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Copa Cozinha é um dos estabelecimentos que participa do processo de revitalização do Mercado Novo por meio da gastronomia. Foto: Super Câmera.

Antes esquecido, o Mercado Novo passa por uma revitalização puxada por um movimento gastronômico e vive um boom de bares e restaurantes

Por Jéssica Oliveira*

A exemplo de cidades como Nova Iorque, que passa por uma constante revitalização de bairros e espaços antes abandonados, a capital mineira vem recuperando e dando vida à ruas e estabelecimentos que caíram no esquecimento do poder público e das pessoas. O bar Zona Last foi o pioneiro ao atrair para a região leste um público diverso e interessado em vivenciar e ocupar outras áreas de Belo Horizonte.

Outro ponto que passou a ser frequentado pelos belo-horizontinos, a rua Sapucaí, no centro da cidade, recentemente, ganhou status de cartão postal, e, para além disso, traz variadas opções de bares e restaurantes que se tornaram referência nos últimos anos. O mesmo ocorre com o Mercado Novo. Até um ano atrás, quem passava pelo lugar se deparava com um prédio largado às traças, com pouca iluminação e sem cor.

Antes, toda edificação, construída na década de 1960, com o intuito de ser um centro de distribuição, assim como o Mercado Central, estava ocupada apenas por lojas e serviços gráficos. Um movimento gastronômico, no entanto, tem alavancado as atividades do local, que recebe, durante toda semana, gente interessada em boa comida e opções variadas de cervejas artesanais e drinks.

Quem vai até o local encontra um ambiente simples e despojado, com culinária voltada para as raízes mineiras e processos artesanais. O projeto batizado de Velho Mercado Novo, sob a batuta dos sócios Rafael Quick, Samuel Viterbo, Marcelo Machado e Luiz Furiati, é responsável por reavivar o local, que funciona como espaço onde os produtos e produtores locais são valorizados. Não à toa, a marca mineira de gin Ivy viu a possibilidade de instalar no Mercado Novo um bar onde todo o cardápio de bebidas foi pensado a partir do destilado, que nos últimos dois anos se tornou o queridinho das noites belo-horizontinas.

A presença de empreendedores da gastronomia e a execução de projetos em parcerias têm dado resultados e feito com que o Mercado Novo se torne um ponto de encontro. Uma das propostas responsáveis por esse engajamento é a dobradinha feita pela Cozinha Tupis e a Distribuidora Goitacazes, empresa do grupo Viela. A união tem fomentado a criação de novos projetos criativos no espaço.

Repensando a cozinha

Henrique Gilberto, 32 anos, que comanda o Cozinha Tupis, é um dos expoentes da cozinha mineira. A proposta do seu estabelecimento, localizado no segundo andar do Mercado, é proporcionar ao público um ambiente que dialogue com o espaço onde está instalado.

“Desenvolvemos uma cozinha anti-padrão, que fomenta a nossa criatividade. O restaurante não existe sem o Mercado Novo. A Cozinha Tupis só existe por causa dele. Ela tenta condensar a essência de insumos que são encontrados aqui, refletindo um pouco da cozinha centro belo-horizontina, as influências, as maneiras de serem consumidas, tudo isso é embasado em como cozinhamos e como as pessoas se comportam no centro da cidade”, revela Gilberto.

O empreendimento tem uma política de microeconomia. Todo insumo usado no restaurante é comprado no próprio Mercado Novo ou Mercado Central. Os ingredientes são escolhidos pensando na sazonalidade e oferta do mercado. “O que conduz o cardápio semanalmente é justamente o que vimos na feira do mercado, então o cardápio muda conforme a feira muda. Os ingredientes que não podem faltar são os frescos, da época. Não temos uma regra, esperamos que o ingrediente esteja no seu melhor momento para que possamos comprar. O ingrediente da época é o que conduz a Cozinha Tupis”, completa Henrique.

Brunch mineiro

Ainda que as opções noturnas de bares e restaurantes sejam as que mais atraem público, engana-se quem acha que o local se limita a isso. Quem estiver disposto a andar sem pressa pelos corredores do Mercado Novo irá descobrir uma galeria de arte, o Espaço Corda, dos amigos Diogo Salomão, Pablo Gomide e Humberto Hermeto, brechós, um laboratório de fotografia analógica, o Super Câmera, uma barbearia e um charmoso café, o Copa Cozinha, onde são servidas várias delícias mineiras.

À frente do Copa Cozinha, Júlia Queiroz, Maíra Sette e Cristina Gontijo decidiram criar um espaço onde as memórias, tanto da equipe como dos clientes, fossem reavivadas. É a partir da cozinha afetiva que as pessoas são conduzidas aos sabores e sensações sentidas na infância.

“Nós trabalhamos na Copa Cozinha em cima de memórias. Cada um tem uma lembrança de família, um cheiro que lembra infância. Na nossa cozinha, o doce de laranjinha kinkan se transforma em tortinha de chocolate com caramelo salgado, o gostinho de limão capeta do quintal é resgatado no nosso bolo com creme de queijo e geleia de amora. O bolinho de fubá, que tem milhares de receitas e está sempre presente na nossa mesa de café da manhã, os biscoitinhos amanteigados que não faltavam na lata da casa da vó, nos inspiraram para os nosso crocantes de goiabada e de doce de leite, e a tortinha cremosa com compota de jabuticaba”, explica Júlia.

Júlia entende que cada processo de uma receita demanda cuidado e delicadeza, e se inspirou na tradição da culinária mineira para criar o cardápio do Copa Cozinha. Ela aprendeu observando e valorizando cada detalhe, o tempo da massa, e os materiais corretos no momento do preparo. Acima de tudo, ela encara a cozinha como um ambiente que deve ser acolhedor.

“Nos apresentar é falar sobre um cômodo da casa conjugado a Copa Cozinha. É onde se prepara a comida e se faz as refeições também. A magia está na vocação de abrigar duas práticas tão infinitas de afeto, cozinhar e servir com simplicidade. Por isso a escolha do Mercado Novo, que é um retrato da nossa identidade, essência e autenticidade. A Copa Cozinha é um lugar para celebrar essa tradição em torno de uma mesa”, destaca Júlia.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob a supervisão dos jornalistas Felipe Bueno e Daniela Reis)

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Filme The Wars of Coco Chanel aborda o caráter forte e personalidade controversa da estilista francesa. Foto: reprodução.

