alho
– Sal e pimenta a gosto
– Azeite para refogar

Manteiga de ervas
– 100g de manteiga no ponto de pomada
– 8g de alho
– 6g de salsinha
– 2g de funcho

Pernil Suíno
– 1kg de pernil suíno picado em cubos
– 20 ml de shoyu
– 8g de alho amassado
– Sal e pimenta a gosto
Para a composição
– 180g de tomate sweet grape

Passo a passo para a preparação:

Para a Manteiga de Ervas:
– Picar bem pequeno o alho e as ervas
– Misturar tudo com a manteiga
– Reserve no ponto de pomada ou na geladeira para durar mais

Para o Pernil Suino:
– Disponha o pernil em um bowl ou vasilha
– Acrescente o shoyu, o sal e a pimenta e misture bem
– Esfregue o alho picado e reserve por uns 20 minutos.
– Com um pouco de azeite, coloque o pernil em uma frigideira ja aquecida e mexa ate que esteja cozido.

Para o Nhoque de beterraba:
– Picar a cebola e o alho e refogar em uma panela funda
– Adicione a beterraba já cozida e processada e misture
– Acrescente a farinha e misture até ficar homogêneo e mais denso
– Reserve em um pote e deixe resfriar
– Povilhe farinha em uma bancada já higienizada
– Em porções pequenas, pegue a massa ja fria e modele na bancada e corte no tamanho desejado
– Esquente a água em uma panela para o cozimento
– Após a fervura da água, adicione o nhoque
– Quando o nhoque subir significa que está pronto. Retire e reserve
– Em uma frigideira acrescente a manteiga de ervas e em seguida o nhoque
– Mexa um pouco e está pronto

Junte o nhoque, o pernil e o tomate. A montagem fica por sua conta da sua criatividade! É um prato com muita cor e sabor!

 

Sobre o chef

Luis Felipe Castilho Assis é aluno do curso de Gastronomia do Centro Universitário Una. Sua paixão pela culinária começou com a avó, que o mostrou que a cozinha vai além de uma simples refeição. “Com a cozinha você se conecta com os outros, você se expressa, você cria ou relembra sentimentos e sensações. Eu posso dizer que minha maior forma de contato e aprendizado na cozinha vem das mulheres da minha vida, minhas duas avós e minha mãe. Isso me fez desde pequeno entender a importância de amar o que você faz e não ter medo de criar”, afirma Luis.

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Recém-operados devem redobrar os cuidados durante a pandemia

Obesos e bariátricos devem redobrar a atenção ao Coronavírus

*Por Jéssica Araújo

Depois que o Coronavírus chegou ao Brasil, o país segue em quarentena. Muito se fala em grupos de risco, mas e os bariátricos e obesos? Quais os cuidados devem tomar em relação à pandemia?

Como têm sido noticiado, os idosos estão no topo do grupo de risco para contrair o Covid-19, mas o que muitos não sabem é que as pessoas que passaram pelo procedimento de cirurgia bariátrica e obesos mórbidos também se encaixam nos grupos de risco e devem ter maior atenção em relação ao contágio.

Segundo o balanço realizado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Metabólica e Bariátrica (SBCBM), o número de procedimentos de redução de estômago aumentou em 84,73% em quatro anos, e, tende aumentar ainda mais até o ano de 2025. De acordo com os especialistas esses pacientes, principalmente os que possuem até três meses de cirurgia devem reforçar os cuidados em relação ao Covid-19.

Especialistas explicam que após o procedimento cirúrgico os pacientes ficam mais vulnerais e apresentam baixa imunidade por deixar de absorver alguns nutrientes necessários para manter uma vida saudável, por isso que os médicos em junção com os nutricionistas receitam vitaminas como: B12, vitamina C, D, cálcio e ferro.

