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Por: Bruna Nunes

Entre a década de 1990 e o primeiro decênio dos anos 2000 as crianças foram bombardeadas de conteúdo infanto juvenil que eram exibidos em vários programas da televisão aberta como TV Globinho (Globo), Bom Dia e Cia (SBT), Band Kids (Bandeirantes), entre outras programações além das fitas cassetes e Dvd’s. Algumas franquias de filmes fizeram bastante sucesso entre a garotada, as produções que envolviam princesas e a famosa boneca Barbie se tornaram uma febre com direito a brinquedos superfaturados. 

Avaliando o sucesso dessas histórias, será que elas poderiam influenciar aqueles espectadores que agora se tornaram  jovens e adolescentes? Para isso, fizemos um questionário e estudamos a resposta dos participantes entre 12 e 25 anos. A intenção principal da enquete foi entender como essas pessoas se sentem hoje em relação ao conteúdo abordado nas tramas.

A história desses longas na maioria das vezes possuía o mesmo roteiro. A Disney explorava sempre o lado da boa moça ingênua e indefesa que passava por momentos turbulentos, encarnando a jornada do herói e indo de encontro ao príncipe que exercia o papel de salvador. Nos desenhos da Barbie a abordagem era um pouco diferente, a personagem também passava pelo processo de altos e baixos mas conseguia resolver os empecilhos por ela mesma sem a necessidade de um “salvador”, mesmo com um par no final.

Graças aos movimentos de empoderamento feminino e o conhecimento das bases do feminismo, vários participantes comentaram e criticaram a visão desse tipo de enredo que nutria o ideal da mulher ser o sexo frágil. Essa nova perspectiva ajudou a contestar o conceito do príncipe encantado (um cara legal, que sempre vai te salvar de qualquer problema), tirando a necessidade de depositar uma carga de responsabilidade em um par romântico.

Abordamos também o lema do “Felizes para sempre” e da identificação física com as protagonistas. Por se tratar de uma interpretação profunda e delicada das respostas, convidamos a psicóloga Maria Dalva Garcia para nos ajudar a entender as entrelinhas das respostas.

Por mais que 88,5% dos participantes não acreditassem no conceito de príncipe encantado, o que pode ser indício de maturidade, 80,8% acredita pelo menos em parte no ‘felizes para sempre’. De certa forma as pessoas estariam transferindo a responsabilidade do par as tornarem completas para o ato do relacionamento, ou seja, o relacionamento teria a carga de as tornarem felizes, o que também pode gerar frustração e desgaste emocional.

A frase “E viveram felizes para sempre” empregada em vários filmes da Disney incluindo algumas novas adaptações em live action, transporta uma grande carga emocional, isso porque a visão transmitida é que todos os relacionamentos serão longos, duradouros e perfeitos. Devemos nos atentar a realidade de que nem sempre teremos um bom relacionamento e precisamos estar abertos às possibilidades para evitar possíveis traumas vindo desse ideal.

Analisando o perfil físico das personagens das tramas, a grande maioria das protagonistas são brancas, de cabelos lisos e traços angelicais com medidas físicas surreais. O que não faz jus a diversidade de tipos de cabelo, pele e corpos que sempre estiveram presentes ao redor do mundo. 

O padrão de beleza imposto nas últimas décadas era muito cruel e quase irreal, vimos várias pessoas se submeterem ao uso de cintas e espartilhos para esconderem o corpo que tinham, além das inúmeras descolorações, progressivas e relaxamentos para obterem o cabelo perfeito. Com a popularização das cirurgias plásticas a preocupação se tornou mais real já que a mudança física está mais acessível.

O modo como se portavam e falavam, também era alvo de críticas. Perguntado aos nossos participantes se em algum momento quiseram se vestir ou ter cabelos e corpos igual ao das personagens 73,1% responderam que sim. Mas seria só admiração de criança querer se vestir dessa forma ou ser igual a eles ? 

