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Em ambientação lúdica, o curso de gastronomia e de design de ambientes da Una, juntamente com o curso de design da UFMG, promoveram jantar que remete à infância. Foto: Divulgação.

Jantar promovido no Centro Universitário Una, no último dia 5, resgatou as memórias afetivas de convidados através de pratos e brincadeiras que remetem à infância

Por Moisés Martins*

Sentar à mesa e fitar o prato de comida é um dos rituais mais antigos e capazes de conduzir-nos, por meio da memória afetiva, ao passado, a momentos felizes da nossa vida. Por mais simples que seja a mesa, por mais comum que seja o alimento, esta é uma das chaves que acessam em nossa mente o que há de melhor. É com este propósito, o de reavivar experiências como esta, que alunos do curso de gastronomia e de design de ambientes do Centro Universitário Una, juntamente com o curso de design da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizaram na última quarta-feira, dia 5 de dezembro, um jantar especial, sob o tema “Sabores da Infância”.

A noite se iniciou com a leitura de um poema do escritor Manoel de Barros (1916–2014). A aluna do curso de design da UFMG, Mariana Guimarães, declamou o primeiro poema, extraído do livro Poemas Rupestres (2004):

“A turma viu uma perna de formiga, desprezada, dentro do mato. Era uma coisa para nós muito importante. A perna se mexia ainda. Eu diria que aquela perna, desprezada, e que ainda se mexia, estava procurando a outra parte do seu corpo, que deveria estar por perto. Acho que o resto da formiga, naquela altura do sol, já estaria dentro do formigueiro sendo velada […]” (BARROS, Manoel — 2004).

 

A poesia parte de algo frívolo, de uma brincadeira de criança, para resgatar a preciosidade das memórias da infância. A intenção era, desde o princípio, assim como Manoel de Barros, com maestria, transitar entre a realidade e o onírico, em um jantar embebido de poesia.

O jantar tinha como finalidade maior conduzir a todos os comensais, através do paladar e da experiência dos sentidos, a uma viagem profunda à infância.

O ambiente todo era de um clima muito agradável. As luzes da sala, em tom de amarelo, traziam ao lugar uma sensação de aconchego. Além, claro, de dar aos pratos melhor aspecto e visibilidade. Nas paredes, frases do escritor e desenhos feitos a mão traziam leveza e despertava nos convidados o lado mais lúdico.

O primeiro prato então chegou à mesa. Mas não pratos convencionais, aqueles de louça ou vidro como costumamos ver por aí. Eram, na verdade, esferas de acrílico, transparentes, ligadas a um cordão. Eram cinco esferas em cada bandeja servida, com cordões pendendo em uma das extremidades, completamente embaraçados. Como que em uma brincadeira, cada convidado teria que escolher um fio, para assim saber qual salada seria a sua.

Após cada convidado escolher seu respectivo fio, ele ainda teria que abrir o recipiente. A esfera, com a iguaria dentro, se abria ao meio, ao se retirar uma fita adesiva. A surpresa, ao retirá-la, atingiu a todos. A fitas continham ilustrações de formigas, como na poesia de Manoel de Barros, que remete às brincadeiras de criança e o fascínio pelos insetos.

Os convidados ficaram encantados com o modo em que o prato de entrada foi servido, uma maravilhosa salada feita com mamão verde, cenoura, pasta tailandesa e esferas de mostarda e mel.

À medida que os pratos eram servidos, cada um dos convidados à mesa tinham uma experiência estética com o prato e, até mesmo, resgatavam uma memória afetiva, que remete à infância.

Os idealizadores do jantar, propositalmente, diluíram poesia e memórias a cada apresentação, a cada prato.

O chefe Adriano Vilhena, em dado momento, pediu um minuto da atenção, enquanto eram servidos aos convidados aquele ossinho em forma de forquilha que se encontra no peito do frango, chamado de fúrcula. O mestre, então, disse que o prato teria que ser disputado através dessa velha brincadeira. Quem é que, durante a infância, à beira de um fogão a lenha, não apostou/disputou algo, com um irmão ou primo, através do osso da galinha?!

As reações e o entusiasmo dos convidados, diante da proposta, tornou o jantar ainda mais descontraído. E para que todos saíssem felizes, na aposta com o osso, em que quem tira a parte maior ganha, todos ficaram com partes do mesmo tamanho. Após a disputa foi servido o Trio de Frango, composto por sobrecoxa temperada, tulipa de asa na brasa, espetinho de coração com farofa.

Na sequência, o chefe Adriano, mais uma vez, propôs uma brincadeira com as memórias afetivas. Ele entregou a cada convidado um vasinho de plástico com um galho de hortelã. À primeira vista, a impressão é de que, realmente, era um vaso com terra.

Enquanto o mistério não era desvendado, o jantar continuou. O prato a seguir, um pudim de leite queimadinho, foi servido faltando um pedaço.

