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Mercado Central completa 90 anos permeado de histórias e personagens. De cima para baixo, em sentido horário: Nem, da loja do Nem, Geraldo Andrade, José Campos da Silva do Ponto do Queijo, Waldir Pereira, da barraca Xexeu do Abacaxi. Foto: Jéssica Oliveira.

O Mercado Central de Belo Horizonte completou, recentemente, 90 anos de atividades; o espaço, que guarda histórias e atrai turistas, consagrou-se como o queridinho da cidade

Por Bianca Morais*

Inaugurado no dia 7 de setembro de 1929, o Mercado Central de Belo Horizonte completou, neste mês, 90 anos. Localizado no coração da capital mineira, o lugar é conhecido por sua variedade de produtos. Por lá, é possível encontrar de tudo, desde frutas, queijos, carnes, peixes, temperos e artesanatos.

Cartão postal da capital mineira, o mercado é conhecido mundialmente. Em março de 2016, foi classificado como o 3° melhor do mundo, permanecendo atrás apenas do Mercat de la Boqueria (em Barcelona, Espanha) e o Borough Market (em Londres, Inglaterra).

O Mercado Central tem, hoje, 700 lojas, e vende de tudo um pouco. De lá, de acordo com José Agostinho de Oliveira Quadros, o famoso Nem, diretor financeiro do estabelecimento, saem em média 6 mil caixas de cerveja e 380 toneladas de queijo por mês.

Esses números colocam o mercado como um dos maiores centros comerciais do país. No local, onde se encontra de tudo, até mesmo ingredientes para uma feijoada legítima ou bacalhoada, o que atrai é a qualidade dos produtos, quase sempre artesanais, e a diversidade. É o que comenta grande parte dos seus frequentadores.

Além dos alimentos, o mercado conta com bares e restaurantes, onde você pode comer e beber bem, e ainda saborear um dos pratos mais tradicionais da cozinha mineira, o fígado acebolado com jiló.

Você conhece a história por trás do famoso fígado com jiló? Nas décadas de 1950 e 1960, havia no Mercado Central, como conta Nem, um abatedouro. Era comum, na época, as pessoas irem ao local para abater animais como porcos, carneiros e garrotes. As pessoas chegavam muito cedo e não tinham o que comer, com isso elas pegavam aqueles miúdos e o jiló, um dos produtos mais baratos da época, refogavam com cebola, na chapa, e comiam. O prato se popularizou e se tornou um dos mais tradicionais gastronomia mineira.

“O mercado é a minha vida”

No mercado, quase todos os feirantes e quem trabalha nele está lá há muito tempo. Dos 700 estabelecimentos do Mercado Central, boa parte é passado de pai para filho. Há, também, funcionários que estão ali desde o princípio, começaram a trabalhar ainda jovens e permanecem até hoje.

O mercado se confunde com a vida e história de quem, dia após dias, retorna a ele, para tirar o seu sustento. Quando se indaga o que o Mercado significa para essas pessoas, a resposta é: “O mercado é a minha vida. É tudo para mim”, “Tudo que eu conquistei foi graças ao mercado”.

Dos personagens que deixaram sua marca no Mercado Central, um todo mundo conhece. É o Nem, o José Agostinho Oliveira Quadros, 69 anos, da Loja do Nem. Ele trabalha no mercado há mais de 50 anos. O Nem veio para Belo Horizonte, da zona rural da cidade mineira Carmo Cajuru, quando tinha entre 13 e 14 anos, com o intuito de ajudar os irmãos.

Quando chegou à capital, passou a vender, no bairro São Cristóvão, picolés que pegava no Conjunto IAPI. Certo dia, Nem resolveu vender o produto em outro lugar. Desceu, então, a avenida Antônio Carlos e a rua Curitiba, e chegou em um quarteirão fechado por madeirite.

“Pensei que fosse uma obra, vim vender o picolé e me colocaram para fora, falaram que era proibido vender dentro do lugar”, relembra. Foi então que descobriu que ali era o Mercado Central. A primeira pessoa com quem conversou lá lhe arrumou um emprego e ele então está lá até hoje.

“Quando eu entrei aqui era chão batido, não tinha piso, lojas de alvenaria não existiam, eram barracas de madeira, de lona, tabuleiro. Hoje é esta maravilha, piso bonito, lojas de alvenaria, estacionamento, elevador, carrinho de compra, todo coberto”, compara. Para Nem, o mercado é um dos espaços mais aconchegantes de Belo Horizonte.

O Nem tem vários capítulos de sua vida atrelados ao Mercado Central. “Primeiro, eu fui funcionário, e depois aluguei uma loja, fui inquilino, mais tarde comprei uma loja, passei a ser associado, fui por mais de 20 anos conselheiro, quatro anos como diretor financeiro, quatro anos como presidente, dois anos como diretor financeiro. Eu entrei na administração em 2009 como diretor financeiro, em 2013 eu virei presidente e, em 2017, voltei a ser diretor financeiro”, orgulha-se.

Segunda casa

Geraldo Andrade, 75 anos, trabalha no Mercado Central há 44 anos e, prestes a completar 45 anos dedicados ao espaço, comemora cada ano de trabalho e de atividade do centro comercial. Ele trabalha em uma loja que vende utensílios de madeira, vini e vidro. Seus produtos vêm de diversas partes do Brasil e do mundo. Sua loja tem 126 modelos diferentes de cestas.

Andrade é, também, locador. Com sete lojas dentro do mercado, três bares, ele ama investir no lugar que, segundo ele, é a sua segunda casa. Ele preza pela conversa, que, em sua opinião, é um dos diferenciais do Mercado Central, em comparação a outros lugares de vendas em Belo Horizonte.

“A melhor coisa é você bater-papo com o público. Todo dia que você vem ao mercado tem gente, e a loja que sempre tem cliente é a minha, porque eu trato todo mundo bem”, diz.

A sua vida gira em torno do mercado. Seus cinco filhos trabalham com ele. “Eu faço parte da história do Mercado Central”, defende Andrade.

As transformações passadas pelo mercado

José Campos da Silva, 70 anos, ainda se lembra da época em que estavam construindo a cobertura do mercado. “O pessoal estava fazendo a soda lá em cima, e, se pingava algo na camisa da alguém, eles davam outra. Tinha um cara que todo dia deixava pingar para ganhar outra camisa”.