Questionamos se eles tivessem a possibilidade de mudar algo em si para ficarem igual a suas personagens favoritas, se fariam e 57,7% sentem vontade de se modificam seja mudança estética, física ou comportamental. Segundo nossa psicóloga Maria Dalva para interpretarmos esses dados, precisamos levar em conta a pressão social sobre as pessoas dessa faixa etária que são mais susceptíveis às interferências culturais. 

De certa forma essas personagens aparecem como o padrão perfeito, sempre impecáveis, magras e “bem sucedidas”. Essa visão distorcida se não trabalhada pode desencadear uma série de gatilhos que levam a transtornos psicológicos como a depressão, bulimia, anorexia, automutilação, isolamento social, entre outros. “O papel do meio é muito importante! Família amigos etc. que faça com que essa pessoa se situe mas de forma positiva nesse mundo que está aí … exigente demais!”, explica Maria Dalva.

A última pergunta do questionário era se essas pessoas acreditavam que houve influência dos filmes ao longo dos anos na forma que eles pensam ou agem atualmente, e por mais que a maioria acredite que sim, as respostas oscilaram entre sim, não e talvez. O que abriu um questionamento se essa influência seria boa ou nociva e pelo ponto de vista psicológico “Se é bom ou nocivo? Depende do quanto a pessoa sabe dosar as coisas ou encontrar um ponto de equilíbrio, porque isso afeta a pessoa de forma global auto estima …adaptação no no mundo”, explicou a psicóloga.

A interferência dessas produções vão depender  das experiências que obtivemos ao longo do tempo, assim como nossos valores e ideais consolidados. Vale salientar que com o passar dos anos as companhias cinematográficas fizeram alterações em suas novas criações abrindo um leque maior para a diversidade e ideais atuais. 

Mas como é esse processo de transição? para entendermos um  pouco do lado da indústria, conversamos com o diretor de criação e desenvolvimento da agência SPARTA, Rangel Morais. Mesmo com a questão da diversidade sendo constantemente levantada, o consumo de brinquedos padrões ainda é alto.

Rangel nós explicou que além da cultura enraizada que temos, algumas empresas investem nessa perpetuação e não adotam medidas diferente por medo de retaliação do público alvo deles, porém na indústria do entretenimento infantil a questão já vem sendo trabalhada. O mesmo citou inclusive a estratégia da Mattel em criar versões diferentes da boneca Barbie e algumas apostas da Disney como Pocahontas e Mulan nos anos 90 e novas aposta como Valente e Moana na quebra de padrões. 

Nem sempre as companhias cinematográficas pensam na identificação da criança com o desenho, o medo de apostar em algo novo e revolucionário ainda pesa nas decisões. Para isso é importante que as indústrias apostem nas pesquisas de opinião para acompanhar as demandas atuais. Em algum momento houve um ponto crucial para a mudança,“Com a popularização da internet a partir dos anos 2000, a troca rápida de informações aproximou as pessoas e as marcas”, afirma Rangel . 

A esperança é que as crianças possam se identificar com seus personagens favoritos, que se sintam parte das histórias e se sintam bem com isso. Diferente das décadas anteriores, hoje podemos nos expressar e questionar as coisa abertamente.

 

 

 

*A matéria foi realizada sob a supervisão e edição de Italo Charles e da jornalista Daniela Reis

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A prática é realizada por muitos jovens e está relacionada à depressão

 O problema grave muitas vezes é ignorado pelas famílias 

*Por Ingrid Moreira de Oliveira 

“…E Clarisse está trancada no banheiro

E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete

Deitada no canto, seus tornozelos sangram

Quando ela se corta ela se esquece

Que é impossível ter da vida calma e força

Viver em dor, o que ninguém entende

Tentar ser forte a todo e cada amanhecer…

Como se toda essa dor fosse diferente, ou

E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito

Clarisse sabe que a loucura está presente

E sente a essência estranha do que é a morte

Mas esse vazio ela conhece muito bem

De quando em quando é um novo tratamento

Mas o mundo continua sempre o mesmo…”  Clarisse (Legião Urbana)

 

A depressão atinge cerca de 6% da população brasileira, isso significa que são mais de 12 milhões de doentes, média maior que a global, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) que é de 4,4%. Esses dados colocam o país como o primeiro do ranking da América Latina em número de diagnósticos e deixa um grande alerta já que os casos de suicídios e automutilação também têm crescido drasticamente.