“Mamãe, comeram meu pudim!!! ”

Espera! Estão cheirando o vasinho de planta? Comendo a terra do vasinho de planta? Como assim? Pensei que só na infância fossemos capazes de tamanha façanha. Calma, era mais uma pegadinha dos chefes da noite. Acreditem vocês ou não, não era terra preta, e sim um maravilhoso bolo de chocolate com creme de chantilly, feito pela aluna de gastronomia da Una, Tamyres Barbosa. O prato foi descoberto antes da hora, obrigando o chefe a explicar do que se tratava, mas já era tarde, todos já haviam comido a terra preta. Quer dizer, o bolo de chocolate.

Ainda restavam dois pratos para serem servidos, e as pessoas aguardavam ansiosas. O penúltimo prato foi nomeado como tortinha. Elaborado a partir de uma massa amanteigada, creme de legère, e, claro, mais brincadeiras. A tortinha vinha acompanhada de confetes, cremes especiais, e frutas picadinhas, com plaquinhas que diziam: brinque, experimente e descubra. Nesse instante, cada um colocou a criatividade e a criança.

“Para Refrescar”, um sorvete feito à base de rabanada, foi o nome do prato que encerrou a noite. Servido em um copinho com um palitinho de madeira, a intenção era de reproduzir a brincadeira que muitas crianças fazem ao congelar alimentos, na tentativa de fazer o próprio sorvete.

O chefe Adriano Vilhena, em agradecimento a todos, e com o sentimento de satisfação, em nome também dos profissionais que participaram da elaboração do jantar, despediu-se de uma maneira bastante reflexiva:

— A gente acredita muito que a cozinha une, que a cozinha é elo de ligação para uma série de coisas. O que a gente fez esse semestre foi só ligar o design, o design de interiores e a gastronomia, e uma série de outras ligações. Como estamos todos aqui hoje, a gente sugere que através da comida vocês façam isso constantemente na vida de vocês. A mesa une, a comida une, e isso é muito importante para gente – assegurou.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno). 

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Peça da coleção do aluno de moda da Una, Carlos Henrique Santos, evoca a diversidade. Foto: Divulgação.

Em evento que serve de vitrine, alunos do curso de moda da Una, que recebeu nota 5 do MEC, apresentarão as tendências do verão de 2019/2020 para o público e imprensa

Por Moisés Martins*

Coleção da aluna de moda da Una, Fernanda Maia, tem como inspiração a arquitetura e o ferro. Foto: Divulgação.

Inovação

Coleção de Carlos Henrique Santos foi inspirada no Museu Muquifu. Foto: Divulgação.

Prêmio da Moda Mineira

A 11ª edição do Prêmio Moda Mineira, em comemoração ao conceito 5 do MEC, será especial e somente anunciada no dia do evento. O prêmio ocorre semestralmente em cada edição do UNA Trendsetters e reconhece os profissionais do mercado mineiro que contribuem ou contribuíram de forma efetiva para o desenvolvimento da moda em Minas Gerais. E neste ano, a grande novidade é que os professores serão laureados com a premiação no dia do evento.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob a supervisão do jornalista Felipe Bueno). 

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Funk “Popotchão” traz forte crítica aos padrões sociais. Foto: Guilherme Jardim.

Lua Zanella lança funk “Popotchão”, influenciada pela sonoridade do gênero que estourou nos anos 2000; representante da Drag Music, Lua surfa na onda que tem levado Drag Queens ao estrelato

Por Patrick Ferreira*

“Meu movimento de luta, aquilo que busco destruir e incendiar pela visão de uma paisagem apocalíptica e sem remissão, é Minas Gerais. Meu inimigo é Minas Gerais. O punhal que levanto, com a aprovação ou não de quem quer que seja, é contra Minas Gerais. Que me entendam bem: contra a família mineira. Contra a literatura mineira. Contra a concepção de vida mineira. Contra a fábula mineira. Contra o espírito bancário que assola Minas Gerais. Enfim, contra Minas, na sua carne e no seu espírito. Ah, mas eu a terei escrava do que surpreendi na sua imensa miséria, no seu imenso orgulho, na sua imensa hipocrisia. Mas ela me terá, se for mais forte do que eu, e dirá que eu não sou um artista, nem tenho o direito de flagelá-la, e que nunca soube entendê-la como todos esses outros ⎯ artistas! ⎯ que afagam não o seu antagonismo, mas um dolente cantochão elaborado por homens acostumados a seguir a trilha do rebanho e do conformismo, do pudor literário e da vida parasitária. Ela me terá ⎯ se puder. Um de nós, pela graça de Deus, terá de subsistir. Mas acordado. ” (CARDOSO, 1960).

Evoco o manifesto do escritor mineiro Lúcio Cardoso (1912–1968), proferido em entrevista a Fausto Cunha, e publicado no Caderno B do jornal do Brasil em 25 de novembro 1960, para apresentar Lua Zanella, 22 anos. Ela é gay, drag queen, performer, cantora, e, sobretudo, um contraponto ao conservadorismo presente na tradição de Minas Gerais, apontada pelo escritor em suas obras, principalmente no romance Crônica da casa assassinada (1959).

