Minas radicais: mulheres nos esportes de ação e aventura

Minas radicais: mulheres nos esportes de ação e aventura

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Elas também curtem esportes radicais e buscam por mais espaço

Os desafios da crescente presença feminina na vida esportiva radical

*Por: Thainá Hoehne

Pela primeira vez na história, no ano de 2020, os jogos olímpicos de Tóquio tiveram presença feminina superior à dos homens na fase de convocação, sendo 80 vagas femininas, 65 masculinas e 7 do hipismo, que tem disputa mista.

Considerando que, na primeira edição dos jogos, em 1896, as mulheres eram proibidas de competir, como na Grécia antiga, a participação das esportistas tem crescido, mas ainda é significativamente menor que a dos homens, principalmente nos esportes radicais, em que há distinção de gênero muito marcada.

“As mulheres são criadas para ficar em casa… O mundo dos esportes ‘outdoor’ é composto, majoritariamente, por homens, mas isso vem mudando aos pouquinhos”, analisa Paloma Galvão, profissional de slack e highline.

Ela descobriu o esporte há nove anos, e nunca mais parou. Apesar das dificuldades ao longo do caminho, principalmente com aquisição e montagem de equipamentos, Paloma, hoje, tem conhecimento necessário para uma prática segura, a ponto de participar de intervenção urbana com highline em 2017.

“Montamos um highline em cima do ‘Pirulito’ da praça 7, em BH, e, literalmente, paramos a cidade. Foi incrível.”, conta.

Representação

Para entender a experiência feminina nos esportes radicais, foram realizadas entrevistas com oito mulheres, profissionais e praticantes de diferentes esportes, entre os quais, modalidades de ação, como motocross, skate e MMA, e de aventura, a exemplo do highline, escalada e voo livre.

Apesar de as mulheres estarem cada vez mais inseridas nos esportes radicais, ainda não têm as mesmas condições e oportunidades dos atletas masculinos. Das entrevistadas, 87,5% confessaram já ter passado por algum tipo de preconceito ou situação constrangedora.

“Um dos maiores constrangimentos foi no primeiro voo. Ao chegar ao local, me deparei com um grupo de homens que voavam de parapente e ficaram indignados com o fato de uma ‘menininha’ pretender voar… Antes do voo, eles chegaram a me falar que era loucura e suicídio. Eu só precisava de concentração e paz”, lembra Beatriz de Souza, a Bya, atleta de pêndulo e tecido acrobático em alturas – hoje, considerada uma atleta única no mundo, por unir esportes radicais à arte.

De acordo com estudo realizado em 2015, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre prática de esporte e atividade física, as modalidades preferidas por homens destacam são ciclismo (75,2%); lutas e artes marciais (70%); e atletismo (64,5%). Já entre as mulheres, destacam-se dança e balé (85%); ginástica rítmica e artística (80,5%); caminhada (65,5%) e fitness (academias de ginástica: 64,4%).

Isso nos leva a perceber o porquê de os esportes radicais serem, majoritariamente, atribuídos aos homens, enquanto a imagem da mulher esportista, na maioria das vezes, é retratada não como campeã, mas por meio de atributos relacionados ao corpo e à beleza da atleta.

Laiane Amaral, skatista profissional, começou na prática do skate com seus 18 anos de idade. Hoje, com 21, já conquistou o pódio dez vezes em campeonatos variados.

“A maioria não acreditava que eu ia chegar longe. A maioria dizia que eu ia parar, que não ia mais evoluir. Diziam que mulher usava skate como moda, para tirar fotos, essas coisas.”, comenta.

O papel da mídia é questionado quanto à contribuição na diminuição do preconceito e da discriminação impostos às mulheres atletas, por reportar comentários sobre vida social, beleza e formas físicas para além do desempenho esportivo.

Medo, adrenalina e felicidade

Apesar das barreiras impostas dentro dos esportes radicais, são nítidas a paixão e a coragem de cada entrevistada por fazer o “impossível”, de modo a inspirar outras mulheres incríveis e a conquistar cada vez mais espaço.

Gleicy das Neves, empresária e praticante de motocross, foi a única entre as participantes que afirmou nunca ter sofrido preconceitos por ser mulher. Segundo ela, nos campeonatos de motocross de que participou, os direitos são iguais e as mulheres podem até mesmo competir com os homens. “Quando colocamos amor, dedicação, e mentalizamos o desejo de ser, o resultado tem grande possibilidade de vir a seu encontro”, comenta.

Entre as palavras mais citadas com relação aos sentimentos das atletas, as principais foram: medo, adrenalina e felicidade, respectivamente. O medo pelos riscos, a adrenalina que dá asas à coragem e a felicidade da superação.

“No momento que senti que era possível atravessar uma fita grande, em minha caminhada sobre alinha monstro do pântano, de 230 metros de distância, no festival Dibson Team, me conectei à fita e o momento foi único, de superação e auto controle. Foi a primeira vez que chorei de emoção e alegria na fita.”, relembra a highliner Laís Rodrigues, que superou o medo de altura e a falta de confiança nos equipamentos, os principais desafios enfrentados no começo de sua jornada no esporte.

Palavras das minas

“Não deixem a idade, a falta de tempo ou a vergonha atrapalhar seus objetivos. Precisamos sempre sair de nossa zona de conforto.” Tarciara Santos, atleta profissional de MMA

“Não se baseiem em outros corpos ou opiniões. Vão e façam. Raquel Froes, escaladora

“Não liguem para o que os outros falam… apenas sejam vocês mesmas e façam o que amam de verdade.” Gabriela Marques, atleta de motocross.

Projetos mineiros que apoiam a cena feminina dos esportes radicais

  • @minasdepedra – Coletivo de escaladoras mineiras.
  • @highlinedasmulheres e @Highline_feminino_brasil – Projetos voltados à evolução e à divulgação das mulheres no highline.
  • @minasnoskate – Marca coletiva para incentivar e divulgar o skate feminino.

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr. e da jornalista Daniela Reis

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