Feed Dog Brasil, evento que estreia hoje em Belo Horizonte, apresenta ao público, por meio de exibições de filmes, oficinas e debates, diversos olhares sobre o universo da moda

Por Bianca Morais*

A moda sempre foi representada com esmero nas telas do cinema. Em parte, por conta da sua força narrativa e, por outra parte, pelo fascínio que desperta nas pessoas. Essas duas expressões se fundem na mostra Feed Dog Brasil, Festival Internacional de Documentários de Moda, evento que entra em cartaz hoje, em Belo Horizonte, e que evidencia a pluralidade da moda.

Até o dia 6 de outubro, o público belo-horizontino terá a oportunidade de experimentar uma programação gratuita e diversa, que traz a exibição de 11 documentários, sendo oito inéditos, além de debates e oficinas, no Sesc Palladium, no Museu da Moda (MUMO) e na Una – Campus João Pinheiro II.

Na abertura da mostra, realizada no Sesc Palladium, nesta terça-feira, às 20 horas,  será exibido o filme Celebration, de Olivier Meyrou, um registro do processo de criação da última coleção do estilista francês Yves Saint Laurent.

A curadoria, assinada pela jornalista e documentarista Flavia Guerra, que afirma que moda é cultura, debruça-se sobre obras que entretêm ao mesmo tempo que educam, sem ser didático.

– O nosso pensamento, ao fazer curadoria, juntamente com o Marcelo Aliche, que também é curador, e a Lais Vitral, coordenadora de produção, sempre foi unir diferentes visões e trazer filmes que fazem esse recorte da moda e que, ao mesmo tempo, contêm histórias interessantes, acima de tudo. Por meio dos filmes, a gente se informa, aprende, pensa, amplia nossa visão e vemos ótimas histórias, com ótimos personagens e ótimos temas – explica Flavia Guerra.

Ainda de acordo com a curadora, o cinema contribui para desmistificar o imaginário de que moda é algo inacessível, na medida em que propõe um novo olhar e apresenta uma investigação profunda dos bastidores desse universo.

– É por meio do cinema que adentramos em um ambiente que, naturalmente, não teríamos a chance de entrar como, por exemplo, o ateliê do Yves Saint Laurent. Primeiro, por uma questão histórica e de acesso. Segundo, porque descobrimos que essas personagens que nós retratamos nos documentários, e que a gente vê retratadas, são pessoas – expõe Flávia.

O filme Celebration, escolhido para a abertura, evidencia o quanto Yves Saint Laurent era meticuloso, cuidadoso, extremamente artesanal até no trabalho de pensar a alta-costura, como era viver com ele, o quanto era uma pessoa na sua rotina de trabalho.

Outro filme que destaca o caráter humano de um estilista, que será exibido no festival, é The Wars of Coco Chanel, que evidencia como a vida de Coco Chanel foi muito além do glamour. A produção mostra uma visão caleidoscópica da francesa, o quanto ela era genial e também uma figura controversa.

A indústria da moda

O festival tem por objetivo, também, mostrar que a moda é mais que alto padrão e alta-costura. Os filmes procuram ampliar a visão sobre o assunto ao expor o quanto a indústria têxtil modifica a dinâmica de um lugar, polui a natureza, impõe um novo modo de vida e precariza as condições de trabalho. As produções Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar e Machines abordam a indústria têxtil e propõem debate sobre sustentabilidade e o futuro de uma das indústrias que mais poluem no mundo, depois da petrolífera.

Em contraposição a essa realidade, o filme Cambodian Textiles faz repensar a moda e o modo de produção, o consumo, a valorização do estilo de vida para além da moda, por meio do movimento slow fashion, ao retratar a produção de seda feita a mão no Camboja.

– Para além da criação, a moda tem essa função de movimentar indústrias. É um dos setores que mais emprega no Brasil, responsável por criar uma cadeia produtiva. A moda tem esse papel de repensar como a gente lida, hoje mais do que nunca, com o nosso mundo, com o meio ambiente, muito para além de questões politicamente corretas, mas por questões práticas – acredita Flavia.

Polo da moda

O evento Feed Dog, que nasceu em Barcelona, na Espanha, em 2015, aporta em Belo Horizonte, pela segunda vez, em razão da vocação da cidade, que tem criadores projetados nacionalmente e pela tradição artesanal que ainda preserva, a exemplo do bordado, da costura e do tricô.

A escolha da capital mineira para sediar o evento, segundo conta o diretor artístico e curador Marcelo Aliche, não foi por acaso. A organização encontrou aqui parcerias importantes para a consolidação do projeto como o Museu da Moda, o Sesc, a Riachuelo e o Centro Universitário Una.

– Belo Horizonte é um polo de moda muito importante no país. Tem uma tradição de criadores, de indústria de moda. Isso é muito importante, pois traz consigo uma sociedade já inserida nesse debate. É muito bom encontrar pessoas que podem debater o assunto – avalia Aliche.

O evento ainda realiza a exposição “Alfaiarte”, idealizada pelo alfaiate mineiro Marcelo Blade, em cartaz no Museu da Moda (Mumo) até o dia 27 de outubro.

Ingressos: Todos os filmes e debates têm acesso gratuito, com retirada de ingressos com 30 minutos de antecedência.

Programação completa e inscrição para as oficinas no site: http://br.feeddog.org

 

*(A estagiária escreveu a reportagem sob a orientação do jornalista Felipe Bueno).

 

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A praça da Liberdade e toda a região centro-sul de Belo Horizonte, em função da concentração de museus, teatros, cinemas, agências de publicidade, redações de jornalismo, startups, é um dos maiores expoentes da economia criativa em Minas Gerais. Foto: Italo Charles.

O setor da economia criativa é o que mais cresce em Minas Gerais; as iniciativas público e privada ajudam a consolidar projetos das diversas vertentes da indústria criativa no estado 

Por Bianca Morais e Marcelo Duarte*

Minas Gerais é reconhecido como estado com economia voltada, predominantemente, para mineração e agropecuária. Porém, nos últimos anos, um novo modelo econômico vem se impondo. Conjunto de negócios baseados no capital intelectual, cultural e na criatividade que gera valor econômico e responsável por movimentar os setores da indústria criativa, a economia criativa ganha cada vez mais espaço.