Lua Zanella, para além de resistência, representa uma ruptura dos padrões sociais e artísticos. Em seu primeiro single, “Popotchão”, lançado nesta última quinta-feira, dia 9, e disponível nas principais plataformas digitais, a cantora belo-horizontina faz uma crítica ao padrão heteronormativo, presente também dentro da comunidade LGBTQ+.

A música começa com uma batida leve e se desenvolve com uma forte pegada funk, inspirado na sonoridade do ritmo que explodiu nas rádios nos anos 2000. Do tipo irresistível, é difícil não se render à batida de “Popotchão”.

O interesse da estudante de Cinema e Audiovisual pela arte despertou ainda muito cedo, aos 11 anos, quando aprendeu a tocar violino na igreja. Mais tarde, aos 15 anos, participou do Canto Coral, no programa do governo estadual Valores de Minas.

A cantora é representante de um estilo em ascensão no país, a Drag Music, uma das variações do pop nacional. Não é de hoje que as drag queens fazem música em todo o Brasil, mas foi com o estouro de Pabllo Vittar, em 2017, que elas saíram do gueto e conquistaram espaço em toda mídia.

Lua também flerta com outros estilos. No duo InMorais, formado com seu irmão, ela canta canções autorais com fortes influências da Música Popular Brasileira. O trabalho pode ser visto no canal do YouTube InMorais Oficial. Juntos, os irmãos venceram o Festival da Canção da PUC Minas, com a música “Riqueza Roubada”. Lua Zanella, agora, concentra suas atenções na carreira solo, no momento impulsionada pelo lançamento de “Popotchão”.

Acerca de seu primeiro voo solo, ela sente-se orgulhosa. Minas Gerais ainda não possui representantes da Drag Music com projeção nacional e Lua Zanella é a promessa do gênero. Em entrevista ao jornal Contramão, Lua revela as suas referências musicais e fala sobre seu trabalho.

Jornal Contramão: Em “Popotchão”, há forte referência do funk dos anos 2000. Dezoito anos depois, outra geração, o que te motivou revisitar esta sonoridade?

Lua Zanella: Meu amigo André, produtor do meu clipe, sugeriu colocar as cornetas que flertam com o funk da década passada, e me sinto muito motivada a trazer sensações nostálgicas para as pessoas. “Popotchão” também tem sintetizadores e uma estrutura em que tento referenciar o Pop dos anos 2000 e sua essência marcante, chiclete e dançante.

JC: No single, vemos uma crítica à heteronormatividade presente na comunidade LGBTQ+. Como surgiu a ideia dessa composição?

LZ: Vejo que, infelizmente, as manas afeminadas, antigamente chamadas pejorativamente de “Pocs”, ainda sofrem uma certa pressão e tentativa de limites dentro da própria comunidade LGBTQI. Quebrar padrões na canção é uma menção a quebrar barreiras, a mudar o mundo sendo você mesmo, a você incomodar tanto para que um dia não seja mais um incômodo.

JC: Como é a construção da imagem da artista Lua Zanella? E de que maneira a sua equipe está imbricada nisto?

LZ: A construção da imagem da Lua foi feita ao longo da minha vida, em experiências e vivências, no apoio da minha família e amigos e há uma equipe que está me ajudando em tudo, em ideias, conceitos, figurinos, arte, fotografia. O que está acontecendo na minha introdução à música se deve à essas pessoas, e eu sou extremamente grata. Guilherme Jardim, meu fotógrafo, André Castro, meu produtor criativo, Samuel Fávero, meu diretor de Arte e Mathaeus Tota, meu editor.

JC: O momento político-social, atualmente, marcado pelo conservadorismo, vem acompanhado de grande reação das minorias, historicamente oprimidas. Como você vê o enfrentamento dos artistas?

LZ: Vejo muita força e resistência nesse período cinza, porém essa é minha deixa para dizer que compus algo sobre essa nossa força. Então, aguardem!

JC: Qual é a recepção do público ao seu novo trabalho? LZ: Muito positiva, todas as pessoas estão dizendo que a música é pegajosa e não sai da cabeça e eu me sinto muito honrada por isso. JC: Quais são os projetos para o futuro?

LZ: Tudo que eu consigo pensar é em quantas coisas eu ainda posso oferecer através da arte. Na minha mente, surgem várias ideias o tempo todo, “Popotchão” é o pontapé inicial que eu tanto sonhei.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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Depois de eleita vereadora de Belo Horizonte, mais bem votado no pleito de 2016, Áurea Carolina, hoje, representa as mulheres na Câmara dos Deputados em Brasília. Foto: Lucas Ávila.

