Drag music: do underground ao mainstream

Drag music: do underground ao mainstream

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Funk “Popotchão” traz forte crítica aos padrões sociais. Foto: Guilherme Jardim.

Lua Zanella lança funk “Popotchão”, influenciada pela sonoridade do gênero que estourou nos anos 2000; representante da Drag Music, Lua surfa na onda que tem levado Drag Queens ao estrelato

Por Patrick Ferreira*

“Meu movimento de luta, aquilo que busco destruir e incendiar pela visão de uma paisagem apocalíptica e sem remissão, é Minas Gerais. Meu inimigo é Minas Gerais. O punhal que levanto, com a aprovação ou não de quem quer que seja, é contra Minas Gerais. Que me entendam bem: contra a família mineira. Contra a literatura mineira. Contra a concepção de vida mineira. Contra a fábula mineira. Contra o espírito bancário que assola Minas Gerais. Enfim, contra Minas, na sua carne e no seu espírito. Ah, mas eu a terei escrava do que surpreendi na sua imensa miséria, no seu imenso orgulho, na sua imensa hipocrisia. Mas ela me terá, se for mais forte do que eu, e dirá que eu não sou um artista, nem tenho o direito de flagelá-la, e que nunca soube entendê-la como todos esses outros ⎯ artistas! ⎯ que afagam não o seu antagonismo, mas um dolente cantochão elaborado por homens acostumados a seguir a trilha do rebanho e do conformismo, do pudor literário e da vida parasitária. Ela me terá ⎯ se puder. Um de nós, pela graça de Deus, terá de subsistir. Mas acordado. ” (CARDOSO, 1960).

Evoco o manifesto do escritor mineiro Lúcio Cardoso (1912–1968), proferido em entrevista a Fausto Cunha, e publicado no Caderno B do jornal do Brasil em 25 de novembro 1960, para apresentar Lua Zanella, 22 anos. Ela é gay, drag queen, performer, cantora, e, sobretudo, um contraponto ao conservadorismo presente na tradição de Minas Gerais, apontada pelo escritor em suas obras, principalmente no romance Crônica da casa assassinada (1959).

Lua Zanella, para além de resistência, representa uma ruptura dos padrões sociais e artísticos. Em seu primeiro single, “Popotchão”, lançado nesta última quinta-feira, dia 9, e disponível nas principais plataformas digitais, a cantora belo-horizontina faz uma crítica ao padrão heteronormativo, presente também dentro da comunidade LGBTQ+.

A música começa com uma batida leve e se desenvolve com uma forte pegada funk, inspirado na sonoridade do ritmo que explodiu nas rádios nos anos 2000. Do tipo irresistível, é difícil não se render à batida de “Popotchão”.

O interesse da estudante de Cinema e Audiovisual pela arte despertou ainda muito cedo, aos 11 anos, quando aprendeu a tocar violino na igreja. Mais tarde, aos 15 anos, participou do Canto Coral, no programa do governo estadual Valores de Minas.

A cantora é representante de um estilo em ascensão no país, a Drag Music, uma das variações do pop nacional. Não é de hoje que as drag queens fazem música em todo o Brasil, mas foi com o estouro de Pabllo Vittar, em 2017, que elas saíram do gueto e conquistaram espaço em toda mídia.

Lua também flerta com outros estilos. No duo InMorais, formado com seu irmão, ela canta canções autorais com fortes influências da Música Popular Brasileira. O trabalho pode ser visto no canal do YouTube InMorais Oficial. Juntos, os irmãos venceram o Festival da Canção da PUC Minas, com a música “Riqueza Roubada”. Lua Zanella, agora, concentra suas atenções na carreira solo, no momento impulsionada pelo lançamento de “Popotchão”.

Acerca de seu primeiro voo solo, ela sente-se orgulhosa. Minas Gerais ainda não possui representantes da Drag Music com projeção nacional e Lua Zanella é a promessa do gênero. Em entrevista ao jornal Contramão, Lua revela as suas referências musicais e fala sobre seu trabalho.

Jornal Contramão: Em “Popotchão”, há forte referência do funk dos anos 2000. Dezoito anos depois, outra geração, o que te motivou revisitar esta sonoridade?

Lua Zanella: Meu amigo André, produtor do meu clipe, sugeriu colocar as cornetas que flertam com o funk da década passada, e me sinto muito motivada a trazer sensações nostálgicas para as pessoas. “Popotchão” também tem sintetizadores e uma estrutura em que tento referenciar o Pop dos anos 2000 e sua essência marcante, chiclete e dançante.

JC: No single, vemos uma crítica à heteronormatividade presente na comunidade LGBTQ+. Como surgiu a ideia dessa composição?

LZ: Vejo que, infelizmente, as manas afeminadas, antigamente chamadas pejorativamente de “Pocs”, ainda sofrem uma certa pressão e tentativa de limites dentro da própria comunidade LGBTQI. Quebrar padrões na canção é uma menção a quebrar barreiras, a mudar o mundo sendo você mesmo, a você incomodar tanto para que um dia não seja mais um incômodo.

JC: Como é a construção da imagem da artista Lua Zanella? E de que maneira a sua equipe está imbricada nisto?

LZ: A construção da imagem da Lua foi feita ao longo da minha vida, em experiências e vivências, no apoio da minha família e amigos e há uma equipe que está me ajudando em tudo, em ideias, conceitos, figurinos, arte, fotografia. O que está acontecendo na minha introdução à música se deve à essas pessoas, e eu sou extremamente grata. Guilherme Jardim, meu fotógrafo, André Castro, meu produtor criativo, Samuel Fávero, meu diretor de Arte e Mathaeus Tota, meu editor.

JC: O momento político-social, atualmente, marcado pelo conservadorismo, vem acompanhado de grande reação das minorias, historicamente oprimidas. Como você vê o enfrentamento dos artistas?

LZ: Vejo muita força e resistência nesse período cinza, porém essa é minha deixa para dizer que compus algo sobre essa nossa força. Então, aguardem!

JC: Qual é a recepção do público ao seu novo trabalho? LZ: Muito positiva, todas as pessoas estão dizendo que a música é pegajosa e não sai da cabeça e eu me sinto muito honrada por isso. JC: Quais são os projetos para o futuro?

LZ: Tudo que eu consigo pensar é em quantas coisas eu ainda posso oferecer através da arte. Na minha mente, surgem várias ideias o tempo todo, “Popotchão” é o pontapé inicial que eu tanto sonhei.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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