José começou como carpinteiro no Mercado Central, no dia 1º de janeiro de 1973, e passou 21 anos pela administração e 20 anos trabalhando em lojas do lugar. Hoje trabalha como balconista em uma das lojas mais antigas do mercado, o Ponto do Queijo.

Espaço aconchegante 

Waldir Pereira trabalha há cerca de 50 anos no Mercado Central. Ele começou na loja do pai vendendo legumes e há 18 anos tem uma barraca de abacaxi, os famosos abacaxis, aquele cortado na hora e bem gelado.

“Existem várias mercados e supermercados em Belo Horizonte, mas como o Mercado Central não há. Existe um diferencial, na qualidade dos produtos e no atendimento. Além das amizades que criamos com os clientes, tudo aqui faz nos parecer que estamos em casa. Para mim, é isso que o mercado me faz sentir”, expõe.

História

Quando criado, em 1929, o Mercado pertencia a prefeitura de Belo Horizonte. Porém, em 1964, durante a ditadura militar, o então prefeito Jorge Carone alegou dificuldades em administrar o local e o colocou à venda. Os funcionários do mercado então formaram uma associação e concorreram com a Cooperativa Agrícola Cotias, que na época era uma das maiores empresas distribuidora de hortifruit do país, e queria arrebatar o mercado, justamente para transformá-lo em uma cooperativa.

Os 700 funcionários do mercado, naquele momento, se uniram e conquistaram o espaço, que deixou de ser municipal e se tornou privado. Hoje, o Mercado Central tem 520 associados; esses 520 elegem um conselho de 31 pessoas, esses 31 conselheiros elegem três diretores: diretor presidente, diretor secretário e diretor financeiro.

No começo, o mercado era tido como o centro abastecedor de Belo Horizonte. Por muito tempo, não existiu na cidade a variedade de supermercados que encontramos hoje em vários bairros. O mercado era dominado por cerca de 90% pelo comércio hortifruit-granjeiro, e, por isso, ele vendia para pequenas mercearias, quitandas, feiras, lanchonetes e restaurantes. No entanto, com a criação do Ceasa, em 1974, grande parte da sua freguesia migrou para o lugar, o que forçou uma diversificação de seus produtos.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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A capital mineira é reduto de bares e restaurantes e destino de uma culinária rica e original. Foto: Ítalo Charles.

A capital mineira é candidata a rede de cidades criativas da Unesco por meio da gastronomia; chefs de Belo Horizonte acreditam que o título irá internacionalizar ainda mais a cultura culinária da cidade

Por Moisés Martins*

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Belotur, formalizou junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a candidatura de Belo Horizonte ao título de Cidade Criativa da Gastronomia. 

A capital mineira destaca-se no campo da gastronomia há décadas. Com sua culinária local, a cidade se consolida com seus bares e restaurantes noturnos. Além de ter um dos maiores mercados do mundo: o Mercado Central, localizado na região central de Belo Horizonte.

A candidatura é reforçada pelo fato da cidade ser polo gastronômico. A capital mineira apresenta uma culinária apinhada de tradição e diversidade, além de transmutar o simples ato de comer em um momento único e peculiar, o modo em que os pratos são servidos e a boa recepção é algo característico de nós mineiros, fazendo com que o público se sinta em casa e avalie positivamente esses espaços. Belo Horizonte conta com chefs de cozinha reconhecidos nacional e internacionalmente, que passam por constante qualificação, renovação, inovação e inspiração.

 A candidatura ao título de Cidade Criativa da Gastronomia segue duas etapas. Na primeira, a capital mineira concorreu com 23 cidades brasileiras por uma das 15 vagas oferecidas pela Secretaria Especial de Cultura, integrante do Ministério da Cidadania. E ficou com o 5° lugar geral, tendo a melhor nota no segmento gastronomia. Na segunda etapa, a cidade entregou um dossiê no dia 30 de junho. A candidatura oficial do processo ocorreu no dia 3 de abril, com a publicação do edital por parte da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

“Acredito que esse título da Unesco seria apenas reconhecimento da força do turismo gastronômico em BH. A nossa cozinha vem sendo reconhecida ao longo dos anos como patrimônio imaterial e possui relevante papel social. Temos vários festivais gastronômicos na cidade, como o Comida di Buteco e o Fartura, que fortalecem a nossa cozinha, sem contar a relação entre a cozinha com os pequenos produtores e o fortalecimento de iniciativas e cooperativas”, afirma a jornalista gastronômica do jornal O Tempo, Lorena Martins.

A jornalista ainda destaca a qualidade dos produtos mineiros, como os queijos, para reforçar esse título de cidade da gastronomia. “Até os franceses, famosos no mundo inteiro por seus queijos, estão se rendendo cada vez mais aos produtos que vêm de Minas Gerais”, ressalta. A afirmação se confirma com o destaque que o estado obteve no Mondial du Fromage, Concurso Mundial de Queijos, realizado em Tours, na França. Outro destaque é a produção de café, azeites, cervejas artesanais e vinhos.

O jornalista da 98 FM, Daniel Neto, mais conhecido como o Nenel do blog Baixa Gastronomia, é grande entusiasta da cultura culinária da capital mineira. Ele percorre o centro e bairros belo-horizontinos em busca de pratos e quitutes, ao mesmo tempo, autênticos e acessíveis a todos os públicos. E é, exatamente, por promover e divulgar a culinária local que ele acredita que o título de cidade criativa trará ainda mais reconhecimento e visibilidade para Belo Horizonte. 

“Acredito que o título ajudará a mostrar ao mundo como Belo Horizonte é uma cidade rica gastronomicamente. Dos botecos mais simples aos restaurantes tocados por grandes chefs, temos opções que seduzem a todos os paladares. Em Belo Horizonte temos uma mistura da cozinha da roça com a contemporânea. Ou seja, conseguimos ser uma metrópole sem que perdêssemos o toque ‘caipira’. E isso é fantástico”, avalia Neto.

Caso conquiste o título, Belo Horizonte fará parte da rede internacional de cooperação que envolve outros setores criativos e incrementará a indústria criativa local. “A gastronomia ganhou, ao longo do tempo, muita visibilidade, que vai além dos bares e restaurantes. É um setor que traz muita mão de obra. O mercado é amplo, composto por variadas atividades. Hoje podemos falar até em reality show de culinária. Que traz um benefício para o marketing da gastronomia. Temos redes de escolas culinárias, que atendem a muitas pessoas com interesse em buscar conhecimento e capacitação para começar um empreendimento na área”, conta a chef pâtissier, Daniele Andrade.

