Luzes na escuridão

Luzes na escuridão

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A cineasta Ana Carolina Teixeira Soares no set de filmagens

Em entrevista exclusiva ao jornal Contramão, a diretora Ana Carolina Teixeira Soares revela o nome do seu novo projeto e rememora sua trajetória no cinema

Por Rebeca Francoff*
Aluna do curso de Cinema e Audiovisual

“Vão à luta!”. Esse foi o conselho da diretora Ana Carolina Teixeira Soares para jovens realizadores de cinema no Brasil frente ao atual período político e cultural do país. Nascida em 1945, em São Paulo, Ana Carolina, independentemente do momento, revela, ao longo da carreira, ser uma artista por excelência, resistente e irreverente. As suas obras destacam-se pela coragem, personalidade e escolhas cinematográficas inventivas.

Em entrevista ao jornal Contramão, a cineasta Ana Carolina expõe, com fluidez, o que pensa sobre política, influências, possibilidades cinematográficas e reflexões acerca da trilogia Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa. Na conversa, a diretora também revela o nome do próximo projeto, “Paixões Recorrentes no Atlântico Sul”.

Realizadora cinematográfica há mais de quatro décadas, a produção de Ana Carolina reúne obras emblemáticas como Lavra-dor (1968), Getúlio Vargas (1974), Mar de Rosas (1977), Das Tripas Coração (1982), Sonho de Valsa (1987), Amélia (2000), Gregório de Mattos (2003), A primeira Missa ou Tristes Tropeços, Enganos e Urucum (2013). Ana Carolina Teixeira Sores também dirigiu óperas, escreveu peças de teatro e livros.

JC: Ana Carolina, você acredita em qual tipo de cinema?

AC: Querida, eu sempre acreditei somente em bons filmes!

JC: A trilogia Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa são produções cinematográficas precursoras de uma linguagem bastante particular. Filmes extraordinários. Você poderia partilhar conosco algumas de suas influências?

AC: Confesso que em toda a trilogia, a narrativa desses filmes se apresentou, para mim, iminentemente pessoal, ou seja, fui realizando a tarefa de filmar apenas sentindo o que ocorria em cena. Eu não estava raciocinando, eu estava sentindo. No entanto, tenho consciência que, já naquela época, carregava paixões intelectuais e cinematográficas tais como Eisenstein, Resnais, Truffaut, Buñuel, Monteiro Lobato, Glauber Rocha, Gilberto Freyre, Gregório de Mattos e Nelson Pereira dos Santos.

JC: No movimento Cinema Novo, artistas tiveram a esperança revolucionária de lutar pela transformação política através da cultura. No decorrer dos anos, o movimento sofreu mudanças com a ditadura. O filme Mar de Rosas foi feito neste período de transição e é marcado pela dialética entre humor e dor, esperança e incredulidade. Como foi fazer filmes na ditadura? Quais as barreiras e os impulsionamentos na época?

AC: Por incrível que possa parecer… é exatamente igual a hoje. A dificuldade não estava no percurso de produção, a interdição crucial ocorria na exibição. A interdição era política. Hoje é mercadológica. À isso se dá o nome de incoerência histórica.

JC: Em Mar de Rosas, a mãe Felicidade, não é nem um pouco feliz. Ser mãe pode ser um desafio difícil. Como você enxerga a relação mãe e filha construída no filme?

AC: Não posso partir do princípio que todo mundo tenha lido Freud, ou tenha experiência psicanalítica, mas o que importa é estarmos atentos a todas as características humanas, cruéis, exasperadas e irracionais, que se apresentam nas relações de poder.

JC: Todos os seus atores ganham uma proporção enorme na tela. No filme Das Tripas Coração é quase difícil falar quais são os personagens principais. Em Mar de Rosas, a personagem representada por Norma Bengell chama muita atenção. Não conseguimos imaginar o papel sendo representado por outra pessoa. Quais foram os seus critérios para a direção de atores e para a escolha dessa atriz?

AC: Nenhuma escolha importante na vida obedece a critérios objetivos. As melhores e mais importantes são feitas pelo coração. Brecht e o Teatro do Absurdo sempre ajudam!

JC: O ator Antônio Fagundes é também alguém bastante marcante e enigmático em Das tripas Coração. Quais foram as motivações para a escolha dele como o interventor sob a ótica do sonho para retratar os desejos recalcados das personagens?

AC: O Fagundes é um grande amigo e um grande ator! É um ator consciente e colaborativo! E nós sabemos que, em determinada etapa da nossa vida, tentamos nos “enquadrar” nos sonhos masculinos.

JC: O som cumpre papel valoroso em seus filmes. Gostaríamos de saber sobre a escolha da potência confusa dos diálogos e músicas cantadas pelas personagens. Como, por exemplo, na cena em que Felicidade canta em inglês no carro ou nas cantigas entoadas pelas estudantes em Das Tripas Coração. O que pretendeu atingir com esses trabalhos sonoros? Além disso, como o piano é visto em Das Tripas Coração?

AC: Sempre dediquei muito cuidado e muito trabalho na dramaturgia sonora dos meus filmes, conhecendo bem a grande importância do Som em matizar melhor as diversas nuances dos sentimentos presentes em cada cena. O piano é um personagem! Na verdade o piano é o estorvo social que nos oprime!

JC: Em Das Tripas Coração, a repressão e a liberdade, a felicidade e a tristeza vivem em extremos no espaço escolar. Poderia discorrer um pouco sobre as instâncias de poder e esses corpos vigiados que gritam por liberdade?

AC: O filme se passa dentro de um colégio interno, onde as alunas adolescentes demonstram, claramente, aos gritos, e desobediências incessantes, a força do poder repressor. Ora, não é o personagem do interventor, o homem que adormece e sonha que detém o poder destruidor? Você ainda não acredita que o sonho de poder é dos homens e das mulheres?

JC: Qual a sua opinião sobre as produções cinematográficas brasileiras de hoje? Há realizações que lhe interessam?

AC: Citando Paulo Emílio, “O pior filme brasileiro sempre será melhor do que o melhor filme estrangeiro”! Não tenho acompanhado a produção cinematográfica brasileira atual, mas posso lhe dizer que gostei muito dos últimos filmes brasileiros que assisti.

JC: Enfrentamos panorama sombrio para as políticas culturais neste momento do país. De que maneira você acha que isso pode influenciar o cinema brasileiro? Há algum conselho para jovens homens e mulheres que queiram se tornar realizadores de cinema?

AC: Qualquer panorama político e cultural vivido por uma nação, sombrio ou não, influencia a criação artística. Seja ela qual for. Os verdadeiros criadores são antenas a serviço do bem-estar da sociedade contemporânea. Você deve saber que os conselhos existem para não serem seguidos, mas sempre é de bom alvitre pelo menos escutá-los! Portanto, vão à luta!

JC: Como você tem acompanhado o contexto político atual, caracterizado por uma onda conservadora crescente? Você acredita numa possível repetição do passado?

AC: A história não se repete! Se ocorrer, não terá esse nome, não será aquela que já vivemos. Temos que estar atentos para descobrir como reagir. Acredito que viveremos uma atmosfera que favorece o recolhimento. Vamos trabalhar em silêncio por algumas conquistas que julgávamos imprescindíveis.

JC: Você fez filmes críticos sobre ditadura militar e viveu esse período. Vale lembrar que vivemos um momento em que várias pessoas querem uma intervenção militar. Como você encara isso?

AC: Querer não é poder! Temos que aprender a viver, no fácil e no difícil, para cumprir aquilo que temos de fazer. E aí, fazendo, fazendo, está feito!

 

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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