O Cirurgião especializado em gastroplastia endoscópica, Dr. Hemerson Paul, alerta sobre as medidas de prevenção que os operados e obesos devem adotar nesse período de quarentena. “O ideal é que assim como os idosos e as pessoas que apresentem comorbidades, os recém-operados tenham uma atenção a mais contra o vírus, pois nos três primeiros meses essas pessoas estão com a imunidade mais baixa e podem contrair o vírus com mais facilidade e nem apresentar sintomas”, explica.

Ainda de acordo com o médico, alguns cuidados são fundamentais. “Continuar com a higienização das mãos com sabão e álcool em gel, manter a alimentação saudável, mas principalmente continuar tomando as vitaminas solicitadas aos pacientes que fizeram a cirurgia”. “Todos os bariátricos que puderem, devem ficar em casa e manter uma atividade física, mesmo que seja caminhar dentro de casa”, afirma Paul.

Muitos têm seguidos as recomendações médicas, mas os problemas vão além do contágio do vírus. A aposentada, Nanda de Oliva, operada há 12 anos ainda enfrenta dificuldade com a imunidade e a compulsão alimentar nessa fase de isolamento. “O meu maior problema tem sido a compulsão alimentar, tenho comido tudo que tenho em casa e mesmo assim não me sinto satisfeita. Já relação à prevenção, eu tenho usado muito álcool em gel e sempre atenda a ventilação da casa. Apesar de ser uma situação que envolve o mundo todo eu tenho tomado todos os cuidados, pois além de ser do grupo de bariátricos eu ainda tenho anemia e isso me deixa ainda mais vulnerável”, conclui.

Compulsão e ansiedade nos tempos da Pandemia

Os dias de quarentena têm sido muito difícil para os bariátricos e obesos que alegam ter compulsões alimentares e crises de ansiedade. “A melhor forma de lidar com a compulsão e ansiedade é se dedicar às coisas que te deixem feliz”, alega a Psicóloga Raphaella Rios.

“Você deve fazer coisas como se maquiar, ler um livro, assistir um filme, trabalhar, criar novos hobbies, realizar atividade física, ou seja, consumir o tempo com coisas que antes não tinha tempo para fazer ou seja: movimentar o corpo e a mente”, continua Raphaella.

“O essencial é ocupar os pensamentos para não dar espaço para a ansiedade e assim não acarretar na compulsão alimentar e evitar futuros problemas de saúde. É muito importante se alimentar bem e pensar que tudo isso é uma fase e que se fizermos nossa parte, mais rápido teremos boas respostas”, concluiu a psicóloga.

O Coronavírus

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que já são mais de meio milhão de casos da Covid-19 no mundo todo e no Brasil já foram confirmados 109 mil casos e mais de 7,3 mil mortos pela Covid-19. Vale lembrar que apesar de alguns especialistas alegarem que o vírus tenha uma baixa letalidade, os obesos e os bariátricos devem manter a atenção redobrada e assim como toda a população, manter a higienização e os cuidados para evitar a contaminação.

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Estilo de vida ganha cada vez mais adeptos

Dados da Sociedade Vegetariana Brasileira indicam grandes aumentos de adeptos ao veganismo e vegetarianismo no Brasil

*Por: Moisés Martins

 

O vegetarianismo e o veganismo têm crescido consideravelmente nos últimos anos, prova disso é que quase 15% da população brasileira é adepta a um desses estilos de vida, número 75% maior que em 2012. Esses números não impactam apenas na alimentação, mas também na economia, já que o mercado vegetariano movimenta por ano R$12,5 milhões e o vegano R$2,8 milhões.

 

Já que estamos falando de economia e o quanto esse mercado fatura, provavelmente você já ouviu a seguinte frase: “Ser vegano ou vegetariano custa caro!”, mas de acordo com Ana Luisa Arrunátegui, estudante de cinema e adepta ao vegetarianismo desde 2011, existem maneiras de economizar na hora das refeições. “O preço das frutas e legumes comparado ao das carnes é bem mais barato. A dica é fazer as refeições em casa e evitar os produtos industrializados disponíveis no mercado”, salienta.

