O queridinho de Beagá completa 90 anos

O queridinho de Beagá completa 90 anos

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Mercado Central completa 90 anos permeado de histórias e personagens. De cima para baixo, em sentido horário: Nem, da loja do Nem, Geraldo Andrade, José Campos da Silva do Ponto do Queijo, Waldir Pereira, da barraca Xexeu do Abacaxi. Foto: Jéssica Oliveira.

O Mercado Central de Belo Horizonte completou, recentemente, 90 anos de atividades; o espaço, que guarda histórias e atrai turistas, consagrou-se como o queridinho da cidade

Por Bianca Morais*

Inaugurado no dia 7 de setembro de 1929, o Mercado Central de Belo Horizonte completou, neste mês, 90 anos. Localizado no coração da capital mineira, o lugar é conhecido por sua variedade de produtos. Por lá, é possível encontrar de tudo, desde frutas, queijos, carnes, peixes, temperos e artesanatos.

Cartão postal da capital mineira, o mercado é conhecido mundialmente. Em março de 2016, foi classificado como o 3° melhor do mundo, permanecendo atrás apenas do Mercat de la Boqueria (em Barcelona, Espanha) e o Borough Market (em Londres, Inglaterra).

O Mercado Central tem, hoje, 700 lojas, e vende de tudo um pouco. De lá, de acordo com José Agostinho de Oliveira Quadros, o famoso Nem, diretor financeiro do estabelecimento, saem em média 6 mil caixas de cerveja e 380 toneladas de queijo por mês.

Esses números colocam o mercado como um dos maiores centros comerciais do país. No local, onde se encontra de tudo, até mesmo ingredientes para uma feijoada legítima ou bacalhoada, o que atrai é a qualidade dos produtos, quase sempre artesanais, e a diversidade. É o que comenta grande parte dos seus frequentadores.

Além dos alimentos, o mercado conta com bares e restaurantes, onde você pode comer e beber bem, e ainda saborear um dos pratos mais tradicionais da cozinha mineira, o fígado acebolado com jiló.

Você conhece a história por trás do famoso fígado com jiló? Nas décadas de 1950 e 1960, havia no Mercado Central, como conta Nem, um abatedouro. Era comum, na época, as pessoas irem ao local para abater animais como porcos, carneiros e garrotes. As pessoas chegavam muito cedo e não tinham o que comer, com isso elas pegavam aqueles miúdos e o jiló, um dos produtos mais baratos da época, refogavam com cebola, na chapa, e comiam. O prato se popularizou e se tornou um dos mais tradicionais gastronomia mineira.

“O mercado é a minha vida”

No mercado, quase todos os feirantes e quem trabalha nele está lá há muito tempo. Dos 700 estabelecimentos do Mercado Central, boa parte é passado de pai para filho. Há, também, funcionários que estão ali desde o princípio, começaram a trabalhar ainda jovens e permanecem até hoje.

O mercado se confunde com a vida e história de quem, dia após dias, retorna a ele, para tirar o seu sustento. Quando se indaga o que o Mercado significa para essas pessoas, a resposta é: “O mercado é a minha vida. É tudo para mim”, “Tudo que eu conquistei foi graças ao mercado”.

Dos personagens que deixaram sua marca no Mercado Central, um todo mundo conhece. É o Nem, o José Agostinho Oliveira Quadros, 69 anos, da Loja do Nem. Ele trabalha no mercado há mais de 50 anos. O Nem veio para Belo Horizonte, da zona rural da cidade mineira Carmo Cajuru, quando tinha entre 13 e 14 anos, com o intuito de ajudar os irmãos.

Quando chegou à capital, passou a vender, no bairro São Cristóvão, picolés que pegava no Conjunto IAPI. Certo dia, Nem resolveu vender o produto em outro lugar. Desceu, então, a avenida Antônio Carlos e a rua Curitiba, e chegou em um quarteirão fechado por madeirite.

“Pensei que fosse uma obra, vim vender o picolé e me colocaram para fora, falaram que era proibido vender dentro do lugar”, relembra. Foi então que descobriu que ali era o Mercado Central. A primeira pessoa com quem conversou lá lhe arrumou um emprego e ele então está lá até hoje.

