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Ulysses Guimarães declara promulgada a Constituição de 1988. Foto: Fernando Bizerra.

A Constituição brasileira completa 30 anos e revela desafios que a sociedade ainda precisa transpor em direção a igualdade de oportunidades e efetivação de direitos

Por Patrick Ferreira*

A sociedade brasileira anseia por mudanças. Cada um, com suas convicções, grava um vídeo, por meio de um celular, e diz o que espera para o futuro do país. Quando não havia meios de comunicação tão dinâmicos como hoje, mais precisamente em 1986 e 1987, os cidadãos foram consultados sobre a elaboração da Constituição, que completa 30 anos em 2018. O Contramão acessou o acervo da Câmera dos Deputados onde estão arquivadas 72 mil cartas enviadas por leitores de todo Brasil.

Após a distensão política, que deu fim ao regime militar, era preciso imprimir à política brasileira aspecto mais moderno, que assinalasse uma ruptura definitiva com o passado antidemocrático, através de uma Carta Magna. Em 1986, foram disponibilizados, nas agências dos Correios, formulários para que a população pudesse expressar a opinião sobre a criação de um novo projeto de nação. As correspondências, na ocasião, foram enviadas ao Senado, em Brasília, com propostas para a elaboração da Constituição.

Mesmo depois de três décadas, a Constituição permanece atual e sinaliza os desafios que as diferentes esferas políticas têm de enfrentar para que direitos da população sejam assegurados.

No entanto, muitas discussões geradas em torno da Constituição, promulgada em 5 de outubro de 1988, ainda estão latentes na sociedade. O apelo da moradora da cidade de Pirapora, em Minas Gerais, Helena Ferreira dos Santos, enviado por meio de uma carta ao Senado, é de que as empregadas domésticas passassem ter seus direitos garantidos como qualquer outro trabalhador:

“Sugiro que nesta Constituinte vigore uma Lei que estabeleça benefício às mulheres Domésticas, pois as mesmas trabalham a vida inteira e não recebem nenhum benefício, morrem desamparadas. Sugiro que os Direitos Humanos sejam ressuscitados nesta Constituinte”.

O pedido de Helena foi atendido 25 anos após a reivindicação, em 2013, com a Emenda Constitucional 72, mais conhecida como a PEC das Domésticas (PEC 66/2012), que regulamenta o trabalho doméstico com 8 horas diárias, 44 horas semanais de jornada e com direito a hora extra.

Os direitos trabalhistas, queixas recorrentes, foi o ponto levantado por José Siqueira Sobrinho, de Taciba, São Paulo. Ele defendeu que a aposentadoria fosse facilitada para o contribuinte.

“Que a aposentadoria em geral volte a ser para os homens, por tempo de serviço máximo de 30 anos, por idade de 60 anos; para mulheres e trabalhadores em insalubridade, seja o máximo de 20 anos de trabalho ou de 55 anos de idade. Isto porque, atualmente no Brasil, às vezes, o atestado de óbito chega primeiro do que a carta de aposentadoria”.

O atual presidente da república, Michel Temer, pretende aprovar ainda no restante do seu mandato a proposta de reforma da Previdência. A idade mínima para a aposentadoria de trabalhadores privados passará para 62 anos para mulheres e 65 para homens. No caso de servidores públicos e categorias especiais como professores, policiais e trabalhadores submetidos a ambientes nocivos à saúde, a idade fixada será de 55 para mulheres e 60 para homens.

Assunto que requer atenção, a desigualdade de gênero ainda se mostra um desafio em várias áreas, sobretudo no mercado de trabalho. Segundo dados do IBGE, de março de 2018, as mulheres ainda recebem 25% a menos que os homens. Em 1986, Jeronyma Queiroz Ferreira, morada de Serranópolis, em Goiás, defendeu a pauta.

“Agradeço a oportunidade de poder dar minhas sugestões: bastaria que houvesse igualdade de salários. Por que as mulheres sempre ganham menos que os homens?”.

