Cozinha afetiva: os sabores de Belo Horizonte em destaque

Cozinha afetiva: os sabores de Belo Horizonte em destaque

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A capital mineira é reduto de bares e restaurantes e destino de uma culinária rica e original. Foto: Ítalo Charles.

A capital mineira é candidata a rede de cidades criativas da Unesco por meio da gastronomia; chefs de Belo Horizonte acreditam que o título irá internacionalizar ainda mais a cultura culinária da cidade

Por Moisés Martins*

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), por meio da Belotur, formalizou junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a candidatura de Belo Horizonte ao título de Cidade Criativa da Gastronomia. 

A capital mineira destaca-se no campo da gastronomia há décadas. Com sua culinária local, a cidade se consolida com seus bares e restaurantes noturnos. Além de ter um dos maiores mercados do mundo: o Mercado Central, localizado na região central de Belo Horizonte.

A candidatura é reforçada pelo fato da cidade ser polo gastronômico. A capital mineira apresenta uma culinária apinhada de tradição e diversidade, além de transmutar o simples ato de comer em um momento único e peculiar, o modo em que os pratos são servidos e a boa recepção é algo característico de nós mineiros, fazendo com que o público se sinta em casa e avalie positivamente esses espaços. Belo Horizonte conta com chefs de cozinha reconhecidos nacional e internacionalmente, que passam por constante qualificação, renovação, inovação e inspiração.

 A candidatura ao título de Cidade Criativa da Gastronomia segue duas etapas. Na primeira, a capital mineira concorreu com 23 cidades brasileiras por uma das 15 vagas oferecidas pela Secretaria Especial de Cultura, integrante do Ministério da Cidadania. E ficou com o 5° lugar geral, tendo a melhor nota no segmento gastronomia. Na segunda etapa, a cidade entregou um dossiê no dia 30 de junho. A candidatura oficial do processo ocorreu no dia 3 de abril, com a publicação do edital por parte da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

“Acredito que esse título da Unesco seria apenas reconhecimento da força do turismo gastronômico em BH. A nossa cozinha vem sendo reconhecida ao longo dos anos como patrimônio imaterial e possui relevante papel social. Temos vários festivais gastronômicos na cidade, como o Comida di Buteco e o Fartura, que fortalecem a nossa cozinha, sem contar a relação entre a cozinha com os pequenos produtores e o fortalecimento de iniciativas e cooperativas”, afirma a jornalista gastronômica do jornal O Tempo, Lorena Martins.

A jornalista ainda destaca a qualidade dos produtos mineiros, como os queijos, para reforçar esse título de cidade da gastronomia. “Até os franceses, famosos no mundo inteiro por seus queijos, estão se rendendo cada vez mais aos produtos que vêm de Minas Gerais”, ressalta. A afirmação se confirma com o destaque que o estado obteve no Mondial du Fromage, Concurso Mundial de Queijos, realizado em Tours, na França. Outro destaque é a produção de café, azeites, cervejas artesanais e vinhos.

O jornalista da 98 FM, Daniel Neto, mais conhecido como o Nenel do blog Baixa Gastronomia, é grande entusiasta da cultura culinária da capital mineira. Ele percorre o centro e bairros belo-horizontinos em busca de pratos e quitutes, ao mesmo tempo, autênticos e acessíveis a todos os públicos. E é, exatamente, por promover e divulgar a culinária local que ele acredita que o título de cidade criativa trará ainda mais reconhecimento e visibilidade para Belo Horizonte. 

“Acredito que o título ajudará a mostrar ao mundo como Belo Horizonte é uma cidade rica gastronomicamente. Dos botecos mais simples aos restaurantes tocados por grandes chefs, temos opções que seduzem a todos os paladares. Em Belo Horizonte temos uma mistura da cozinha da roça com a contemporânea. Ou seja, conseguimos ser uma metrópole sem que perdêssemos o toque ‘caipira’. E isso é fantástico”, avalia Neto.

Caso conquiste o título, Belo Horizonte fará parte da rede internacional de cooperação que envolve outros setores criativos e incrementará a indústria criativa local. “A gastronomia ganhou, ao longo do tempo, muita visibilidade, que vai além dos bares e restaurantes. É um setor que traz muita mão de obra. O mercado é amplo, composto por variadas atividades. Hoje podemos falar até em reality show de culinária. Que traz um benefício para o marketing da gastronomia. Temos redes de escolas culinárias, que atendem a muitas pessoas com interesse em buscar conhecimento e capacitação para começar um empreendimento na área”, conta a chef pâtissier, Daniele Andrade.