“Quando eu entrei aqui era chão batido, não tinha piso, lojas de alvenaria não existiam, eram barracas de madeira, de lona, tabuleiro. Hoje é esta maravilha, piso bonito, lojas de alvenaria, estacionamento, elevador, carrinho de compra, todo coberto”, compara. Para Nem, o mercado é um dos espaços mais aconchegantes de Belo Horizonte.

O Nem tem vários capítulos de sua vida atrelados ao Mercado Central. “Primeiro, eu fui funcionário, e depois aluguei uma loja, fui inquilino, mais tarde comprei uma loja, passei a ser associado, fui por mais de 20 anos conselheiro, quatro anos como diretor financeiro, quatro anos como presidente, dois anos como diretor financeiro. Eu entrei na administração em 2009 como diretor financeiro, em 2013 eu virei presidente e, em 2017, voltei a ser diretor financeiro”, orgulha-se.

Segunda casa

Geraldo Andrade, 75 anos, trabalha no Mercado Central há 44 anos e, prestes a completar 45 anos dedicados ao espaço, comemora cada ano de trabalho e de atividade do centro comercial. Ele trabalha em uma loja que vende utensílios de madeira, vini e vidro. Seus produtos vêm de diversas partes do Brasil e do mundo. Sua loja tem 126 modelos diferentes de cestas.

Andrade é, também, locador. Com sete lojas dentro do mercado, três bares, ele ama investir no lugar que, segundo ele, é a sua segunda casa. Ele preza pela conversa, que, em sua opinião, é um dos diferenciais do Mercado Central, em comparação a outros lugares de vendas em Belo Horizonte.

“A melhor coisa é você bater-papo com o público. Todo dia que você vem ao mercado tem gente, e a loja que sempre tem cliente é a minha, porque eu trato todo mundo bem”, diz.

A sua vida gira em torno do mercado. Seus cinco filhos trabalham com ele. “Eu faço parte da história do Mercado Central”, defende Andrade.

As transformações passadas pelo mercado

José Campos da Silva, 70 anos, ainda se lembra da época em que estavam construindo a cobertura do mercado. “O pessoal estava fazendo a soda lá em cima, e, se pingava algo na camisa da alguém, eles davam outra. Tinha um cara que todo dia deixava pingar para ganhar outra camisa”.

José começou como carpinteiro no Mercado Central, no dia 1º de janeiro de 1973, e passou 21 anos pela administração e 20 anos trabalhando em lojas do lugar. Hoje trabalha como balconista em uma das lojas mais antigas do mercado, o Ponto do Queijo.

Espaço aconchegante 

Waldir Pereira trabalha há cerca de 50 anos no Mercado Central. Ele começou na loja do pai vendendo legumes e há 18 anos tem uma barraca de abacaxi, os famosos abacaxis, aquele cortado na hora e bem gelado.

“Existem várias mercados e supermercados em Belo Horizonte, mas como o Mercado Central não há. Existe um diferencial, na qualidade dos produtos e no atendimento. Além das amizades que criamos com os clientes, tudo aqui faz nos parecer que estamos em casa. Para mim, é isso que o mercado me faz sentir”, expõe.

História

Quando criado, em 1929, o Mercado pertencia a prefeitura de Belo Horizonte. Porém, em 1964, durante a ditadura militar, o então prefeito Jorge Carone alegou dificuldades em administrar o local e o colocou à venda. Os funcionários do mercado então formaram uma associação e concorreram com a Cooperativa Agrícola Cotias, que na época era uma das maiores empresas distribuidora de hortifruit do país, e queria arrebatar o mercado, justamente para transformá-lo em uma cooperativa.

Os 700 funcionários do mercado, naquele momento, se uniram e conquistaram o espaço, que deixou de ser municipal e se tornou privado. Hoje, o Mercado Central tem 520 associados; esses 520 elegem um conselho de 31 pessoas, esses 31 conselheiros elegem três diretores: diretor presidente, diretor secretário e diretor financeiro.

No começo, o mercado era tido como o centro abastecedor de Belo Horizonte. Por muito tempo, não existiu na cidade a variedade de supermercados que encontramos hoje em vários bairros. O mercado era dominado por cerca de 90% pelo comércio hortifruit-granjeiro, e, por isso, ele vendia para pequenas mercearias, quitandas, feiras, lanchonetes e restaurantes. No entanto, com a criação do Ceasa, em 1974, grande parte da sua freguesia migrou para o lugar, o que forçou uma diversificação de seus produtos.

*(A estagiária escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno).

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