 

Apesar de muitas marcas e estabelecimentos aproveitarem o título vegetariano ou vegano para cobrarem mais caro nas prateleiras, a nutricionista Priscila Menezello reforça que a escolha por certos produtos pode deixar a conta mais onerosa. “O custo de vida vegano e vegetariano não é nada caro, um vegetariano come todas as coisas que um onívoro come, excluindo a carne, o que acontece é que quando os adeptos optam por consumir alimentos industrializados, por a demanda ser menor, eles costumam ter um custo mais alto dependendo também da matéria prima que é um pouquinho mais onerosa”.

 

Mas, você já parou para entender esses dois estilos de vida? Ser vegano ou vegetariano  não é a mesma coisa. As duas formas de viver têm diferença. O foco do veganismo é a luta pela libertação e não exploração animal, não apenas na alimentação, mas também no vestuário, em testes laboratoriais, na composição de produtos diversos, no trabalho, no entretenimento e no comércio. Veganos opõem-se, obviamente, à caça e à pesca, ao uso de animais em rituais religiosos, bem como a qualquer outro uso e/ou testes em animais.

 

Esses dois modos de vida fundamentam-se, ideologicamente, no respeito aos direitos animais e pode ser praticado por pessoas de qualquer credo, etnia, gênero ou orientação sexual. O veganismo não tem relação com crenças políticas nem com preferências musicais, nem deve ser associado a determinada cultura. Trata-se, portanto, de uma prática universal.

 

Já o vegetarianismo, não é apenas uma prática alimentar motivada somente por questões éticas, mas também envolve saúde e bem-estar “Substituo as proteínas da carne por outros alimentos que também são riquíssimos em proteínas, como lentilhas, soja e o brócolis.” comentou Ana Luisa.

 

Com a operação  carne fraca, realizada pela Polícia Federal em março de 2017, foi comprovado que empresas frigoríficas produziam carnes em péssimas condições sanitárias, foi confirmado  também o uso de produtos químicos prejudiciais à saúde. Com isso o índice de pessoas que passaram a buscar por estes estilos de vida aumentou.

 

“Eu falei para mim mesma que a partir daquele dia eu seria vegana, e assim foi. E nesse processo eu não sabia que minha vida ia mudar tanto, comecei a estudar os alimentos, fui aprendendo a cozinhar, inventando receitas, e comecei a sentir o meu corpo mais disposto. Eu estava mais feliz, e emagreci muito também”, afirma Carol Cortês, adepta do veganismo.

 

Muitas pessoas procuram os nutricionistas para fazerem a transição, o que é correto. Afinal toda mudança na dieta causa impacto no corpo e a proteína animal deve ser devidamente substituída pela a vegetal, pois nutrientes essenciais à saúde humana estão presentes nas carnes, nos ovos, etc.  “Existe uma dieta especifica para qualquer pessoa sendo vegetariana ou não, a alimentação é algo individual, os horários, e as necessidades nutricionais. A única diferença de uma dieta vegetariana ou vegana, é que quando você tira a carne, ovos e laticínios, temos que aumentar a quantidade de consumo de alguns alimentos, para garantir o aporte nutricional adequado. Observamos também a necessidade de suplementos como a vitamina D e B12, de acordo com o exame de sangue”, finaliza  a nutricionista Priscila Menezello.

*Essa matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis.

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Filme The Wars of Coco Chanel aborda o caráter forte e personalidade controversa da estilista francesa. Foto: reprodução.

Feed Dog Brasil, evento que estreia hoje em Belo Horizonte, apresenta ao público, por meio de exibições de filmes, oficinas e debates, diversos olhares sobre o universo da moda

Por Bianca Morais*

A moda sempre foi representada com esmero nas telas do cinema. Em parte, por conta da sua força narrativa e, por outra parte, pelo fascínio que desperta nas pessoas. Essas duas expressões se fundem na mostra Feed Dog Brasil, Festival Internacional de Documentários de Moda, evento que entra em cartaz hoje, em Belo Horizonte, e que evidencia a pluralidade da moda.

