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Entrevista com Soraya Belusi e Josias Pereira do jornal O TEMPO

Por: Patrick Ferreira/ Foto: Marcelo Duarte

O curso de jornalismo do Centro Universitário UNA promoveu no último sábado, dia 25, o Tropeirão da Rússia, evento que reuniu jornalistas que batem um bolão fora de campo para um bate-papo sobre a cobertura da Copa do Mundo na Rússia. O jornal Contramão acompanhou todo o evento e traz, com exclusividade, para vocês, uma entrevista com dois dos convidados da roda de conversa, Soraya Belusi, editora do caderno Super FC do jornal O Tempo, e Josias Pereira, repórter do mesmo caderno.

Jornal Contramão: Muitas pessoas comentaram sobre o desinteresse do brasileiro pela Copa do Mundo deste ano. Você acha que isso realmente ocorreu?

Soraya Belusi: Eu acho que no período pré-Copa, o povo estava com total desinteresse, muito chateado com a situação do país, com a corrupção até mesmo dentro da CBF, 2014 ainda tinha deixado um baque. No jornal O Tempo, fizemos pesquisas e comprovamos que o brasileiro não estava interessado. Bastou começar o primeiro jogo, que o brasileiro enlouqueceu. Nas redes sociais, o único assunto que rolava era Copa do Mundo. Há um discurso arraigado de que a Copa do Mundo emburrece o povo. Eu discordo, pois, a copa é de 4 em 4 anos, durante 1 mês, temos 3 anos e 11 meses para pensar em política e porque a culpa é da Copa?

JC: Entre a infraestrutura do Brasil em 2014 e Rússia 2018, você viu um patamar igual ou diferente?

Soraya Belusi: Em termos de organização é equiparado, a gente fala muito do padrão FIFA e ele existe. Em qualquer parte do mundo ele funciona. Em Moscou tem um metrô que para na porta do estádio. Estive na Rússia em 2014 e já tinha essa estrutura lá. É uma cultura do país.

JC: Quanto à liberdade de imprensa na Rússia, houve algum tipo de censura?

Josias Pereira: Os russos foram muito bem treinados antes da Copa para evitar qualquer tipo de exposição ruim do país. Tudo foi muito tranquilo, fiquei até surpreso. Presenciei um caso na Praça Vermelha em que os mexicanos queriam fazer a festa dos mortos, um costume deles e a polícia Russa não permitiu que fizessem isso ao lado do túmulo do Lenin, que é uma pessoa “sagrada” para os russos.

JC: Na Rússia, as pessoas já tinham ouvido falar ou conheciam algo sobre Belo Horizonte?

Josias Pereira: Pouco se conhecia do Brasil, de modo geral na Rússia. A maioria só havia ouvido falar do Rio de Janeiro, Cristo Redentor, praias e mulheres. Quando se falava que era a cidade do 7 a 1, as pessoas lembravam e também quando citava que era uma cidade do Sudeste, entre Rio e São Paulo. O Brasil lá é muito lembrado pela música. Por exemplo, a lambada. Lá se ouve músicas famosas daqui de lambada dos anos 1990 e eles pensam que são músicas russas porque tem versões russas dessas músicas.

JC: Qual o balanço que você faz sobre o encontro de hoje?

Soraya Belusi: Foi um prazer estar ao lado da Kelen e da Isabelly. São duas referências, pois a Kelen veio antes de mim e a Isabelly é super jovem, um prodígio, que está começando, e eu no meio do caminho entre as duas. Eu estava muito curiosa, principalmente com a Isabelly que é pioneiríssima na narração. Eu estava falando com a Márcia [coordenadora do curso de jornalismo do Centro Universitário UNA] que poderíamos ter ido nas salas, dado palestras, mas dessa forma, se tornou uma diversão, porque o futebol é o microcosmo do Brasil. Todas as potências do país estão no futebol e todas as mazelas também, e foi muito legal dividir isso com vocês.  

 

 

 

 

 

 

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Imagem do filme “Imperméavel pavio curto” de Higor Gomes.