A exemplo disso, de acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico de Belo Horizonte, Minas Gerais figura na segunda posição na geração de empregos da indústria criativa, com mais de 457 mil postos de trabalho, o que equivale a 9,84% das vagas formais do setor em todo o Brasil.

No total, o estado abriga mais de 63 mil empresas, que correspondem a 12% das empresas criativas no país. O setor gera R$ 788 milhões de renda mensalmente, apenas em Minas Gerais.

Ainda segundo o órgão, no cenário nacional, cerca de 4,6 milhões pessoas trabalham diretamente com a economia criativa, gerando renda mensal de mais de R$ 10 bilhões. São mais de meio milhão de empresas, das quais 98% são micro e pequenas empresas.

Segmentos da economia criativa 

A economia criativa é dividida em grupos e segmentos. São eles: Criações Funcionais, com a arquitetura; design; moda; móveis; publicidade; cultura, com atividades artísticas, gastronomia e patrimônio cultural; mídia, com audiovisual, edição/editorial e música; e tecnologia e inovação, com conhecimento e software.

Um dos ramos que vem ganhando espaço dentro da economia criativa em Minas Gerais é inovação e tecnologia. A economia criativa conquista espaço cada vez maior no Estado, fazendo com que ele se desenvolva nessa área, para diversificar sua economia e inserir o estado em um eixo de comércios e serviços criativos, para além das atividades que são já tradicionais.

Belo Horizonte possui mais de 104 mil empregos criados pela economia criativa, sendo o maior polo criativo de Minas Gerais (22,7% dos empregos do Estado).

Nos quatro grupos da economia criativa, BH é o município com maior número de empregos nas atividades criativas do Estado, com destaque para arquitetura, atividades artísticas, conhecimento, edição/editorial, música, publicidade e software.

É o terceiro maior polo criativo do Brasil (concentra 2,26% dos empregos nas atividades criativas).  Mais de 21% das empresas de BH desenvolvem atividades relacionadas à economia criativa, sendo 53,7% microempreendedores individuais.

A arquitetura é, do grupo de criações funcionais, a principal do estado. É o maior polo de Minas Gerais e o 3° do Brasil. Existem 2 mil estabelecimentos ativos e se concentram principalmente na região Centro-Sul.

Outra área muito reconhecida é a de tecnologia e inovação. É o segundo grupo mais representativo na economia criativa, ficando atrás apenas da cultura. Detém 31,8% dos profissionais criativos do município, mais de 17 mil. Seus dois segmentos, conhecimento e software, também se destacam como os melhores do estado.

Em 2017, as atividades criativas geraram em Belo Horizonte cerca de R$250 milhões em renda mensal. Em Minas Gerais, outra área que também se destaca é a gastronomia. Com 21,39 mil profissionais em Belo Horizonte, (92,4% dos profissionais de Cultural da capital), é o maior polo de Minas Gerais e o terceiro maior do Brasil (em termos de número de profissionais). Concentra 23,3% dos profissionais de gastronomia de Minas Gerais e 2,4% dos profissionais de gastronomia do Brasil.

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Cozinha afetiva: os sabores de Belo Horizonte em destaque

Interior

A Economia Criativa não está concentrada apenas na capital, Juíz de Fora, Uberlândia, Contagem e Nova Serrana estão entre os os cinco municípios mineiros que concentram a maior quantidade de empregos da economia criativa. Um exemplo disso vem do segmento de cultura, atividades artísticas, em que o maior polo se concentra na cidade de Santo Antônio do Monte,

Quebrando com formatos tradicionais de trabalho e diversificando a economia, Minas é visto, ainda, como um estado muito tradicional. De fato é, a cultura aqui ainda é conservadora, mas o setor criativo, e seus múltiplos talentos, têm tido um papel importante para romper com esses conservadorismos.

As perspectivas para a área são muito promissoras, há um tempo, tinha-se muito a ideia de que, para um projeto ir para frente, era preciso mudar para São Paulo ou Rio de Janeiro. Hoje, há uma valorização do local e a percepção de que temos potencial para fazer a diferença aqui e agora, de mudar o aqui, e não mudar daqui. A geolocalização do estado favorece: Minas tem o maior número de startups e iniciativas, a perspectiva é crescer e desenvolver ainda mais.

Áreas crescentes da economia

A partir do mapeamento das atividades que englobam a Economia Criativa, munido de dados e indicadores estatísticos, é possível se ter a noção dos resultados das ações desenvolvidas por determinados elos da cadeia criativa da cultura. Detecta-se que a quantidade de ações nas regionais centro-sul e leste, da capital mineira, é infinitamente superior às regionais como Barreiro, Venda Nova e Norte.

No estado de Minas Gerais, de acordo com o balanço lançado pela P7 Criativo, o audiovisual se desenvolveu muito na região da Zona da Mata mineira. Com os apoios recentes que foram dados, a região teve um conjunto expressivo de produções audiovisuais, que ativou muito a economia do lugar. Em Belo Horizonte, a produção de quadrinhos vira produções de cinema de animação.

Para Leonardo Guerra, diretor da P7 Criativo, uma das áreas que podem mais ser desenvolvidas na economia criativa é a área da moda, por conta da sua diversidade com que é trabalhada no estado. “Estamos tentando focar um conjunto de ações para fomentar esses grandes setores como o mercado de moda, que envolve uma cadeia produtiva extensa, onde tem a confecção, a indústria têxtil, a área de calçados, joias, couros e bijuterias, e a quantidade enormes de eventos de atividades em torno. Há uma carência de se criar valor agregado, que a longo tempo se perdeu a formação de profissionais que atuem em uma geração maior de valor, com produtos mais elaborados, públicos mais diversificados”.

Minas Gerais possui ainda, a única aceleradora de jogos digitais da América Latina – Playbor -, que está sempre desenvolvendo programas para estúdios iniciantes e funcionando como uma ponte entre academia, governo e indústria. Portanto, os jogos hoje são ferramentas importantíssimas que, com um objetivo estratégico bem definido, pode servir como um grande aliado para diversas áreas da economia criativa. Minas Gerais é referência internacional quando falamos sobre o ecossistema de startups e economia criativa. Temos atualmente alguns dos principais e melhores avaliados cursos de jogos digitais do Brasil, além de jogos de sucesso internacional, como Dandara e Mr Square.