No Brasil, a representação política das mulheres saltou de 10% para 15%; popularidade baixa vem carregada de estigmas de décadas

Por Marcelo Duarte*

Há exatos 33 anos, o Brasil passou por um processo de redemocratização, e, mesmo depois de tantos anos e mudanças, as mulheres ainda não ocupam cargos políticos com a proporção devida. Elas representam aproximadamente 52% da população do país, mais da metade, mas a sua participação na política não chegava a 10%, de acordo com os dados compilados pela União Interparlamentar, que têm como base as informações fornecidas pelos parlamentos nacionais, até o dia 1º de setembro de 2018.

Nas eleições recentes, o percentual da participação da mulher na política aumentou, mesmo com a dificuldade que encontraram dentro do partido para terem suas campanhas financiadas. Segundo levantamento feito pela Campanha Libertas, que tinha como intuito dar visibilidade às candidaturas das mulheres, quase metade das candidatas mineiras não foram contempladas com recursos de seus partidos para realização de suas campanhas. O balanço feito mostra que apenas 53% delas receberam verbas dos diretórios estaduais ou nacionais das siglas.

No 1º turno das eleições 2018, que ocorreram no dia 7 de outubro, foram eleitas 77 deputadas federais, contra 51 em 2014. No Senado, que neste pleito tinha duas vagas por federação, foram eleitas sete deputadas, como em 2010. Junto às mulheres da bancada atual, que ocupam a vaga até 2020, foram eleitas sete senadoras, o que representa um total de 12 cadeiras num universo de 81.

Ainda de acordo com o balanço pela campanha Campanha Libertas, com base nos dados das últimas eleições para o legislativo, as mulheres finalmente alcançarão 15% de representação no Congresso Nacional, a partir do dia 1º de janeiro de 2019. O número representa um aumento de cinco pontos percentuais. Ainda que seja um avanço, uma conquista histórica, as mulheres enfrentam muitos desafios na construção da representatividade política.

A mineira Áurea Carolina é um contraponto a este cenário já desenhado e cheio de vícios. Nas últimas eleições municipais, em 2016, foi eleita vereadora de Belo Horizonte, a mais votada naquele pleito. Depois de ter conquistado uma votação expressiva para a Câmara de Vereadores da capital mineira, lançou-se como candidata a deputada federal, pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), por Minas Gerais. Foi a 5ª mais votada, conquistando mais de 162 mil votos, e irá representar, entre outras bandeiras, a das mulheres, na Câmera dos Deputados, a partir de janeiro de 2019.

Para Áurea, na política ou em qualquer outro campo profissional, as mulheres ainda enfrentam desafios para serem reconhecidas. “Nós mulheres enfrentamos problemas históricos seríssimos de não reconhecimento da nossa plenitude como pessoas capazes, que devem ser respeitadas e que devem estar em condição de igualdade com os homens. Isso é refletido nas mais diversas áreas, na saúde, na educação, no mundo do trabalho, na política. Muitas vezes, reproduzimos esse tipo de política, essa que nos obriga a falar mais alto para sermos ouvidas, que nos obriga a sermos duras para estarmos em pé de igualdade, mas aos poucos vamos mostrando outra forma de fazer política, a política do afeto e da convivência coletiva”, expõe Áurea Carolina.

Na corrida para a eleição 2018, a candidatura de mulheres para os cargos de deputados (as) estaduais e federais representaram 30%. Para o senado, governo de estado e presidência da república, o número foi ainda menor. Apenas 16% das candidaturas eram femininas.

Ainda de acordo com Áurea Carolina, a baixa proporção de mulheres nas esferas de poder institucional é uma consequência do sistema patriarcal, que produz a exclusão sistemática de mulheres das instituições políticas. “A questão se acentua quando falamos sobre mulheres negras. Nós somos sub-representadas nos espaços da política institucional: atualmente na Câmara dos Deputados, por exemplo, somos menos de 1% na Câmara dos Deputados. Essa é uma confirmação de como o nosso país é racista e machista”, pontua.

Histórico precisa ser mudado

Nos cargos municipais, nas eleições de Belo Horizonte em 2000, apenas 4 mulheres foram eleitas. Já nas eleições de 2016, mais de uma década e meia depois, o número de mulheres eleitas foi o mesmo, estagnado em quatro. Para a vereadora de Belo Horizonte, pelo PSOL, Cida Falabella, o machismo e a misoginia são estruturantes de uma Câmara Municipal. “O contrário é que é quase impossível ter alguma facilidade por ser mulher. A forma de organização do espaço, a disputa pelo microfone, o silenciamento dos colegas, tudo está muito ligado a esse universo macho, que não é nem machista, é macho mesmo, esse universo da virilidade, do que é ser homem, do que é ser um homem na política. Em contraponto, a relação com as outras mulheres, embora de campos políticos opostos ao nossos, é sempre uma relação de muito respeito, colaboração e escuta. Toda vez que nós estamos juntas, os homens chegam e perguntam ‘o que é que o clube da luluzinha tá fazendo?’ sendo que eles estão sempre agrupados e a gente nunca pergunta ‘e aí, como está o clube do bolinha?’. A gente tenta construir algo muito diferente disso e, para isso, temos que mostrar o tempo inteiro que somos pelo menos duas vezes mais capazes que um homem”, explana.