Até o dia 6 de outubro, o público belo-horizontino terá a oportunidade de experimentar uma programação gratuita e diversa, que traz a exibição de 11 documentários, sendo oito inéditos, além de debates e oficinas, no Sesc Palladium, no Museu da Moda (MUMO) e na Una – Campus João Pinheiro II.

Na abertura da mostra, realizada no Sesc Palladium, nesta terça-feira, às 20 horas,  será exibido o filme Celebration, de Olivier Meyrou, um registro do processo de criação da última coleção do estilista francês Yves Saint Laurent.

A curadoria, assinada pela jornalista e documentarista Flavia Guerra, que afirma que moda é cultura, debruça-se sobre obras que entretêm ao mesmo tempo que educam, sem ser didático.

– O nosso pensamento, ao fazer curadoria, juntamente com o Marcelo Aliche, que também é curador, e a Lais Vitral, coordenadora de produção, sempre foi unir diferentes visões e trazer filmes que fazem esse recorte da moda e que, ao mesmo tempo, contêm histórias interessantes, acima de tudo. Por meio dos filmes, a gente se informa, aprende, pensa, amplia nossa visão e vemos ótimas histórias, com ótimos personagens e ótimos temas – explica Flavia Guerra.

Ainda de acordo com a curadora, o cinema contribui para desmistificar o imaginário de que moda é algo inacessível, na medida em que propõe um novo olhar e apresenta uma investigação profunda dos bastidores desse universo.

– É por meio do cinema que adentramos em um ambiente que, naturalmente, não teríamos a chance de entrar como, por exemplo, o ateliê do Yves Saint Laurent. Primeiro, por uma questão histórica e de acesso. Segundo, porque descobrimos que essas personagens que nós retratamos nos documentários, e que a gente vê retratadas, são pessoas – expõe Flávia.

O filme Celebration, escolhido para a abertura, evidencia o quanto Yves Saint Laurent era meticuloso, cuidadoso, extremamente artesanal até no trabalho de pensar a alta-costura, como era viver com ele, o quanto era uma pessoa na sua rotina de trabalho.

Outro filme que destaca o caráter humano de um estilista, que será exibido no festival, é The Wars of Coco Chanel, que evidencia como a vida de Coco Chanel foi muito além do glamour. A produção mostra uma visão caleidoscópica da francesa, o quanto ela era genial e também uma figura controversa.

A indústria da moda

O festival tem por objetivo, também, mostrar que a moda é mais que alto padrão e alta-costura. Os filmes procuram ampliar a visão sobre o assunto ao expor o quanto a indústria têxtil modifica a dinâmica de um lugar, polui a natureza, impõe um novo modo de vida e precariza as condições de trabalho. As produções Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar e Machines abordam a indústria têxtil e propõem debate sobre sustentabilidade e o futuro de uma das indústrias que mais poluem no mundo, depois da petrolífera.

Em contraposição a essa realidade, o filme Cambodian Textiles faz repensar a moda e o modo de produção, o consumo, a valorização do estilo de vida para além da moda, por meio do movimento slow fashion, ao retratar a produção de seda feita a mão no Camboja.

– Para além da criação, a moda tem essa função de movimentar indústrias. É um dos setores que mais emprega no Brasil, responsável por criar uma cadeia produtiva. A moda tem esse papel de repensar como a gente lida, hoje mais do que nunca, com o nosso mundo, com o meio ambiente, muito para além de questões politicamente corretas, mas por questões práticas – acredita Flavia.

Polo da moda

O evento Feed Dog, que nasceu em Barcelona, na Espanha, em 2015, aporta em Belo Horizonte, pela segunda vez, em razão da vocação da cidade, que tem criadores projetados nacionalmente e pela tradição artesanal que ainda preserva, a exemplo do bordado, da costura e do tricô.

