A cor mais escura 

A cor mais escura 

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Por Bianca Morais

Há alguns dias estava na internet assistindo resenhas de bases para pele tentando encontrar a ideial para mim. Minha maior preocupação era um produto que fosse de boa qualidade, não transferisse para a roupa e de longa duração, enfim, pontos que achava relevantes. A cor não foi um problema, a maioria das blogueiras brancas que encontrei, resenhavam uma base e davam mais dois ou três exemplos de cores que também cairiam bem para quem tivesse o tom de pele parecido com o delas. Minha pele é clara, por isso, sempre existem diversas opções para mim.

Nessa de assistir vídeos me deparei com um youtuber, Tássio Santos, e um título que me chamou muito a atenção: “A cor mais escura”. Nas resenhas o maquiador testa o produto mais escuro de uma marca e emite sua opinião. De início assisti a um dos vídeos que, na minha opinião, foi um dos mais polêmicos do canal, uma resenha sobre a base da blogueira de maquiagem Bianca Andrade, a Boca Rosa. Com milhões de seguidores, ela, que tem um importante papel de influenciadora e que deveria prezar por representatividade, falhou miseravelmente no catálogo de cores de sua linha.

O vídeo apresentado por Tássio tem como modelo Joyce, sua amiga, negra de pele retinta, e é na pele dela que são testadas as maquiagens. Já comecei o vídeo um pouco revoltada ao descobrir que o lançamento da marca foi feito apenas com as cores mais claras da linha, e como a cor mais escura ainda não tinha ficado pronta, ao invés de esperarem, simplesmente optaram por lançar sem e depois colocariam no mercado. Ou seja, a inclusão e a preocupação com as pessoas negras se quer foram levadas em conta. 

A base da linha Boca Rosa Beauty ainda traz diversos problemas e um dele é visivelmente a propaganda enganosa. Quando procuramos imagens da base da internet, a que aparece é de uma cor bem escura, porém quando vemos testada na pele de Joyce, é perceptível que não tem nenhuma semelhança, e na realidade, é muito mais clara. Ou seja, a Joyce, assim como milhares de outras brasileiras negras retintas, não são representadas. 

As preocupações que eu tinha sobre uma base se tornaram fúteis quando assisti aquilo, porque enquanto eu estava preocupada em achar uma base boa eu percebi que existem pessoas que não conseguem encontrar base nenhuma, porque não existe um produto que se encaixe no tom delas. É o racismo estrutural instalado na sociedade, “Preto é tudo igual”, então se uma cor serve para um, serve para todos. Errado!

“Se não tem base para Joyce não tem para mim”, Tássio ressalta isso em praticamente todos seus vídeos de seu canal e quando terminei de assisti-los resolvi seguir seu conselho, perdi qualquer interesse em adquirir um produto não somente da marca Boca Rosa Beauty, como de qualquer outra que não atende a diversidade. Vivemos no Brasil, um país de várias cores e raças, logo uma marca nacional não se importar em lançar uma cartela de cores acessível é intolerável. Sempre ouvi falar bem do tal iluminador da Boca Rosa, mas não pretendo gastar meu dinheiro com uma marca que não traz na sua essência a representatividade.

Todos os anos, no dia 20 de novembro, é celebrado o Dia da Consciência Negra. Hoje, a internet está repleta de textos, vídeos comentando sobre o dia e pensei na melhor forma de abordá-lo. Me vi como uma mulher branca que não está no seu lugar de fala, mas que venho aqui para questionar essa realidade, mostrar um olhar crítico e abrir espaço para uma possível discussão. Meu papel como mulher branca é priorizar marcas que sejam inclusivas, é fazer o meu protesto todos os dias, mesmo que seja da forma mais simples, enquanto estiver maquiando o meu rosto. 

Blogueiras brancas que desenvolvem produtos para pele negra, não estão erradas em fazer isso, mas estão completamente equivocadas quando se dispõe a fazer algo que não vai atender a todos, sem pelo menos uma consultoria com alguém que tem poder de fala entre a raça. A indústria não valoriza a beleza negra, não são apenas essas blogueiras que agem irracionalmente, existe algo maior por trás delas, são as lojas que não compram as bases mais escuras para vender, grandes nomes como Payot que desenvolveu a base da Boca Rosa que não se preocupou em aumentar o número de cores, do empresário que não quis desembolsar verba para que ela fosse produzida. “A pobreza no Brasil tem cor”, e justamente por isso, muitas marcas não investem tanto em bases mais escuras com medo de não vender, de gastar dinheiro atoa. É um mercado preconceituoso e deplorável.

A questão “maquiagem para tons de pele negro” vai muito além da cor de uma base, outros muitos empecilhos podem ser apontados, outro exemplo, são as maquiagens das personalidades negras na televisão, ponto também comentando por Tássio em um de seus vídeos. Dependendo da base utilizada a pele negra fica acinzentada na televisão, são maquiadores que não usam produtos adequados para maquiar a pele negra e acabam deixando-as mais claras que deveriam, podemos observar isso com atrizes e jornalistas. Até quando existirá despreparo de maquiadores profissionais em maquiar alguém negro?

No final do vídeo de Tássio ele se desculpa pela fala magoada. Tássio não deveria pedir desculpa alguma, ao contrário, nós, a sociedade, a Boca Rosa Beauty, a Payot e todas as linhas de cosméticos preconceituosas que deveriam se desculpar com ele e com toda a comunidade negra que mais uma vez perde seu protagonismo, é calada, é diminuída.

O dia 20 de novembro não é apenas para se conscientizar, é para mudar. 

 

 

*Edição: Daniela Reis

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