O primeiro passo para a organização e amadurecimento do mercado mineiro foi a criação da GAMinG – associação mineira de jogos -, ao final de 2016, a qual tem como principais objetivos a organização das ações e contatos com o ecossistema mineiro e a busca de oportunidades de negócios para os estúdios.

Para João Guilherme Paiva – Co-fundador na Playbor e Diretor de negócios na GAMinG Jogos lúdicos, de treinamento e soluções gamificadas, as iniciativas têm se mostrado eficazes no aumento do engajamento de alunos, profissionais ou qualquer pessoa interessada, tornando o processo de aprendizado divertido e aumentado os resultados.

“Games, sendo um desses setores, tem uma peculiaridade em relação aos demais que é a horizontalidade de mercado, ou seja, jogos vão além do entretenimento e podem fazer parte de diversas outras categorias, como: jogos de advertising (advergames), jogos lúdicos educacionais, jogos sociais, soluções gamificadas e simuladores”, argumenta Paiva.

Cada vez mais, grandes empresas e instituições de caráter conservadores têm buscado jogos digitais e ou analógicos como ferramentas para a inovação e adaptação ao mundo moderno, principalmente quando querem atingir o público jovem.

“Um bom exemplo [do uso dos jogos digitais no mundo corporativo] é o case do Ministério da Transparência e da Corregedoria Geral da União, que nos procuraram para executar uma programa de aceleração que pudesse buscar formas e gerar soluções gamificadas para abordar temas como combate a corrupção, ética e cidadania. Na cultura, temos a Diretoria de Fomento e Economia da Cultura, que visa dar sequência às questões relacionadas à economia”, afirma Paiva.

P7 Criativo

O P7 criativo é uma associação público privada sem fins lucrativos, com o objetivo de se transformar numa agência de desenvolvimento da economia criativa no estado de Minas Gerais. Até então, a primeira iniciativa que existe no Brasil.

O objetivo da empresa é melhorar a comunicação e fomentação da economia criativa em Minas Gerais, podendo propor ações de desenvolvimento para áreas antes não contempladas.

O P7 está instalado na Avenida Afonso Pena 4000. Futuramente, será instalado no prédio icônico do antigo Banco Mineiro da produção na Praça Sete, que está sendo restaurado. Os 25 andares vão abrigar várias empresas, que são de pequeno porte, cerca de 300 posições de coworking, com o objetivo de fomentar setores da economia criativa.

“Há expectativa para economia criativa e para essa agência fomentar setores e alavancar as vendas, abrangendo não só o estado”, pontua o diretor Presidente da P7 Criativo, Leonardo Guerra.

O setor cultural é fundamental para economia criativa no estado, gerando aproximadamente 5 mil vagas de emprego. “Sem dúvida alguma, o setor cultural – incluindo a gastronomia – é de fundamental desenvolvimento para o município. Hoje, temos mais de 30 festivais consolidados no município, além de outros 180 que ocorrem esporadicamente. Os projetos financiados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura geram aproximadamente 5 mil empregos na capital, além de ampla movimentação”, revela Guerra.

O presidente da P7 Criativo ainda destaca o turismo mineiro e belo-horizontino como expoente da economia que move a cultura e a cadeia criativa local. “Creio que o potencial de turismo cultural do município só tenda a ser mais desenvolvido ainda, ampliando o conceito de serviços e comércio no município. O Carnaval é um grande exemplo”, sustenta.

Na Secretaria de Cultura estadual, pela primeira vez, Minas Gerais tem uma diretoria que contempla a economia da cultura, assunto antes tratado de maneira não sequencial. A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) acompanhou a espontaneidade do Carnaval, fortalecendo-o institucionalmente, gerando condições para que a festa crescesse de maneira organizada e segura.

Além disso, a Lei Municipal de Incentivo à Cultura, por exemplo, também contemplou, no último ano, alguns projetos relacionados à folia, ou seja, além das ações da Belotur, a cultura também visa atuar de maneira transversal e fortalecer o Carnaval.

Uma dos maiores desafios que a Economia Criativa enfrenta é o associativismo em tempos de problemas de geração de emprego no século XXI. “Olha, a economia tem vários desafios. Um deles é o associativismo, de  pessoas que atuam nesse setor, em vários segmentos com baixos níveis de associação e até os que têm o nível maior existe uma dificuldade que a central de fragmentação de ações. O que se pretende com isso é promover e entender essas dificuldades e atuar no sentido de atenuar isso e fortalecer esses segmentos, seja estimulando o associativismo criando canais de comunicação com o governo ou até consolidando ações que estão fragmentados para alguns”, observa.

Savassi Criativa 

A Savassi é um dos bairros mais conhecidos da capital mineira e abriga bares, lojas, baladas, empresas, espaços culturais. Dos treze segmentos dos grupos da economia criativa, dez se encontram na região da Savassi.

A Savassi Criativa é um movimento de iniciativa cidadã que atua para o desenvolvimento da qualidade de vida do bairro levando em consideração sua importância história e cultural, seu ecossistema criativo e sua população diversa.

Segundo Natalie Oliffson, vice presidente do projeto, a savassi é por vocação “o distrito criativo” de Belo Horizonte. Um verdadeiro hub onde se encontram empresas e profissionais de todos os campos da Economia Criativa.

Para a consultora em marketing, a economia criativa é flexível e inclui iniciativas que vão além da área cultural. “No Brasil, o conceito de Economia Criativa está sendo assimilado por governos e mercados, e pessoalmente acredito que quando compreendermos nossas forças nestas áreas poderemos dar um salto em desenvolvimento”, acredita Natalie.

A Economia Criativa e o Projeto Savassi Criativa se relacionam seguindo dois preceitos como ferramentas: O FIB (Felicidade Interna Bruta) como filosofia e a Economia Criativa. Na visão de Natalie Oliffson “A Savassi é uma das regiões da cidade onde a Economia Criativa já está presente, sendo uma vocação natural e um posicionamento.” Por isso, o movimento já se articula junto aos órgãos municipais e estaduais para promover o reconhecimento da Savassi como um ‘Distrito Criativo’ a fim de que possam se desenvolver políticas públicas neste sentido.