A escolha da capital mineira para sediar o evento, segundo conta o diretor artístico e curador Marcelo Aliche, não foi por acaso. A organização encontrou aqui parcerias importantes para a consolidação do projeto como o Museu da Moda, o Sesc, a Riachuelo e o Centro Universitário Una.

– Belo Horizonte é um polo de moda muito importante no país. Tem uma tradição de criadores, de indústria de moda. Isso é muito importante, pois traz consigo uma sociedade já inserida nesse debate. É muito bom encontrar pessoas que podem debater o assunto – avalia Aliche.

O evento ainda realiza a exposição “Alfaiarte”, idealizada pelo alfaiate mineiro Marcelo Blade, em cartaz no Museu da Moda (Mumo) até o dia 27 de outubro.

Ingressos: Todos os filmes e debates têm acesso gratuito, com retirada de ingressos com 30 minutos de antecedência.

Programação completa e inscrição para as oficinas no site: http://br.feeddog.org

 

*(A estagiária escreveu a reportagem sob a orientação do jornalista Felipe Bueno).

 

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A praça da Liberdade e toda a região centro-sul de Belo Horizonte, em função da concentração de museus, teatros, cinemas, agências de publicidade, redações de jornalismo, startups, é um dos maiores expoentes da economia criativa em Minas Gerais. Foto: Italo Charles.

O setor da economia criativa é o que mais cresce em Minas Gerais; as iniciativas público e privada ajudam a consolidar projetos das diversas vertentes da indústria criativa no estado 

Por Bianca Morais e Marcelo Duarte*

Minas Gerais é reconhecido como estado com economia voltada, predominantemente, para mineração e agropecuária. Porém, nos últimos anos, um novo modelo econômico vem se impondo. Conjunto de negócios baseados no capital intelectual, cultural e na criatividade que gera valor econômico e responsável por movimentar os setores da indústria criativa, a economia criativa ganha cada vez mais espaço.

A exemplo disso, de acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico de Belo Horizonte, Minas Gerais figura na segunda posição na geração de empregos da indústria criativa, com mais de 457 mil postos de trabalho, o que equivale a 9,84% das vagas formais do setor em todo o Brasil.

No total, o estado abriga mais de 63 mil empresas, que correspondem a 12% das empresas criativas no país. O setor gera R$ 788 milhões de renda mensalmente, apenas em Minas Gerais.

Ainda segundo o órgão, no cenário nacional, cerca de 4,6 milhões pessoas trabalham diretamente com a economia criativa, gerando renda mensal de mais de R$ 10 bilhões. São mais de meio milhão de empresas, das quais 98% são micro e pequenas empresas.

Segmentos da economia criativa 

A economia criativa é dividida em grupos e segmentos. São eles: Criações Funcionais, com a arquitetura; design; moda; móveis; publicidade; cultura, com atividades artísticas, gastronomia e patrimônio cultural; mídia, com audiovisual, edição/editorial e música; e tecnologia e inovação, com conhecimento e software.

Um dos ramos que vem ganhando espaço dentro da economia criativa em Minas Gerais é inovação e tecnologia. A economia criativa conquista espaço cada vez maior no Estado, fazendo com que ele se desenvolva nessa área, para diversificar sua economia e inserir o estado em um eixo de comércios e serviços criativos, para além das atividades que são já tradicionais.

Belo Horizonte possui mais de 104 mil empregos criados pela economia criativa, sendo o maior polo criativo de Minas Gerais (22,7% dos empregos do Estado).

Nos quatro grupos da economia criativa, BH é o município com maior número de empregos nas atividades criativas do Estado, com destaque para arquitetura, atividades artísticas, conhecimento, edição/editorial, música, publicidade e software.

É o terceiro maior polo criativo do Brasil (concentra 2,26% dos empregos nas atividades criativas).  Mais de 21% das empresas de BH desenvolvem atividades relacionadas à economia criativa, sendo 53,7% microempreendedores individuais.