No evento de abertura da semana da economia criativa no Centro Universitário Una, no campus João Pinheiro, a gerente de desenvolvimento turístico da Belotur, Ana Gabriela, apresentou a candidatura de Belo Horizonte à rede de cidades criativas da UNESCO, que concorre através da Gastronomia.

“Enxergamos diversas potencialidades no setor, a gastronomia tem a versatilidade de conversar com outros segmentos, de inovar, de agregar, e Belo Horizonte tem esse potencial. A gastronomia reflete a nossa cultura e tradição. Minas Gerais é o estado da gastronomia e a gente quer apresentar essa vitrine, para o país e para o mundo. Queremos mostrar  a nossa potencialidade e através deste trabalho gerar fomento nas indústrias, conectando setores. Vamos trabalhar isso de uma maneira sustentável. O título vai ser apenas uma coroação, o mais importante é o caminho que vamos trilhar ”, destaca Ana Gabriela.

A cultura e as cidades criativas

As cidades cada vez mais têm investido no resgate a sua história e cultura como forma de fortalecer o turismo e reforçar a sua identidade. As cidades são vocacionadas para determinadas atividades. A capital mineira, por reunir uma profusão de tradições, sobretudo, em se tratando da cultura culinária, propiciou o surgimento de uma cozinha original. 

“A Gastronomia é por excelência um segmento multidisciplinar que envolve todas as áreas desde a agricultura, manejo e processamento à logística e transporte, estoque, serviços de restaurantes com chefs, cozinheiros, garçons, maîtres e Sommeliers, escolas, arquitetura e decoração (Mobiliário e decoração), jardinagem, turismo, hotelaria, comunicação e marketing, moda e designer”, concluiu professora de gastronomia do Centro Universitário Una Rosilene Campolina, que integra a Frente da Gastronomia Mineira (FGM) e a Federazione Italiana Cuochi (FIC).

A professora destaca que o título de cidade criativa abre o leque de oportunidades para serviços e produtos que estabelecem diálogo com quase todas as áreas. “Comer é um ato social e assim sendo tudo que envolve o alimento tem a ver com o homem e a cultura em quaisquer circunstâncias ”, conclui.

Importantes prêmios e eventos

A gastronomia mineira está em ascensão desde que Minas Gerais foi escolhido para representar o Brasil no Madrid Fusión em 2013, o maior festival gastronômico mundial. “A escolha não foi por acaso. Minas se destaca pela biodiversidade, riqueza de produtos e de gente talentosa e criativa com uma capital como Belo Horizonte, que se reinventa a todo momento e se supera em número de bares, restaurantes e eventos, entre outros empreendimentos gastronômicos e de entretenimento”, afirma Rosilene Campolina.

A capital se consolida pela realização de um dos maiores eventos gastronômicos de Minas Gerais e do Brasil, o Comida di Buteco, criado em 1999 pelo gastrônomo Eduardo Maya, e lançado no ano 2000 na cidade de Belo Horizonte.

Quase 500 botecos disputam em categorias como higiene, temperatura da bebida, atendimento e, principalmente, tira-gosto. Os vencedores são escolhidos não só pelos jurados mas também por votação popular.

De acordo com um dos organizadores do evento, Filipe Pereira, o concurso é planejado sempre com um ano de antecedência. “Nós, organizadores, nos reunimos e levantamos possibilidade de temas, que possam ser encontrados no Brasil inteiro, com disponibilidade ao longo do ano, com preços compatíveis com os botecos e que possam gerar histórias”, ressalta. 

O produtor do Comida di Buteco aposta no sabor mineiro e diz ter grandes expectativas para o resultado do concurso a qual a cidade concorre. “Nossa capital, ao representar o estado, traz uma diversidade única, sabores únicos, e isso ninguém conseguirá copiar. Possuímos ingredientes exclusivos, e temos muito orgulho disso. Nascemos para resgatar essa cozinha de família, cozinha afetiva, que os botecos têm, comida de casa”, exalta Pereira.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno. Revisão: Felipe Bueno e Kamille Lobato).

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Filme Bacurau, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é a representação da distópica sociedade brasileira. Foto: Divulgação.

A produção do cinema nacional vive, paradoxalmente, o seu melhor momento, enquanto vem enfrentando ameaças de desmantelamento pelo governo federal 

Por Bianca Morais*

O cinema sempre foi uma área sensível no Brasil. Isso porque, entre todas as expressões artísticas, é a que mais tem sido afetada, ao longo dos anos, por interesses políticos. Talvez por ser a narrativa cinematográfica uma forma de documentar e expor com contundência a realidade social e política. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), vem interferindo diretamente no edital da Agência Nacional do Cinema (Ancine), principal órgão de fomento ao setor audiovisual. 

Em discurso, ora o presidente tem ameaçado extinguir a Ancine, ora tem sugerido passar um filtro nos projetos, em clara tentativa de censura a alguns temas. Apesar das ameaças que o cinema brasileiro vem sofrendo, o setor está em seu melhor momento. Diversas produções nacionais têm sido destaques em festivais mundo afora. 

O diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho que havia provocado uma catarse no público ao exibir, em 2016, o filme Aquarius, no festival de Cannes, saiu ovacionado da mostra francesa, na edição deste ano, com o seu mais recente filme, Bacurau (2019). O longa-metragem, dirigido em parceria com Juliano Dornelles, levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e está em cartaz nos cinemas do país inteiro (inclusive em salas de shopping centers, rompendo com a ideia de que cinema independente é uma arte restrita a um público pequeno).

Outro nordestino destaque em Cannes, o cearense Karim Aïnouz venceu a mostra Um Certo Olhar com o filme A Vida Invisível, que retrata com delicadeza e força, ao mesmo tempo, a vida de duas irmãs, em um universo machista, ambientado na década de 1940. A produção foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro. 

Minas Gerais em cena 

Se por um lado, o nordeste tem provado, há um bom tempo, ser um expoente do cinema nacional. Em Minas Gerais, novos realizadores têm alavancado a produção local por conta de uma linguagem própria, narrativas que surgem da rotina dos cineastas, e paisagens, até então, nunca enquadradas por uma câmera. O reconhecimento vem de festivais nacionais e internacionais.