O mineiro de São João Del Rei, Celso Arcanjo da Silva, fez um apelo pela democratização do ensino superior:

“A minha sugestão é a respeito dos cursos superiores, eu acho que deveriam colocar as coisas nos seus devidos lugares. Um bom exemplo disso, são as faculdades federais que, dizem, são para alunos pobres, mas na realidade só entram para uma faculdade federal alunos ricos, pois os pobres não têm condições de estudar o suficiente para enfrentar os vestibulares das faculdades federais. Quem pega na enxada de dia e nos livros de noite, não tem condições de enfrentar estes vestibulares. E o que acontece é que fazem o vestibular em escolas particulares onde o preço é muitas vezes superior a um salário mínimo e aí ficam em má situação.”

Alguns projetos do governo federal como o Reuni, programa de apoio a planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), o Programa Universidade para Todos (Prouni) e as cotas raciais, promoveram, nos últimos anos, o acesso de milhões de brasileiros ao ensino superior. Ainda que haja muitos desafios nesse sentido, a camada de menos favorecidos ascendeu por meio dos programas de inclusão nas universidades.

A corrupção sempre foi assunto presente na sociedade. Joaquim Teixeira, de Tabosa, no Ceará, apenas um ano depois do fim da ditadura militar, pede fiscalização mais rígida para autoridades políticas e militares.

“Gostaria que houvesse uma fiscalização rígida e punição às autoridades que desviam dinheiro público. Que haja uma fiscalização na declaração de renda dos prefeitos e familiares – anual. Que os militares sejam punidos pelos seus crimes e não apenas excluídos das corporações, lhes dando possibilidades de continuarem livres, para mortes, assaltos, estupros, etc. Que os delegados e soldados deem realmente segurança ao povo e não batendo nos pobres presos, para satisfazerem seus instintos, confiados na farda que usam.”

Ainda que muitos casos de corrupção, envolvendo políticos brasileiros e empresas, invadam hoje os noticiários, o governo federal investiu nos últimos anos no fortalecimento e autonomia do Ministério Público (MP) e da Polícia Federal (PF).

O respeito à diversidade sexual, outro tema sensível à sociedade brasileira, foi pautado por um homem identificado apenas como Cláudio, de São Paulo, que escreveu:

“Que os homossexuais tenham seus direitos garantidos, que a nova Constituição apenas constate um fato e reconheça que nesse país existem, não um ou dois, mas sim milhares de homossexuais que são discriminados e humilhados por mentes conservadoras e atrasadas, os homossexuais são tão humanos quanto os outros, pagam impostos, e têm que ter seus direitos garantidos. Que a Constituinte o reconheça apenas.”

Desde 2011, o Supremo Tribunal Federal reconhece a união estável de casais do mesmo sexo. O mesmo tribunal vem sensibilizando-se com os direitos de transexuais e travestis, ao garantir o uso do nome social em documentos, inclusive no título de eleitor. De 2008 para cá, a redesignação sexual é uma realidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo com todos esses avanços, o Brasil é ainda o país que mais mata LGBTs no mundo. Em relatório produzido pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), foram registrados 445 homicídios de LGBTs em 2017, 30% a mais que o ano anterior, que teve 343 casos.

A Constituição brasileira, umas das mais elogiadas do mundo por dar devida atenção aos direitos humanos, foi elaborada com a intenção de promover diálogo entre a população e o poder público, além de estabelecer os direitos e deveres de cada cidadão. A carta define os papéis e deveres dos cidadãos, bem como a função do Estado. Contudo, muitos desafios precisam ser transpostos rumo à efetivação destes direitos e promoção da igualdade.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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A atriz e dramaturga escocesa Jo Clifford retorna apresenta em Belo Horizonte o espetáculo Eve

A dramaturga e atriz escocesa Jo Clifford retorna a Belo Horizonte com espetáculo “Eve”, que faz referências a sua transição de gênero; espetáculo integra a programação do FIT-BH

Por Patrick Ferreira*

“Meu trabalho como atriz só é possível por causa da minha transição”, sentencia Jo Clifford. A também dramaturga escocesa retorna a Belo Horizonte para, mais um vez, apresentar-se dentro da programação do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua, que chega a sua 14ª edição. Em 2016, a artista, de passagem pela capital mineira, encenou o polêmico “Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”. Desta vez, ela traz ao FIT-BH seu novo espetáculo, “Eve”, que será apresentado nos dias 20 e 21, no teatro Marília.