A arquitetura é, do grupo de criações funcionais, a principal do estado. É o maior polo de Minas Gerais e o 3° do Brasil. Existem 2 mil estabelecimentos ativos e se concentram principalmente na região Centro-Sul.

Outra área muito reconhecida é a de tecnologia e inovação. É o segundo grupo mais representativo na economia criativa, ficando atrás apenas da cultura. Detém 31,8% dos profissionais criativos do município, mais de 17 mil. Seus dois segmentos, conhecimento e software, também se destacam como os melhores do estado.

Em 2017, as atividades criativas geraram em Belo Horizonte cerca de R$250 milhões em renda mensal. Em Minas Gerais, outra área que também se destaca é a gastronomia. Com 21,39 mil profissionais em Belo Horizonte, (92,4% dos profissionais de Cultural da capital), é o maior polo de Minas Gerais e o terceiro maior do Brasil (em termos de número de profissionais). Concentra 23,3% dos profissionais de gastronomia de Minas Gerais e 2,4% dos profissionais de gastronomia do Brasil.

Ler também:

Cozinha afetiva: os sabores de Belo Horizonte em destaque

Interior

A Economia Criativa não está concentrada apenas na capital, Juíz de Fora, Uberlândia, Contagem e Nova Serrana estão entre os os cinco municípios mineiros que concentram a maior quantidade de empregos da economia criativa. Um exemplo disso vem do segmento de cultura, atividades artísticas, em que o maior polo se concentra na cidade de Santo Antônio do Monte,

Quebrando com formatos tradicionais de trabalho e diversificando a economia, Minas é visto, ainda, como um estado muito tradicional. De fato é, a cultura aqui ainda é conservadora, mas o setor criativo, e seus múltiplos talentos, têm tido um papel importante para romper com esses conservadorismos.

As perspectivas para a área são muito promissoras, há um tempo, tinha-se muito a ideia de que, para um projeto ir para frente, era preciso mudar para São Paulo ou Rio de Janeiro. Hoje, há uma valorização do local e a percepção de que temos potencial para fazer a diferença aqui e agora, de mudar o aqui, e não mudar daqui. A geolocalização do estado favorece: Minas tem o maior número de startups e iniciativas, a perspectiva é crescer e desenvolver ainda mais.

Áreas crescentes da economia

A partir do mapeamento das atividades que englobam a Economia Criativa, munido de dados e indicadores estatísticos, é possível se ter a noção dos resultados das ações desenvolvidas por determinados elos da cadeia criativa da cultura. Detecta-se que a quantidade de ações nas regionais centro-sul e leste, da capital mineira, é infinitamente superior às regionais como Barreiro, Venda Nova e Norte.

No estado de Minas Gerais, de acordo com o balanço lançado pela P7 Criativo, o audiovisual se desenvolveu muito na região da Zona da Mata mineira. Com os apoios recentes que foram dados, a região teve um conjunto expressivo de produções audiovisuais, que ativou muito a economia do lugar. Em Belo Horizonte, a produção de quadrinhos vira produções de cinema de animação.

Para Leonardo Guerra, diretor da P7 Criativo, uma das áreas que podem mais ser desenvolvidas na economia criativa é a área da moda, por conta da sua diversidade com que é trabalhada no estado. “Estamos tentando focar um conjunto de ações para fomentar esses grandes setores como o mercado de moda, que envolve uma cadeia produtiva extensa, onde tem a confecção, a indústria têxtil, a área de calçados, joias, couros e bijuterias, e a quantidade enormes de eventos de atividades em torno. Há uma carência de se criar valor agregado, que a longo tempo se perdeu a formação de profissionais que atuem em uma geração maior de valor, com produtos mais elaborados, públicos mais diversificados”.