O 20° Festival Internacional de Curtas (FESTCURTASBH) trouxe como temática, nesta edição, o olhar sobre o cinema negro

Por Marcelo Duarte

Entre os dias 10 e 19 de agosto, Belo Horizonte recebeu a 20º Festival Internacional de Curtas – FESTCURTASBH, que exibiu 138 obras, de 70 países e doze estados brasileiros, distribuídos ao longo de mais de 65 sessões. Durante o evento, o público ainda teve a oportunidade de participar de seminários, oficinas e shows. A mostra foi exibida em três espaços diferentes da cidade, o Cine Humberto Mauro, Sala Juvenal Dias e jardim interno do Palácio das Artes.

Para Gabriel Martins, cineasta e sócio-fundador da produtora Filmes de Plástico, festivais potencializam encontros entre realizadores, entre a obra e o público, e entra obra e crítica. “Os festivais sempre irão favorecer o despertar de novas ideias e dão muito combustível pra quem está começando entender que as obras encontram caminhos e se transformam a partir do momento em que são projetadas. Este festival, que tem um olhar cuidadoso, me parece uma excelente vitrine para novos realizadores que buscam uma janela para seus olhares”,  pontua.

O festival contou com 2.518 inscrições, sendo 405 brasileiras e 2.113 estrangeiras. O cinema negro foi o foco da temática curatorial, trazendo três janelas especiais dentro da mostra. A partir da participação do curador e crítico Heitor Augusto, o FESTCURTASBH voltou seu olhar tanto para a pujante produção recente de cineastas negras e negros, quanto para a história dessa produção, largamente desconhecida e vítima da invisibilização que tem tradicionalmente acometido as diversas expressões artísticas e culturais da população negra no Brasil.

O cinema negro em foco

A coordenadora de Programação e Curadoria do Festival, Ana Siqueira, destacou a importância do tema para o festival. “Desejamos que o público tenha acesso a essa filmografia, e às discussões em torno dela, nas sessões, seminário e debates, permitindo o engajamento em torno do cinema negro de forma mais complexa. Dessa forma, buscamos contribuir para se pensar como esses trabalhos são realizados estética e politicamente, trazendo uma série de implicações para nosso olhar, nossa forma de perceber os filmes, além dos necessários questionamentos de como a história do cinema é construída, nunca de forma neutra, sempre atravessada pelos diversos processos políticos e sociais em curso”, explica.  

Para Gabriel Martins, que exibiu o seu curta-metragem “Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides”, durante o seminário de cinema negro, os filmes ainda precisam chegar até as pessoas que não têm acesso. “Precisamos de melhores políticas de distribuição que, dentre vários caminhos, consiga levar o cinema às periferias do Brasil. Este tema sempre é fundamental, principalmente frente a uma história de cinema que apagou cruelmente diversos de seus artistas negros. Rever essa história é fundamental para darmos alguns passos adiante”, sustenta.

Como nas edições anteriores, o enfoque do festival girou em torno de valorizar a construção de curta-metragens em suas diversas formas, contextos e abordagens, possibilitando reflexões sobre a contemporaneidade. “É fundamental e algo que pensamos em todos os projetos. Temos como meta principal abastecer a cena dando oportunidades para as pessoas trabalharem e ganharem dinheiro com seu talento”, indagou Gabriel Martins, ao ser questionado sobre o enfoque do festival.

Premiação

As mostras competitivas Minas, Brasileira e Internacional premiaram produções recentes com o tão sonhado troféu capivara. O grande vencedor da categoria regional foi Higor Gomes, com o filme Impermeável Pavio Curto. “Ver o Higor ganhar é um orgulho imenso e uma felicidade pois antes de tudo é um amigo e uma pessoa fascinante. Tive o prazer de fazer parte da banca do projeto na universidade e fiquei muito feliz de ver um grupo unido como o dele fazendo um filme tão lindo e sincero”, comenta Gabriel Martins.