Na ocasião de sua primeira passagem pelo Brasil, Jo percebeu resistência por parte da sociedade que se mostrou contrária ao monólogo “Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”. Segmentos religiosos protestaram, em São Paulo, contra o espetáculo, que trazia a figura de Jesus vivendo como uma pessoa trans.

“A incrível hostilidade, violência e censura que esta peça sofreu no Brasil me faz muito consciente das dificuldades que enfrentamos em seu país. Isso torna ainda mais importante que eu faça tudo o que puder para promover a justiça e os direitos humanos para as pessoas trans, aqui e em toda parte”, insiste.

Jo Clifford desembarca em Belo Horizonte com a mesma motivação da primeira vez e traz consigo a montagem “Eve”, que propõe uma reflexão sobre as experiências pelas quais pessoas trans passam na sociedade. O texto do espetáculo em alguns momentos se confunde com momentos e situações vividas pela atriz e dramaturga.

“Há alguns anos, pediram que eu desse uma palestra para um grupo de estudantes de psicologia sobre como é ser transexual. Combinei a palestra com fotos da minha infância e mais tarde, no mesmo ano, dei a mesma palestra para uma companhia de teatro em São Paulo como parte de sua pesquisa sobre uma peça que eles estavam fazendo sobre ser trans. Ambos os grupos foram muito positivos sobre o que eu disse, e me ocorreu que é muito importante que as pessoas entendam de uma maneira humana e sejam capazes a ter empatia com a experiência de uma pessoa trans. Que isso seria uma ferramenta poderosa para acabar com o preconceito. E minha filha, Katie, tem me dito há anos: ‘Papai, você realmente deveria escrever sua autobiografia. E assim, eu tenho’, relata Jo Clifford.

Amadurecimento

Para a dramaturga, a verve artística amadureceu muito depois de sua transição. A insatisfação consigo e posteriormente a mudança de gênero se refletiu no processo da Jo Clifforfd enquanto artista. “Quando vivi como homem, simplesmente não conseguia agir. Eu estava muito envergonhada e muito tímida”, conta.

No espetáculo Eve, Jo Clifforf resgata a história de como o trauma que experimentou quando menino, ao descobrir que seria mais feliz vivendo como uma garota, em uma atmosfera totalmente repressiva, em que cresceu, estava ligado a interpretar papéis de garotas no palco.

“O teatro ficou ligado ao trauma e, embora fosse claramente minha vocação, não consegui encontrar minha voz como dramaturgo até os 35 anos, 20 anos depois daquela experiência e, depois de muitos anos, simplesmente acreditei que nunca agiria. Só nos meus cinquenta anos, quando me tornei totalmente comprometida em viver como mulher, comecei a acreditar que talvez pudesse também agir. E é só agora, nos meus sessenta anos, quando estou muito confortável com a minha identidade feminina que me sinto totalmente confiante como performer. Eu amo isso. Foi minha vocação o tempo todo. Mas como eu digo na peça, levei 50 anos para chegar aqui”, relembra.

Desafios

Em sua carreira teve que lidar com alguns desafios. Talvez, o mais difícil apresentado a ela tenha sido o consevadorismo. Por um tempo, teve o receio de que fosse censurada e teve que lidar com a dificuldade em encotrar profissionais para encenar. Por conta dos obstáculos encontrados, tomou a decisão de produzir e atuar os próprios espetáculos.

“A principal resistência, por muitos anos, estava em mim mesma. Houve manifestações ferozes contra o meu ‘Evangelho Segundo, Jesus Rainha do Céu’ quando eu fiz a primeira peça em Glasgow, em 2009. As pessoas estavam com muito medo de permitir que eu me apresentasse em seus locais por alguns anos depois disso. Ainda enfrento discriminação como atriz trans, e a única maneira de conseguir personagens decentes é escrevê-las eu mesmo”, confessa.

O palco como lugar de resistência

As relações humanas, para Jo Clifford, estão cada vez mais impessoais e mercantilizadas, o que faz com que o momento nas salas de teatro sejam ambientes de compartilhamento de ideias semelhantes. Estar no palco é algo muito intenso para a dramaturga. No FIT-BH, em 2016, ela chegou ao ponto de desmaiar na sua segunda apresentação.

