Movimento gastronômico revitaliza o Mercado Novo

Movimento gastronômico revitaliza o Mercado Novo

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Copa Cozinha é um dos estabelecimentos que participa do processo de revitalização do Mercado Novo por meio da gastronomia. Foto: Super Câmera.

Antes esquecido, o Mercado Novo passa por uma revitalização puxada por um movimento gastronômico e vive um boom de bares e restaurantes

Por Jéssica Oliveira*

A exemplo de cidades como Nova Iorque, que passa por uma constante revitalização de bairros e espaços antes abandonados, a capital mineira vem recuperando e dando vida à ruas e estabelecimentos que caíram no esquecimento do poder público e das pessoas. O bar Zona Last foi o pioneiro ao atrair para a região leste um público diverso e interessado em vivenciar e ocupar outras áreas de Belo Horizonte.

Outro ponto que passou a ser frequentado pelos belo-horizontinos, a rua Sapucaí, no centro da cidade, recentemente, ganhou status de cartão postal, e, para além disso, traz variadas opções de bares e restaurantes que se tornaram referência nos últimos anos. O mesmo ocorre com o Mercado Novo. Até um ano atrás, quem passava pelo lugar se deparava com um prédio largado às traças, com pouca iluminação e sem cor.

Antes, toda edificação, construída na década de 1960, com o intuito de ser um centro de distribuição, assim como o Mercado Central, estava ocupada apenas por lojas e serviços gráficos. Um movimento gastronômico, no entanto, tem alavancado as atividades do local, que recebe, durante toda semana, gente interessada em boa comida e opções variadas de cervejas artesanais e drinks.

Quem vai até o local encontra um ambiente simples e despojado, com culinária voltada para as raízes mineiras e processos artesanais. O projeto batizado de Velho Mercado Novo, sob a batuta dos sócios Rafael Quick, Samuel Viterbo, Marcelo Machado e Luiz Furiati, é responsável por reavivar o local, que funciona como espaço onde os produtos e produtores locais são valorizados. Não à toa, a marca mineira de gin Ivy viu a possibilidade de instalar no Mercado Novo um bar onde todo o cardápio de bebidas foi pensado a partir do destilado, que nos últimos dois anos se tornou o queridinho das noites belo-horizontinas.

A presença de empreendedores da gastronomia e a execução de projetos em parcerias têm dado resultados e feito com que o Mercado Novo se torne um ponto de encontro. Uma das propostas responsáveis por esse engajamento é a dobradinha feita pela Cozinha Tupis e a Distribuidora Goitacazes, empresa do grupo Viela. A união tem fomentado a criação de novos projetos criativos no espaço.

Repensando a cozinha

Henrique Gilberto, 32 anos, que comanda o Cozinha Tupis, é um dos expoentes da cozinha mineira. A proposta do seu estabelecimento, localizado no segundo andar do Mercado, é proporcionar ao público um ambiente que dialogue com o espaço onde está instalado.

“Desenvolvemos uma cozinha anti-padrão, que fomenta a nossa criatividade. O restaurante não existe sem o Mercado Novo. A Cozinha Tupis só existe por causa dele. Ela tenta condensar a essência de insumos que são encontrados aqui, refletindo um pouco da cozinha centro belo-horizontina, as influências, as maneiras de serem consumidas, tudo isso é embasado em como cozinhamos e como as pessoas se comportam no centro da cidade”, revela Gilberto.

O empreendimento tem uma política de microeconomia. Todo insumo usado no restaurante é comprado no próprio Mercado Novo ou Mercado Central. Os ingredientes são escolhidos pensando na sazonalidade e oferta do mercado. “O que conduz o cardápio semanalmente é justamente o que vimos na feira do mercado, então o cardápio muda conforme a feira muda. Os ingredientes que não podem faltar são os frescos, da época. Não temos uma regra, esperamos que o ingrediente esteja no seu melhor momento para que possamos comprar. O ingrediente da época é o que conduz a Cozinha Tupis”, completa Henrique.

Brunch mineiro

Ainda que as opções noturnas de bares e restaurantes sejam as que mais atraem público, engana-se quem acha que o local se limita a isso. Quem estiver disposto a andar sem pressa pelos corredores do Mercado Novo irá descobrir uma galeria de arte, o Espaço Corda, dos amigos Diogo Salomão, Pablo Gomide e Humberto Hermeto, brechós, um laboratório de fotografia analógica, o Super Câmera, uma barbearia e um charmoso café, o Copa Cozinha, onde são servidas várias delícias mineiras.

À frente do Copa Cozinha, Júlia Queiroz, Maíra Sette e Cristina Gontijo decidiram criar um espaço onde as memórias, tanto da equipe como dos clientes, fossem reavivadas. É a partir da cozinha afetiva que as pessoas são conduzidas aos sabores e sensações sentidas na infância.

“Nós trabalhamos na Copa Cozinha em cima de memórias. Cada um tem uma lembrança de família, um cheiro que lembra infância. Na nossa cozinha, o doce de laranjinha kinkan se transforma em tortinha de chocolate com caramelo salgado, o gostinho de limão capeta do quintal é resgatado no nosso bolo com creme de queijo e geleia de amora. O bolinho de fubá, que tem milhares de receitas e está sempre presente na nossa mesa de café da manhã, os biscoitinhos amanteigados que não faltavam na lata da casa da vó, nos inspiraram para os nosso crocantes de goiabada e de doce de leite, e a tortinha cremosa com compota de jabuticaba”, explica Júlia.

Júlia entende que cada processo de uma receita demanda cuidado e delicadeza, e se inspirou na tradição da culinária mineira para criar o cardápio do Copa Cozinha. Ela aprendeu observando e valorizando cada detalhe, o tempo da massa, e os materiais corretos no momento do preparo. Acima de tudo, ela encara a cozinha como um ambiente que deve ser acolhedor.

“Nos apresentar é falar sobre um cômodo da casa conjugado a Copa Cozinha. É onde se prepara a comida e se faz as refeições também. A magia está na vocação de abrigar duas práticas tão infinitas de afeto, cozinhar e servir com simplicidade. Por isso a escolha do Mercado Novo, que é um retrato da nossa identidade, essência e autenticidade. A Copa Cozinha é um lugar para celebrar essa tradição em torno de uma mesa”, destaca Júlia.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob a supervisão dos jornalistas Felipe Bueno e Daniela Reis)

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