Crônica: Lá do céu

Crônica: Lá do céu

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Por Larissa Medeiros 

Chego cedo, é claro. Mesmo após passar horas me convencendo de que toda roupa que experimentava mostrava pele demais ou pele de menos. Mesmo após ter discado o número dele quatro vezes e ensaiado um discurso falso em que meu gato teria morrido tragicamente e que tudo teria que ser cancelado. Mesmo após me desviar do caminho intencionalmente na tentativa de me perder e nunca mais ser encontrada pra dar explicações.

Mesmo assim, chego cedo, exatos 30 minutos mais cedo. A mesma antecedência de quando te encontrei pela primeira vez. Me lembro de quando te vi procurando por mim com os olhos na entrada, ele faz o mesmo. Ele também está usando uma camiseta preta, mas o sorriso ao me ver parece mais confiante do que o seu foi. Ele beija minha bochecha e se senta, e ele não sabe como foi gentil. E, droga, eu queria que não fosse tão gentil.

Passo a refeição inteira procurando por um motivo. Maus modos à mesa, hobbies esquisitos, um olhar demorado para o decote de outra mulher, uma gíria irritante, a confissão de um crime. Qualquer desculpa para que eu pudesse sair pela porta e nunca mais atender uma ligação dele, mas nada disso acontece. Ele é só um cara normal, e nós conversamos sobre todos os assuntos que aparecem na mesa, todos menos um. Porque toda vez que ele menciona alguém de seu passado, eu desvio os olhos ou finjo interesse em algo trivial do lado de fora da janela. E ele percebe, e me lança aquele olhar de sempre, o olhar de pena. O que é loucura, é claro que é, ele não sabe. Ou pelo menos não deveria saber.

E agora estou com você na cabeça. Isso é tudo o que eu não queria que acontecesse, e ao mesmo tempo, tudo que eu tinha certeza de que aconteceria. Seria impossível não compará-lo a você. E não é justo, quando você era tão familiar e ele ainda nem sabe qual é a minha sobremesa preferida. Tento evitar, mas todos os cheiros e todas as formas ao redor se tornam, de algum jeito, sobre você.

Ele fala sobre irmos a outro lugar, e acredito que talvez seja mais fácil nesse outro lugar. Mas enquanto caminhamos, ele segura minha mão, me fazendo recuar. Me fazendo recuar tanto, que um sorriso corado não justifica. Não é tão assustador assim um cara querer segurar a mão da garota com quem acabou de almoçar, é? Mas ele entende. E em alguns momentos coloca a mão em minhas costas, como que para me guiar, mas eu sei que é um disfarce para conseguir me tocar sem que pareça íntimo demais.

Tomara que ele não me beije. Todas as vezes em que ele olha pra mim por mais de um segundo, torço para que não me beije, não quero sentir outra textura se não a sua. Mas ele beija, sem me dar tempo pra pensar. E pela primeira vez minha mente se esvazia. Não penso sobre o toque dele no meu cabelo, nem no momento em que ele me puxa pela cintura, muito menos no que minhas mãos enlaçando seu pescoço significam. Eu apenas sinto. E quando nos afastamos, eu só penso nos olhos dele. Não nos seus.

Quando se dá conta do meu espanto misturado com choro, ele começa a falar, mas eu o calo. Nenhuma mulher quer ouvir desculpas por ter sido beijada apaixonadamente. Certamente se alguém precisa pedir desculpas sou eu, por ter desaprendido a beijar lábios que não fossem os seus. Mas eu sorrio. Um sorriso bonito e divertido, o primeiro desses que consigo destinar a outro homem. Sorrio porque sei que o pouco que conheço dele, está disposto a amar. E o pouco de amor que você me deixou, estou disposta a oferecer. E lá do céu, sei que você piscou pra mim. E eu só tenho a agradecer.

 

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