O longa mineiro Arábia (2017), dirigido por Affonso Uchôa e João Dumans, que aborda o cotidiano da classe operária, foi exibido em vários festivais ao redor do mundo e conquistou o prêmio de melhor filme no 50º Festival de Brasília, e venceu nas categorias de melhor ator, com Aristides de Souza, montagem e trilha sonora. A produção faz parte de uma safra de filmes mineiros que vêm se destacando e elevando o núcleo Belo Horizonte e Contagem a um dos mais importantes polos de cinema do país.

A exemplo disso, os diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia, que juntos comandam a produtora Filmes de Plásticos, já foram agraciados com mais de 50 prêmios. No Coração do Mundo (2019), longa-metragem dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, em cartaz em todo Brasil, foi um dos selecionados para a mostra International Film Festival Rotterdam, na Holanda.

A produtora nasceu da vontade de Gabriel Martins e Maurilio Martins de ter uma assinatura para os filmes que criassem, uma identidade comum para os projetos. Ambos moravam na periferia de Contagem e tinham a vontade de produzir juntos. E, hoje, a Filmes de Plástico vem provando que, em meio às adversidades, é possível, sim, fazer cinema. 

O longa-metragem Temporada (2018), escrito e dirigido por André Novais, consta no catálogo da poderosa plataforma de streaming Netflix. O filme, que foi o grande vencedor do 51º Festival de Brasília,  com cinco Candangos, inaugurou a parceria com a atriz Grace Passô, que vive a personagem Juliana, uma mulher que se muda do interior de Minas Gerais para Contagem, onde passa a trabalhar como agente de prevenção de epidemias da prefeitura. 

Em entrevista ao jornal Contramão, Gabriel Martins fala sobre a importância do cinema mineiro e seu olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras.

Para ele, o que o cinema mineiro e brasileiro tem de unidade é “a sinceridade e criatividade dos filmes, a visão de mundo que busca refletir sobre importantes e sensíveis questões sociais, o olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras”.

Martins acredita que exista um potencial imenso no cinema nacional pelo número cada vez mais crescente de mentes criativas e qualificadas. Porém, alerta para a necessidade de investimentos e políticas públicas voltadas para o setor. 

“Os cortes e falta de projetos dizem sobre um desconhecimento total da importância do setor para a economia nacional e também de como ele funciona e pode melhorar. Diz também do despreparo do novo governo para gerenciar o país em tempos de polarização, tornando a máquina pública um instrumento de rivalidades tolas e bastante preconceituosas. Não existe um projeto, portanto, a discussão é feita de forma rasa e antiquada”, pontua.

Criatividade esbarra no financiamento 

A Filme de Plásticos vem financiando os filmes via editais federais e estaduais, e a distribuição é feita por meio de parceiras com a Vitrine Filmes e a Embaúba Filmes. O cineasta mineiro sai em defesa do financiamento a arte e cultura, e, em especial, a projetos audiovisuais, que requerem mais recursos para produção. 

“[Os financiamentos] trazem a possibilidade dos projetos terem a personalidade de produtoras que talvez nunca seriam financiadas pela iniciativa privada. Esse investimento possibilita que projetos importantes sejam feitos de forma honesta e investigando temas de forma profunda. Como vimos em casos recentes, as políticas públicas podem inclusive se utilizar de ações afirmativas de forma a tornar a arte brasileira mais plural e inclusiva”, argumenta.

Sobre esse cenário, Gabriel Martins afirma que o principal gargalo enfrentado pelo cinema mineiro continua sendo o investimento. Para ele, existe uma vontade imensa de produção e resultado que precisam ser revertidos em políticas mais estáveis, investimentos mais constantes e um projeto de cinema na região que possa sofrer menos com instabilidades políticas.

“Nós somos hoje um dos estados com maior resultado em suas produções. Para dar um exemplo, os últimos três festivais de Brasília tiveram filmes mineiros premiados como melhor filme. Estes mesmos filmes e outros mais circularam por grandes festivais mundiais e também foram premiados”, comenta. 

Mesmo com os cortes, o diretor ainda acredita que o cinema mineiro tem fôlego e seguirá seu curso. “As pessoas que realizam filmes aqui [em Minas Gerais] tem um histórico de resistência e perseverança na forma de produzir, tendo passado por diversos momentos difíceis de financiamento e vindo de origens de um cinema independente, feito na guerrilha. O cinema mineiro vai continuar relevante simplesmente pela série de boas produções e força da geração que filma atualmente e das novas que vem chegando”, conclui Martins.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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Coleção Vem de Carnavalis, de Victória Fernandes (Foto: Beto Staino).

A 16ª edição do UnaTrendsetters, produzido pelo curso de moda do Centro Universitário Una, realizado no último dia 9 de julho, surpreendeu a todos com coleções para o inverno 2020

 Ao todo, foram apresentados 23 trabalhos. A coleção do estilista recém-formado, Felipe Orioli, foi uma das mais comentadas da noite. O aluno trouxe para a passarela a coleção O partido dos Panteras Negras, um partido revolucionário que lutou pela igualdade racial, fundado por Bobby Seale e Huey Newton, em outubro de 1966, em Oakland, na Califórnia, EUA.
Coleção O partido dos Panteras Negras, de Felipe Orioli (Fotos: Beto Staino).

 “Apesar desse evento ter ocorrido a bastante tempo, isso tudo se encaixa muito bem agora, eu quis trazer esse protesto junto da estética forte que eles transmitiam. Eles idealizaram o movimento black power, mostraram o que era realmente a beleza negra”, explica Orioli.

 O encerramento do evento ficou por conta da estilista Victória Fernandes, que causou frenesi no público ao trazer para a passarela a bateria de uma escola de samba e a coleção Vem de Carnavalis.

Coleção Vem de Carnavalis, de Victória Fernandes (Fotos: Beto Staino).

 

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno). 

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Alunos formandos do curso de moda da Una apresentam-se ao mercado com coleções criativas. Foto: Tiago Torres.

Evento já recorrente no calendário da moda na capital mineira, o UnaTrendsetters apresentará, em sua 16ª edição, na próxima terça-feira, dia 9 de julho, os novos talentos da moda ao mercado

Por Moisés Martins*

As tendências para o inverno 2020 serão apresentadas pelos alunos concluintes do curso de moda do Centro Universitário Una na próxima terça-feira, dia 9 de julho, às 19h30, no evento UnaTrendsetters, que ocorrerá no salão panorâmico do Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão.

A 16ª edição do evento foi pensada a partir do tema “Experiências Estéticas” e promete surpreender, trazer novas sensações, recriar e deslocar o público do seu cotidiano.

