O cinema brasileiro impõe derrota ao obscurantismo

O cinema brasileiro impõe derrota ao obscurantismo

0 230
Filme Bacurau, dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é a representação da distópica sociedade brasileira. Foto: Divulgação.

A produção do cinema nacional vive, paradoxalmente, o seu melhor momento, enquanto vem enfrentando ameaças de desmantelamento pelo governo federal 

Por Bianca Morais*

O cinema sempre foi uma área sensível no Brasil. Isso porque, entre todas as expressões artísticas, é a que mais tem sido afetada, ao longo dos anos, por interesses políticos. Talvez por ser a narrativa cinematográfica uma forma de documentar e expor com contundência a realidade social e política. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), vem interferindo diretamente no edital da Agência Nacional do Cinema (Ancine), principal órgão de fomento ao setor audiovisual. 

Em discurso, ora o presidente tem ameaçado extinguir a Ancine, ora tem sugerido passar um filtro nos projetos, em clara tentativa de censura a alguns temas. Apesar das ameaças que o cinema brasileiro vem sofrendo, o setor está em seu melhor momento. Diversas produções nacionais têm sido destaques em festivais mundo afora. 

O diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho que havia provocado uma catarse no público ao exibir, em 2016, o filme Aquarius, no festival de Cannes, saiu ovacionado da mostra francesa, na edição deste ano, com o seu mais recente filme, Bacurau (2019). O longa-metragem, dirigido em parceria com Juliano Dornelles, levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e está em cartaz nos cinemas do país inteiro (inclusive em salas de shopping centers, rompendo com a ideia de que cinema independente é uma arte restrita a um público pequeno).

Outro nordestino destaque em Cannes, o cearense Karim Aïnouz venceu a mostra Um Certo Olhar com o filme A Vida Invisível, que retrata com delicadeza e força, ao mesmo tempo, a vida de duas irmãs, em um universo machista, ambientado na década de 1940. A produção foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro. 

Minas Gerais em cena 

Se por um lado, o nordeste tem provado, há um bom tempo, ser um expoente do cinema nacional. Em Minas Gerais, novos realizadores têm alavancado a produção local por conta de uma linguagem própria, narrativas que surgem da rotina dos cineastas, e paisagens, até então, nunca enquadradas por uma câmera. O reconhecimento vem de festivais nacionais e internacionais.

O longa mineiro Arábia (2017), dirigido por Affonso Uchôa e João Dumans, que aborda o cotidiano da classe operária, foi exibido em vários festivais ao redor do mundo e conquistou o prêmio de melhor filme no 50º Festival de Brasília, e venceu nas categorias de melhor ator, com Aristides de Souza, montagem e trilha sonora. A produção faz parte de uma safra de filmes mineiros que vêm se destacando e elevando o núcleo Belo Horizonte e Contagem a um dos mais importantes polos de cinema do país.

A exemplo disso, os diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e o produtor Thiago Macêdo Correia, que juntos comandam a produtora Filmes de Plásticos, já foram agraciados com mais de 50 prêmios. No Coração do Mundo (2019), longa-metragem dirigido por Gabriel Martins e Maurílio Martins, em cartaz em todo Brasil, foi um dos selecionados para a mostra International Film Festival Rotterdam, na Holanda.

A produtora nasceu da vontade de Gabriel Martins e Maurilio Martins de ter uma assinatura para os filmes que criassem, uma identidade comum para os projetos. Ambos moravam na periferia de Contagem e tinham a vontade de produzir juntos. E, hoje, a Filmes de Plástico vem provando que, em meio às adversidades, é possível, sim, fazer cinema. 

O longa-metragem Temporada (2018), escrito e dirigido por André Novais, consta no catálogo da poderosa plataforma de streaming Netflix. O filme, que foi o grande vencedor do 51º Festival de Brasília,  com cinco Candangos, inaugurou a parceria com a atriz Grace Passô, que vive a personagem Juliana, uma mulher que se muda do interior de Minas Gerais para Contagem, onde passa a trabalhar como agente de prevenção de epidemias da prefeitura. 

Em entrevista ao jornal Contramão, Gabriel Martins fala sobre a importância do cinema mineiro e seu olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras.

Para ele, o que o cinema mineiro e brasileiro tem de unidade é “a sinceridade e criatividade dos filmes, a visão de mundo que busca refletir sobre importantes e sensíveis questões sociais, o olhar para o cinema como uma arte de possibilidades políticas transformadoras”.

Martins acredita que exista um potencial imenso no cinema nacional pelo número cada vez mais crescente de mentes criativas e qualificadas. Porém, alerta para a necessidade de investimentos e políticas públicas voltadas para o setor. 

“Os cortes e falta de projetos dizem sobre um desconhecimento total da importância do setor para a economia nacional e também de como ele funciona e pode melhorar. Diz também do despreparo do novo governo para gerenciar o país em tempos de polarização, tornando a máquina pública um instrumento de rivalidades tolas e bastante preconceituosas. Não existe um projeto, portanto, a discussão é feita de forma rasa e antiquada”, pontua.

Criatividade esbarra no financiamento 

A Filme de Plásticos vem financiando os filmes via editais federais e estaduais, e a distribuição é feita por meio de parceiras com a Vitrine Filmes e a Embaúba Filmes. O cineasta mineiro sai em defesa do financiamento a arte e cultura, e, em especial, a projetos audiovisuais, que requerem mais recursos para produção. 

“[Os financiamentos] trazem a possibilidade dos projetos terem a personalidade de produtoras que talvez nunca seriam financiadas pela iniciativa privada. Esse investimento possibilita que projetos importantes sejam feitos de forma honesta e investigando temas de forma profunda. Como vimos em casos recentes, as políticas públicas podem inclusive se utilizar de ações afirmativas de forma a tornar a arte brasileira mais plural e inclusiva”, argumenta.

Sobre esse cenário, Gabriel Martins afirma que o principal gargalo enfrentado pelo cinema mineiro continua sendo o investimento. Para ele, existe uma vontade imensa de produção e resultado que precisam ser revertidos em políticas mais estáveis, investimentos mais constantes e um projeto de cinema na região que possa sofrer menos com instabilidades políticas.

“Nós somos hoje um dos estados com maior resultado em suas produções. Para dar um exemplo, os últimos três festivais de Brasília tiveram filmes mineiros premiados como melhor filme. Estes mesmos filmes e outros mais circularam por grandes festivais mundiais e também foram premiados”, comenta. 

Mesmo com os cortes, o diretor ainda acredita que o cinema mineiro tem fôlego e seguirá seu curso. “As pessoas que realizam filmes aqui [em Minas Gerais] tem um histórico de resistência e perseverança na forma de produzir, tendo passado por diversos momentos difíceis de financiamento e vindo de origens de um cinema independente, feito na guerrilha. O cinema mineiro vai continuar relevante simplesmente pela série de boas produções e força da geração que filma atualmente e das novas que vem chegando”, conclui Martins.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

NO COMMENTS

Deixe uma resposta