#CRÔNICA: 1,00m x 1,60m

#CRÔNICA: 1,00m x 1,60m

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Foto retirada do site do Senac

A velha acordou em seu quarto sem janelas. Há três meses ela dormia com seus dois cachorros na esquina da Inconfidentes com Alagoas, foi pra Savassi depois do estupro. Lá ela podia dormir cedo, ter um pouco de paz, e até conseguia uns rolinhos primavera do restaurante japonês do outro lado da rua, às vezes.

Quando não chove ela monta seus papelões na calçada fora da marquise, do lado de uma pequena árvore, onde amarra seus companheiros. 1,00m x 1,60m é o espaço de privacidade que ela tem, pra se guardar junto de seus poucos pertences. E sabe-se lá até quando vão durar, um dia, mais uma vez, a polícia leva o que lhe resta.

De tanto sentir muito a velha não sente mais nada. O que lhe resta senão a espera agoniante do fim? Um dia, e mais um, e mais outro, as noites são tão longas quanto estes. Sua existência é tão sólida quanto o vento. Nem o desespero pulsante de seu ser a torna menos invisível, sem passado, muito menos futuro, não faz diferença. Sobrevive pela obrigação do medo da morte, mas o que será pior que a realidade que se vive minha velha?

A cidade traga o resto de sua energia, de minuto por minuto, de passo por passo, sem dó. A velha vaga por entre os concretos de outras vidas, de outros mundos, sente a sujeira que já faz parte de sua pele, ela é feita de pó, sangue para sangrar, carne pra rasgar, e solidão. Já parou de pensar faz tempo, e lembra mais ainda. De memórias ela se esgotou. A sua história se refaz a cada dia, o ontem não existe mais, família, amores, lugares, sonhos, nada disso importa. A vida a abandonou por que ela abandonou a si mesma. Agora a morte lhe chama e a velha, cansada, tem medo de se acalentar.

 

Por Gael Benitez

 

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