“Serão, ao todo, 23 desfiles, que apresentam propostas completamente diferentes, de moda praia a acessórios barrocos, com modelagem para todo o tipo de cliente do mercado mineiro. Estamos antecipando as coleções do inverno de 2020”, ressalta o diretor criativo do UnaTrendsetters, Aldo Clécius.

O propósito primordial do desfile é apresentar os novos talentos da moda ao mercado. O curso de moda do Centro Universitário Una, coroado com 5, nota máxima pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), aproveita também para estimular, nos alunos, a veia do empreendedorismo. Eles são incentivados, desde as primeiras aulas, a pensar a moda como modelo de negócio e inovação.

A coordenadora do curso de moda, Renata Canabrava, ressalta que esse é o momento de olhar para todo o percurso formativo do curso e de avaliar os resultados, que são materializados nos produtos desfilados.

“O UnaTrendsetters representa o encerramento de um ciclo acadêmico para os egressos do curso de Moda da Una, ao mesmo tempo em que inaugura a trajetória profissional dos alunos”, comenta Renata.

Peça da coleção “De — Fluências s.f. /ato ou efeito de passar, decorrer, discurso, sucessão”, da aluna e estilista de moda Anna Vitória Vieira. (Foto: Tiago Torres)

Vitrine

As 23 coleções apresentadas em desfiles levam às passarelas sonhos, desejos, histórias e inovação, que se entrelaçam a fim de tornar cada coleção única e excepcional.

Uma das coleções apresentadas para o inverno 2020 será “De — Fluências s.f. /ato ou efeito de passar, decorrer, discurso, sucessão”, da aluna e estilista de moda Anna Vitória Vieira. As peças criadas têm como inspiração a ligação das obras do estilo Petit Genre (Pintura de gênero) brasileiro com suas raízes. A imagens, quando interligadas, dialogam uma estética similar.

A coleção homenageia a cultura caipira, o plantio doméstico e cenas do ofício. A coleção apresentada no desfile integra a Mevza, marca criada por Anna Vitória, que traz a força do nosso interior para o exterior, e mostra, por meio desta a beleza, a riqueza dos detalhes da cultura brasileira.

Idealizada em 2018, a Mevza surgiu do desejo de mãe e filha em dar concretude a uma moda que correspondesse aos anseios de uma mulher contemporânea, que busca comunicar, no vestuário, o gosto pelo design popular, as artes e o seu vínculo para estética representativa.

A formanda revela que participar do UnaTrendsetters sempre foi um sonho para ela, desde o início da faculdade, quando passou a esforçar-se a cada semestre para que evoluísse como profissional e estilista.

Peça da coleção “De — Fluências s.f. /ato ou efeito de passar, decorrer, discurso, sucessão”, da aluna e estilista de moda Anna Vitória Vieira. (Foto: Tiago Torres)

“Estar no UnaTrendsetters é o resultado de todo esforço e aprendizado que tive no decorrer da faculdade. Estou contando os dias para que esse sonho se realize, e extremamente ansiosa para assistir na passarela toda a materialização das minhas raízes e história. Em seguida, espero poder ter a avaliação do público a respeito da Mevza e da coleção ‘De — Fluências’”, confessa a estilista.

O estilista Filipe Mitrioni desenvolveu uma coleção inspirada na cultura Queer. (Foto: Rico Sosa)

Os alunos são livres para criar suas próprias coleções e marcas. O evento tem trazido, em todas suas edições, coleções com temas atuais e de grande relevância midiática. Na última edição, o então formando Carlos Henrique dos Santos desenvolveu trabalho totalmente inspirado nos negros, favelas e no Museu Muquifu, de Belo Horizonte.

O caráter social-político-cultural toma conta da passarela mais uma vez. Na próxima terça-feira (9), o aluno Filipe Mitrioni apresentará trabalho inspirado na Teoria Queer (teoria que rompe com a ideia de que os papéis sexuais são determinados biologicamente e que afirma que a orientação sexual e identidade de gênero são resultados de uma construção social). Apaixonado pelo tema, Filipe trata sobre diversidade de gênero, o estranho, sobre corpos trans, suas mutações e tudo que não é padrão para a sociedade.

“Tenho um DNA dramático, e bastante criativo, com isso procuro me inspirar em temas que fazem parte do meu universo e que também despertam o interesse das pessoas. A partir disso, surgiu a inspiração para a coleção ‘Sweet but psycho’”, explica o formando. Entre os modelos que irão desfilar com as peças do jovem estilista, uma é transexual, e outro, gay.

Reality show

Durante o evento, um dos desfiles vai mostrar o resultado do concurso Parceria com o mercado — a criação de uma linha de uniformes para o LM Studio, salão de beleza da capital mineira. A ideia do concurso, que consistia na criação de uniformes para os profissionais do salão LM Studio, foi proporcionar uma experiência para futuros designers de moda, aproximando-os do mercado de beleza, a partir da criação.

O concurso, no formato de reality show, foi realizado em três etapas: a primeira foi a apresentação do projeto, do moodboard conceitual e, logo depois, apresentação final dos croquis.

A gerente de marketing do Salão LM, Paula Moreira, comemora a parceria. “O projeto veio em um momento muito legal, celebrando os 40 anos do salão LM, estou super confiante, acredito que a Una não foi escolhida por acaso, a gente confia muito nos trabalhos dos alunos, estou com grandes expectativas”, entusiasma-se.

O grupo vencedor, composto pelos alunos do curso de moda Una, Pedro Menegasse, Letícia Dias e Norberto Resende, apresentou trabalho que mescla conforto sem perder de vistas a inovação e originalidade.

“Foi muito incrível trabalhar com ideias distintas, a fim de criar um produto assertivo. Durante o processo de criação da coleção, priorizamos o conforto e as características visuais do salão, trabalhamos muito a ideia principal que era a produção de um uniforme, mas com uma pegada fashion respeitando as necessidades de cada setor, e principalmente dando uma cara nova para os profissionais do salão”, afirma o aluno de moda Norberto Resende, integrante do grupo vitorioso.

A multidisciplinaridade do evento

Para além do estágio em eventos de moda, o UnaTrendsseters se consolidou com mais de 40 estagiários de cursos diversos como arquitetura, publicidade, gastronomia, moda, estética, relações públicas, design gráfico, cinema e jornalismo.