Em tempos de desemprego em curva ascendente, a economia criativa aparece como uma alternativa para diminuir esses números. O estado de Minas Gerais vem avançando muito nessa área e desenvolvendo muitos estudos sobre o assunto. Atenta ao crescimento da economia criativa, a PBH vem investindo muito no setor, os dados utilizados para desenvolvimento dessa notícia foi cedido por eles com informações que levantam a algum tempo, mostrando dessa forma como tem sido dada uma atenção especial.

Em 2018, foi criado o Horizonte Criativo, um projeto estratégico intersetorial da Prefeitura de Belo Horizonte com o objetivo de oferecer o ambiente adequado para que as atividades criativas possam prosperar em Belo Horizonte. Exemplos como a Semana de Moda de Belo Horizonte, o programa de incentivo fiscal para empresas de base tecnológicas (Proemp), a candidatura como cidade criativa da Unesco (em gastronomia), o programa de incentivo ao audiovisual (BH nas Telas), reforçam a ideia do crescimento.

*(Os estagiários escreveram a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

 

 

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Mercado Central completa 90 anos permeado de histórias e personagens. De cima para baixo, em sentido horário: Nem, da loja do Nem, Geraldo Andrade, José Campos da Silva do Ponto do Queijo, Waldir Pereira, da barraca Xexeu do Abacaxi. Foto: Jéssica Oliveira.

O Mercado Central de Belo Horizonte completou, recentemente, 90 anos de atividades; o espaço, que guarda histórias e atrai turistas, consagrou-se como o queridinho da cidade

Por Bianca Morais*

Inaugurado no dia 7 de setembro de 1929, o Mercado Central de Belo Horizonte completou, neste mês, 90 anos. Localizado no coração da capital mineira, o lugar é conhecido por sua variedade de produtos. Por lá, é possível encontrar de tudo, desde frutas, queijos, carnes, peixes, temperos e artesanatos.

Cartão postal da capital mineira, o mercado é conhecido mundialmente. Em março de 2016, foi classificado como o 3° melhor do mundo, permanecendo atrás apenas do Mercat de la Boqueria (em Barcelona, Espanha) e o Borough Market (em Londres, Inglaterra).

O Mercado Central tem, hoje, 700 lojas, e vende de tudo um pouco. De lá, de acordo com José Agostinho de Oliveira Quadros, o famoso Nem, diretor financeiro do estabelecimento, saem em média 6 mil caixas de cerveja e 380 toneladas de queijo por mês.

Esses números colocam o mercado como um dos maiores centros comerciais do país. No local, onde se encontra de tudo, até mesmo ingredientes para uma feijoada legítima ou bacalhoada, o que atrai é a qualidade dos produtos, quase sempre artesanais, e a diversidade. É o que comenta grande parte dos seus frequentadores.

Além dos alimentos, o mercado conta com bares e restaurantes, onde você pode comer e beber bem, e ainda saborear um dos pratos mais tradicionais da cozinha mineira, o fígado acebolado com jiló.

Você conhece a história por trás do famoso fígado com jiló? Nas décadas de 1950 e 1960, havia no Mercado Central, como conta Nem, um abatedouro. Era comum, na época, as pessoas irem ao local para abater animais como porcos, carneiros e garrotes. As pessoas chegavam muito cedo e não tinham o que comer, com isso elas pegavam aqueles miúdos e o jiló, um dos produtos mais baratos da época, refogavam com cebola, na chapa, e comiam. O prato se popularizou e se tornou um dos mais tradicionais gastronomia mineira.

“O mercado é a minha vida”

No mercado, quase todos os feirantes e quem trabalha nele está lá há muito tempo. Dos 700 estabelecimentos do Mercado Central, boa parte é passado de pai para filho. Há, também, funcionários que estão ali desde o princípio, começaram a trabalhar ainda jovens e permanecem até hoje.

O mercado se confunde com a vida e história de quem, dia após dias, retorna a ele, para tirar o seu sustento. Quando se indaga o que o Mercado significa para essas pessoas, a resposta é: “O mercado é a minha vida. É tudo para mim”, “Tudo que eu conquistei foi graças ao mercado”.

Dos personagens que deixaram sua marca no Mercado Central, um todo mundo conhece. É o Nem, o José Agostinho Oliveira Quadros, 69 anos, da Loja do Nem. Ele trabalha no mercado há mais de 50 anos. O Nem veio para Belo Horizonte, da zona rural da cidade mineira Carmo Cajuru, quando tinha entre 13 e 14 anos, com o intuito de ajudar os irmãos.

Quando chegou à capital, passou a vender, no bairro São Cristóvão, picolés que pegava no Conjunto IAPI. Certo dia, Nem resolveu vender o produto em outro lugar. Desceu, então, a avenida Antônio Carlos e a rua Curitiba, e chegou em um quarteirão fechado por madeirite.

“Pensei que fosse uma obra, vim vender o picolé e me colocaram para fora, falaram que era proibido vender dentro do lugar”, relembra. Foi então que descobriu que ali era o Mercado Central. A primeira pessoa com quem conversou lá lhe arrumou um emprego e ele então está lá até hoje.

“Quando eu entrei aqui era chão batido, não tinha piso, lojas de alvenaria não existiam, eram barracas de madeira, de lona, tabuleiro. Hoje é esta maravilha, piso bonito, lojas de alvenaria, estacionamento, elevador, carrinho de compra, todo coberto”, compara. Para Nem, o mercado é um dos espaços mais aconchegantes de Belo Horizonte.

O Nem tem vários capítulos de sua vida atrelados ao Mercado Central. “Primeiro, eu fui funcionário, e depois aluguei uma loja, fui inquilino, mais tarde comprei uma loja, passei a ser associado, fui por mais de 20 anos conselheiro, quatro anos como diretor financeiro, quatro anos como presidente, dois anos como diretor financeiro. Eu entrei na administração em 2009 como diretor financeiro, em 2013 eu virei presidente e, em 2017, voltei a ser diretor financeiro”, orgulha-se.

