#CRÔNICA: Saudades de te Conhecer

#CRÔNICA: Saudades de te Conhecer

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Por Kedria Garcia

Na adolescência ouvia várias e várias histórias de como a presença esfria depois de tanto tempo ao lado da mesma pessoa. O amor dá a desculpa de ir comprar cigarros e deixa o comodismo como responsável pela vida a dois. As brigas se tornam cansativas e os dias vão se desbotando. O segundo passo é negociar com o egoísmo para fugir da maldita rotina. Amantes, traições, compras, distanciamento, individualismo e tentar achar um culpado são alternativas para não encarar a separação, o divórcio.

Todos conhecem, já ouviram falar ou passaram pela crise dos cinco anos de casado.

São vinte estações climáticas, sessenta meses, duzentos e quarenta semanas, mil oitocentos e vinte e cinco dias, quarenta e três mil e oitocentas horas com a mesma companhia.

Quando adolescente esses números não me assustavam, dava até um ar de desafio manter a felicidade aquecida por tantos números. Hoje a solidão já ocupa um canto de cada móvel, de cada cômodo da casa, brinca com o cachorro e adquiriu um lado da cama ao custo de parcelas de desapego. Os beijos são duros, as falas curtas, os olhares práticos e a comunicação oca.

“Tenha um filho, vai ser ótimo para relação de vocês.”

“Viagem! Sim, é disso que vocês precisam.”

“Sexo! Sexo e sexo!”

“Quem não dá assistência perde pra concorrência.”

“Outra casa, é disso que vocês precisam, ocupar a cabeça com outras coisas, outros projetos.”

“Já tentaram trabalhar em casa?”

Lembro de ter lido em algum lugar que as pessoas não te escutam para ajudar, elas escutam para rebater. Não quero soluções mágicas, quero descobrir o que aconteceu de errado. Tapar buracos abrindo buracos maiores nunca foi a minha praia. A casa está bagunçada de incertezas e o calor dos abraços está soterrado sob alguma pilha de jornal. A sintonia ainda está por aqui, debaixo dessas camadas grossas de poeiras do silêncio.

“Sinto saudades de te conhecer!”

Apertei o botão enviar com os olhos fechados e o coração na boca. A mensagem não faria sentido, ficaria sem resposta e seria ignorada assim como todos os quase carinhos oferecidos.

“Você aceita tomar aquele café comigo? Mas tem que ser agora, pois a Rua da Bahia não permite desamores congelados.”

O café da Rua da Bahia com certeza é um lugar de encantos do desconhecido, e agora seria palco de mais um encontro para se reconhecer um ao outro.

“Prefiro chá de hortelã!”

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