O concurso Parceria com o mercado — a criação de uma linha de uniformes para o LM Studio foi documentado por três alunos do curso de jornalismo do Centro Universitário Una, Marcelo Duarte, Italo Charles e Moisés Martins, que acompanharam de perto todas as etapas da competição. O vídeo que mostra a produção e todas as etapas do concurso será apresentado na 16ª edição do Una Trendsetters.

Para o aluno do sexto período de jornalismo da Una, Marcelo Duarte, participar da cobertura do evento de moda foi um grande desafio.

“Nunca tive um contato tão grande com todas as etapas de criação da moda. Trabalhar no reality me fez ter experiências novas nunca obtidas durante o curso de jornalismo, foi um aprendizado enorme”, afirma Duarte.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno). 

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Filme Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos. Foto: Divulgação.

Entrevista com Renée Nader Messora e João Salaviza, diretores do longa-metragem “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos”

Por Iakima Delamare*

Sobre cinema na aldeia

Em cartaz em Belo Horizonte, no cinema Belas Artes, na sessão das 16 horas, o longa-metragem dirigido por João Salaviza e Renée Nader Messora, “Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos”, mergulha na ancestralidade e fala da relação dos povos tradicionais com a morte e o luto a partir do contato com uma aldeia indígena localizada em Pedra Branca, interior do Brasil.

RENÉE: Meu trabalho na aldeia Pedra Branca começou com uma experiência muito parecida ao VNA. Primeiro eu fui pra lá fazer um documentário sobre essa liderança Krahô, o Pohi, que já faleceu. Fizeram pra ele uma grande Festa de Fim de Luto (Pàrcahàc) que é a festa que a gente vê no filme. Foi o primeiro contato que eu tive e quando eu voltei para São Paulo eu só sabia que eu queria voltar pra lá. E eu tinha acabado de conhecer a experiência do VNA, na verdade. Eu venho do cinema, eu era assistente de direção, fazia publicidade e não tinha nada a ver com este universo indígena.

Então eu escrevi um projeto e fui lá fazer uma oficina com várias aldeias Krahô e a Pedra Branca era uma dessas aldeias. Depois eu voltei à convite da própria aldeia para desenvolver outras oficinas até que no fim eu escrevi um projeto grande, passando um ano na aldeia porque aí acabou se formando um grupo de jovens realizadores, cinegrafistas. A maior preocupação deles era o registro etnográfico, desse saber que de alguma forma podia estar se perdendo.

Só quando eu voltei para este projeto mais longo de um ano a gente começou a trabalhar outras coisas e vieram as ideias de ficção. O espectro de cinema se abriu. Eles começaram a perceber também outras formas de usar aquela ferramenta. Eles fizeram um filme que a gente descobriu que acabou circulando entre várias terras indígenas, que era um filme que chamava Tudo Por Um Litro. Eles começaram a entender um pouco mais esses jogos da ficção e como podiam usar esta ferramenta e já em 2015 a gente já tava começando a preparar o Chuva a energia tava quase chegando na aldeia e a gente começou a filmar.

Acho que todas estas experiências foram criando esse terreno sobre o qual a gente conseguiu construir a narrativa do Chuva. Tem momentos em que o filme tem uma mise-en-scène cinematográfica num ponto clássico, quase um cinema clássico. Aquela sequência da fogueira onde tem plano, contra plano, conversa, jogo de olhar, aquilo foi super trabalhado, nada ali é por acaso. Mas depois se for ver a sequência da festa, aquilo lá foi a gente se adaptando à realidade que tava ali na nossa frente. A gente vai conseguir transformar aquela realidade em material fílmico né? Como transformar aquilo em algo que jogue a favor da nossa narrativa? Porque a gente não ia produzir uma festa. A gente jamais pediria pra que eles fingissem que estão chorando ou cantando nessa festa.

Foram duas Festas de Fim de Luto que aconteceram durante estes nove meses que a gente filmou. Elas aconteceram em épocas totalmente diferentes do ano e isto no cerrado faz uma diferença brutal na iluminação. Na seca é uma coisa e na chuva é outra. Então aí também entra o cinema né, o cinema que vai dar conta de fazer aquelas duas festas parecerem a mesma. Que sequer era do pai do Ihjãc.

Então este registro vai se adaptando às necessidades e às possibilidades do filme. A gente não tentava ir contra a maré, a gente tentava ver como era o fluxo das coisas e ele (filme) tenta acompanhar esse fluxo. Por isto que a gente demorou tanto tempo pra filmar. O Ihjãc mesmo, muitas dos dias ele tinha coisa para fazer. Tinha que ir na roça, tinha que pegar palha e o filme vinha sempre depois. O filme não era prioridade, nem do Ihjãc, nem da aldeia, de nenhuma das personagens, talvez nem era nosso (risos)

JOÃO: alguns dias era mas muitas vezes não. Tinha tanta coisa rolando ali né?

Sobre a complexa categoria “cinema indígena”

JOÃO: sobre essa questão do “cinema indígena”. A gente conversou sobre isso, mas a gente não consegue muito bem localizar o filme…

RENÉE: A ideia de “cinema indígena” eu acho meio complexa. Eu não sei se meu filme pode ser considerado um cinema indígena. Eu acho que não. Eu acho que o cinema Indígena tem que trazer outras formas de fazer cinema e não a mesma. Nosso filme quebra com várias ideias do cinema clássico. Mas eu estudei cinema em escola tradicional ocidental e eu não consigo sair muito disso. Então eu acho que o cinema indígena, talvez, deveria um pouco romper com esta forma de olhar e trazer outras. Como já tem. Eu tenho visto alguns filmes que não tem essas referências e esta forma de olhar para o mundo e pras coisas que a gente tem.

JOÃO: a própria construção da narrativa do nosso filme mesmo que tenha algumas bifurcações — como aquela cavalgada de um minuto — mesmo assim é ancorado numa tradição narrativa clássica, greco latina. A gente não descoloniza o olhar por decreto, é impossível. Por mais que a gente tente combater estes automatismos intelectuais e emocionais, não sai assim de uma hora pra outra. Agora, é muito interessante esta produção indígena que está vindo aí, realmente feita por indígenas, sobre temáticas indígenas Neles você raramente encontra uma construção narrativa como essa.

Sobre traduzir o inacessível

JOÃO: Talvez a gente esteja nesse lugar de pensar como a gente consegue traduzir com imagens um universo que nos é totalmente inacessível. O universo dos espíritos a gente consegue entender num plano conceptual e consegue imaginar algumas coisas a partir dos relatos deles e você dá alguma forma. A gente pensa no cinema como uma ferramenta para tentar fazer essa tradução que a antropologia tenta por outro caminho. Mas as vezes acho que é perigoso cair numa espécie de ilustração que se sobreponha ao imaginário Outro, o imaginário de onde essas histórias existem.

