Intolerância ou ignorância religiosa

Intolerância ou ignorância religiosa

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Por Bianca Morais

21 de janeiro é comemorado o Dia Nacional do Combate à Intolerância Religiosa. A data foi escolhida em homenagem à Iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos, também conhecida como mãe Gilda, ela era do Candomblé e morreu de infarto após ver seu terreiro destruído por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus.

Apesar de laico, o Brasil é majoritariamente católico e as religiões que mais sofrem preconceito são as afro-brasileiras, fato diretamente ligado ao racismo cultural. A intolerância religiosa existe em todo o mundo, os Estados Unidos e países da Europa, por exemplo, discriminam o islamismo, pois o associam ao terrorismo, no Brasil isso teve início a muitos anos atrás quando os portugueses catequizaram os índios e posteriormente com os escravos.

“O Estado é laico, mas nosso governo é cristão”, disse o presidente Bolsonaro certa vez, com o slogan de campanha “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o presidente do país exclui todos aqueles que não tem o nome “Deus” como o ser supremo de sua religião. A democracia proíbe um vínculo direto entre Estado e Religião, mas não é isso que se assiste diariamente. 

A maioria dos casos de denúncias contra intolerância religiosa parte de grupos vinculados ao Candomblé e a Umbanda que veem ataques constantes a seus terreiros de orações, e muitas das vezes essas agressões saem do terreiro e passam a ser verbais, físicas, entre outras.

A intolerância religiosa na pele

Sérgio Batista, tem 39 anos e cresceu ao lado da mãe Maria Marli, que faleceu a alguns anos atrás. Marli era cartomancista, benzedeira e fazia simpatias, trabalhos e cirurgias espirituais, pela profissão de sua mãe o rapaz constantemente sofria discriminação na escola.

Sérgio e a mãe Marli

“Chamavam minha mãe de bruxa, batedora de tambor, falavam que ela iria transformar os outros em sapos e que eu vivia em cemitério, jogavam terra de cemitério na porta de casa  e diziam que eu fedia a coveiro”, conta ele.

Criado na umbanda, religião que mistura elementos afro-brasileiros, catolicismo, lendas indígenas e o espiritismo de Allan Kardec, Sérgio foi formado em princípios conceituais de “Luz, Caridade e Amor”, do espiritismo e cultuado no orixás assim como no candomblé, e independente de toda discriminação que a religião traz ele nunca se deixou abalar.

Muito da intolerância religiosa vem na realidade de uma ignorância de milhares de pessoas  que se recusam a conhecer mais a fundo uma religião diferente da dela, por entender que a única visão de mundo possível é a sua, quando se trata de uma cultura negra é ainda pior, pois não é de hoje que existe uma negação a história desse povo. 

“As pessoas falam que macumba é ruim, mas não sabem que na verdade macumba se refere a um instrumento de percussão, falam de terreiro mas não sabem que é um local de orações”, descreve Sérgio.

Outras fés têm o hábito de generalizar as religiões de origem africanas sem buscar entendê-las. Marli por exemplo, nasceu com o dom da revelação e ao descobrir isso soube que precisaria doutrinar aquilo. 

“A medida que a gente doutrina determinados encargos ou pesos essa responsabilidade que é te dada se torna mais leve e tranquila de lidar, porque a partir do momento que você não canaliza esse dom da forma correta ele pode se tornar uma maldição na sua vida”, explica ele.

Os ensinamentos da umbanda

Foi através de muito estudo com pessoas mais velhas como anciões e benzedeiras, que Marli foi aperfeiçoando seu dom até ser uma médium conhecida. Começou como kardecista antes de ir para a umbanda. O kardecismo é basicamente o estudo do espírito em si, do conhecimento, uma linha branca, a partir do momento em que ela chegou até o ápice do seu aprendizado nessa área, ela viu que precisava de mais, porque a linha de seu dom a puxava para outra vertente.

“Na umbanda ela se descobriu, não chegou a virar mãe de santo por falta de oportunidade e sim porque não queria se dedicar àquilo como obrigação única”, esclarece Sérgio.

Marli trabalhava fazendo simpatias na linha branca, aquela que não faz a utilização de sacrifícios apenas meios naturais que vem da natureza, durante um tempo o filho a ajudou, a mãe iniciava e ele procurava o local de fazer a entrega.

“Exemplificando, alguém aparecia com um trabalho para adoçar uma pessoa, nesse tipo de simpatia minha mãe fazia a montagem, as orações e pedia licença para iniciar as atividades, nesse caso eram sete qualidades de doce e colocá-los em um cupinzeiro”, comenta ele.

Por muitos anos pessoas com dons como os de Marli eram internadas em sanatórios e afastadas do resto da sociedade, essa situação começou a mudar à medida que as entidades afro que tinham maior entendimentos chegaram ao país, mesmo assim por muito tempo foram impedidos de fato praticar suas crenças.

Terreiro não é tudo igual

Segundo Sérgio, dentro das origem religiosas afro-brasileiras existe um caminho conhecido como quimbanda, que pratica “magia negra”, rituais de sacrifícios envolvendo sangue, acontece que essa é uma linha muito diferente, por exemplo, do que ocorre dentro da umbanda e candomblé, porém por causa do preconceito outras religiões englobam tudo em um único conceito, tratando todos como iguais.

“É aí que entra toda a intolerância religiosa, porque as outras religiões enxergam todos como um, e não é, assim como evangélicos, católicos tem suas linhas o espiritismo também tem as suas. À medida que você resolve utilizar determinada linha existem responsabilidades, e o preço que é pago por aquilo ali, se você faz o mal, a pessoa que solicitou o mal vai receber o mal e o executante que fez também”, completa.

Médium do bem

Maria Marli morreu a quatro anos de um câncer no pulmão, durante sua vida ela se dedicou a ajudar as pessoas com seu dom, muitos a acusavam de charlatanismo por cobrar os serviços, porém ela não se importava com os comentários maldosos, afinal havia sido sua entidade que a orientou na cobrança, pois ela ajudava aos outros e esquecia de se ajudar.

Mesmo sendo atacada por membros de sua família que diziam não ser normal criar os filhos daquela maneira, constantemente tendo evangélicos na porta de sua casa fazendo orações e a chamando de filha do demônio, acusada de charlatanismo por clientes sem fé e tendo um marido que não lhe apoiava, Marli nunca deixou de cumprir sua missão e usar seu dom para o bem.

“Teve um período que meu pai chegava a trancar minha mãe dentro do quarto para ela não atender as pessoas, isso até determinado ponto que a entidade chegava e ou ele deixava ela atender ou a entidade não dava paz dentro de casa”, relembra Sérgio.

Apesar de tudo que passou, Marli fez sua passagem e cumpriu sua missão na terra de ajudar o próximo. Diferente da visão preconceituosa de muitos, a única coisa que a médium pregava era amor, carinho e prosperidade. 

Respeito acima de tudo

“Respeito é algo primordial, a sociedade deve ter a consciência de que é preciso respeitar a religião do próximo, se não aceitá-la é necessário ao menos respeitar. Entrar dentro do templo religioso de alguém e profanar aquilo é como se elas estivessem desrespeitando a casa de Deus, porque os fiéis daquela religião entram nesses lugares para conversar com o Deus deles, e à medida que o sujeito entra ali com o intuito de vandalizar, ele não tem respeito. As pessoas julgam aquilo que ela não conhece como um ato satânico e não funciona assim, todos as religiões tem seu lado sombrio, e não vai ser a evangelica, a catolica, a espiritual, a kardecista, ou umbandista que vai mudar isso, o que precisa mudar é o respeito”, conclui Sérgio.

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