Mãe em dose tripla

Mãe em dose tripla

Por Bianca Morais 

Dando continuidade a comemoração ao mês das mães, o Jornal Contramão traz hoje a história de Vanessa. Mostraremos os prazeres e os desafios de conciliar a rotina profissional com a maternidade durante a pandemia.

Vanessa Cristina Lopes Santos, tem 46 anos e é professora do curso de Engenharia Elétrica da Una Cristiano Machado e do Uni-BH. Além de exercer o papel como profissional da educação, também atua em um outra área muito importante, a maternidade. Vanessa é mãe de três crianças, Fernando, o mais velho, e as gêmeas Isabela e Letícia.

Para a professora, ser mãe sempre foi mais que um sonho, foi uma realização como mulher. Casada há 15 anos, ela sempre teve o desejo de ter no mínimo dois filhos. “Na realidade, sempre enxerguei a maternidade como um empréstimo em confiança. É uma missão que Deus nos confia”. E Deus confiou e muito nela, dando-lhe três filhos, pois sabia que ela seria capaz.

 

Começa uma história de amor

Vanessa e o marido fizeram Engenharia na mesma faculdade, porém não se conheceram nessa época. O encontro aconteceu apenas no mestrado, anos depois. Podemos dizer que foi obra do destino, pois logo se apaixonaram e estão juntos até hoje. 

Depois de casados, os dois planejavam o futuro. Queriam dois filhos, para eles o número ideal para ter uma vida tranquila e confortável. Fernando, 11 anos,  é primogênito. Um menino muito calmo e que sonhava com a companhia de um irmão. Para os pais, o cenário perfeito, pois sempre idealizaram um ambiente de partilha, uma criança sendo companheira da outra.

Na época em que descobriu a segunda gravidez e contou ao filho, Fernando já sabia que viriam dois, isso sem ao menos a mãe ter feito o ultrassom. “O mais interessante é que quando soubemos da gravidez, fomos perguntar ao Fê se ele iria ter irmão ou irmã, qual seria o presente que  o Papai do Céu mandou. Para surpresa de todos, ele  nos disse que ganharia dois irmãos e contou na escola, para a família e a todos que ele conhecia. Nós achamos aquela situação engraçada”.

Fernando foi preciso em sua intuição! A mãe realmente estava grávida de dois bebês, só que esperava dois irmãos, porém na realidade eram duas meninas: Isabela e Letícia, atualmente com 7 anos . 

“No dia da ultrassonografia, quando o médico disse que tinha uma surpresa, eu e meu marido nos surpreendemos mais ainda com a sensibilidade do Fernando. Este acontecimento aumentou demais nossa fé e nos uniu muito como família, acreditamos que a sensibilidade dele foi uma forma de Deus nos mostrar o quanto ele estava depositando confiança em nossa fammília”.

O cotidiano antes da pandemia

Passeios em família eram constantes

Antes do isolamento, a família vivia a mesma rotina diariamente. Na parte da manhã, as crianças tinham uma cuidadora, à tarde iam para a escola e à noite ficavam com o pai, pois Vanessa tinha que se dividir em seus empregos, em uma empresa privada e nas faculdades.

“Eu saía para trabalhar cedo,  no horário do almoço levava as crianças para a escola e voltava ao trabalho. Chegava em casa por volta das 23h, a essa altura meus filhos já estavam dormindo. No outro dia, eu saía às 6h30 e eles ainda não tinham se levantado.Assim, nossos encontros eram no horário do almoço e no caminho da escola”, relembra.

Era aos finais de semana que Vanessa de fato conseguia aproveitar e passar um tempo maior com os filhos, e ela fazia questão de aproveitar cada minuto. Ia com os garotos passear em praças, clubes, andar de bicicleta, enfim, tirava o atraso da semana.

Mudança radical

Com o início da quarentena, Vanessa passou a trabalhar em home office, as crianças passaram a ter aula online, foi quando a rotina mudou completamente. Se antes a mãe pouco via os filhos, agora ela acompanhava de perto cada momento.

“Atualmente,  o tempo todo estou a conciliar e encaixar tarefas. Os horários se sobrepõem e a rotina é uma palavra quase em desuso em casa. Me tornei uma mãe mais dedicada em tempo, mas também percebo que às vezes tomo muito controle da situação. Assim, tento deixar as crianças desenvolverem sua autonomia, mas me freio muito”, explica.

Dentro de casa, 24 horas com os filhos, Vanessa consegue acompanhar de perto a alfabetização deles, estar perto nessa fase de construção de conhecimento dos filhos, por ser professora, é capaz de ser mais compreensível e intervir de forma mais assertiva no que diz respeito à rotina escolar.

O ensino remoto dos filhos

No início foi necessário um período de adaptação para toda família, diferenciar os dias das semana dos fins de semana, explicar à eles que mesmo em casa, não era tempo de férias,  foi uma missão desafiadora.

“Passamos por um período de conscientização das responsabilidades e de entendimento da situação. Para ajudar na compreensão das crianças, fomos explicando, juntamente com os professores, que estávamos passando por uma situação crítica e enfrentando uma doença desconhecida e severa. Assim, eles conseguiram se adaptar ao confinamento e se protegerem”. 

As gêmeas estão em fase de alfabetização e em nenhum cenário Vanessa previa viver esse momento tão próxima delas. A mãe consegue muitas vezes assistir  parte das aulas com as pequenas e ajudá-las. Sem contar, que apesar de trabalhar durante as aulas delas, a mãe precisa se transformar em duas, é um olho no trabalho e outro dividido entre as meninas.