A gente pensa muito no nosso filme. Tem um risco de cair na ilustração, na romantização. É um terreno cheio de riscos e possíveis contradições. A gente fica muito feliz de ver a sequência do início do filme e o Ropoxet também fala: é desse jeito mesmo, a gente encontra o Mekarõ é assim mesmo”. Então a gente pensou em como filmar essa sequência de uma forma mais ou menos naturalista. Que ela é. O menino chega, fala pra água. Não vê o pai, a gente não sabe se é a câmera que não vê o espírito né? A nossa câmera não é pajé. Então a gente não vê o espírito. Talvez o Ijhãc tá vendo ou talvez não tá, mas a câmera não vê.

Mas a gente tentou filmar esse relato de uma forma mais ou menos naturalista, apesar daquela luz. Porque a forma como ele nos contou desses encontros, o relato não é diferente de “eu tava andando no mato e encontrei o vizinho caçando” ou “eu tava andando no mato e encontrei o espírito do meu pai. Não é muito diferente da forma como eles contam porque de fato o mundo espiritual e o mundo material estão ali diluídos. Na Europa muitas vezes nos perguntam: “essa sequência mais fantástica ou mais onírica” e a gente fala “não, não tem nada de onírico” até porque o Krahô não faz essa divisão. Não tem subconsciente pro Krahô.

RENÉE: Se aquela sequência talvez fosse filmada com uma luz mais naturalista, ninguém falaria isso. Na verdade isso vem de uma incapacidade nossa de filmar naquelas condições, no meio do mato, para a equipe era impossível, então foi meio que uma solução que o filme encontrou.

Elenco e realizadores do filme “Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos”

Sobre o equilíbrio entre narrativa de sensibilidade subjetiva e comentário político

RENÉE: a nossa grande preocupação, nem era uma preocupação, era uma vontade com esse filme era tentar filmar esta subjetividade desse menino Krahô, que são muitos meninos Krahô que a gente convivia durante tanto tempo e a nossa grande vontade era dar conta disso.

JOÃO: e é esse menino, não é um adolescente genérico

RENÉE: e esse menino, essa história, que queria contar. Porque é claro, a gente também pensa que nessas outras narrativas é como se o índio não existisse antes do branco. Ele só existe a partir do momento em que tem um branco querendo roubar a terra dele ou olhando para ele e falando: “olha só que bonito, que exótico, olha essa festa que ele faz, olha como ele se veste, olha essa pintura corporal do índio”. E na nossa cabeça esse filme não queria dar conta disso. A gente queria contar a história de Ijhãc, desse Krahô que é adolescente hoje num Brasil tão hostil à existência dele.

É claro que é impossível você falar de um índio hoje e não esbarrar nessas outras questões. É claro que construímos ideias, e muitas coisas dali estão porque escolhemos que estivessem, como aquela parada do agronegócio ali no meio da cidade, é claro que eu escolhi botar aquele plano ali, eu achei necessário e eu escolhi botar o hino nacional também naquela sequência. Mas esse nunca era o foco do filme, e também mesmo que não escolhêssemos fazer isso, essas coisas estão sutilmente na cidade. Essa agressividade ela existe, tá ali o tempo todo. Talvez se eu não tivesse pontuado algumas dessas coisas essa ideia ia passar um pouco mais despercebido. Mas isso existe, isso tá lá.

Sobre Kôtô e a possibilidade de um filme sobre as mulheres indígenas

JOÃO: a Kotô cresceu muito durante a filmagem.

RENÉE: a Kotô na verdade, é uma menina muito tímida. Pra ela falar pra gente, demorou muito. As mulheres Krahô, são muito tímidas, é muito difícil você aceder ao universo feminino e eu acho que isso é uma especificidade de vários povos, não é só o Krahô.

Eu sempre tinha essa vontade de ter uma protagonista feminina. Porque é realmente um universo, mas é um universo quase secreto. Ainda mais para quem não fala a língua. Mas conforme a gente foi filmando a Kotô ela foi se mostrando e as vezes ela continuava tímida e fechada mas ela entendia perfeitamente a nossa proposta para as cenas e ela conseguia inclusive contribuir com as ideias dela para o desenrolar das sequências. Durante o processo ela foi ganhando cada vez mais força e agora eu olho para o filme e a Kotô, para mim, tem uma coisa muito especial.

Tenho muita, muita vontade de trabalhar com as mulheres inclusive quando eu comecei a fazer as oficinas umas das condições era que fosse metade metade as turmas, metade meninos e metade meninas. E quando comecei essa molecada tinha 13, 14 anos, só que com o passar do tempo elas vão engravidando porque lá o pessoal engravida muito cedo, então elas viram mães e acabam ficando naquela rotina da maternidade.

Tem uma coisa ali do universo feminino que é essa realidade de que elas são mães cedo né, então fica mais difícil dar continuidade aos trabalhos. Mas sim, tenho muita vontade de conseguir levar a cabo um projeto só de meninas. A gente continua trabalhando na aldeia, continua pensando em coisas para fazer com eles.

JOÃO: Sobre a cena delas na água, ela reflete muito do que a Renée disse, da Kotô ser bem tímida. No começo quando a gente decidiu filmar com Ihjãc a gente tinha esta ideia desta macroestrutura do filme mais ou menos inspirada neste outro menino que passou por um processo semelhante, fugiu para a cidade durante um ano e acabou voltando. A gente tinha mais ou menos estas âncoras para poder ir filmando e tentar introduzir outras coisas no processo.

Quando começamos a filmar com Kotô, eu acho que uma das primeiras cenas que nós filmamos, a gente filmou mais ou menos de uma forma cronológica é a cena do Ihjãc contando para Kotô que tá virando pagé. Aquela cena dos dois deitados na casa que eu acho que é uma cena super bonita, de uma intimidade total. Mas a gente pensou que ela continuava sendo essa figura da mulher que apoia o homem, escuta o problema do homem. E que a Kotô não pode ser só isso no filme.

RENÉE: E ela não é. Ela é o oposto. Ela é quase mais um problema para ele. Acho que ela é a força do Ihjãc. Ela é aquilo que faz ele pra frente.