Ainda de acordo com a OMS, o suicídio é a terceira principal causa externa de mortes entre os brasileiros, atrás apenas dos acidentes e agressões. No que diz respeito a automutilação, o Brasil não tem dados específicos, mas o que os estudos apontam é que essa prática está ligada à depressão.

Vamos falar sobre automutilação

As mulheres e jovens são as maiores vítimas desses casos, um exemplo que trouxe repercussão mundial  é o da cantora Demi Lovato que já chegou a se automutilar, tendo marcas pelo seu corpo, por problemas como a autoestima, bulimia, entre outros. Após se recuperar, Lovato fez tatuagens em seus dois pulsos com a frase “ Stay Strong”,  que significa “Permaneça Forte”, para esconder as marcas dos cortes.

Muitas pessoas não entendem o porquê das outras se automutilarem e as julgam, sem saber sua história e os problemas. Porém o problema é um distúrbio emocional e suas vítimas sofrem, na maioria das vezes, caladas e sem saber aonde e como procurar ajuda.

Apesar de não existir pesquisas recentes, um estudo realizado no ano de 2014, na Inglaterra revelam que a automutilação cresceu mais de 70%, em relação a 2012, entre crianças e adolescentes. Os dados mostram que os casos entre 10 e 14 anos tratados em hospitais, ultrapassou os 2.700 desde 2012. Já entre os adolescentes entre 15 a 19 anos, o aumento foi de 23% no mesmo período.

De acordo com a especialista em Terapia Cognitiva Comportamental e Educação Especial e Inclusiva com ênfase em neurociência e aprendizagem, Daisimar Sampaio, a automutilação parece ser mais uma tentativa de projetar no corpo as tensões que os adolescentes vivenciam. “A dor da existência passa a ser refletida no próprio corpo envolvendo uma agressão direta, sendo um comportamento intencional. Normalmente sem intenção suicida e aparentemente por razões não socialmente ou culturalmente compreendidas. O adolescente usa a automutilação como uma fonte de amenizar a dor emocional, como se fosse uma troca da dor emocional por uma dor física. Os cortes são feitos em segredos e escondidos. As marcas só aparecem no corpo quando feridas muito mais profundas são formas abertas na alma”, salienta.

A psicóloga explica ainda que o ato de se auto machucar não é feito para chamar atenção, pelo contrário, é uma maneira de desfocar o sofrimento emocional para uma dor física. “O adolescente por se sentir acuado, sem saber o que fazer com aquela situação, agride o próprio corpo, assim vêm um alívio da sensação ruim,  pensando que a dor física não é nada perto da dor emocional”, reforça.

Daisimar acrescenta que a automutilação é sempre um pedido de socorro. E alerta para que os pais estejam sempre atentos às mudanças de comportamento, ao uso de roupas de mangas compridas e ao isolamento.

Contaremos a história de uma jovem, de  20 anos, a quem chamaremos de Luna, pois ela prefere não se identificar. Para ela, a automutilação não ocorreu da noite para o dia. Luna lutou anos para enfrentar sua depressão, e, aos seis anos, já tinha pensamentos suicidas. Aos 10, as coisas começaram a sair do controle,  devido ao bullying sofrido na escola. Tudo começou entre os 14 e 15 anos, quando as chacotas ultrapassaram os muros da escola e se instalaram entre os familiares.

A psicóloga Daisimar, fala que as maiores causas e consequências para um adolescente poder se automutilar são a maturação da sexualidade, as relações parentais e sociais, o bullying e a depressão. As angústias próprias da idade podem levar à prática da automutilação. Muitas vezes sendo uma maneira de se expressar ou lidar com uma angústia esmagadora ou aliviar uma tensão insuportável; às vezes, pode ser uma mistura de ambos. A auto agressão também pode ser um grito de socorro.