“Eu amei sua cidade. As pessoas são tão acolhedoras e gentis. Infelizmente minha saúde não foi tão boa e eu desmaiei no palco. Mas a bondade que recebi foi esmagadora. Estou muito feliz em voltar e fazer parte do festival novamente”, afirma a atriz.

Em relação às expectavivas para a apresentação de “Eve”, no FIT-BH, Jo Clifford se mostra entusiasmada. Ela segue acreditando na força do teatro como algo capaz de transformar o público. “Estou incrivelmente orgulhosa por estar retornando nesta produção que é apoiada e criada pelo National Theatre of Scotland. Isso, por si só, envia uma mensagem poderosa. As pessoas trans ainda enfrentam grandes problemas em meu país e precisamos continuar trabalhando para melhorar as coisas”, conclui.

SERVIÇO:

Eve (da atriz e dramaturga Jo Clifford)
Local: Teatro Marília
Endereço: Av. Professor Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia
Data e horário: 20/09 às 19h e 21/09 às 21h

A programação completa do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua você encontra no endereço: fitbh.com.br

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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"Batucada", espetáculo do Piauí, é um dos responsáveis pela abertura da 14ª edição do FIT-BH

A 14ª edição do FIT-BH, que estreia nesta quinta-feira, dia 13, propõe um deslocamento do olhar para questões e linguagens ainda não abordadas no evento

Por Patrick Ferreira

As curadoras da 14ª edição do FIT-BH: Luciana Romagnolli, Soraya Martins e Grace Passô

 

O Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH) promete movimentar a capital mineira nos próximos dias. A 14ª edição do evento, que sempre se propõe inventivo, e que estreia nesta quinta-feira, dia 13, traz novos olhares e recortes da cena teatral. Antes mesmo de tomar corpo, a mostra buscou novos caminhos ao lançar edital para a composição da equipe de curadoria, que conta com Grace Passô, Luciana Romagnolli e Soraya Martins.

A abertura do edital de curadoria permitiu, segundo a crítica de teatro e curadora do FIT, Luciana Romagnolli, que outras pessoas que estão pensando e fazendo teatro na cidade e no país pudessem trazer suas experiências e suas perspectivas para o desenho da programação. “É bastante rico para que o público belo-horizontino tome contato com uma maior pluralidade de visões de teatro. Como ainda estamos em meio a esse processo, cuja forma é inédita para todas as partes, é cedo para fazer qualquer análise e, com certeza, haverá ajustes a serem feitos para a continuidade do edital, o que faz parte de qualquer primeira experiência”, explica.

Uma das diretrizes das curadoras do FIT-BH é de que assuntos pouco explorados em outras edições, como o teatro nordestino e africano, ganhasse espaço na programação. “Nosso projeto vai ao encontro de uma expectativa já expressa no edital, de que lugares teatrais pouco presentes ou ausentes na história do FIT fossem contemplados. E o nosso desejo era, justamente, propor uma programação que ampliasse o imaginário sobre teatro para além dos lugares hegemônicos, reconhecendo que nossa sociedade é muito mais plural, e nosso teatro, também”, elucida.  

“Batucada”, espetáculo do Piauí, é um dos responsáveis pela abertura da 14ª edição do FIT-BH

Abertura

Na abertura, nesta quinta-feira, o público terá a oportunidade de ver a apresentação de “Batucada”, do coreógrafo piauiense Marcelo Evelin, e “Looping: Bahia Overdub”, dos artistas baianos Felipe Assis, Leonardo França e Rita Aquino. Luciana destaca a configuração e a expectativa para as montagens que serão apresentadas em espaço público e que irá envolver cerca de 200 pessoas da cidade. Para ela, essas apresentações podem ressaltar a força que o movimento coletivo possui.

“Embora os dois trabalhos sejam muito distintos nos afetos que eles mobilizam, ambos apresentam alguns traços que se conectam aos nossos desejos para este FIT-BH. Um deles é o fato de serem feitos com pessoas da cidade, tanto aqueles artistas ou não que passaram por uma oficina ou workshop e estarão conduzindo a ação, quanto o público. Outro, por provocarem a experiência do encontro dos corpos em um coletivo ou na multidão, permitindo questões como: Quais as potências dos nossos corpos quando estão juntos, no espaço público, em ação?”, reflete.