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O Tropeirão da Rússia, evento que reuniu jornalistas que fizeram a cobertura da Copa do Mundo 2018 para um bate-papo, no último sábado (25), no Mercado Central, foi um sucesso 

Por Patrick Ferreira

O Tropeirão da Rússia, evento promovido pelo curso de jornalismo do Centro Universitário UNA, no último sábado, dia 25, no Espaço Cultura II do Mercado Central de Belo Horizonte, reuniu profissionais do jornalismo, estudantes e ainda amantes do futebol para um papo sobre a cobertura dos jogos da Copa do Mundo na Rússia. Entre uma rodada e outra do bate-papo, o público teve a oportunidade de saborear um delicioso tropeiro preparado pelo chef Edson Puiati.

A coordenadora do curso de jornalismo, Marcia Maria Cruz, deu o ponta pé inicial e agradeceu a presença de todos: “Este é um momento de celebrar o jornalismo, ninguém faz jornalismo para ser milionário. Faz por vocação de comunicar”, ressaltou.

A programação, que foi dividida em dois blocos, iniciou com a mesa Mulheres na Copa do Mundo. Na primeira etapa da conversa, foram convidadas as jornalistas Soraya Belusi, editora do caderno Super FC do jornal O Tempo, e Isabelly Morais, da rádio Inconfidência e primeira mulher brasileira a narrar um jogo de Copa do Mundo pela Fox Sports. O bloco contou com a mediação de Kelen Cristina, subeditora do caderno Super Esportes jornal Estado de Minas.

Foto: Marcelo Duarte

Além de contarem sobre os desafios inerentes de uma cobertura jornalística em um evento como a Copa do Mundo na Rússia, elas também falaram sobre os desafios da mulher em um ambiente predominante masculino.

A narradora Isabelly Morais, que recebeu diversos comentários negativos ao seu trabalho nas redes sociais, disse que não deixou se abalar pelas críticas. Ela atribuiu um certo machismo a esses comentários, pois a desqualificam enquanto profissional pelo fato de ser mulher, em uma profissão onde os homens, até então, vêm dominando. Raramente as críticas se referem ao trabalho, revela a jornalista. Contudo, ela destacou que recebeu apoio e carinho de várias pessoas e se tornou uma referência para várias mulheres jovens. Ao todo, na Copa, 25 jogos foram narrados pelas mulheres.

A jornalista Soraya Belusi levou seu bom humor, ao contar histórias do mundial e principalmente ao relatar o episódio com o então técnico da seleção mexicana, Juan Carlos Osório, durante uma coletiva de imprensa na Copa da Rússia. No vídeo, que chegou a viralizar na internet, Soraya contesta o discurso do treinador de que o brasileiro Neymar Júnior teria simulado um lance, enquanto as imagens mostravam que o jogador mexicano tinha feito uma falta dura. Ele a responde com uma evasiva. O caso foi um dos tantos de machismo durante o mundial.

Pausa para o tropeiro

Na pausa para o almoço, o Chef Edison Puiati falou sobre como seria um tropeiro russo. “Nesse aqui, usei cachaça para flambar as carnes, a gente poderia usar uma vodca para fazer à moda da Rússia, seria um ingrediente bem emblemático e ficaria muito bacana”, garantiu.

Foto: Marcelo Duarte

Segundo tempo

Na segunda rodada do bate-papo, foi a vez dos jornalistas Josias Pereira, repórter do caderno Super FC do jornal O Tempo, Renan Damasceno, repórter do caderno Super Esportes do jornal Estado de Minas, e Paulo Galvão, também repórter do caderno Super Esportes do jornal Estado de Minas, comporem a mesa.

Na etapa mediada pela aluna de jornalismo do Centro Universitário UNA, Helen Oliveira, os três repórteres esportivos falaram sobre assuntos diversos, incluindo a rotina dos jornalistas na cobertura dos clubes de futebol. Damasceno lembrou o fato de ser a primeira Copa do Mundo com árbitro de vídeo e que a tecnologia fez com que as coberturas ficassem muito mais dinâmicas. “O torcedor queria ver o ao vivo do que o jornalista estava vivendo na Rússia”, comentou.