Em 2018, em todos os partidos, as mulheres são minoria, inclusive no Partido da Mulher Brasileira, o PMB. Essas dificuldades no Legislativos e Executivos são ainda maiores, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, entre 77 cadeiras, apenas seis são ocupadas por mulheres. “É muito importante incentivar as mulheres a ocupar os espaços políticos institucionais e apoiar essa escolha cotidianamente. Acredito que a população brasileira também tem enxergado isso e percebido que as mulheres têm a mesma capacidade que os homens para ocupar os espaços de poder que, por centenas de anos, foram um espaço exclusivamente masculino”, comenta Áurea Carolina.

Durante o período que compreende o primeiro mandato da ex-Presidenta Dilma Rousseff, entre 2010 e 2014, houve um aumento de aproximadamente 13% no número de mulheres se candidatando. Em 2016, após seu impeachment, esse número voltou a cair. Áurea Carolina acredita que a deposição de Dilma, um golpe em sua opinião, produziu no imaginário que as mulheres não têm capacidade de estar na política ou de fazer um bom trabalho como agentes públicas.

“Com o golpe, criou-se uma associação de que a Dilma foi uma presidenta incompetente, incapaz e corrupta. Esse pensamento está presente no senso comum, mas estamos confrontando isso nestas eleições e intensificando as campanhas para que mais mulheres estejam nesta empreitada. É necessário que as mulheres ocupem os espaços de poder, pois é justamente por conta dessa violência machista que a presidenta Dilma foi atacada. Têm surgido muitas iniciativas nesse sentido, com a candidatura de mulheres, negras, indígenas, quilombolas, lésbicas, bissexuais e transexuais para a política institucional”, exemplifica Áurea Carolina.

A pauta sobre representatividade feminina abre espaço também para pensar em outros grupos de minorias que não se sentem representadas politicamente. A sigla LGBT, por exemplo, vem tentando romper essa barreira e construir uma representação nas diversas esferas da política.

Transpondo barreiras

As eleições de 2018 vêm rompendo várias barreiras. O número de pessoas transexuais candidatas para cargos políticos multiplicou dez vezes em relação à última eleição, em 2014. Só neste ano, foram 55 candidaturas, aponta lista divulgada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

A secretária de articulação política da Associação Nacional de Transsexuais (ANTRA) e membro da diretoria da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), Bruna Benevides, destaca o ineditismo e a necessidade de pessoas transexuais ocuparem os espaços institucionais da política. “A importância de ter pessoas trans e travestis nos lugares de poder é principalmente para que possamos ocupar lugares que antes não eram possíveis para nossa população e principalmente para pontuar as demandas e as políticas públicas necessárias para o resgate da cidadania e pensando em questões de representatividade, legitimidade e pertencimento, que quem vive com essas situações pode de alguma forma refletir de ações e medidas para o combate dessas violências e violações”, argumenta.

O partido que mais contém candidaturas de pessoas transexuais e travestis é o PSOL, com cinco representantes em 12 estados; seguido por PT e PCdoB com cinco candidaturas em quatro estados cada; e PMB, com quatro candidatas em três estados. As eleições 2018 trouxeram duas candidaturas a deputada distrital pelo Distrito Federal; 17 a deputada federal; e 32 a deputada estadual, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Erica Malunguinho da Silva, mulher, negra, natural de Pernambuco, foi a 1ª transexual eleita deputada estadual em São Paulo. No total, três deputadas estaduais trans foram eleitas, todas do PSOL.

A professora de literatura Duda Salabert, primeira candidata travesti ao senado fala sobre a importância de termos grupos, que são dados como minorias, conquistando alguns cargos na política. “Historicamente, o senado é ocupado por senhores mais velhos. A idade mínima para pleitear esse cargo é 35 anos, que a idade de expectativa de vida de uma travesti no Brasil, dando a entender que não é um cargo feito para travestis. E esses 35 anos tem um valor muito simbólico para nós, e mais do que isso, o senado é ocupado por senhores mais velhos que têm o papel simbólico de moralizar a sociedade, e aí entra mais uma questão, o meu corpo, e o corpo das pessoas trans é lido tradicionalmente como imoral, então nós vamos rivalizar um conceito de moral, um conceito de política e um conceito de ética, para propor de fato uma nova forma de construir política e colocar em choque com esse modelo antigo”, defende.

Com o efeito da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que garantiu direitos constitucionais ao grupo, os candidatos transgêneros puderam usar o nome social na urna eletrônica e participar da cota feminina dentro dos partidos.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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A cineasta Ana Carolina Teixeira Soares no set de filmagens

Em entrevista exclusiva ao jornal Contramão, a diretora Ana Carolina Teixeira Soares revela o nome do seu novo projeto e rememora sua trajetória no cinema

Por Rebeca Francoff*
Aluna do curso de Cinema e Audiovisual

“Vão à luta!”. Esse foi o conselho da diretora Ana Carolina Teixeira Soares para jovens realizadores de cinema no Brasil frente ao atual período político e cultural do país. Nascida em 1945, em São Paulo, Ana Carolina, independentemente do momento, revela, ao longo da carreira, ser uma artista por excelência, resistente e irreverente. As suas obras destacam-se pela coragem, personalidade e escolhas cinematográficas inventivas.