Diversidade

Em todo o processo de idealização da 14ª edição do FIT-BH, houve uma preocupação por parte da curadoria em deslocar um pouco o olhar. Assim, montagens nordestinas, latino-americanas e africanas ganharam dentro do evento um espaço que não tinham até então.

Na apresentação concerto “Black Off”, Ntando Cele vira o jogo ao colocar em debate, no palco, o controverso “blackface”

“A noção ampliada de teatro que buscamos diz respeito também à linguagem artística. Entre os trabalhos do Norte e Nordeste, temos muitos fronteiriços com a dança (“Batucada”, “Looping…”, “Do Repente”), uma instalação imersiva (“Quaseilhas”); Alesanda Seutin (“Ceci nes pas soire”) e Dorotheé Munyaneza (“Unwanted”) também aproximam dança e performance, Ntando Cele fecha o “Black Off” com um show de música (estes são três trabalhos afro-diaspóricos, feitos por artistas de origem africana, que atuam hoje na Europa); de Portugal vêm um espetáculo-palestra (“Um museu vivo…”), com linguagem documental, como também tem “Libertação”; da Escócia, um solo da Jo Clifford (“Eve”); na América do Sul, “Simón, el topo” é teatro de bonecos para crianças e “Arde brillante…” funde atuações, teatro de bonecos e cinema; etc. Há uma pluralidade grande de linguagens, portanto”, comenta.

As escolhas curatoriais perpassaram pelo conceito Corpos-Dialetos. Esta edição busca evidenciar a movimentação de corpos e de culturas como o dialeto, que é a raiz de uma linguagem regional, porém não é uma língua oficial.

“Antes de tudo, corpos-dialetos nos recorda que o teatro é uma linguagem baseada no corpo. E um dos caminhos que buscamos nessa curadoria foi investir nas potências dos corpos – corpos que se movem, como os das diásporas africanas, corpos que se insurgem e celebram, que se mobilizam e transformam o mundo. A nós, interessava enormemente contrapor justamente as narrativas oficiais, os lugares hegemônicos, e apresentar mais perspectivas de teatro. Assim, chegamos a um conjunto de trabalhos que muda quem são os protagonistas das histórias, quem são as pessoas que as contam, numa revisão crítica do nosso passado e numa abertura para imaginarmos outras formas de vida”, evidencia Luciana Romagnolli.

Janela local

Além de obras de todo o Brasil e do exterior, o edital abriu chances para espetáculos da cidade. “Convidamos o ‘Assembleia Comum’ a se apresentar em ocupações da cidade e a artista Nina Caetano a apresentar uma nova performance, ‘Chorar os filhos’. A programação de espetáculos produzidos em Minas ficou a cargo de uma comissão de seleção, da qual um dos curadores-assistentes, o Anderson Feliciano, fez parte, propondo uma aproximação com nosso projeto curatorial”, relata Romagnolli.

 

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Instituto Inhotim reabre, nesta quinta-feira, dia 6, três galerias com novas exposições e obras ainda inéditas no Brasil

Por Marcelo Duarte

Fotos Marcelo Paulo

A arte e a arquitetura mais uma vez entram em completa sintonia no Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Isso porque três novas exposições, que vinham sendo gestadas nos últimos 2 anos, serão inauguradas nesta quinta-feira, dia 6 de setembro. Os novos espaços expositivos, abertos ao público, convidam-no a mergulhar em um mundo onde o extraordinário ganha formas, tamanhos, cores e sabores.

Neste período de elaboração e desenvolvimento do projeto, as galerias Lago, Praça e Fonte foram temporariamente fechadas para a montagem das novas exposições. Entre as novidades, que passam a integrar o museu a céu aberto, e que os visitantes terão o privilégio de ver e interagir, fazem parte do novo acervo do Instituto obras de artistas mundialmente conhecidos como David Lamelas, Paul Pfeiffer, Robert Irwin e Yayoi Kusama. As obras vêm para completar os 140 hectares de visitação, que conta com 23 grandes galerias, sendo 19 galerias com exposições permanentes e 4 temporárias.