Foto: Marcelo Duarte

Balanço sobre o evento

Alunos do Centro Universitário UNA e jovens interessados em cursar jornalismo prestigiaram o evento. Helmut Esser, estudante de jornalismo, elogiou a iniciativa do curso de promover esse encontro entre profissionais e alunos. “Sendo sincero, gosto bastante do curso porque sabe equilibrar a prática e teoria. Noto que os professores são muito flexíveis. Se você tem dúvidas, eles explicam tranquilamente”, contou. Thaís Gonçalves, também estudante de jornalismo, falou sobre o encontro com jornalistas já experientes. “Esse evento trouxe a oportunidade de ouvir as experiências deles frente ao jornalismo”, disse.

Convidada do bate-papo, Soraya Belusi fez um balanço positivo do evento e se disse contente com a participação do público presente. “Eu fiquei surpresa, porque muitos acreditam que a juventude é muito desfocada, fica no celular, acha chato, e o que eu vi aqui hoje foi o contrário. Todo mundo atento, interessado. Isso é muito gratificante, saber que a gente pode passar o que já experimentou”, exaltou.

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Por Moisés Martins

Foto: Moisés Martins

Mesmo após sua morte, Basquiat, um dos poucos artistas plásticos negros a ganhar projeção, continua quebrando tabus no mundo da arte

JEAN-MICHEL BASQUIAT | Lombo [Loin], 1982 |
As obras da coleção Mugrabi compõem a maior exposição de Basquiat já realizada na América Latina, em cartaz no Centro Cultural do Brasil Belo Horizonte (CCBBBH). Sucesso de público e crítica em São Paulo e Brasília, a mostra segue em cartaz na capital mineira até o dia 27 de setembro, e depois é a vez do Rio de Janeiro receber o trabalho do artista norte americano. A mostra dispõe de mais de oitenta obras, entre pinturas, desenhos e gravuras, espalhadas por todo o 3° andar do centro cultural.

O mineiro radicado em Nova Iorque, Jhonn Simões Braga, de passagem pela capital mineira, aproveitou a oportunidade para ver o trabalho do artista neo-expressionista. “A gente vê muita coisa dele lá, mas quase nunca em uma exposição só. Foi fantástico. Um presente do Brasil para mim”, declara. Por reunir um significativo recorte do trabalho de Basquiat e por destacar as obras de um artista negro, a exposição afirma o seu ineditismo.

Ao entrar na primeira galeria da exposição “Jean-Michel Basquiat – Obras da coleção Mugrabi ”, o confronto com o espaço, um prédio neoclássico, com o acervo da mostra, embebido de referências modernas e muitas vezes influenciado pela cultura pop, é inevitável. Durante a visita, muitas indagações vêm à mente.

O retrato de um artista negro logo na entrada não deveria causar impacto. Mas a imagem de Basquiat no museu tem uma força e carrega consigo muitas questões. Talvez, a principal delas seja a representatividade de artistas negros nos museus.

Para além das discussões sociais, a vida e obra de Basquiat, por si só, é capaz de surpreender aqueles que não conhecem a sua biografia. O que é possível notar nas reações dos visitantes ao longo da exposição, como revela a educadora Paulette Azambuja, graduanda em pedagogia com ênfase em arte. “As pessoas chegam aqui com mil estereótipos, os chamam de drogado, dizem que ele tinha AIDS, que ele viveu na pobreza, e muito por isso, por ele ser um artista negro, o que transforma o foco da visita”, conta.

Ao ir fundo na vida de Basquiat, é perceptível que essas afrontas vêm carregadas de puro preconceito. O artista veio de uma família de classe econômica média, sua mãe sempre acreditou no seu talento, e por isso, sempre o estimulou a desenhar, pintar e a interagir com tudo que se relacionasse às artes.

JEAN-MICHEL BASQUIAT | Flash in Nápoles [Flash em Naples], 1983 |
Basquiat foi um dos raros artistas negros de sucesso, no contexto das artes plásticas, em um universo predominantemente branco. Em sua carreira, trouxe à tona a negritude e os traumas experimentados pelos negros nos EUA.

Um fato marcante que coloca isso em evidência, é quando em sua primeira exposição ele vende todos os seus quadros, fatura duzentos mil dólares, e, logo após, ao tentar pegar um táxi na rua não consegue.

