Crônica: Parado na esquina

Crônica: Parado na esquina

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*Por Alysson Costa Salgado    

Fico aqui o dia todo, parado, olhando para o mesmo lugar, todos os dias. Passam por mim pessoas correndo, suadas, alguns fedidos, outros cheirosos, muitos bem vestidos, outros em estilos variados de vestir; porém, poucos me notam. Faça chuva, faça sol, estarei lá na Praça da Liberdade, no meio do jardim da esquina da rua Gonçalves Dias, à espera de que se lembrem, um dia, de quem fui.

Para quem ainda não me conhece, prazer, sou o senador Júlio Bueno Brandão. Já fui muitas coisas na carreira política de Minas Gerais e do Brasil. Considerado o mais bem-sucedido autodidata da magistratura brasileira, encerrei minha carreira como senador federal, em 1930, aos 72 anos.

Me orgulho muito de ter sido quem fui, não do que sou hoje, uma estátua que sempre olha para a mesma direção, à espera de que, um dia, alguém olhe para mim, e se lembre de todo bem que já fiz para essa Minas Gerais.

Parado na esquina, vejo os dias passarem. Dias maravilhosos, tempestuosos, loucos, de shows ou de carnavais. Já vi tanto, que já nem sei. Alguns fazem loucuras, como pedir alguém em namoro e casamento, ou, até mesmo, terminar relacionamentos.

Os tempos realmente são outros. A menina que vi na semana passada, beijando um cara, está ali, agora, do outro lado da esquina, com outra menina! Como os relacionamentos se alteram, giram, mudam rápido neste século.

Saudades das serenatas e amores incondicionais à primeira vista. Saudade de tudo que passei, de tudo que vivi, de tudo que fui. Hoje, deixo somente a lembrança e a esperança de todos que vejo passarem por aqui. Que sigam seus caminhos, na busca por uma vida amável, serena e plena.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

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