Segunda casa

Geraldo Andrade, 75 anos, trabalha no Mercado Central há 44 anos e, prestes a completar 45 anos dedicados ao espaço, comemora cada ano de trabalho e de atividade do centro comercial. Ele trabalha em uma loja que vende utensílios de madeira, vini e vidro. Seus produtos vêm de diversas partes do Brasil e do mundo. Sua loja tem 126 modelos diferentes de cestas.

Andrade é, também, locador. Com sete lojas dentro do mercado, três bares, ele ama investir no lugar que, segundo ele, é a sua segunda casa. Ele preza pela conversa, que, em sua opinião, é um dos diferenciais do Mercado Central, em comparação a outros lugares de vendas em Belo Horizonte.

“A melhor coisa é você bater-papo com o público. Todo dia que você vem ao mercado tem gente, e a loja que sempre tem cliente é a minha, porque eu trato todo mundo bem”, diz.

A sua vida gira em torno do mercado. Seus cinco filhos trabalham com ele. “Eu faço parte da história do Mercado Central”, defende Andrade.

As transformações passadas pelo mercado

José Campos da Silva, 70 anos, ainda se lembra da época em que estavam construindo a cobertura do mercado. “O pessoal estava fazendo a soda lá em cima, e, se pingava algo na camisa da alguém, eles davam outra. Tinha um cara que todo dia deixava pingar para ganhar outra camisa”.

José começou como carpinteiro no Mercado Central, no dia 1º de janeiro de 1973, e passou 21 anos pela administração e 20 anos trabalhando em lojas do lugar. Hoje trabalha como balconista em uma das lojas mais antigas do mercado, o Ponto do Queijo.

Espaço aconchegante 

Waldir Pereira trabalha há cerca de 50 anos no Mercado Central. Ele começou na loja do pai vendendo legumes e há 18 anos tem uma barraca de abacaxi, os famosos abacaxis, aquele cortado na hora e bem gelado.

“Existem várias mercados e supermercados em Belo Horizonte, mas como o Mercado Central não há. Existe um diferencial, na qualidade dos produtos e no atendimento. Além das amizades que criamos com os clientes, tudo aqui faz nos parecer que estamos em casa. Para mim, é isso que o mercado me faz sentir”, expõe.

História

Quando criado, em 1929, o Mercado pertencia a prefeitura de Belo Horizonte. Porém, em 1964, durante a ditadura militar, o então prefeito Jorge Carone alegou dificuldades em administrar o local e o colocou à venda. Os funcionários do mercado então formaram uma associação e concorreram com a Cooperativa Agrícola Cotias, que na época era uma das maiores empresas distribuidora de hortifruit do país, e queria arrebatar o mercado, justamente para transformá-lo em uma cooperativa.

Os 700 funcionários do mercado, naquele momento, se uniram e conquistaram o espaço, que deixou de ser municipal e se tornou privado. Hoje, o Mercado Central tem 520 associados; esses 520 elegem um conselho de 31 pessoas, esses 31 conselheiros elegem três diretores: diretor presidente, diretor secretário e diretor financeiro.

No começo, o mercado era tido como o centro abastecedor de Belo Horizonte. Por muito tempo, não existiu na cidade a variedade de supermercados que encontramos hoje em vários bairros. O mercado era dominado por cerca de 90% pelo comércio hortifruit-granjeiro, e, por isso, ele vendia para pequenas mercearias, quitandas, feiras, lanchonetes e restaurantes. No entanto, com a criação do Ceasa, em 1974, grande parte da sua freguesia migrou para o lugar, o que forçou uma diversificação de seus produtos.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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A capital mineira é reduto de bares e restaurantes e destino de uma culinária rica e original. Foto: Ítalo Charles.

A capital mineira é candidata a rede de cidades criativas da Unesco por meio da gastronomia; chefs de Belo Horizonte acreditam que o título irá internacionalizar ainda mais a cultura culinária da cidade

Por Moisés Martins*

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Belotur, formalizou junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a candidatura de Belo Horizonte ao título de Cidade Criativa da Gastronomia. 

A capital mineira destaca-se no campo da gastronomia há décadas. Com sua culinária local, a cidade se consolida com seus bares e restaurantes noturnos. Além de ter um dos maiores mercados do mundo: o Mercado Central, localizado na região central de Belo Horizonte.

A candidatura é reforçada pelo fato da cidade ser polo gastronômico. A capital mineira apresenta uma culinária apinhada de tradição e diversidade, além de transmutar o simples ato de comer em um momento único e peculiar, o modo em que os pratos são servidos e a boa recepção é algo característico de nós mineiros, fazendo com que o público se sinta em casa e avalie positivamente esses espaços. Belo Horizonte conta com chefs de cozinha reconhecidos nacional e internacionalmente, que passam por constante qualificação, renovação, inovação e inspiração.

 A candidatura ao título de Cidade Criativa da Gastronomia segue duas etapas. Na primeira, a capital mineira concorreu com 23 cidades brasileiras por uma das 15 vagas oferecidas pela Secretaria Especial de Cultura, integrante do Ministério da Cidadania. E ficou com o 5° lugar geral, tendo a melhor nota no segmento gastronomia. Na segunda etapa, a cidade entregou um dossiê no dia 30 de junho. A candidatura oficial do processo ocorreu no dia 3 de abril, com a publicação do edital por parte da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

“Acredito que esse título da Unesco seria apenas reconhecimento da força do turismo gastronômico em BH. A nossa cozinha vem sendo reconhecida ao longo dos anos como patrimônio imaterial e possui relevante papel social. Temos vários festivais gastronômicos na cidade, como o Comida di Buteco e o Fartura, que fortalecem a nossa cozinha, sem contar a relação entre a cozinha com os pequenos produtores e o fortalecimento de iniciativas e cooperativas”, afirma a jornalista gastronômica do jornal O Tempo, Lorena Martins.

A jornalista ainda destaca a qualidade dos produtos mineiros, como os queijos, para reforçar esse título de cidade da gastronomia. “Até os franceses, famosos no mundo inteiro por seus queijos, estão se rendendo cada vez mais aos produtos que vêm de Minas Gerais”, ressalta. A afirmação se confirma com o destaque que o estado obteve no Mondial du Fromage, Concurso Mundial de Queijos, realizado em Tours, na França. Outro destaque é a produção de café, azeites, cervejas artesanais e vinhos.