Por outro lado, há pessoas que vão à exposição por se reconhecer na vida dele. O público negro está se sentindo representado por essa exposição, e estão se inserindo no mundo das artes, o que não acontece muito em exposições de artistas brancos, por exemplo.

“A importância de se ter artistas negros, aqui dentro do museu, é para que as pessoas negras possam vir e se sentirem representadas. Muitos visitantes negros nunca tinham conhecido o CCBB e a exposição de Basquiat foi capaz de propor esse momento a eles, precisamos abrir janelas e pensar no acesso democrático de fato, para que todos tenham acesso às artes”, pontua Mateus Mesquita, coordenador do Programa CCBB Educativo.

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Estreia nesta terça-feira a 12ª Mostra Cine BH com a temática Pontes Latino-Americanas

Por Patrick Ferreira

A capital mineira recebe, nesta terça-feira, dia 28, a 12ª edição da Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, com a temática Pontes Latino-Americanas. A programação se estende até o dia 2 de setembro e estará presente em seis pontos da cidade, com eventos totalmente gratuitos. No total, serão exibidos 75 filmes nacionais e internacionais. A abertura ocorre no Cine Brasil Vallourec, às 19h, com o filme paraibano “Sol Alegria”, dirigido por Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira, e com Ney Matogrosso no elenco, que estará presente na sessão.

Dentro da proposta de colocar em foco o cinema latino-americano, a diretora da Mostra CineBH 2018, Raquel Hallak, explica o que aproxima e distancia as produções do continente. “A ideia da mostra é trazer a discussão para o cinema latino-americano. Hoje os países que mais produzem é Argentina, México, Brasil e Chile e possuem peculiaridades, mas também muita aproximação. Pelo ponto de vista de financiamento, das questões estéticas e sociais. É uma ideia de a gente ampliar esse diálogo entre os países através do cinema e colocar as questões que são muito comuns entre esses países. O Brasil tem a questão da língua. São produções que a gente se vê nelas”, explana.

A partir da temática central deste ano, que irá homenagear a produtora argentina El Pampero Cine, o trio de curadores de longas-metragens Francis Vogner dos Reis, Pedro Butcher e Marcelo Miranda, pretendem com a mostra discutir o cinema latino-americano, quanto à sua identidade e capacidade de dialogarem, contrapondo diferenças entre os cinemas das nações latinas.

O grupo El Pampero Cine irá exibir dois títulos durante o festival, “La Mujer de los Perros (2015) e “La Flor”, que tem pré-estreia brasileira em Belo Horizonte. Raquel Hallak, em entrevista ao jornal Contramão, destaca a originalidade do filme que possui 334 minutos de exibição, cerca 14 horas. A produção será dividida em três sessões e retrata seis histórias independentes e sucessivas, todas as histórias são vividas pelo mesmo elenco, composto por quatro atrizes.

Foto: Divulgação/ Filme “La Flor”.

“Esse filme é recente, foi premiado na Argentina e realmente é uma nova proposta no Brasil trazida na Mostra Cine BH. Após o filme teremos uma palestra, onde a produtora vai falar sobre esse formato, que foge de todos os padrões e a Argentina é um país que se destaca na produção em toda a América Latina. É uma provocação sobre o que o cinema permite fazer”, comenta Raquel.

Legado da mostra

A cidade Belo Horizonte, apesar de bem localizada geograficamente, não era conhecida internacionalmente quando a mostra começou em 2007, e a cada ano vem se firmando mais e mais como a capital do entretenimento. “É importante utilizar esses eventos para as pessoas virem até aqui. A Mostra vem atraindo profissionais do audiovisual do Brasil e do mundo. Estamos trazendo 23 profissionais estrangeiros que vem aqui para conhecer o cinema brasileiro”, afirma Raquel Hallak.