Minas Gerais possui ainda, a única aceleradora de jogos digitais da América Latina – Playbor -, que está sempre desenvolvendo programas para estúdios iniciantes e funcionando como uma ponte entre academia, governo e indústria. Portanto, os jogos hoje são ferramentas importantíssimas que, com um objetivo estratégico bem definido, pode servir como um grande aliado para diversas áreas da economia criativa. Minas Gerais é referência internacional quando falamos sobre o ecossistema de startups e economia criativa. Temos atualmente alguns dos principais e melhores avaliados cursos de jogos digitais do Brasil, além de jogos de sucesso internacional, como Dandara e Mr Square.

O primeiro passo para a organização e amadurecimento do mercado mineiro foi a criação da GAMinG – associação mineira de jogos -, ao final de 2016, a qual tem como principais objetivos a organização das ações e contatos com o ecossistema mineiro e a busca de oportunidades de negócios para os estúdios.

Para João Guilherme Paiva – Co-fundador na Playbor e Diretor de negócios na GAMinG Jogos lúdicos, de treinamento e soluções gamificadas, as iniciativas têm se mostrado eficazes no aumento do engajamento de alunos, profissionais ou qualquer pessoa interessada, tornando o processo de aprendizado divertido e aumentado os resultados.

“Games, sendo um desses setores, tem uma peculiaridade em relação aos demais que é a horizontalidade de mercado, ou seja, jogos vão além do entretenimento e podem fazer parte de diversas outras categorias, como: jogos de advertising (advergames), jogos lúdicos educacionais, jogos sociais, soluções gamificadas e simuladores”, argumenta Paiva.

Cada vez mais, grandes empresas e instituições de caráter conservadores têm buscado jogos digitais e ou analógicos como ferramentas para a inovação e adaptação ao mundo moderno, principalmente quando querem atingir o público jovem.

“Um bom exemplo [do uso dos jogos digitais no mundo corporativo] é o case do Ministério da Transparência e da Corregedoria Geral da União, que nos procuraram para executar uma programa de aceleração que pudesse buscar formas e gerar soluções gamificadas para abordar temas como combate a corrupção, ética e cidadania. Na cultura, temos a Diretoria de Fomento e Economia da Cultura, que visa dar sequência às questões relacionadas à economia”, afirma Paiva.

P7 Criativo

O P7 criativo é uma associação público privada sem fins lucrativos, com o objetivo de se transformar numa agência de desenvolvimento da economia criativa no estado de Minas Gerais. Até então, a primeira iniciativa que existe no Brasil.

O objetivo da empresa é melhorar a comunicação e fomentação da economia criativa em Minas Gerais, podendo propor ações de desenvolvimento para áreas antes não contempladas.

O P7 está instalado na Avenida Afonso Pena 4000. Futuramente, será instalado no prédio icônico do antigo Banco Mineiro da produção na Praça Sete, que está sendo restaurado. Os 25 andares vão abrigar várias empresas, que são de pequeno porte, cerca de 300 posições de coworking, com o objetivo de fomentar setores da economia criativa.

“Há expectativa para economia criativa e para essa agência fomentar setores e alavancar as vendas, abrangendo não só o estado”, pontua o diretor Presidente da P7 Criativo, Leonardo Guerra.

O setor cultural é fundamental para economia criativa no estado, gerando aproximadamente 5 mil vagas de emprego. “Sem dúvida alguma, o setor cultural – incluindo a gastronomia – é de fundamental desenvolvimento para o município. Hoje, temos mais de 30 festivais consolidados no município, além de outros 180 que ocorrem esporadicamente. Os projetos financiados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura geram aproximadamente 5 mil empregos na capital, além de ampla movimentação”, revela Guerra.

O presidente da P7 Criativo ainda destaca o turismo mineiro e belo-horizontino como expoente da economia que move a cultura e a cadeia criativa local. “Creio que o potencial de turismo cultural do município só tenda a ser mais desenvolvido ainda, ampliando o conceito de serviços e comércio no município. O Carnaval é um grande exemplo”, sustenta.