JOÃO: Mas essa cena da água é muito interessante porque a gente propôs ela escolheu pessoas com quem ela queria filmar. Claro que a gente ia ter também a proposta de ficção. Na água que tem todo o lado lúdico e tem as crianças brincando, tem uma coisa cotidiana aqui muito mais interessante do que aquele clichê do cinema do que duas pessoas em cima de um prédio olhando a cidade e conversando contemplativamente sobre seus problemas existenciais. Ali não, ali há um fluxo, tão banhando, tão brincando e tão conversando e tem gente ali perto.

Sobre a língua Krahô

JOÃO: o que a gente saca hoje da língua Krahô nos permite entender dos temas das conversas. A gente consegue ter falas muito simples como “vem cá”, “vamos comer”, “cadê você?”. Mas a gente não consegue ter uma conversa. Mas tinha uma coisa assim nossa, de entender uma verdade da cena quase como se a língua fosse gesto também que vem de ter uma intimidade com eles.

RENÉE: não importa saber exatamente o que elas estão falando porquea essência da cena tá em outros lugares que tem muito a ver com a própria forma deles de se expressar. Os Krahô se expressam de outras formas que não é só o verbal.

Essa relação de poder que é estabelecida quando você aponta a câmara para alguém, quando você não entende o que a pessoa está falando ela é quebrada então a gente também fica numa posição um tanto frágil no momento em que a gente não entendia exatamente o que eles diziam. A gente também tinha que confiar neles.

É quase como se eles dirigissem a gente. Era uma coisa de ida e vinda porque a gente também tinha que confiar demais neles, eles confiavam na gente mas nós tínhamos que confiar muito neles.

E foi muito bonito também que por conta disso, este ato de dirigir o filme, que geralmente é um ato de um querer um diretor,ele é o grande senhor do filme. A vontade dele é tem que ser é. Isso daí foi totalmente de outras formas também, dessa diretamente, em relação ao material fílmico, mas assim do que a gente conseguiu captar a gente não tinha o controle de tudo a começar pela fala deles , isso foi muito bom, eu acho que foi muito bom.

JOÃO: fazê-los donos da sua própria fala mesmo que a gente não os entenda.

Sobre os diálogos

JOÃO: Não queríamos que fosse um processo de entrevista que tem esta espécie de ping pong dialético que é: “eu quero que você fale sobre isso e você responde”. “Onde você mora? Quem é sua esposa?”. E você pergunta até chegar nas respostas. Então a entrevista é um dispositivo, é claro, tem coisas incríveis mas existe um jogo de poder e para nós era mais interessante que a gente sugerisse temas.

Essa fala do Ropoxêt na cena da fogueira quando ele fala sobre a ambiguidade do pajé, o plano dele, que é um monólogo de dois minutos falando sobre o pajé, este plano não existia na montagem. A gente terminou a sequência no Ihjãc. Quando a gente finalmente fez a tradução, meu pai assistiu e disse “eu não entendo qual é o problema desse menino em virar pajé. Pajé “é uma figura incrível, pajé é um velho sábio que usa cachimbo, é uma coisa maravilhosa…”

RENÉE: isso é uma idealização nossa. O pajé é uma figura super ambígua, problemática. Tem gente que odeia, tem gente que atravessa a rua quando vê um pajé.

JOÃO: mas é também esta coisa, como que a gente pensa um procedimento de cinema para introduzir uma coisa que é didática entre nós. A gente está fazendo uma tradução…

RENÉE: queremos que se entenda.

JOÃO: queremos tornar as coisas mais ambivalentes possíveis, então tomara que nosso filme não contribua para reproduzir este estereotipo do pajé que é uma figura iluminada, é muito mais interessante mais complexificado assim.

JOÃO: Quando filmamos Ropoxêt falando sobre o pajé o procedimento cinematográfico era: “Ropoxêt você tá aqui, tem o Ihjãc, tem Kotô, tem figuras mais jovens, fala para eles, eles sabem a figura do pajé, mas fala para eles sobre isso e não pra nós”.

Sobre a cosmologia e o encontro entre ficção e documentário

JOÃO: O mito para eles não é, é a história do antigo mas não é uma mentira. Não é uma lenda, o mito é realmente o sol, a lua…

RENÉE: É como ele falou ontem…hoje o bicho não fala mas…de começo todo o bicho falava…

RENÉE: isso daí…passado…ele reconhece como passado, não reconhece como um tempo mítico

JOÃO: Ele sabe que foi há muito tempo.. mas existiu…

RENÉE: talvez o tataravô dele pegou esse momento e não é um outro tempo, é um tempo anterior,

KIMA: ou nem tanto, né? A arara fala com ele no filme.

JOÃO: Exato, a arara fala.

KIMA: acho que isso é interessante, vocês colocam tudo no mesmo nível. Todos os acontecimentos, ces aterram eles.

RENÉE: era uma coisa muito importante para a gente que esse mundo fosse contíguo. Ele não é outro, é o mesmo, o mesmo plano.

JOÃO: isso se vê na aldeia todo tempo.

RENÉE: Sonho não é só sonho. Seu Karõ sai do corpo e faz tudo aquilo.

KIMA: Karõ é o que exatamente?

JOÃO: Karõ é o espírito, um duplo que tá por aí. Quando você tá doente, é também o espírito que saiu do seu corpo e o trabalho do pajé é trazer ele de volta. As vezes ele consegue, outras vezes não dá conta. O pajé vai realmente no mato, conversa com o espírito, volta para a aldeia, conta como foi este encontro. Eles contam histórias de porrada, que bateu, que puxou o braço e falou que não ia voltar…

RENÉE: eles apanham, é perigosíssimo!

JOÃO: e o Mekarõ é o seu duplo, a sua sombra. a imagem numa foto é o Karõ, o reflexo na água é o Karõ… O espírito é o Karõ. É um duplo, um espectro. Esta palavra é tão complexa que a gente decidiu não traduzir para o filme.

RENÉE: mas essa palavra não é só o espírito, ela é o desdobramento. A palavra no decorrer do filme vai ganhando sentido.

RENÉE: é tão difícil traduzir um conceito que é tão amplo, quer dizer, não era interessante traduzir, só perdia, reduzindo isso a palavra escrita.

JOÃO: a palavra foi uma decisão super difícil de “será que a gente assume que é o espírito e pelo menos a gente dá conta de um dos sentidos da palavra?” ou a gente corre o risco de ela não ser absolutamente nada?

RENÉE: mas eu nunca achei isso…

*(Entrevista editada pelo jornalista Felipe Bueno).