Em entrevista ao jornal Contramão, a cineasta Ana Carolina expõe, com fluidez, o que pensa sobre política, influências, possibilidades cinematográficas e reflexões acerca da trilogia Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa. Na conversa, a diretora também revela o nome do próximo projeto, “Paixões Recorrentes no Atlântico Sul”.

Realizadora cinematográfica há mais de quatro décadas, a produção de Ana Carolina reúne obras emblemáticas como Lavra-dor (1968), Getúlio Vargas (1974), Mar de Rosas (1977), Das Tripas Coração (1982), Sonho de Valsa (1987), Amélia (2000), Gregório de Mattos (2003), A primeira Missa ou Tristes Tropeços, Enganos e Urucum (2013). Ana Carolina Teixeira Sores também dirigiu óperas, escreveu peças de teatro e livros.

JC: Ana Carolina, você acredita em qual tipo de cinema?

AC: Querida, eu sempre acreditei somente em bons filmes!

JC: A trilogia Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa são produções cinematográficas precursoras de uma linguagem bastante particular. Filmes extraordinários. Você poderia partilhar conosco algumas de suas influências?

AC: Confesso que em toda a trilogia, a narrativa desses filmes se apresentou, para mim, iminentemente pessoal, ou seja, fui realizando a tarefa de filmar apenas sentindo o que ocorria em cena. Eu não estava raciocinando, eu estava sentindo. No entanto, tenho consciência que, já naquela época, carregava paixões intelectuais e cinematográficas tais como Eisenstein, Resnais, Truffaut, Buñuel, Monteiro Lobato, Glauber Rocha, Gilberto Freyre, Gregório de Mattos e Nelson Pereira dos Santos.

JC: No movimento Cinema Novo, artistas tiveram a esperança revolucionária de lutar pela transformação política através da cultura. No decorrer dos anos, o movimento sofreu mudanças com a ditadura. O filme Mar de Rosas foi feito neste período de transição e é marcado pela dialética entre humor e dor, esperança e incredulidade. Como foi fazer filmes na ditadura? Quais as barreiras e os impulsionamentos na época?

AC: Por incrível que possa parecer… é exatamente igual a hoje. A dificuldade não estava no percurso de produção, a interdição crucial ocorria na exibição. A interdição era política. Hoje é mercadológica. À isso se dá o nome de incoerência histórica.

JC: Em Mar de Rosas, a mãe Felicidade, não é nem um pouco feliz. Ser mãe pode ser um desafio difícil. Como você enxerga a relação mãe e filha construída no filme?

AC: Não posso partir do princípio que todo mundo tenha lido Freud, ou tenha experiência psicanalítica, mas o que importa é estarmos atentos a todas as características humanas, cruéis, exasperadas e irracionais, que se apresentam nas relações de poder.

JC: Todos os seus atores ganham uma proporção enorme na tela. No filme Das Tripas Coração é quase difícil falar quais são os personagens principais. Em Mar de Rosas, a personagem representada por Norma Bengell chama muita atenção. Não conseguimos imaginar o papel sendo representado por outra pessoa. Quais foram os seus critérios para a direção de atores e para a escolha dessa atriz?

AC: Nenhuma escolha importante na vida obedece a critérios objetivos. As melhores e mais importantes são feitas pelo coração. Brecht e o Teatro do Absurdo sempre ajudam!

JC: O ator Antônio Fagundes é também alguém bastante marcante e enigmático em Das tripas Coração. Quais foram as motivações para a escolha dele como o interventor sob a ótica do sonho para retratar os desejos recalcados das personagens?

AC: O Fagundes é um grande amigo e um grande ator! É um ator consciente e colaborativo! E nós sabemos que, em determinada etapa da nossa vida, tentamos nos “enquadrar” nos sonhos masculinos.

JC: O som cumpre papel valoroso em seus filmes. Gostaríamos de saber sobre a escolha da potência confusa dos diálogos e músicas cantadas pelas personagens. Como, por exemplo, na cena em que Felicidade canta em inglês no carro ou nas cantigas entoadas pelas estudantes em Das Tripas Coração. O que pretendeu atingir com esses trabalhos sonoros? Além disso, como o piano é visto em Das Tripas Coração?

AC: Sempre dediquei muito cuidado e muito trabalho na dramaturgia sonora dos meus filmes, conhecendo bem a grande importância do Som em matizar melhor as diversas nuances dos sentimentos presentes em cada cena. O piano é um personagem! Na verdade o piano é o estorvo social que nos oprime!

