Os desafios da maternidade precoce

Os desafios da maternidade precoce

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Por Bianca Morais 

Para finalizar a comemoração do Mês das Mães do Jornal Contramão, conheça hoje a trajetória de Mariana Rocha Tavares, mãe solteira que enfrentou e abriu mão de muitos sonhos para assumir a maternidade ainda na adolescência. 

Mariana tem atualmente 32 anos, diferente de muitas meninas, seu sonho nunca foi ser mãe. Durante a infância mal brincava de boneca e idealizava com o dia em que iria crescer, trabalhar, conhecer o mundo e conquistar sua independência. 

Mas, o destino muitas vezes nos surpreende, as coisas não saem como planejamos e os projetos de vida de Mariana foram interrompidos, quando aos 17 anos veio a gravidez não planejada. A garota que sonhava em ser independente, viu sua vida virar de cabeça para baixo ao dar a luz ainda na adolescência. Agora os seus planos não eram só para ela, agora ela era responsável por uma outra vida.

Fruto de um relacionamento conturbado e da transição da pílula anticoncepcional para o contraceptivo injetável, veio ao mundo Alice. Quando descobriu a gravidez recorreu ao pai, que não é mais casado com sua mãe, e a proposta oferecida foi o aborto, pois ele acredita que uma gestação naquela idade influenciaria no seu futuro.

Engravidar aos 17 anos não é uma tarefa fácil, ainda mais quando não é uma gravidez planejada. Porém, Mariana resolveu assumir a responsabilidade, ao contrário do que seu pai aconselhou, seguiu em frente com a gestação. 

Apesar do desespero inicial, foi nos braços da mãe que Mariana encontrou a força que precisava para continuar. Ela apoiou a filha e deixou claro que não soltaria sua mão e estaria sempre ao seu lado. 

Alice no colo da avó materna

Durante a espera de Alice o que a jovem mais escutava eram comentários maldosos sobre sua situação. “Você é doida, como vai fazer isso com a sua vida?”“O que vai ser do seu futuro agora?”, “Você acabou com a sua vida!”, “ De agora em diante não existe mais você, a sua vida vai se resumir a sua filha!”,  “Esquece tudo que já planejou.”. Então, para ela que desde muito nova idealizava diversas metas que incluíam autonomia, aquele parecia o fim de tudo. 

Muitas críticas, pouco suporte, mas a partir do momento em que transformou esses julgamentos em coragem e determinação, Mariana colocou no mundo uma criança tranquila e serena, que chegou e desmistificou todas aquelas histórias assustadoras de que ela não teria mais noites de sono em paz. Alice nasceu para mostrar que seria a grande companheira da mãe e não o fardo que a sociedade queria que ela carregasse. Mariana ganhou uma filha, uma parceira e uma amiga que a partir daquele momento só iria lhe trazer alegrias. 

Alice foi criada em um ambiente cercado de adultos, por isso, tinha uma maturidade maior ao que correspondia à sua idade. Mãe e filha frequentemente conversavam questões de ideais e realizações pessoais, a menina constantemente incentivava a mãe a correr atrás daqueles sonhos que havia deixado de lado após seu nascimento. 

Depois de ter a filha, a prioridade de Mariana passou a ser o trabalho, pois seria através dele que ela daria o melhor à Alice. “A minha criação foi baseada no ensinamento e na filosofia da independência financeira. Logo, trabalhei arduamente, e tive muitas alegrias e muito sucesso na minha carreira. Sempre dei o meu melhor como profissional e colhi os frutos disso. Porém, de uns três anos pra cá, assumi cargos de mais responsabilidade, tendo como papel na empresa a figura que representava a gestão, e comecei a sentir muita falta de conceitos, de processos baseados em estudos” relata.

Apesar do sucesso profissional, Mariana sentia falta de um curso superior. Ela deixou os estudos de lado, pois queria dedicar o máximo de tempo livre à filha. A jovem mãe presenciava pessoas próximas se formarem e sentia a vontade de alcançar essa realização acadêmica. 

“Em nossas conversas ela se posicionava muito a favor de eu me realizar, e me dava força nos momentos difíceis. Nesse período, entrei em um conflito interno pela necessidade de uma especialização mais técnica na minha carreira e ela dizia a cada instante que eu não precisava me preocupar, porque ela estaria aqui me esperando da aula, e quando fosse final de semana não ia sair do meu lado”, compartilha Mariana.

Alice e Mariana em um momento de descontração

Alice, mesmo sendo apenas uma criança, conseguiu passar a segurança que a mãe precisava para ingressar na faculdade. “Ela sempre ficou nessa função de me reafirmar, que eu era uma boa mãe e que tinha orgulho de mim, isso fez total diferença”, completa.

Com o apoio da pessoa mais importante da sua vida, Mariana, venceu o medo e entrou para o curso de Administração que sempre quis. A mulher que sempre trabalhou na área, encontrou a oportunidade de se aprimorar. 

O dia a dia

Além de mãe e filha, as duas são amigas inseparáveis. Diariamente, durante a aula de Alice na parte da manhã, a mãe organiza a casa e faz o almoço. À tarde, a louça fica com a filha, enquanto Mariana estuda e organiza as responsabilidades que assumiu na faculdade. Ela é líder de turma, fornece suporte ao Instagram do curso, participa da direção de grupos de estudos e à noite assiste às aulas remotas.

As duas compartilham do momento de estudos juntas, Mariana está sempre perto para auxiliar a filha em alguma matéria nova e divide com ela conteúdos que aprende na faculdade. “Da minha parte sempre compartilho as matérias de marketing, porque ela é blogueirinha”, brinca a mãe. 