Na Secretaria de Cultura estadual, pela primeira vez, Minas Gerais tem uma diretoria que contempla a economia da cultura, assunto antes tratado de maneira não sequencial. A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) acompanhou a espontaneidade do Carnaval, fortalecendo-o institucionalmente, gerando condições para que a festa crescesse de maneira organizada e segura.

Além disso, a Lei Municipal de Incentivo à Cultura, por exemplo, também contemplou, no último ano, alguns projetos relacionados à folia, ou seja, além das ações da Belotur, a cultura também visa atuar de maneira transversal e fortalecer o Carnaval.

Uma dos maiores desafios que a Economia Criativa enfrenta é o associativismo em tempos de problemas de geração de emprego no século XXI. “Olha, a economia tem vários desafios. Um deles é o associativismo, de  pessoas que atuam nesse setor, em vários segmentos com baixos níveis de associação e até os que têm o nível maior existe uma dificuldade que a central de fragmentação de ações. O que se pretende com isso é promover e entender essas dificuldades e atuar no sentido de atenuar isso e fortalecer esses segmentos, seja estimulando o associativismo criando canais de comunicação com o governo ou até consolidando ações que estão fragmentados para alguns”, observa.

Savassi Criativa 

A Savassi é um dos bairros mais conhecidos da capital mineira e abriga bares, lojas, baladas, empresas, espaços culturais. Dos treze segmentos dos grupos da economia criativa, dez se encontram na região da Savassi.

A Savassi Criativa é um movimento de iniciativa cidadã que atua para o desenvolvimento da qualidade de vida do bairro levando em consideração sua importância história e cultural, seu ecossistema criativo e sua população diversa.

Segundo Natalie Oliffson, vice presidente do projeto, a savassi é por vocação “o distrito criativo” de Belo Horizonte. Um verdadeiro hub onde se encontram empresas e profissionais de todos os campos da Economia Criativa.

Para a consultora em marketing, a economia criativa é flexível e inclui iniciativas que vão além da área cultural. “No Brasil, o conceito de Economia Criativa está sendo assimilado por governos e mercados, e pessoalmente acredito que quando compreendermos nossas forças nestas áreas poderemos dar um salto em desenvolvimento”, acredita Natalie.

A Economia Criativa e o Projeto Savassi Criativa se relacionam seguindo dois preceitos como ferramentas: O FIB (Felicidade Interna Bruta) como filosofia e a Economia Criativa. Na visão de Natalie Oliffson “A Savassi é uma das regiões da cidade onde a Economia Criativa já está presente, sendo uma vocação natural e um posicionamento.” Por isso, o movimento já se articula junto aos órgãos municipais e estaduais para promover o reconhecimento da Savassi como um ‘Distrito Criativo’ a fim de que possam se desenvolver políticas públicas neste sentido.

Em tempos de desemprego em curva ascendente, a economia criativa aparece como uma alternativa para diminuir esses números. O estado de Minas Gerais vem avançando muito nessa área e desenvolvendo muitos estudos sobre o assunto. Atenta ao crescimento da economia criativa, a PBH vem investindo muito no setor, os dados utilizados para desenvolvimento dessa notícia foi cedido por eles com informações que levantam a algum tempo, mostrando dessa forma como tem sido dada uma atenção especial.

Em 2018, foi criado o Horizonte Criativo, um projeto estratégico intersetorial da Prefeitura de Belo Horizonte com o objetivo de oferecer o ambiente adequado para que as atividades criativas possam prosperar em Belo Horizonte. Exemplos como a Semana de Moda de Belo Horizonte, o programa de incentivo fiscal para empresas de base tecnológicas (Proemp), a candidatura como cidade criativa da Unesco (em gastronomia), o programa de incentivo ao audiovisual (BH nas Telas), reforçam a ideia do crescimento.

*(Os estagiários escreveram a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).