Crônica: Tristeza, tristeza

Crônica: Tristeza, tristeza

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*Por Bianca Morais

São sete da manhã, e Chico se levanta da cama. Sua cabeça dói, todo seu corpo está doído. Para ele, nada mais faz sentido, pois está privado de sua liberdade. A voz, que tanto encantava o público, agora está rouca de tanto silêncio.

Chico toma café e sai à rua, tentando encontrar uma distração. Senta-se, então, no banco da praça, e observa, de longe, o bar do Gil, aquele lugar que antes lhe trazia tanta felicidade – pois que sempre cheio de pessoas, com mulatas a rodar as saias, amigos nos acordes de samba, violas nas ruas. E Chico a cantar. Mas eis que chegou a ditadura, carregando tudo embora.

A saudade é o que resta para Chico. Ele olha para o relógio rodando, acende um cigarro, e as lembranças de um tempo que não irá voltar tão depressa vagam por sua mente. O rapaz sentado, sozinho, no banco da praça, deseja que o relógio rode para trás, que nem roda, e o leve de volta aos dias ram melhores, quando seus amigos não estavam exilados, presos, nem mortos.

O tempo mudou num instante. Tudo que Chico havia construído, todas suas obras, suas artes, são, agora, censuradas. O trabalho – sua alegria, seu sustento – está proibido.

Chico quer ter voz ativa e, em seu próprio destino, mandar, mas eis que chega a ditadura e joga tudo pelo ar.

Chico, porém, tem esperança. Ele acredita num futuro melhor. E olha para o relógio novamente, e, dessa vez, deseja que o relógio vá para frente: 52 anos, especificamente. E eis que Chico se vê em 2020, com um jornal nas mãos, diante da manchete, escrita em grandes letras: MANIFESTAÇÕES PEDEM INTERVENÇÃO MILITAR. Ele se assusta, e pensa, consigo mesmo: “Que futuro é esse?”

Rapidamente, gira o ponteiro do relógio, novamente, para trás. Percebe que tudo foi uma ilusão passageira, e não quer acreditar que aquela prisão jamais iria acabar.

Por que não? Por que não?

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