Sinal vermelho para quem?

Sinal vermelho para quem?

O sinal mudou do amarelo para o vermelho, mas dois motoristas não pisaram no freio. Pelo contrário, aceleraram mesmo vendo o sinal gritando “PARE!”. A senhora ao lado da repórter do Contramão comentou: “Quanta falta de respeito!”.

Na  Rua Gonçalves Dias esquina com Bahia, durante um dos horários de maior pico de carros da cidade, foram flagrados 27 infrações de trânsito em apenas 20 minutos pela repórter do Contramão. Das 18:25 às 18:45, enquanto o sinal abriu e fechou 12 vezes, 8 carros e 1 moto avançaram o sinal vermelho, outros 18 carros bloquearam ou a faixa de pedestres ou o cruzamento.

Assista ao vídeo:

Parar na faixa de pedestres ou parar na área de cruzamento na mudança de semáforo, prejudicando, assim, a circulação de carros e pedestres consiste em infração média, perde-se quatro pontos na carteira, além de receber a multa de R$ 85,13. Enquanto que avançar o sinal vermelho é uma infração gravíssima, é abatido sete pontos na carteira e é gerado uma multa de R$ 191,54.

Atualmente, exitem 49 detectores de avanço em funcionamento nas 967 interseções semaforizadas de Belo Horizonte. Apesar dos poucos detectores, foram registrados nestes 48.555 motoristas furando o sinal no ano de 2014, segundo dados da BHTrans. Mas não há histórico para comparação, de acordo com a assessoria de imprensa da empresa.

Assim, como não existe histórico de infrações pelo banco de dados BHTrans, é um problema de todos os órgãos responsáveis pela falta de coleta e organização das informações. Segundo a assessoria de imprensa da  da Polícia Militar, o que há de disponível no banco de dados é um levantamento geral sobre acidentes causados por desrespeito à legislação, qualquer que seja esta, nada detalhado e somente os casos que foram registradas em boletins de ocorrência.

INFORMAÇÃO OU SUPOSIÇÃO?

“Embora não existam estatísticas oficiais, o sono ao volante pode ser uma das maiores causas de acidentes, comparada até as ocorrências provocadas por motoristas alcoolizados.” publicou o site da BHTrans em 2009. Como podem fazer afirmações sem dados comparativos? Como fazer e adereçar ações preventivas e educativas efetivas de trânsito quando não se tem nenhum tipo de informação robusta sobre a realidade dos acidentes?

Em entrevistas, autoridades afirmam categoricamente que as principais causas de acidentes são: imprudência, excesso de velocidade, ingestão de bebidas alcoólicas e desrespeito à sinalização. A falta de estudos aprofundados faz dessas informações, suposições.

Márcia Pontes, profissional da Segurança no Trânsito e Especializada em Planejamento e Gestão de Trânsito, pesquisadora do ensino e aprendizagem significativa e preventiva na formação de condutores, esclareceu a falta de informações pelos órgãos responsáveis em entrevista exclusiva para o Contramão:

Contramão: Existe algum banco de dados confiáveis para se obter informações sobre o trânsito brasileiro hoje?

Márcia Pontes: Existem bancos de dados confiáveis como aqueles administrados pelo DENATRAN, o DPVAT, PRF, DETRAN, PM, Sistema de Informação de Mortalidade, do SUS, e Portal Estatístico do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), mas utilizam critérios diferentes de coleta de dados que não são padronizados. Isso faz com que nem todas as informações de que a sociedade necessita estejam disponíveis e atualizadas.

Contramão: Como assim? A senhora pode ser mais específica?

Márcia Pontes: O DPVAT faz a estatística com base nos pagamentos de indenizações por morte, invalidez permanente ou despesas médicas. Quem não dá entrada no DPVAT fica de fora das estatísticas.

O Sistema de Informação de Mortalidade do SUS é um dos mais completos, mas os dados são divulgados com até 2 anos de atraso. Se baseia nas mortes em acidentes de trânsito registrada pelo atendimento no SUS.

A base de dados da PRF também é bastante completa, mas se refere só a acidentes nas rodovias federais.

Nem todos os municípios brasileiros são municipalizados, ou seja, não se integraram ao Sistema Nacional de Trânsito, de modo que não têm setores responsáveis pelas estatísticas e sequer fiscalização de trânsito.

O Denatran deveria reunir as informações estatísticas de todo o Brasil, mas as dificuldades de coleta e alimentação do banco de dados pelos demais órgãos de trânsito na esfera estadual e municipal ainda não foi possível. Por exemplo, o último anuário estatístico é de 2008 e já estamos em 2015, portanto, com 7 anos de atraso e o trânsito mudou muito de lá para cá. Os únicos dados atualizados são sobre a frota nacional. Com isto, a ideia de uma base nacional de registros de acidentes de trânsito e suas causas ficam seriamente prejudicadas.

Contramão: Qual é a necessidade de se ter dados detalhados sobre causas de acidentes?

Márcia Pontes: É fundamental, pois uma base atualizada de dados sobre acidentes de trânsito possibilita conhecer a realidade da acidentalidade e da segurança viária no país. Sem essas informações, não é possível intervir de forma planejada e pontual e a situação foge do controle.

Contramão: Qual é o maior problema causado pela precariedade de dados sobre causas de acidentes?

Márcia Pontes: O maior problema é este que se vê: não existe uma base de dados completa e atualizada sobre acidentes e estatísticas, apenas dados localizados e incompletos.Não se sabe hoje ao certo a quantidade de acidentes no Brasil: o DPVAT fala em cerca de 60 mil, o Ministério da Saúde fala em cerca de 40 mil. E como as estatísticas muitas vezes não são feitas ou atualizadas, acredita-se que este número possa ser muito maior e até o dobro. Não se sabe hoje, no Brasil, quantos condutores embriagados se envolveram em acidentes, quantos menores de 18 anos, quantos sem habilitação, quantos homens, quantas mulheres, quantos idosos, quantos por imperícia. Não se sabe a quantidade exata de infrações por tipo e uma série de outros dados que a sociedade precisa saber para orientar as ações de educação, fiscalização e engenharia.

Uma boa base de dados estatísticos para ser confiável precisa informar a quantidade de acidentes no país, por estados, regiões e municípios. Precisa informar o local, dia da semana, hora, pontos críticos, quantos condutores habilitados, quantos não habilitados, quantos maiores e menores de 18 anos, a faixa etária, o sexo, se o acidente indica imperícia, embriaguez ou qualquer outra causa. Com isto, é possível fazer estudos precisos e confiáveis sobre a acidentalidade, verificar as causas dos acidentes, buscar soluções de engenharia como correção do greide da pista, ângulo da curva, sinalização, iluminação, fazer a limpeza e o corte da vegetação que cobre as placas, pois muitos acidentes são provocados por alguma falha de engenharia que pode ser reparada.

Quando se tem estatísticas precisas e confiáveis, é possível identificar as causas dos acidentes, o perfil da população envolvida e com isto orientar as ações de educação para o trânsito, fiscalização e engenharia.

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No gráfico divulgado pela Associação Brasileira de Prevenção dos Acidentes de Trânsito mostra a falta de sincronia dos dados dos órgãos oficiais responsáveis em um levantamento pouco abrangente.

Foto, texto e vídeo: Camila Lopes Cordeiro
Edição do vídeo: Yuran Khan

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