“Coloco elas em cômodos diferentes, porque são gêmeas e se ficam juntas vira palhaçada, brincadeira atrás de brincadeira. Fico em um cômodo intermediário, onde eu consigo ver as duas”.

Se já dá trabalho dar conta de uma criança em aula online, imagine duas meninas sendo alfabetizadas. A mãe relata que há  dias tranquilos e outros bem agitados. “Tem dia que o lápis quebra a ponta, aí pega o lápis da outra e se torna motivo de briga”. Vanessa, ao invés de perder a cabeça, enxerga ali a oportunidade de ensinar as duas a partilhar. “Eu consigo ver onde elas estão tendo uma dificuldade, intervir, uma coisa que eu não veria se eu não estivesse participando”.

Diferente das mais novas, o filho mais velho é bem independente e sossegado, porém não gosta muito de estudar e como grande parte dos pré-adolescentes prefere jogar bola e passa um bom tempo no Tik Tok. Para cumprir as tarefas escolares, a mãe precisa ficar no pé, porém vê com bons olhos a chance que tem de estar dentro de casa, acompanhar de perto e poder mostrá-los as consequências das escolhas que ele faz. 

“Sinto que está sendo um período muito difícil para o mundo inteiro, mas me trouxe chances únicas e indispensáveis”, revela.

Em relação ao método de ensino remoto dos filhos, a mãe avalia que apesar de a distância, são aulas muito boas. “Os professores acompanham as atividades, exploram o conteúdo, conversam com as crianças, mantêm os intervalos para levantar e descansar a vista da tela. As aulas que me deixam de cabelo em pé são as de educação física. A casa vira de pernas para o ar”.

A profissional

No horário em que ministra suas aulas, Vanessa conta com o apoio do marido. É ele quem consegue manter as crianças em silêncio, aproveita o momento para dar banho e lanche. A professora tem uma placa de “mamãe em aula”, que deixa na porta e se fecha no quarto de estudos. Nessa hora eles sabem que a mãe está no trabalho, por isso, não interferem muito. Mas foi preciso orientá-los sobre a seriedade do silêncio durante esse período em que ela está com seus alunos. 

“Na hora dos intervalos,  eu abro a porta e todos entram como um furacão. Mãe eu quero pizza, mãe eu quero isso, mãe eu quero aquilo. Aí eu respondo que  daqui uma horinha ou duas a mamãe está fazendo tudo que vocês querem”.

Se surpreende quem pensa que o dia de Vanessa acaba depois de dar sua última aula. Ali, a noite na verdade está apenas no começo. Depois de colocarem as crianças na cama, ela e o marido separam as atividades das meninas e já preparam tudo para o dia seguinte.

“Como são crianças, nem sempre eles conseguem acompanhar e fazer tudo, sempre tem um para casa que passa despercebido. A gente tem que aproveitar para colocar tudo em ordem no sábado ou no domingo. Também é nos finais de semana que fazemos as leituras, treinamos as sílabas, as letras, a pontuação, a acentuação, e prepararmos as tarefas que segunda-feira”.

Diversão em casa

As aulas das crianças terminam por volta do meio-dia, e é a partir daí que inicia-se o momento de brincar. Os três filhos sempre se divertiram muito entre si. Em meio a pandemia e o isolamento social, Vanessa encontrou uma forma de driblar a falta de rotina com outros amigos e trouxe  novo membro para a família: o Flash, um cãozinho. “Flash é um cachorrinho lindo e sapeca, a hora de levá-lo para passear é um dos melhores momentos do dia, é uma algazarra”.

Flash, o amiguinho especial

Outro momento que a família também tira para descontrair é quando Vanessa tem provas para corrigir, ela reúne todos na mesa e é “hora da escola”, cada um faz sua tarefa e aproveitam para passar o tempo juntos. “Logicamente que uma coisinha ou outra sai da linha né. Se é uma tarefa que dava para fazer de manhã, ela gasta de manhã e  à tarde, mas aqui com saúde, fé, boa vontade, às vezes a polêmica a gente contorna”.

Os desafios da pandemia em família

Na rotina da mãe e professora existem dias mais difíceis, em que as tarefas não são concluídas e o cronograma não é cumprido, mas mesmo assim ela  garante que não se deixa abalar e que sua fé a faz acreditar sempre que tudo na vida é um aprendizado. Paciência, confiança e fé são suas palavras de ordem. 

“Daqui um tempo vamos poder parar, olhar para trás e espero que possamos agradecer por ter saúde, por ter o desafio vencido e ter crescido como ser humano, como família e estarmos mais fortes e mais preparados. Acredito que a pandemia me mudou como pessoa em muitos aspectos, principalmente em reconhecer os meus  limites e dos outros, entender que todos estamos sujeitos a problemas e ninguém está livre de mazelas. Assim, a fé aumenta e a gente aprende a confiar mais, confiar na vida, na proteção de Deus”.

Vanessa é uma mãe muito dedicada e grata a família que tem. No momento em que uma doença assola o mundo, ela enxergou a chance de ouro de se aproximar de seus filhos. Em meio a correria do dia a dia ela tenta dar atenção a cada um individualmente e educá-los da melhor forma possível. Ao estar diariamente presente, ela percebe as necessidades de cada um e entende a hora certa de interferir.

“Às vezes no momento em que você não pode intervir numa determinada situação, no momento exato do acontecimento, outra acontece e te dá a oportunidade de fazer uma abordagem mais madura. Nós somos muitos transparentes aqui em casa e fica mais fácil a percepção de como está cada um. Como eu via muito pouco meus filhos, apenas quando íamos para a aula, eu conversava muito com eles e explicava como é importante sermos sinceros e contarmos uns com os outros”, finaliza.

 

*Edição: Daniela Reis

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