A decisão em lançar o novo projeto casa oportunamente com o momento em que ocorre a Bienal de São Paulo, uma das mais antigas e importantes mostras de artes do mundo. A intenção, por trás disso, é aproveitar que as atenções estarão todas voltadas para o Brasil e atrair um público que é interessado em arte contemporânea.

As novidades preparadas pelo Inhotim são várias e irão produzir desdobramentos. As obras do artista americano Robert Irwin e da japonesa Yayoi Kusama, que podem ser vistas na galeria Lago, antecedem projetos de relevância, que serão lançados em Inhotim nos próximos anos.

O instituto planeja a instalação de uma escultura de grande dimensão, de Robert Irwin, uma criação especial para o instituto. Há um projeto também de construção de uma galeria nova, em fase de desenvolvimento, que será dedica ao trabalho de Yayoi Kusama.

Quem visitar o parque no dia da inauguração das galerias ainda terá a oportunidade de acompanhar de perto uma performance de David Lamelas, que apresentará para o público ‘Time’ (Tempo), às 11h42, em frente a galeria Lago, e também a performance ‘Stallwitter’ (Tempestade de Estábulo) de Daniel Löwenbrück, às 15h30, no espaço da igrejinha.

Galeria Lago

A galeria Lago apresenta a exposição “Lamelas, Irwin, Kusama: sobre a percepção”, composta por trabalhos de três nomes de peso da história da arte contemporânea. Quem visitar a galeria terá acesso a obras históricas do artista argentino David Lamelas, da japonesa Yayoi Kusama I’m Here, But Nothing, 2000, e do norte-americano Robert Irwin   Black³, 2008, até então inédita no Brasil.

Galeria Praça

A exposição “Paul Pfeiffer, Ensaios Vitruvianos”, do americano Paul Pfeiffer, inaugurada na galeria Praça, a que mais recebe visitantes, traz duas obras importantes da produção do artista, Vitruvian Figure (2008), e o vídeo Empire (2004). Paul Pfeiffer esteve no espaço em 2017 para auxiliar no planejamento e instalação das obras.

Galeria Fonte

A galeria Fonte, localizada em uma das áreas mais visitadas de Inhotim, exibe a mostra “Para Ver o Tempo Passar”, que nos convida a fazer um percurso imersivo e descobrir novas possibilidades através do audiovisual. Os trabalhos que compõem o acervo da galeria incluem vídeo, projeção de slide com áudio, projeção 3D em tempo real e video wall (parede de vídeos).

Ao visitar a galeria Fonte, o público terá contato os trabalhos do artista irlandês John Gerrard, do mexicano Mario García Torres, do holandês Rineke Dijsktra, do argentino Jorge Macchi e do belo-horizontino Marcellvs L.

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A atriz Fernanda Montenegro ao lado do diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda

Fernanda Montenegro esteve em Belo Horizonte, na última sexta-feira, dia 24 de agosto, para o lançamento do livro “Itinerário Fotobiográfico”

Por Moisés Martins e Marcelo Duarte

Fotos Marcelo Duarte

Na ocasião de sua passagem por Belo Horizonte, na última sexta-feira, dia  24 de agosto, a atriz Fernanda Montenegro lançou o livro “Fernanda Montenegro: Itinerário Fotobiográfico”, obra que narra em imagens sua vida e carreira. Ela também apresentou a leitura dramatizada de “Nelson Rodrigues por Ele Mesmo”, de Sonia Rodrigues.  

Cerca de 800 pessoas ocuparam as cadeiras do Grande Teatro do Sesc Palladium para ver a dama dos palcos apresentar passagens da vida e obra de Nelson Rodrigues, a partir do livro organizado pela filha do dramaturgo.

A artista aproveitou a noite também para autografar o livro “Fernanda Montenegro: Itinerário Fotobiográfico”. A publicação, organizada pela própria atriz, foi construída a partir de fotos de acervo pessoal.