JC: Em Das Tripas Coração, a repressão e a liberdade, a felicidade e a tristeza vivem em extremos no espaço escolar. Poderia discorrer um pouco sobre as instâncias de poder e esses corpos vigiados que gritam por liberdade?

AC: O filme se passa dentro de um colégio interno, onde as alunas adolescentes demonstram, claramente, aos gritos, e desobediências incessantes, a força do poder repressor. Ora, não é o personagem do interventor, o homem que adormece e sonha que detém o poder destruidor? Você ainda não acredita que o sonho de poder é dos homens e das mulheres?

JC: Qual a sua opinião sobre as produções cinematográficas brasileiras de hoje? Há realizações que lhe interessam?

AC: Citando Paulo Emílio, “O pior filme brasileiro sempre será melhor do que o melhor filme estrangeiro”! Não tenho acompanhado a produção cinematográfica brasileira atual, mas posso lhe dizer que gostei muito dos últimos filmes brasileiros que assisti.

JC: Enfrentamos panorama sombrio para as políticas culturais neste momento do país. De que maneira você acha que isso pode influenciar o cinema brasileiro? Há algum conselho para jovens homens e mulheres que queiram se tornar realizadores de cinema?

AC: Qualquer panorama político e cultural vivido por uma nação, sombrio ou não, influencia a criação artística. Seja ela qual for. Os verdadeiros criadores são antenas a serviço do bem-estar da sociedade contemporânea. Você deve saber que os conselhos existem para não serem seguidos, mas sempre é de bom alvitre pelo menos escutá-los! Portanto, vão à luta!

JC: Como você tem acompanhado o contexto político atual, caracterizado por uma onda conservadora crescente? Você acredita numa possível repetição do passado?

AC: A história não se repete! Se ocorrer, não terá esse nome, não será aquela que já vivemos. Temos que estar atentos para descobrir como reagir. Acredito que viveremos uma atmosfera que favorece o recolhimento. Vamos trabalhar em silêncio por algumas conquistas que julgávamos imprescindíveis.

JC: Você fez filmes críticos sobre ditadura militar e viveu esse período. Vale lembrar que vivemos um momento em que várias pessoas querem uma intervenção militar. Como você encara isso?

AC: Querer não é poder! Temos que aprender a viver, no fácil e no difícil, para cumprir aquilo que temos de fazer. E aí, fazendo, fazendo, está feito!

 

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ulysses Guimarães declara promulgada a Constituição de 1988. Foto: Fernando Bizerra.

A Constituição brasileira completa 30 anos e revela desafios que a sociedade ainda precisa transpor em direção a igualdade de oportunidades e efetivação de direitos

Por Patrick Ferreira*

A sociedade brasileira anseia por mudanças. Cada um, com suas convicções, grava um vídeo, por meio de um celular, e diz o que espera para o futuro do país. Quando não havia meios de comunicação tão dinâmicos como hoje, mais precisamente em 1986 e 1987, os cidadãos foram consultados sobre a elaboração da Constituição, que completa 30 anos em 2018. O Contramão acessou o acervo da Câmera dos Deputados onde estão arquivadas 72 mil cartas enviadas por leitores de todo Brasil.

Após a distensão política, que deu fim ao regime militar, era preciso imprimir à política brasileira aspecto mais moderno, que assinalasse uma ruptura definitiva com o passado antidemocrático, através de uma Carta Magna. Em 1986, foram disponibilizados, nas agências dos Correios, formulários para que a população pudesse expressar a opinião sobre a criação de um novo projeto de nação. As correspondências, na ocasião, foram enviadas ao Senado, em Brasília, com propostas para a elaboração da Constituição.

Mesmo depois de três décadas, a Constituição permanece atual e sinaliza os desafios que as diferentes esferas políticas têm de enfrentar para que direitos da população sejam assegurados.

No entanto, muitas discussões geradas em torno da Constituição, promulgada em 5 de outubro de 1988, ainda estão latentes na sociedade. O apelo da moradora da cidade de Pirapora, em Minas Gerais, Helena Ferreira dos Santos, enviado por meio de uma carta ao Senado, é de que as empregadas domésticas passassem ter seus direitos garantidos como qualquer outro trabalhador:

“Sugiro que nesta Constituinte vigore uma Lei que estabeleça benefício às mulheres Domésticas, pois as mesmas trabalham a vida inteira e não recebem nenhum benefício, morrem desamparadas. Sugiro que os Direitos Humanos sejam ressuscitados nesta Constituinte”.

O pedido de Helena foi atendido 25 anos após a reivindicação, em 2013, com a Emenda Constitucional 72, mais conhecida como a PEC das Domésticas (PEC 66/2012), que regulamenta o trabalho doméstico com 8 horas diárias, 44 horas semanais de jornada e com direito a hora extra.

Os direitos trabalhistas, queixas recorrentes, foi o ponto levantado por José Siqueira Sobrinho, de Taciba, São Paulo. Ele defendeu que a aposentadoria fosse facilitada para o contribuinte.

