Crônica: Do sonho como (única) indicação

Crônica: Do sonho como (única) indicação

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*Por Ingrid Moreira de Oliveira

Tamires, 25 anos, sempre teve vida muito boa no Brasil, por causa de seus pais. Apesar disso, ela não conseguia arrumar trabalho. Ou melhor, não conseguia subir de cargo, já que a maioria das empresas pede anos de experiências – e muitas delas só aceitam “indicações”.

Formada em Gestão de Recursos Humanos, Tamires concorreu confiante a uma vaga, pois sabia que tinha tudo para passar. No fim das contas, porém, eles escolheram o candidato que, apesar de não ter qualificação na área, havia sido indicado por alguém.

Ela, então, começou a desacreditar de si, e a se considerar incapaz. Após uma crise sentimental e emocional – nascida de um relacionamento que não deu certo –, e depois de um acidente que a deixou debilitada por seis meses, percebeu que não queria só aquilo em sua vida. Tamires desejava mais. Queria ser melhor. Precisava chegar a algum lugar por mérito próprio, e não por indicação.

Percebeu, pois, que não havia nada a perder. Apesar de morar no Brasil há 23 anos, ela não tinha absolutamente nada, fora sua família. O tempo passou, seus irmãos se casaram… E Tamires sentia que ficara para trás, como alguém sem valor algum. Sentia-se, além disso, um peso para os pais.

No dia a dia, Tamires fazia tudo que sua mãe queria. Em certo momento, percebeu que não desejava aquilo. Fazia tudo para deixar seus pais orgulhosos, apesar de as tentativas serem em vão, pois sua mãe sempre a comparava a várias pessoas. Ela nunca fora boa o suficiente. Por isso, resolveu que queria ser melhor, não importava o quanto isso custasse. E mesmo que tivesse de ficar longe da família. Ela queria ser valorizada.

A jornada começou! Tamires resolveu ir morar em Portugal. Sabia que poderia contar com a ajuda de parte da família paterna, já há algum tempo em solo lusitano. Ao aproveitar que sua tia estava no Brasil, pegou o dinheiro que havia juntado e foi viver em Amora.

Lá, por mais que as coisas fossem muito baratas – afinal, é possível viver bem com pouco –, Tamires sempre pagou aluguel, até mesmo na casa de seu tio. Além disso, desde que chegou, há um ano, tem trabalhado muito! E começou a fazer de tudo para progredir de vida. E, claro, para ficar legal.

Certos momentos ruins foram muito ruins, porém. Depois de três meses em Portugal, Tamires resolveu mudar de emprego, pois trabalhava 14 horas por dia. Pois não é que, naquele exato momento, teve um problema com o tio, por se intrometer na discussão dele com a esposa, já que não admite violência contra ninguém. Seu tio a expulsou de casa, e ela saiu dali sem nada. Seus outros parentes não tinham como ajudar. (Ou não queriam, mesmo!)

Tamires ama Portugal! O país é maravilhoso e ela está muito feliz. Há segurança, as leis funcionam e não existe… indicação! Ou você é bom no que faz, ou não é. Ela sabe que pode crescer profissionalmente ali, ou seguir a qualquer lugar da Europa, por valores que consegue pagar, sem financiamento.

Para ela, quem a fortaleceu, realmente, foi Deus. “Ele é maravilhoso, pois me deu amigos maravilhosos!”. O Alan, que, no começo, era só um amigo, tornou-se marido. Outros tantos amigos portugueses deixaram que ela ficasse em suas casas durante certo tempo.

Hoje, com tudo estabilizado, e já casada, Tamires tem o documento que a permite residir em Portugal. Ela poder entrar, sair ou morar em qualquer país da Europa.

Ela se diz muito grata pelas pessoas que se mantêm a seu lado. Principalmente, o marido, que sempre a ajuda, e com quem construirá uma família. Eles vivem muito bem, e têm planos. Tamires ama o Brasil, um país lindo, mas, em questão de segurança – e outros tantos quesitos –, deixa a desejar.

Agora, ela vai correr atrás de seus sonhos.

 

*Essa crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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