Mariana fez-se dona do seu destino e aos 32 anos resolveu voltar aos estudos, mas o apoio de Alice é o que movimenta sua vida e sem a filha ela não viveria nada disso.

A pequena grande Alice

A grande menina Alice

Alice é uma pré-adolescente de 13 anos e assim como a mãe sempre comportou-se de forma muito independente. Como a maioria das meninas de sua idade, reclama diariamente da pandemia e de não poder sair de casa e ter contato com as pessoas. Tem conta no Instagram e no TikTok, conversa por Whatsapp e videochamada com as amigas. Na escola, sempre teve boas notas, e apesar de nas aulas remotas precisar de um pouco mais de foco, nunca deu muito trabalho.

A menina tem uma mãe muito jovem, mas com uma extensa bagagem, e por esse motivo, ao longo de sua história já passou por muitas dificuldades e precisou ser adulta em muitos momentos em que ainda era uma criança.

O maior exemplo de Alice, sem dúvidas, é a mãe e talvez esse seja o principal motivo de tanto amadurecimento por parte da menina, que desde muito nova assistiu sua mãe batalhar a fim de lhe dar a melhor educação, mesmo com o mundo dificultando as coisas para as mães solos. 

“Alice é muito humana, educada, carinhosa e sensível. Ela sempre se importa com os outros, sem passar por cima dela. Apesar de tudo que passou nunca se revoltou, ou se quer descontou em alguém as frustrações que eu sei que surgiram dentro dela. Ter que administrar conflitos que nem eram dela. Isso a fez uma pessoa mais madura com certeza”, diz a mãe sobre a filha.

A relação mãe e filha

Mãe e filha em momento de diversão

Mãe e filha trocam informações e descobrem constantemente experiências novas juntas. As duas dialogam bastante e Mariana busca sempre estar presente no meio da filha, até mesmo entre as amigas, a fim de saber com quem ela está se relacionando.

Para Mariana, a base da educação da filha é essa troca, ela veio de uma criação de muito amor, porém estruturada no autoritarismo materno e pouco caso do lado paterno, com isso, desde que engravidou de Alice quis dar uma base diferente da que . “Quero que ela nunca precise fazer nada às escondidas, passar por dificuldades sozinhas por medo de conversar e pedir ajuda, que ela nunca sinta que é um peso na vida de ninguém”. 

Considerando que nunca planejou ser mãe, Mariana tem se virado muito bem, muitas vezes se questiona se ter assumido a posição de mãe-amiga pode ter sido equivocada, mas logo em seguida se reafirma e acredita estar dando o melhor de si.

“Eu cometi grandes erros na criação dela, porém tenho orgulho de ter chegado até aqui e me enxergar como mãe. Tudo que faço é com muito amor, então por mais que dê algo errado, sei que ela vai se sentir sempre muito amada e principalmente respeitada como ser humano”, confessa a mãe.

A mãe batalhadora

Mariana, mãe da Alice

Mariana é mãe, filha, gerente, namorada e amiga, todos esses papéis que ela assumiu ao longo da vida, são constantemente questionados por ela ser, acima de tudo isso, mulher. Ser mulher em uma sociedade machista é ter que se reafirmar diariamente, provar sua capacidade aos outros. Apesar da pressão que vive, Mariana tem conseguido vencer o desafio.

Há 15 anos, na época em que assumir o papel de mãe solteira, a única coisa que ela pensava era como daria uma boa vida à sua filha, acabou por adiar alguns planos, e hoje com o apoio da menina, de sua família, e motivada pela vontade de se tornar uma profissional melhor, voltou a acreditar no seu potencial. Deu início aos seus estudos, porém não para agradar a sociedade que duvida de sua competência, mas a si mesma. 

“A faculdade me mostrou que não existem limites quando se quer algo de verdade algo. Todo esforço e dedicação se para por si, demore o tempo que demorar.” 

Para as mães que têm medo de voltar aos estudos e deixarem os filhos, Mariana aconselha: “Respeitem o seu tempo. Sintam-se livres para serem melhores profissionais, melhores pessoas e não associem isso a dinheiro nunca, e nem ao que os outros falam. Ouçam o seu coração. Você é mãe, mas é um ser humano, tem suas necessidades e seus objetivos particulares. Você existe no mundo para além do outro. Você existe pra você, e isso não é egoísmo”.

O regresso aos estudos enriqueceu não apenas intelectualmente a Mariana, começar uma faculdade serviu muito além de um mero diploma e melhores oportunidades no mercado de trabalho, foi crescimento pessoal, de vencer dificuldades e ser o que ela quiser.

Nesse mês das mães, o Jornal Contramão contou histórias de diferentes exemplos delas, porém todas com um ponto em comum, são todas mulheres que enfrentam todos os dias batalhas e fardos de serem mulheres e mães. Romantizar a maternidade seria uma banalidade se pensar no fato de que essas mães precisam se desdobrar para dar o melhor ao filho, trabalhar e ainda cuidar da casa. Ser mãe é uma grande responsabilidade, são elas que vão educar e servir de exemplo para seus filhos, determinar, na maioria das vezes, quem eles vão ser quando crescer.

Em comemoração a esse mês das mães vamos celebrar, mas também refletir, como você enxerga a sua mãe? Você tem dado o devido valor e consideração a mulher que tanto lutou para você se tornar quem é hoje?

*Edição: Daniela Reis

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