#CRÔNICA: Café Coado

#CRÔNICA: Café Coado

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Reprodução Blog Quero ficar rico

Ele tinha um apartamento velho que ficava na rua das flores número seis, se chamava Carlos e detestava esse número, ele era um homem do sete, quando comprou o apartamento, fruto de muito esforço, até tentou trocar o número, mas com tanta burocracia acabou desistindo.

Era dono de uma vida de desistências, já havia desistido da faculdade, namorada e também pensava em desistir do emprego, que não era ruim, pelo menos pagava as contas, que não eram muitas, mas desistiu também.

Ele vivia assim. De uma desistência atrás da outra, vivia bem, tinha tempo para os seus rituais. Todas as manhãs tomava um banho demorado e passava horas olhando a sua imagem refletida no espelho de pedra herdado de sua avó, se admirava por longos minutos e se aceitava com uma facilidade insuportável, ele era assim, até tinha pensado em lutar contra isso mas desistiu. No seu mundo de rituais demorados e desistências simples se recusar era inútil.

Gastava muitas horas do seu dia pensando nessa aceitação toda, achava que aceitando os problemas e desistindo deles os encarava, e ninguém se atrevia dizer que não, desistir era uma maneira de lutar, lutava tão bravamente que até se achava vitorioso.

Carlos não era homem muito popular, contava com poucas amizades, alguns dos amigos mais próximos às vezes passavam de surpresa na rua das flores. Visitas alegravam o anfitrião, mas no fundo de sua simpatia existia uma frustração que não se conseguia descobrir, mas se sentia cortante na pele, assim como Carlos nunca terminará um livro um visitante nunca se demorou mais que uma hora no apartamento número seis, talvez fosse o café sem doce ou qualquer coisa no humor frágil de Carlos que indicava que era hora de ir embora.

Assim o faziam, despediam-se rápido e já em pé no meio da sala cor de tijolos trocavam um afetuoso aperto de mão, era sempre assim e a vida seguia entre banhos demorados e visitas rápidas que estavam cada vez mais raras.

Na última quarta-feira de dezembro, sentando no sofá branco, bebendo café sem açúcar o homem moreno, de vinte e sete anos percebeu de súbito que a vida ia passando, ia passando enquanto segurava a xícara de café quente e engolia com esforço o café sem doce. A realidade do seu mundo se abateu sobre ele, ficou tudo tão claro, o café que ele bebia era ele, sem açúcar, forte e sem marca, quase sem vida, a realidade desses pensamentos fazia com que ele bebesse cada vez mais depressa em um ritual quase antropofágico e que doía na carne, a vida ia passando pelo número seis.

Largou a xícara e correu para espelho, encontrou um homem moreno de olhos castanhos e um rosto cheio de paixões. Descobriu surpreso que era feito de humanidades, sua matéria prima era gente, gente mesmo, de carne e imperfeição.

Voltou para a sala o café já frio, ele era um moço de brasis. Correu para cozinha, uma medida da garrafa, quatro colheres de pó e sete colheres de açúcar, enquanto passava a mistura sentia o cheiro forte da vida invadindo a casa, bebeu o líquido fumegante e se mudou para o apartamento de número sete.

Por Cássio Leonardo

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