Corra!: Ou fique e surpreenda-se

Corra!: Ou fique e surpreenda-se

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Por Bruna Valentim

Corra ou Get Out! no título original está concorrendo ao Oscar 2018 em quatro merecidas categorias, como melhor filme, melhor roteiro original, melhor ator para Daniel Kaluuya (Black Mirror) e melhor diretor para Jordan Peele (Key and Peele).

 

O filme conta a história de Rose (Alisson Williams – GIRLS) e Chris (Daniel Kaluuya), um jovem casal interracial que está prestes a embarcar em uma mini viagem de fim de semana, para que Chris conheça a família de sua namorada branca. Aparentemente uma família comum e democrata, todos são muito receptivos com o fotográfo e tudo vai bem até que aos poucos o mesmo começa a ter desconfiar da boa índole da família.

 

Corra é um filme de terror. Sabemos que algo está errado, mas não fazemos ideia de o que. Conforme o desenrolar dos acontecimentos, a aparente perfeição da família vai gerando dúvidas  acompanhamos a jornada de Chris em tentar descobrir o que está fora do lugar, tentando encaixar pistas a todo o segundo. É preciso estar atento, o filme nos joga dicas sutis em vários instantes.

 

Daniel Kaluuya está perfeito. Chris não é um personagem negro estereotipado, como acontece na maioria dos filmes em Hollywood, onde atores negros geralmente são colocados na posição do cara engraçado, o primeiro a morrer, o melhor amigo. Kaluuya se demonstra a vontade no papel do cada vez mais desconfortável e desconfiado Chris. O personagem é esperto e muito carismático faz com que torçamos por ele o tempo todo. Alisson Willians, que brilhou em Girls, com sua metódica e chata Marnie, entrega uma Rose, que transmite certa doçura, um senso de justiça misturado com timidez e em nada lembra a personagem que a colocou nos holofotes. O policial e melhor amigo do protagonista, interpretado com graça por Lil Rel Howery, é o alívio cômico do filme e uma peça chave ao ajudar Chris a juntar as peças do quebra cabeça. Catherine Keener e Bradley Whitford, pais de Rose também cumprem bem o papel do trama.

 

Jordan Peele teve dificuldade ao fazer o longa sair do papel, uma vez que nenhuma grande produtora demonstrava interesse na ideia, então o diretor juntou sozinho 4,5 milhões de dólares e produziu o filme de maneira independente, o retorno das bilheterias foi de 254 milhões de doláres. No Oscar Peele faz história, é o quinto diretor negro a concorrer pela melhor direção em 90 anos de premiações da academia,  o primeiro homem negro e o primeiro diretor estreante indicado a “tríplice coroa” de Melhor Roteiro Original, Melhor Direção e Melhor Filme (como produtor).

 

Mas por mais que os atores sejam excelentes, o verdadeiro protagonista de Corra! é o racismo. É um filme perturbador, pesado, incômodo, desconfortável, mas altamente necessário. É o tipo de filme que gera empatia com o personagem principal e identificação. É uma obra que pessoas negras estavam ansiando por ver nas telonas e as pessoas brancas não tinham noção do quanto precisavam assistir. É um tapa na cara com uma sensação reconfortante de vitória ao final.

 

Corra é impecável do início ao fim, tem um elenco talentoso e engajado com o projeto e uma direção acertada por trás que mostra o racismo de uma maneira que é necessário tê-lo vivido para fazer. A propriedade de Peele ao abordar o tema foi fundamental para o resultado extremamente maravilhoso  da produção. As cenas finais do filme certamente estão entre as melhores da história do gênero. Se eu pudesse dar um conselho a você que pretende assistir ao filme seria, fique onde estiver, durante os 144 minutos do filme e não corra! Valerá a pena.

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