“Que a aposentadoria em geral volte a ser para os homens, por tempo de serviço máximo de 30 anos, por idade de 60 anos; para mulheres e trabalhadores em insalubridade, seja o máximo de 20 anos de trabalho ou de 55 anos de idade. Isto porque, atualmente no Brasil, às vezes, o atestado de óbito chega primeiro do que a carta de aposentadoria”.

O atual presidente da república, Michel Temer, pretende aprovar ainda no restante do seu mandato a proposta de reforma da Previdência. A idade mínima para a aposentadoria de trabalhadores privados passará para 62 anos para mulheres e 65 para homens. No caso de servidores públicos e categorias especiais como professores, policiais e trabalhadores submetidos a ambientes nocivos à saúde, a idade fixada será de 55 para mulheres e 60 para homens.

Assunto que requer atenção, a desigualdade de gênero ainda se mostra um desafio em várias áreas, sobretudo no mercado de trabalho. Segundo dados do IBGE, de março de 2018, as mulheres ainda recebem 25% a menos que os homens. Em 1986, Jeronyma Queiroz Ferreira, morada de Serranópolis, em Goiás, defendeu a pauta.

“Agradeço a oportunidade de poder dar minhas sugestões: bastaria que houvesse igualdade de salários. Por que as mulheres sempre ganham menos que os homens?”.

O mineiro de São João Del Rei, Celso Arcanjo da Silva, fez um apelo pela democratização do ensino superior:

“A minha sugestão é a respeito dos cursos superiores, eu acho que deveriam colocar as coisas nos seus devidos lugares. Um bom exemplo disso, são as faculdades federais que, dizem, são para alunos pobres, mas na realidade só entram para uma faculdade federal alunos ricos, pois os pobres não têm condições de estudar o suficiente para enfrentar os vestibulares das faculdades federais. Quem pega na enxada de dia e nos livros de noite, não tem condições de enfrentar estes vestibulares. E o que acontece é que fazem o vestibular em escolas particulares onde o preço é muitas vezes superior a um salário mínimo e aí ficam em má situação.”

Alguns projetos do governo federal como o Reuni, programa de apoio a planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), o Programa Universidade para Todos (Prouni) e as cotas raciais, promoveram, nos últimos anos, o acesso de milhões de brasileiros ao ensino superior. Ainda que haja muitos desafios nesse sentido, a camada de menos favorecidos ascendeu por meio dos programas de inclusão nas universidades.

A corrupção sempre foi assunto presente na sociedade. Joaquim Teixeira, de Tabosa, no Ceará, apenas um ano depois do fim da ditadura militar, pede fiscalização mais rígida para autoridades políticas e militares.

“Gostaria que houvesse uma fiscalização rígida e punição às autoridades que desviam dinheiro público. Que haja uma fiscalização na declaração de renda dos prefeitos e familiares – anual. Que os militares sejam punidos pelos seus crimes e não apenas excluídos das corporações, lhes dando possibilidades de continuarem livres, para mortes, assaltos, estupros, etc. Que os delegados e soldados deem realmente segurança ao povo e não batendo nos pobres presos, para satisfazerem seus instintos, confiados na farda que usam.”

Ainda que muitos casos de corrupção, envolvendo políticos brasileiros e empresas, invadam hoje os noticiários, o governo federal investiu nos últimos anos no fortalecimento e autonomia do Ministério Público (MP) e da Polícia Federal (PF).

O respeito à diversidade sexual, outro tema sensível à sociedade brasileira, foi pautado por um homem identificado apenas como Cláudio, de São Paulo, que escreveu:

“Que os homossexuais tenham seus direitos garantidos, que a nova Constituição apenas constate um fato e reconheça que nesse país existem, não um ou dois, mas sim milhares de homossexuais que são discriminados e humilhados por mentes conservadoras e atrasadas, os homossexuais são tão humanos quanto os outros, pagam impostos, e têm que ter seus direitos garantidos. Que a Constituinte o reconheça apenas.”

Desde 2011, o Supremo Tribunal Federal reconhece a união estável de casais do mesmo sexo. O mesmo tribunal vem sensibilizando-se com os direitos de transexuais e travestis, ao garantir o uso do nome social em documentos, inclusive no título de eleitor. De 2008 para cá, a redesignação sexual é uma realidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo com todos esses avanços, o Brasil é ainda o país que mais mata LGBTs no mundo. Em relatório produzido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), foram registrados 445 homicídios de LGBTs em 2017, 30% a mais que o ano anterior, que teve 343 casos.

A Constituição brasileira, umas das mais elogiadas do mundo por dar devida atenção aos direitos humanos, foi elaborada com a intenção de promover diálogo entre a população e o poder público, além de estabelecer os direitos e deveres de cada cidadão. A carta define os papéis e deveres dos cidadãos, bem como a função do Estado. Contudo, muitos desafios precisam ser transpostos rumo à efetivação destes direitos e promoção da igualdade.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).