A programação contará ainda com mostras dentro da mostra como é o caso da “Diálogos históricos”, que terá a participação dos críticos e pesquisadores João Luiz Vieira e do argentino Roger Koza, que irão debater filmes da década de 50 e 60 após suas exibições. Outro espaço interessante é o programa de formação audiovisual, que tem o propósito de fornecer ferramentas de capacitação, debates, troca de ideias para atuantes do setor audiovisual. O público infantil também será contemplado dentro do festival com a exibição de “O Colar de Carolina”, de Reginaldo Gontijo, com Letícia Sabatella. A “Cidade em Movimento”, outro recorte da mostra, trará o tema deslocamentos cotidianos.

Foto: Divulgação/ Filme “O Colar de Carolina”.

9ª edição do CineMundi

O CineMundi, evento de mercado da mostra, chega a sua 9ª edição. Nesta janela da mostra, os profissionais e realizadores do cinema do Brasil e do mundo têm a oportunidade de se encontrar e estabelecer trocas. O propósito é facilitar negócios, parcerias, divulgações e networks. Além de conhecer representantes de várias instituições do audiovisual, de várias partes do mundo, o evento é uma boa oportunidade para quem quer conhecer melhor as possibilidades do mercado cinematográfico.

 

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Por: Patrick Ferreira

Foto/reprodução: Guto Muniz

O dramaturgo João das Neves, fundador do Grupo Opinião, faleceu em sua casa, na cidade de Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte, nesta sexta-feira, aos 84 anos. O seu nome era simples e curto, mas a sua carreira foi longa e profícua, elevando o nome do teatro brasileiro. A sua biografia foi construída a partir de histórias de luta e resistência política.

O artista deixou duas filhas, Maria Íris, de 17 anos, fruto do relacionamento com a cantora Titane, e Maria João, de 29 anos, do relacionamento com sua ex-esposa. A morte foi causada por uma metástase óssea.

João dedicou mais de 60 anos às artes cênicas, foi um dos principais agitadores do teatro brasileiro. Participou dos Centros Populares de Cultura (CPC), foi fundador do grupo Opinião ao lado de nomes como Ferreira Goulart e Vianinha. Ele foi também diretor, iluminador, cenógrafo e ator. Realizou obras de impacto no período da ditadura militar como “A Saída, onde é a saída? ”, de 1967, e “O último carro”, de 1976. Outra obra significativa foi “Mural Mulher”, de 1979, que trazia questões como igualdade de gênero, lutas sociais e questões LGBT, isso durante o período ditatorial.

O dramaturgo também produziu obras voltadas ao público infantil como “O leiteiro e a menina noite”, de 1970, que trouxe o racismo como uma das temáticas. Inovou ao inverter a plateia no espetáculo “O Último Carro”. O público assistia do centro do teatro, enquanto os atores encenavam em torno deles. O espetáculo foi assistido por mais de 200 mil pessoas e foi um dos mais premiados de sua carreira.

João se mudou para Rio Branco, no Acre, nos anos 1980, lugar onde encontrou novas inspirações para o seu trabalho. O contato com os índios Kaxinawá lhe rendeu uma outra visão de Brasil, em contraponto à que tinha da região sudeste do país. No início da década de 1990, o diretor decidiu viver em Minas Gerais, com sua esposa Titane. Em parceria com ela, dirigiu shows e projetos musicais, sempre ligados à cultura afro-brasileira como “Zumbi”, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, em 2012, e Madame Satã, de 2015, em parceria com Rodrigo Jerônimo. A montagem “Tributo a Chico Mendes”, em que ele narrou conflitos entre índios, latifundiários e governo, foi um grande êxito de sua carreira.

Em nota emitida à imprensa, a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a Fundação Clóvis Salgado lamentam a morte do dramaturgo:

Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte: “João das Neves não nos deixou. Tornou-se uma estrela no céu que continua a nos iluminar. Cada um de nós carrega um pouco do que com ele aprendeu. Todos nós sabemos o quanto a cultura brasileira lhe deve de inspiração, exemplo de dedicação à arte e de compromisso com o outro. Podemos dizer que Minas Gerais é uma terra privilegiada por ter sido escolhida por João das Neves. Depois de tanto percorrer o Brasil, foi aqui que ele viveu seus últimos anos, uma vida de incansável dedicação à arte, especialmente ao teatro, tomado como uma arma de luta e com tanta brasilidade. Descanse em paz, João, a marca que por aqui você deixou por aqui nunca se apagará. Hoje, você somos nós. “

