“Minha vida é essa; subir Bahia,uma rua bela como essa.”

“Minha vida é essa; subir Bahia,uma rua bela como essa.”

Rua da Bahia, no cruzamento com a rua Guajajaras e avenida Álvares Cabral

Por Moisés Martins

O que dizer de uma rua, como a rua da Bahia? Localizada na bela Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na capital de “trens e uais de Redá pá lá e Pó para”. Uma rua de importância histórica e cultural para a nossa capital.  Foi palco de manifestações políticas e objeto de crônicas e poemas de autores mineiros e nacionais. Deixo aqui um pouquinho da minha experiência dessa rua que faz parte do meu caminho.

Rua da Bahia, no cruzamento com a rua dos Guajajaras e avenida Álvares Cabral

A minha vida é essa:  subir e descer Bahia. Sem nenhuma pressa, de modo que me distraio à beça. A rua da Bahia se modifica a cada dia, sem ao menos ter que descer floresta.

São 12 minutos de caminhada para percorrer seis quarteirões, algo próximo a 1 mil metros. Atravesso ruas e avenidas da capital, que misturam nomes de povos indígenas a personagens importantes da história brasileira: Goitacazes, Augusto de Lima, Guajajaras, Álvares Cabral, Timbiras, Aimorés e Bernardo Guimarães. Ao transitar pelas calçadas,  você encontra pessoas de todas as cores, estilos e crenças, pessoas de diferentes orientações sexuais e classes sociais.

É uma subida cansativa, mas que dá gosto de percorrer. No horário da tarde, deparo-me com um grande número de pessoas. A maioria delas estão em horário de almoço. As agências bancárias no percurso fazem com que o  fluxo de passantes aumente ainda mais. Tenho que me desviar para que não esbarre em nenhuma delas. De olhos atentos consigo perceber a diferença social que existe entre os quarteirões.

O primeiro quarteirão vai da Rua Goitacazes à Avenida Augusto de Lima. Região onde é grande o número de pedintes, moradores de rua que dominam a área, vivem das moedinhas de quem passa por ali. Na calçada,  muitos bueiros, todos desnivelados, tornando a via cheia de relevos.

O quarteirão  da Avenida Augusto de Lima à Rua Guajajaras muda-se a cena. A presença de moradores de rua passa a ser  menor. Nota-se um fluxo maior de caminhoneiros no setor de carga e descarga. A presença de jovens classe média fica mais constante,  devido ao Colégio Chromos localizado na região. Os boêmios encontram lugares nos dois quarteirões, da Rua Guajajaras à rua Aimorés, onde as cadeiras dos bares se espalham pelas calçadas.

O final do meu percurso é o quarteirão entre rua Aimorés e rua Gonçalves Dias, local frequentado por estudantes, professores e bancários que trabalham em ruas próximas.

Mas a rua da Bahia é muito mais:  ao longo de todo trajeto, pessoas se amam, pássaros fazem ninhos em copas de árvores. Uma rua em constante transformação. É como uma estação de trem: as pessoas embarcam e desembarcam nos seguidos encontros e desencontros. Diria que a rua da Bahia é o palco, onde nós compomos todos os dias, uma nova cena.

Durante essas cenas, encontramos amizades com quem nunca vimos. Trocas de olhares e de repente a cena para, aparece a cortina. Fim da cena? Não, não, esperem! É apenas um fumante que passou por você e encheu o seu rosto de fumaça. Ufa! Já posso trocar olhares de novo.  Não! não posso, a pessoa simplesmente desapareceu. Talvez tenha entrado em alguma loja, virado em alguma rua…

Dentro do carro a cena é completamente diferente.  O sinal fecha e mais uma cena se inicia. De repente uma pessoa atravessa correndo na frente dos carros, a cena então recomeça, os motoristas buzinam, alguns xingam. Às vezes, nem adianta. A pessoa até atravessou! Sinal verde! Os carros podem avançar e lá vão eles subir bahias e descer florestas.

E assim as cenas vão se reconstruindo a cada dia. Não existe diretor, a cena simplesmente acontece, e sempre estamos lá para assistir em primeira mão as histórias que fazem da rua da Bahia um lugar tão fantástico.

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