O jornalista da 98 FM, Daniel Neto, mais conhecido como o Nenel do blog Baixa Gastronomia, é grande entusiasta da cultura culinária da capital mineira. Ele percorre o centro e bairros belo-horizontinos em busca de pratos e quitutes, ao mesmo tempo, autênticos e acessíveis a todos os públicos. E é, exatamente, por promover e divulgar a culinária local que ele acredita que o título de cidade criativa trará ainda mais reconhecimento e visibilidade para Belo Horizonte. 

“Acredito que o título ajudará a mostrar ao mundo como Belo Horizonte é uma cidade rica gastronomicamente. Dos botecos mais simples aos restaurantes tocados por grandes chefs, temos opções que seduzem a todos os paladares. Em Belo Horizonte temos uma mistura da cozinha da roça com a contemporânea. Ou seja, conseguimos ser uma metrópole sem que perdêssemos o toque ‘caipira’. E isso é fantástico”, avalia Neto.

Caso conquiste o título, Belo Horizonte fará parte da rede internacional de cooperação que envolve outros setores criativos e incrementará a indústria criativa local. “A gastronomia ganhou, ao longo do tempo, muita visibilidade, que vai além dos bares e restaurantes. É um setor que traz muita mão de obra. O mercado é amplo, composto por variadas atividades. Hoje podemos falar até em reality show de culinária. Que traz um benefício para o marketing da gastronomia. Temos redes de escolas culinárias, que atendem a muitas pessoas com interesse em buscar conhecimento e capacitação para começar um empreendimento na área”, conta a chef pâtissier, Daniele Andrade.

No evento de abertura da semana da economia criativa no Centro Universitário Una, no campus João Pinheiro, a gerente de desenvolvimento turístico da Belotur, Ana Gabriela, apresentou a candidatura de Belo Horizonte à rede de cidades criativas da UNESCO, que concorre através da Gastronomia.

“Enxergamos diversas potencialidades no setor, a gastronomia tem a versatilidade de conversar com outros segmentos, de inovar, de agregar, e Belo Horizonte tem esse potencial. A gastronomia reflete a nossa cultura e tradição. Minas Gerais é o estado da gastronomia e a gente quer apresentar essa vitrine, para o país e para o mundo. Queremos mostrar  a nossa potencialidade e através deste trabalho gerar fomento nas indústrias, conectando setores. Vamos trabalhar isso de uma maneira sustentável. O título vai ser apenas uma coroação, o mais importante é o caminho que vamos trilhar ”, destaca Ana Gabriela.

A cultura e as cidades criativas

As cidades cada vez mais têm investido no resgate a sua história e cultura como forma de fortalecer o turismo e reforçar a sua identidade. As cidades são vocacionadas para determinadas atividades. A capital mineira, por reunir uma profusão de tradições, sobretudo, em se tratando da cultura culinária, propiciou o surgimento de uma cozinha original. 

“A Gastronomia é por excelência um segmento multidisciplinar que envolve todas as áreas desde a agricultura, manejo e processamento à logística e transporte, estoque, serviços de restaurantes com chefs, cozinheiros, garçons, maîtres e Sommeliers, escolas, arquitetura e decoração (Mobiliário e decoração), jardinagem, turismo, hotelaria, comunicação e marketing, moda e designer”, concluiu professora de gastronomia do Centro Universitário Una Rosilene Campolina, que integra a Frente da Gastronomia Mineira (FGM) e a Federazione Italiana Cuochi (FIC).

A professora destaca que o título de cidade criativa abre o leque de oportunidades para serviços e produtos que estabelecem diálogo com quase todas as áreas. “Comer é um ato social e assim sendo tudo que envolve o alimento tem a ver com o homem e a cultura em quaisquer circunstâncias ”, conclui.

Importantes prêmios e eventos

A gastronomia mineira está em ascensão desde que Minas Gerais foi escolhido para representar o Brasil no Madrid Fusión em 2013, o maior festival gastronômico mundial. “A escolha não foi por acaso. Minas se destaca pela biodiversidade, riqueza de produtos e de gente talentosa e criativa com uma capital como Belo Horizonte, que se reinventa a todo momento e se supera em número de bares, restaurantes e eventos, entre outros empreendimentos gastronômicos e de entretenimento”, afirma Rosilene Campolina.

A capital se consolida pela realização de um dos maiores eventos gastronômicos de Minas Gerais e do Brasil, o Comida di Buteco, criado em 1999 pelo gastrônomo Eduardo Maya, e lançado no ano 2000 na cidade de Belo Horizonte.

Quase 500 botecos disputam em categorias como higiene, temperatura da bebida, atendimento e, principalmente, tira-gosto. Os vencedores são escolhidos não só pelos jurados mas também por votação popular.

De acordo com um dos organizadores do evento, Filipe Pereira, o concurso é planejado sempre com um ano de antecedência. “Nós, organizadores, nos reunimos e levantamos possibilidade de temas, que possam ser encontrados no Brasil inteiro, com disponibilidade ao longo do ano, com preços compatíveis com os botecos e que possam gerar histórias”, ressalta. 

O produtor do Comida di Buteco aposta no sabor mineiro e diz ter grandes expectativas para o resultado do concurso a qual a cidade concorre. “Nossa capital, ao representar o estado, traz uma diversidade única, sabores únicos, e isso ninguém conseguirá copiar. Possuímos ingredientes exclusivos, e temos muito orgulho disso. Nascemos para resgatar essa cozinha de família, cozinha afetiva, que os botecos têm, comida de casa”, exalta Pereira.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno. Revisão: Felipe Bueno e Kamille Lobato).

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Filme Bacurau, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é a representação da distópica sociedade brasileira. Foto: Divulgação.

A produção do cinema nacional vive, paradoxalmente, o seu melhor momento, enquanto vem enfrentando ameaças de desmantelamento pelo governo federal 

Por Bianca Morais*

O cinema sempre foi uma área sensível no Brasil. Isso porque, entre todas as expressões artísticas, é a que mais tem sido afetada, ao longo dos anos, por interesses políticos. Talvez por ser a narrativa cinematográfica uma forma de documentar e expor com contundência a realidade social e política. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), vem interferindo diretamente no edital da Agência Nacional do Cinema (Ancine), principal órgão de fomento ao setor audiovisual. 

