Quem está na moda?

Quem está na moda?

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Pautados no movimento slow fashion, em Belo Horizonte, mulheres que não se veem no padrão imposto por lojas de departamentos usam e abusam de brechós e empresas locais inclusivas

Por Ana Clara Souza, Dante Alves, Júlia Thais e Keven Souza 

A moda desempenha papéis importantes na sociedade. As roupas que vestimos são carregadas de significados sociais, econômicos, culturais, e, até mesmo, geográficos. É de longa data a relação das pessoas com a vestimenta, por meio da qual o ser humano se expressa desde as mais remotas civilizações. No Egito Antigo, por exemplo, um dos maiores símbolos daquele povo está, justamente, em sua extravagante forma de o corpo se expressar. 

Mesmo quem diz “não ligar” para as tendências, talvez por não estar antenado quanto ao que “anda na moda”, vê-se inserido em um sistema que funciona como um grande ciclo vicioso, criado em consequência do modelo capitalista. Podemos apostar, por exemplo, que você já ouviu falar de nomes como C&A, Riachuelo, Renner, Marisa… Arriscamos a dizer, ainda, que tenha em seu guarda-roupas algum produto de alguma dessas lojas citadas. 

Pois é! Tais marcas, de onde vêm seus modelitos, configuram um problema contemporâneo, capaz de afetar a economia, o meio ambiente e aumentar a desigualdade social. Tal inimigo responde pelo nome de Fast Fashion. Em outros termos: a moda que não cessa um segundo. Afinal, time is money!

Para contrapor os ideais de tal (frenético) processo industrial, iniciou-se, em 2004, na Inglaterra, um movimento que preza, antes de tudo, pelo meio ambiente e pela inclusão. Além de ser contrário às produções em massa. O nome da iniciativa de resistência, é claro, não poderia ser outro: Slow Fashion. “Conceito novo na moda, foi tirado de uma concepção do fast food, e é uma consciência ambiental que contrapõe o modelo mercadológico do fast fashion“ – Sarah dos Anjos, designer fashion. 

Peça da 3305store que é da designer fashion Sarah dos Anjos

Quando se pensa em moda, é possível imaginar passarelas, vitrines de lojas, manequins, roupas, modelos, e um universo composto por tecidos e padrões. Para muitos, é um estilo de vida, em que, a cada estação, os comportamentos são renovados. O ato de se vestir tornou-se algo que vai além de cobrir a nudez. A roupa também é uma forma de se expressar e mostrar sua personalidade em cada peça. Como diz a costureira Ellen Kássia, dona da loja Camazzo Boutique: “Não se trata somente de me vestir, mas, sim, de transmitir ao mundo quem eu sou e como quero ser vista”.

Ao entrar em uma loja de departamento, como Renner, C&A ou Riachuelo, pessoas com corpos fora do padrão encontram dificuldades ao localizar uma peça, por conta dos tamanhos. Sendo assim, sempre recorrem a costureiras, que confeccionam roupas com as medidas desejadas, mas que não é uma opção tão fácil. Para Kássia, a moda inclusiva é uma pauta atual, que está evoluindo gradativamente, já que existe uma dificuldade das empresas em abrir espaço para todos os tipos de corpos. “Sempre há pessoas que optam pelo serviço sob medida, exatamente por essa falta de opções no mercado. Agora, na Camazzo Boutique, temos algumas peças até o nº 46. Pretendo, no futuro, abranger outros tantos tamanhos. Também faço roupas sob medida!”, completa Ellen Kássia.

Com a falta de representatividade nas vitrines e uma versatilidade de tendências, o slow fashion existe para quebrar barreiras impostas pelo capitalismo e o padrão estético. Ao incluir tamanhos não convencionais, as empresas que usam o método fast fashion começam a ter consciência de que somos diferentes corporalmente. 

Slow fashion é acessível? 

Segundo a designer Sarah dos Anjos, a matéria-prima dos produtos é o maior problema. “Mesmo sendo cultivada ou produzida no Brasil, elas vão para fora e voltam com preços altíssimos. O estreitamento de relações entre fornecedores e empreendedores tem ajudado, pois fazemos a cadeia produtiva local girar”, afirma. Além de ter um modelo de produção distante do Fordismo, cada peça é feita de modo a respeitar o tempo que precisa para concluir. Isso faz com que o produto final tenha preço mais alto do que uma peça fast fashion, que te induz a comprar roupas a todo momento, pois não são feitas para durar, além de serem produzidas em curto período de tempo e apresentar caráter duvidoso. Afinal, você sabe de onde vem a roupa que está vestindo agora?

Como o próprio nome diz, a “moda lenta” exige pesquisa detalhada de matérias-primas que não tragam malefícios ao meio ambiente – já que a moda é o ramo que mais polui depois do petróleo, e que tenha durabilidade maior –, como vestimenta para meros mortais como nós, além de um trabalho manual e delicado, que leva muito tempo. 

Ao contrário da famosa frase capitalista “tempo é dinheiro”, aqui, “tempo, pesquisa e valorização de cada detalhe” é expressão capaz de salvar o planeta de forma inclusiva, para todos os tipos de corpos, acessando cada pessoa com uma peça exclusiva e atemporal. Ou seja, você tem peças únicas, duradouras e compreende ainda a não colaborar com trabalhos em condições escravas, além de produzir menos lixo.

Luana Madhavi, dona do brechó Madhalu, e também consumidora, diz que acessou esse universo slow fashion por conta do pai, que é consumidor até hoje e sempre gostou de exclusividade e autenticidade, com preços acessíveis. “Quando conheci os brechós, não pensei em meio ambiente. Meu foco era comprar muito, com a grana que eu tinha, e era pouca. Depois, comecei a pesquisar, vi que a moda polui muito, e, agora, tento comprar tudo que visto com consumidores locais ou empresas que tenham como vertente o slow fashion”, destaca a filha.

Contudo, o slow fashion veio, de certa forma, para mudar o conceito “o que é seguir a moda” nos dias de hoje. Para você, estar dentro do padrão é usar roupas que, em duas semanas, já não serão novas, ou é ter um estilo atemporal? Em grande medida, é ajudar o meio ambiente ou pagar por aquela blusinha, de caráter duvidoso, que outras tantas exibirão na rua? 

Para te dar um rumo, que tal separar um tempo para visualizar seu guarda-roupa e se questionar se realmente precisa de tudo? Por que não fornecer peças, em bom estado de conservação, para algum brechó e, ainda, gerar uma grana extra? Que tal separar roupas que não usa há mais de um ano e customizar, transformando-as em peças exclusivas? Por fim, deixe a moda se adequar em você e não o contrário!

Onde encontrar o slow fashion em BH?

Disponíveis em Belo Horizonte, a maioria dos brechós se encontram no Instagram. Separamos alguns localizados na capital mineira, que utilizam-se da moda sustentável e podem ser achados facilmente.

 

 

 

 

 

 

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