Fundação Clóvis Salgado“Para o teatro, sua contribuição é imensurável, além de representar um novo fazer artístico, nos ajudando a ver o teatro como uma ferramenta de resistência, valorização e ressignificação da arte. ”

Através do Facebook, políticos, artistas, produtores culturais e jornalistas de Belo Horizonte deram um último adeus a artista e amigo João das Neves, uma referência dentro de fora do teatro:

Márcia Maria Cruz (Jornalista): “Conversei com João das Neves há pouquíssimo tempo sobre o livro de poesia que escreveu “Diálogo com Emily Dickinson”. Foi a primeira vez que o entrevistei e lembro que, no dia, fiquei bem feliz por ter falado com ele. Mais do que extremamente culto, ele é uma alma delicada. Daquelas que tranquilizam a gente. Que faça uma boa passagem! ”

Nilmário Miranda (Candidato a deputado federal por Minas Gerais pelo PT): “Um dia triste para as artes e principalmente o teatro brasileiro. Parte João das Neves. Dramaturgo, ator, ativista, mil coisas que nos emocionaram e ainda vão emocionar muito mais. Engajado, lutou contra a ditadura, em várias frentes. Entre elas os Centros Populares de Cultura (CPC) e o Grupo Opinião. Fará muita falta nestes tempos em que temos de lutar novamente contra um golpe. Fica o desejo de muita força aos familiares e amigos. Seguimos na luta por aqui João, sua obra fica. ”

Carlandréia Ribeiro (atriz e produtora): “João das Neves, gratidão por tudo. Pelos ensinamentos, pela coragem amorosa e coerente com que viveu seus 84 anos nesse mundo. Sua passagem por aqui deixa um rastro de luz a ser seguido.

A história de um homem-artista-criador que como poucos soube que a arte é muito mais que firulas e arrebatamentos do ego. João das Neves, sim, fez do teatro espada e caminho para a gente compreender e lutar para mudar o mundo. ”

Áurea Carolina (Candidata a deputada federal por Minas Gerais pelo PSOL)“João das Neves transcendeu. Agora são as estrelas que fazem companhia ao mestre! João das Neves, presente! ❤”

Cida Falabella (vereadora de Belo Horizonte — PSOL)“O mestre dos mestres do teatro brasileiro se encantou hoje. João das Neves. Com ele aprendemos mais do que Arte: aprendemos luta, generosidade, parceria, bem viver. Aprendemos o país que desejamos. Aprendemos uma forma de amor que transforma, persiste e afeta. Te amamos. Vamos honrar seu legado, sua memória, sua paixão pelo teatro. Voa, João!”

Afonso Borges (escritor e produtor cultural): “Plagiando Drummond, “Morreram João das Neves”. O mais completo homem de teatro do Brasil: ator, diretor, ator, cenógrafo, figurinista, iluminador. Morreram com João das Neves uma mentalidade de dramaturgia. Ficou a lembrança de um artista completo, integrado ao mundo contemporâneo e suas adversidades. À querida Titane, sua companheira de tantos anos, meu abraço de urso, demorado, calmo, solidário. Que ele descanse em paz e para onde for, e estiver, promova esta renovação à revelia, como fez com todos nós. A.”

Marcelo Veronez (cantor)“Falávamos de João esses dias pra trás. Sobre a sua fragilidade e imensa força e o quanto ele merecia todas as homenagens possíveis, ainda em vida. João, obrigado. ”

Cícero Miranda (Artista Visual, Cenógrafo e Figurinista)“Adeus João das Neves! Em minhas lembranças sua forma firme e generosa ao dirigir os espetáculo Madame Satã… Só gratidão!”

Joy A Ti (jornalista e crítica de teatro)“Um salve para a grandiosidade desse homem! “

Marcelo Bones (diretor de arte)“João das Neves. Sexta feira triste. Foi-se um GUERREIRO. O teatro e a cidadania devem muito a ele. “