Inspirar-se em tempos de crise

Inspirar-se em tempos de crise

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Ser otimista em tempos difíceis é uma dádiva tão especial quanto ter inspiração na falta de esperança.

Por Ana Clara Souza e Gabriel Almeida

Desde março de 2020, diversos países enfrentaram crises em diferentes áreas devido às consequências causadas pela pandemia da Covid-19. Muito se falou nos problemas da saúde, da educação e da economia. Mas, esqueceram que a cultura, principalmente, os artistas independentes ficarão desamparados e sem trabalho durante o período de isolamento social. 

Embora aqui no Brasil, o governo buscou auxiliar economicamente quem vive da arte independente – através da Lei emergencial Aldir Blanc – 14.017/2020 – a situação ainda é crítica. Além da produção que demanda tempo, esforço e investimento, a cultura necessita de distribuição para ter seu retorno financeiro e o reconhecimento. 

Mas, as dificuldades não estão apenas no que diz respeito aos problemas trazidos pela covid, é muito além. Existe um processo cansativo e burocrático que está ainda mais difícil, pois as possibilidades que existiam para que os artistas pudessem apresentar seus projetos, foram canceladas ou restringidas, e isso gera um impacto direto em quem depende disso para que o seu trabalho tenha reconhecimento. 

De acordo com o integrante do grupo de rap, Contramão Records, Nik, a pandemia tirou uma das maiores armas da cultura Hip-Hop, a batalha de rima, com presença de público.  “O computador não capta emoção espiritual”, afirma. Artistas do mundo inteiro estreitaram relações com o “novo normal”, mas sentem falta da energia corporal dos trabalhos presenciais.

Grupo Contramão Records  Fonte: arquivo pessoal

Isso nos ajuda a levar a discussão para outro ponto relevante, que é a alma da concepção de qualquer obra artística, e a principal pauta desta reportagem: a inspiração. Em tempos desesperançosos como esses que temos vivido, para uma classe que já não possuía uma estrutura fixa, agora, ainda mais desestabilizada, ter alento é resistir.

As esporádicas políticas públicas, nunca foram o suficiente para manter o sustento de artistas independentes, que detém jornadas triplas, para sobreviver, e atualmente, mesmo com auxílios governamentais, muitos não foram contemplados, trazendo um baixo entusiasmo no fazer artístico. Tem como ter esperança?

Para o Contramão Records, sim! O grupo tirou forças e dinheiro (da onde não tinham), e decidiram morar juntos, criar um Home studio, e começar a produzir, além das suas músicas, artistas, trilhas sonoras, entre outros. A ideia que eles tinham no começo, era viver apenas da música, e ter mais tempo para se dedicarem, porém, tudo tomou uma proporção muito maior, e hoje, além de microempreendedores, eles fomentam a cultura na cidade metropolitana de Belo Horizonte, onde nasceram e foram criados, Ribeirão das Neves, e pontuam com veemência que, a união sempre faz a força, como cantam em outras palavras, na música escrita juntamente com outro artista independente, Pedro Ezos, “Valeu a luta”: “Sei que nem tudo na vida vai dar bom pra nós. Mas nóis tá junto, e isso já valeu a luta!”. 

Sem dúvidas a arte tem sido afetada com todo esse processo. Resistir ao caos é uma tarefa árdua, mas que muitos artistas têm dado inspiradores exemplos de como seguir em frente com “as mãos atadas”. Por mais que o governo tenha expressado o recurso da Aldir Blanc, muitos ainda precisam ser atingidos e terem seus direitos colocados em prática.

Pois, se o auxílio é para todos, é importante que cada artista que quiser receber esse auxílio o receba.

Mas o que é a Lei Aldir Blanc?

Desde junho de 2020, o governo federal decidiu criar uma lei que pudesse trazer auxílio emergencial para os envolvidos na área da arte, visto que no contexto da pandemia, tudo mudou e as rotinas dos artistas passaram por drásticas mudanças. A lei previa a distribuição entre os auxiliados de um valor de 3 bilhões de reais que seriam distribuídos entre os estados e municípios brasileiros.

Em maio de 2021, em Minas Gerais, a Secretaria de Cultura do estado divulgou que 7.113 dos 7.173 projetos em espera pelo pagamento do auxílio haviam sido feitos, confirmando que 99,17% do total de auxiliados teriam sido atingidos.

A lei recebeu esse nome em homenagem ao letrista e compositor carioca, Aldir Blanc Mendes, mais conhecido como Aldir Blanc, que faleceu em 4 de maio de 2020.

Com todo esse contexto em vigor, é possível perceber a movimentação do fazer artístico em movimento para que a produção da arte não deixe de existir, e mesmo que afetada de muitas formas pelo isolamento e distanciamento, ainda possui a belíssima capacidade de se adaptar e de, além disso, protestar a favor do que é preciso ser dito, como a valorização do artista e de sua e de como ambos são extremamente importantes para que um país, como o Brasil, rico em cultura e costumes, possa ter em sua História um povo que lutou e continua diariamente a lutar a favor da arte e da preservação do que se tem, mesmo em momentos onde a esperança parece desvanecer e se perder. E na união dessas pessoas, o movimento resiste e mostra o seu poder, avançando em ordem de batalha para um futuro que quer brilhar e, acima de tudo, lutar por direitos e pela arte.

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