Entre os momentos destacados no registro biográfico, há fotos de Fernanda Montenegro ao lado de grandes nomes da dramaturgia como Nathalia Timberg, Sérgio Britto e Paulo Autran. O livro também conta com seções especiais de diversas premiações recebidas em sua carreira e uma homenagem comovente a Fernando Torres, seu companheiro de vida e de trabalho.

Mediado pelo diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, o lançamento contou com alguns comentários contundentes da Fernanda em torno do atual cenário do teatro e sobre os direcionamentos que o campo das artes estão tomando. “A educação não se fixa sem a cultura”, sentenciou Fernanda Montenegro, durante o evento.

Veja o vídeo da Fernanda Montenegro no lançamento de sua fotobiografia:

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A 14ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua trará à capital mineira espetáculos do Brasil, Europa, África e América Latina e promete agitar a cidade

Por: Patrick Ferreira/Foto: Sergio Cadah

O mês de agosto ainda não terminou e a expectativa para que setembro chegue logo é grande. Isso porque entre os dias 13 e 28, a capital mineira receberá a 14ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte, o FIT-BH. Neste ano, a mostra teatral irá focar no movimento e nas transformações da sociedade. Esse tem sido, então, o norte da curadoria do evento que irá trazer ao público belo-horizontino dezenas de espetáculos nacionais e internacionais.

Na última segunda-feira, dia 27, toda a imprensa mineira foi convidada para o lançamento da 14ª edição do festival. A recém empossada Presidente da Fundação Municipal de Cultura, Fabíola Moulin, e a representante do Instituto Periférico, Gabriela Santoro, apresentaram algumas temáticas abordadas na mostra, como o olhar sobre a cena nordestina e questões étnico-raciais. Outra novidade apresentada se refere a escolha da curadoria, que conta Grace Passô, Luciana Romagnolli e Soraya Martins, eleitas através de edital público.

A abertura, no dia 13 de setembro, fica por conta do espetáculo “Batucada”, do Piauí. A apresentação será no espaço aberto do Parque Municipal. A peça traz uma batucada que será tocada no ritmo de 50 performers. Também estará presente o grupo “Looping: Bahia Overdub”, de Salvador.  Cerca de 150 performers vão se apresentar trazendo a agitação, típica das festas de rua da capital baiana.

Foto: Patricia Almeida

Nesta edição, a programação está norteada pelo conceito Corpos-Dialetos, que trata de ampliar a noção de teatro brasileiro, evidenciando matrizes africanas, expansão do Brasil, investindo na potência de corpos que estão em movimento, em ação como transformadores da sociedade.

Ao ser indagada pelo Jornal Contramão sobre a movimentação política e social da sociedade, Grace Passô respondeu: “Há meses atrás não sabíamos onde estaríamos hoje. Hoje não sabemos como vamos estar durante o festival. Então, o FIT traz essa possibilidade de alargar as discussões, os espaços através da arte.”

Para todos os públicos

Ainda que o festival aponte alguns temas, o público terá a oportunidade de assistir espetáculos das mais variadas linguagens. Dentro da programação estrangeira, um dos destaques é “Adwanted”, da atriz ruandesa Dorothée Munyaneza, que cria um testemunho de mulheres que foram violentadas em guerras no país. Na janela nacional, o festival pretende trazer referências nordestinas, como por exemplo, a montagem “A Invenção do Nordeste”. A peça, de uma forma bem-humorada, reflete sobre como é ser nordestino. Outro destaque, a produção “Isto é um negro?” traz uma reflexão racial, discute sobre o lugar de fala do negro na sociedade.

Para abranger diversas faixas etárias, o evento irá trazer espetáculos infantis como “Chapeuzinho Vermelho”, que evoca de forma contemporânea a fábula e faz uma referência ao medo e curiosidade das crianças diante do desconhecido.

Como forma de dar visibilidade e valorizar os grupos e artistas da cidade, espetáculos de Belo Horizonte foram contemplados na programação, como é o caso de “Assembleia Comum”, que levanta a discussão de assuntos atuais para o público em forma de debate. A peça “Chorar aos filhos”, também belo-horizontina, traz uma apresentação a partir do relato de mães que perderam seus filhos em operações policiais e ainda não tiveram punição aos culpados ou qualquer posicionamento do estado.

A programação completa do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte está disponível em: https://fitbh.com.br/