No evento de abertura da semana da economia criativa no Centro Universitário Una, no campus João Pinheiro, a gerente de desenvolvimento turístico da Belotur, Ana Gabriela, apresentou a candidatura de Belo Horizonte à rede de cidades criativas da UNESCO, que concorre através da Gastronomia.

“Enxergamos diversas potencialidades no setor, a gastronomia tem a versatilidade de conversar com outros segmentos, de inovar, de agregar, e Belo Horizonte tem esse potencial. A gastronomia reflete a nossa cultura e tradição. Minas Gerais é o estado da gastronomia e a gente quer apresentar essa vitrine, para o país e para o mundo. Queremos mostrar  a nossa potencialidade e através deste trabalho gerar fomento nas indústrias, conectando setores. Vamos trabalhar isso de uma maneira sustentável. O título vai ser apenas uma coroação, o mais importante é o caminho que vamos trilhar ”, destaca Ana Gabriela.

A cultura e as cidades criativas

As cidades cada vez mais têm investido no resgate a sua história e cultura como forma de fortalecer o turismo e reforçar a sua identidade. As cidades são vocacionadas para determinadas atividades. A capital mineira, por reunir uma profusão de tradições, sobretudo, em se tratando da cultura culinária, propiciou o surgimento de uma cozinha original. 

“A Gastronomia é por excelência um segmento multidisciplinar que envolve todas as áreas desde a agricultura, manejo e processamento à logística e transporte, estoque, serviços de restaurantes com chefs, cozinheiros, garçons, maîtres e Sommeliers, escolas, arquitetura e decoração (Mobiliário e decoração), jardinagem, turismo, hotelaria, comunicação e marketing, moda e designer”, concluiu professora de gastronomia do Centro Universitário Una Rosilene Campolina, que integra a Frente da Gastronomia Mineira (FGM) e a Federazione Italiana Cuochi (FIC).

A professora destaca que o título de cidade criativa abre o leque de oportunidades para serviços e produtos que estabelecem diálogo com quase todas as áreas. “Comer é um ato social e assim sendo tudo que envolve o alimento tem a ver com o homem e a cultura em quaisquer circunstâncias ”, conclui.

Importantes prêmios e eventos

A gastronomia mineira está em ascensão desde que Minas Gerais foi escolhido para representar o Brasil no Madrid Fusión em 2013, o maior festival gastronômico mundial. “A escolha não foi por acaso. Minas se destaca pela biodiversidade, riqueza de produtos e de gente talentosa e criativa com uma capital como Belo Horizonte, que se reinventa a todo momento e se supera em número de bares, restaurantes e eventos, entre outros empreendimentos gastronômicos e de entretenimento”, afirma Rosilene Campolina.

A capital se consolida pela realização de um dos maiores eventos gastronômicos de Minas Gerais e do Brasil, o Comida di Buteco, criado em 1999 pelo gastrônomo Eduardo Maya, e lançado no ano 2000 na cidade de Belo Horizonte.

Quase 500 botecos disputam em categorias como higiene, temperatura da bebida, atendimento e, principalmente, tira-gosto. Os vencedores são escolhidos não só pelos jurados mas também por votação popular.

De acordo com um dos organizadores do evento, Filipe Pereira, o concurso é planejado sempre com um ano de antecedência. “Nós, organizadores, nos reunimos e levantamos possibilidade de temas, que possam ser encontrados no Brasil inteiro, com disponibilidade ao longo do ano, com preços compatíveis com os botecos e que possam gerar histórias”, ressalta. 

O produtor do Comida di Buteco aposta no sabor mineiro e diz ter grandes expectativas para o resultado do concurso a qual a cidade concorre. “Nossa capital, ao representar o estado, traz uma diversidade única, sabores únicos, e isso ninguém conseguirá copiar. Possuímos ingredientes exclusivos, e temos muito orgulho disso. Nascemos para resgatar essa cozinha de família, cozinha afetiva, que os botecos têm, comida de casa”, exalta Pereira.

*(O estagiário escreveu a reportagem sob supervisão do jornalista Felipe Bueno. Revisão: Felipe Bueno e Kamille Lobato).

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