Em discurso, ora o presidente tem ameaçado extinguir a Ancine, ora tem sugerido passar um filtro nos projetos, em clara tentativa de censura a alguns temas. Apesar das ameaças que o cinema brasileiro vem sofrendo, o setor está em seu melhor momento. Diversas produções nacionais têm sido destaques em festivais mundo afora. 

O diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho que havia provocado uma catarse no público ao exibir, em 2016, o filme Aquarius, no festival de Cannes, saiu ovacionado da mostra francesa, na edição deste ano, com o seu mais recente filme, Bacurau (2019). O longa-metragem, dirigido em parceria com Juliano Dornelles, levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e está em cartaz nos cinemas do país inteiro (inclusive em salas de shopping centers, rompendo com a ideia de que cinema independente é uma arte restrita a um público pequeno).

Outro nordestino destaque em Cannes, o cearense Karim Aïnouz venceu a mostra Um Certo Olhar com o filme A Vida Invisível, que retrata com delicadeza e força, ao mesmo tempo, a vida de duas irmãs, em um universo machista, ambientado na década de 1940. A produção foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro. 

Minas Gerais em cena 

Se por um lado, o nordeste tem provado, há um bom tempo, ser um expoente do cinema nacional. Em Minas Gerais, novos realizadores têm alavancado a produção local por conta de uma linguagem própria, narrativas que surgem da rotina dos cineastas, e paisagens, até então, nunca enquadradas por uma câmera. O reconhecimento vem de festivais nacionais e internacionais.

O longa mineiro Arábia (2017), dirigido por Affonso Uchôa e João Dumans, que aborda o cotidiano da classe operária, foi exibido em vários festivais ao redor do mundo e conquistou o prêmio de melhor filme no 50º Festival de Brasília, e venceu nas categorias de melhor ator, com Aristides de Souza, montagem e trilha sonora. A produção faz parte de uma safra de filmes mineiros que vêm se destacando e elevando o núcleo Belo Horizonte e Contagem a um dos mais importantes polos de cinema do país.

A exemplo disso, os diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia, que juntos comandam a produtora Filmes de Plásticos, já foram agraciados com mais de 50 prêmios. No Coração do Mundo (2019), longa-metragem dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, em cartaz em todo Brasil, foi um dos selecionados para a mostra International Film Festival Rotterdam, na Holanda.

A produtora nasceu da vontade de Gabriel Martins e Maurilio Martins de ter uma assinatura para os filmes que criassem, uma identidade comum para os projetos. Ambos moravam na periferia de Contagem e tinham a vontade de produzir juntos. E, hoje, a Filmes de Plástico vem provando que, em meio às adversidades, é possível, sim, fazer cinema. 

O longa-metragem Temporada (2018), escrito e dirigido por André Novais, consta no catálogo da poderosa plataforma de streaming Netflix. O filme, que foi o grande vencedor do 51º Festival de Brasília,  com cinco Candangos, inaugurou a parceria com a atriz Grace Passô, que vive a personagem Juliana, uma mulher que se muda do interior de Minas Gerais para Contagem, onde passa a trabalhar como agente de prevenção de epidemias da prefeitura. 

Em entrevista ao jornal Contramão, Gabriel Martins fala sobre a importância do cinema mineiro e seu olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras.

Para ele, o que o cinema mineiro e brasileiro tem de unidade é “a sinceridade e criatividade dos filmes, a visão de mundo que busca refletir sobre importantes e sensíveis questões sociais, o olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras”.

Martins acredita que exista um potencial imenso no cinema nacional pelo número cada vez mais crescente de mentes criativas e qualificadas. Porém, alerta para a necessidade de investimentos e políticas públicas voltadas para o setor. 

“Os cortes e falta de projetos dizem sobre um desconhecimento total da importância do setor para a economia nacional e também de como ele funciona e pode melhorar. Diz também do despreparo do novo governo para gerenciar o país em tempos de polarização, tornando a máquina pública um instrumento de rivalidades tolas e bastante preconceituosas. Não existe um projeto, portanto, a discussão é feita de forma rasa e antiquada”, pontua.

Criatividade esbarra no financiamento 

A Filme de Plásticos vem financiando os filmes via editais federais e estaduais, e a distribuição é feita por meio de parceiras com a Vitrine Filmes e a Embaúba Filmes. O cineasta mineiro sai em defesa do financiamento a arte e cultura, e, em especial, a projetos audiovisuais, que requerem mais recursos para produção. 

“[Os financiamentos] trazem a possibilidade dos projetos terem a personalidade de produtoras que talvez nunca seriam financiadas pela iniciativa privada. Esse investimento possibilita que projetos importantes sejam feitos de forma honesta e investigando temas de forma profunda. Como vimos em casos recentes, as políticas públicas podem inclusive se utilizar de ações afirmativas de forma a tornar a arte brasileira mais plural e inclusiva”, argumenta.

Sobre esse cenário, Gabriel Martins afirma que o principal gargalo enfrentado pelo cinema mineiro continua sendo o investimento. Para ele, existe uma vontade imensa de produção e resultado que precisam ser revertidos em políticas mais estáveis, investimentos mais constantes e um projeto de cinema na região que possa sofrer menos com instabilidades políticas.

“Nós somos hoje um dos estados com maior resultado em suas produções. Para dar um exemplo, os últimos três festivais de Brasília tiveram filmes mineiros premiados como melhor filme. Estes mesmos filmes e outros mais circularam por grandes festivais mundiais e também foram premiados”, comenta. 

Mesmo com os cortes, o diretor ainda acredita que o cinema mineiro tem fôlego e seguirá seu curso. “As pessoas que realizam filmes aqui [em Minas Gerais] tem um histórico de resistência e perseverança na forma de produzir, tendo passado por diversos momentos difíceis de financiamento e vindo de origens de um cinema independente, feito na guerrilha. O cinema mineiro vai continuar relevante simplesmente pela série de boas produções e força da geração que filma atualmente e das novas que vem chegando”, conclui Martins.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).