A relação complicada com a mãe, o transtorno alimentar e a depressão foram o gatilho para automutilação de Luna. Ela lembra que se trancava no banheiro de sua casa e cometia os ferimentos com uma tesoura. A mutilação começou nos braços, e como não sentia dor, ela começou a se ferir cada vez mais forte, até chegar ao ponto de sangrar. Foram anos de muito sofrimento e solidão. Durante esse processo, ela perdeu a mãe, conheceu uma pessoa com quem se relacionou e terminou, culminando ainda mais tristeza e isolamento. Entre uma crise e outra, em 2018, Luna tentou o autoextermínio.

Luna relata que o tratamento dela foi muito tardio, mas começou um acompanhamento psicológico e psiquiátrico, que a medicou corretamente. Ela afirma que não teve o apoio de sua família e isso seria fundamental para todo o processo. “Todo mundo tem vergonha de se automutilar, não existe uma pessoa que se orgulhe em dizer que se automutila, se corta, provoca vômito. Automutilação é muito mais do que você se cortar, é bulimia, anorexia”, desabafa Luna.

A psicóloga explica ainda que os pais nunca devem brigar, bater, culpar ou julgar, ao perceberem os cortes ou tratar o ato como travessura, mas sim oferecer conforto e compreensão. “A família precisa entender que é um problema e que existe tratamento”, pontua.

Emocionada, Luna manda um recado para as pessoas que estão passando por isso:“Eu sei que você não vai acreditar no que eu vou dizer, mas você vai conseguir sair dessa. Não é vergonha nem fraqueza pedir ajuda. Peça, se eu consegui, você também vai conseguir.”

E para concluir, “Procure e ofereça ajuda. Procure profissionais da saúde. Psicólogos e psiquiatras saberão como conduzir o tratamento e oferecer ao adolescente as ferramentas emocionais para enfrentar os problemas da vida e da adolescência com maturidade, sem precisar praticar mais o cutting ou se auto agredir”, reforça Daisimar.

Projeto Borboleta para automutiladores:

O projeto Borboleta para automutiladores foi criado originalmente no ano de 2009 por praticantes de cutting (os automutiladores) que sentiam necessidade em parar, e consideravam-se prontos para enfrentar o desafio. Criado em uma corrente de blogs americanos e não demorou muito a alcançar a maior ferramenta de acesso a jovens sentimentais, intitulada como Tumblr.

Com isso a ideia basicamente é, convencer os jovens a não se automutilarem, pois, através do desenho de uma borboleta em seus pulsos, eles dão nome a ela, e sempre que a pessoa se cortar, ela acaba machucando a pessoa homenageada no desenho.

Fazendo desta forma, a pessoa se motivar através de outra (homenageada) a não se cortar para que não lhe cause nenhum mal. A ideia é relativamente simples, e pode ser mais um aliado na luta contra a prática de automutilação, já que a ideia é fazer com que a pessoa treine / desenvolva seu autocontrole.

As regras são:

1) Quando você sente que quer cortar ou se ferir, com uma caneta ou marcador, desenhe uma borboleta em seu braço ou mão (ou em qualquer outra parte do corpo onde você quer infligir dor / auto ferir);

2) Nomeie a borboleta com o nome de um ente querido ou alguém que realmente quer que você obtenha melhora;

3) Você deve deixar a borboleta desaparecer naturalmente. Não esfregue a parte desenhada, ou aplique produtos que possam remover o desenho;

4) Se você cortar a parte do corpo onde há a borboleta, medite que você a matou. Se você não cortar, ela continua viva e livre! (Lembre-se que esta borboleta representa alguém importante para você);

5) Se você tiver mais de uma borboleta, e se cortar (ou machucar de alguma forma) você matou a todas elas;

6) Outra pessoa pode desenhá-las em você. Estas borboletas são especiais; Cuide bem delas!

7) Se em algum momento você perder o controle, e se cortar, não desista. Recomece todo o programa.
8) Mesmo que você não se corte, sinta-se livre para desenhar uma borboleta para mostrar seu apoio a uma pessoa que pratica o cutting. Se você fizer isso, e nomeá-la, estará ajudando-a (o) a treinar o autocontrole.

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis