#CRÔNICA: Narrativas Jornalísticas

#CRÔNICA: Narrativas Jornalísticas

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Por Allison Felipe

Era uma tarde tranquila de sábado em Capitão Enéas, cidade do interior de Minas Gerais, quando Emilly, uma jovem de 21 anos, saiu de sua casa em direção à casa de uma cliente para receber o pagamento referente à produtos que havia vendido anteriormente. Sua cliente mora em uma das curvas da estrada que dá acesso ao bairro do outro lado da linha férrea, pouco antes da estrada de chão. Emilly estava passando pelo lado mais curto e deserto quando teve seu trajeto interrompido por um louco desconhecido que, sem perguntar ou dizer nada, agarrou-lhe o braço e a puxou para um espaço mais distante atrás do beco, onde ninguém podia vê-los ou ouví-la. Ele puxava seus cabelos cacheados e tentava a despir, puxando a blusa, mas sem sucesso. Após gritar até quase perder a voz, ela percebeu que de nada adiantava e provavelmente não estava sendo ouvida, foi quando resolveu reagir rapidamente. Então apertou a face do agressor, cravando-lhe as unhas, e quando notou uma leve redução da força com que ele apertava seus braços, conseguiu se desvencilhar e correu sem olhar para trás, enquanto lágrimas escorriam em seu delicado rosto.

Ela é a culpada, pois estava caminhando sozinha tão distante de casa. Ela é a culpada!  por estar no lugar errado e na hora errada. Ela é a culpada! Por não ter dado ouvidos à sua mãe, que sugeriu que convidasse um amigo para a acompanhar. Mas, afinal, ela é adulta e conhece muito bem sua cidade. Mesmo que casos assim sejam raros por lá, a culpa é toda dela. Como não deduziu que poderia haver um estuprador em plena luz do dia?
Ela já foi condenada por isso. Está agora em um presídio de segurança máxima: seu quarto. Portas e janelas trancadas, calmantes para dormir. Seu próprio medo é o guardião, que não a deixa sair de casa. A mãe pensa que a filha está novamente em depressão. Como ela poderia contar à mãe o que houve, para ouvir um “Eu te avisei que era perigoso”e ter ainda mais certeza de que era culpada? Melhor não. Não procurou a polícia, não registrou nada. O que eles poderiam resolver? Percebeu que por sorte isso não havia acontecido antes, e por sorte esta tentativa foi frustrada. Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém conhece o homem.

O Agressor passa bem.

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