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Por Bianca Morais

Hoje, 19 de março, é dia de São José de Nazaré. Biblicamente falando ele é o esposo da Virgem Maria e pai adotivo de Jesus Cristo. Além desse título, São José ainda é tido como “Padroeiro dos Trabalhadores”, de acordo com a tradição cristã, ele era carpinteiro, praticava ofício de maneira artesanal, e por conta disso, divide sua data comemorativa com a linha de profissionais que o tem como protetor, 19 de março também é então Dia Mundial do Artesão.

Artesão é aquele indivíduo que pratica arte ou ofício que dependem de trabalhos manuais. São produtos feitos de formas únicas, por mãos de profissionais que depositam toda sua dedicação para produzir algo exclusivo.

Os produtos artesanais fogem daquela linha de produção em série das indústrias e são encontrados por todo o país, principalmente em feiras livres e eventos de exposições. Na capital mineira existe uma das maiores feiras de artesanato do país, que também é um dos principais pontos turísticos de Belo Horizonte, a Feira de Artesanato da Afonso Pena, popularmente conhecida como Feira Hippie.

Antes da pandemia, todos os domingos, a avenida, que é uma das mais movimentadas da capital mineira, se fechava para receber artesãos e visitantes. Por lá se encontrava de tudo, arranjos decorativos, móveis rústicos, cestos, tapetes, cortinas, calçados, bolsas, bijuterias, vestuário adulto e infantil, enxoval para bebês, brinquedos, pinturas, esculturas e muito mais, quase tudo feito a mão pelos expositores. Atualmente, a feira se encontra fechada para evitar aglomerações, mas muitos desses artesãos continuam a produzir e vender seus produtos de forma online, em sites, redes sociais e aplicativos. Um exemplo é o Fala Feira, um instagram criado exclusivamente para exposição e venda desses produtos na internet.

O artesanato é sem dúvida a profissão mais antiga do mundo e nesse dia não poderíamos deixar de homenageá-los. Hoje o Jornal Contramão conta a história de Maria Aparecida dos Santos Ferreira,também conhecida como dona Cida, uma das milhares de talentos da feira. Ela que cresceu com a feira e dela tirou o sustento para criar seus filhos. 

Cida, a artesã

Linha, agulha, tesoura, cola, arco, bico de pato, fitas dos mais diversos modelos, tamanhos e larguras, decoração à gosto. Esses são os materiais utilizados pela artesã Maria Aparecida dos Santos Ferreira, 68 anos, para produzir a mão seus artigos de cabelo para crianças e vendê-los na Feira de Artesanato da Afonso Pena. O material é este, agora a criatividade de inventar o que vai sair dali com intuito vender é um elemento a mais.

Maria Aparecida, está no ramo de artesanato há 40 anos. Começou seu trabalho como artesã por meio de uma oportunidade que teve de trabalhar com uma senhora, a Dona Carmem. Era Cida que colava as caixas, produzidas por Carmem, e trabalhava em cima delas dando seu toque especial e único para cada uma delas. Essas caixas se transformavam no final em lembrancinhas de casamento, aniversários de 15 anos, ou para qualquer finalidade que o cliente quisesse. 

Através de dona Carmen, Cida, teve a chance de aprender e confeccionar para si própria, foi então que conseguiu sua primeira licença na prefeitura e começou a trabalhar como feirante, na Praça da Liberdade. Na época, conseguir uma barraca era menos burocrático e demorado, diferente dos dias de hoje, que os trabalhadores manuais esperam meses e até anos para receberem a licença para expor seus produtos em feiras ao ar livre. Nesse período, não existiam concorrências, a feira era muito grande e tinha espaço a favor de todos. Na Praça da Liberdade, Cida trabalhou durante muitos anos, todas as quintas e domingos. Lá ela fez seu pé de meia e conquistou sua clientela.

Em 1991, a Feira Hippie, foi transferida da Praça da Liberdade para a Afonso Pena, onde se tornou a maior desse estilo a céu aberto da América Latina.

Um novo lugar, uma nova história 

Cida, com outros feirantes, lutaram muito com objetivo de continuar na Praça da Liberdade, afinal, ali já tinha um ponto fixo reconhecido por seus clientes. A artesã sabia que ao mudar de área precisaria começar de novo e foi exatamente isso que aconteceu.

O recomeço teve início com um sorteio, onde os vizinhos de barraca se perderam, os pontos das barracas foram redefinidos, a feira passou a ser dividida por setor, letra e fila. Maria Aparecida havia perdido seus clientes, ninguém encontrava ninguém, logo, ela precisou se reinventar.

A história recomeçou com o conselho de uma amiga, a Dona Hilda, que sugeriu a ela que aprendesse a fazer lacinhos de cabelos, pois os mesmos sempre foram acessórios obrigatórios nas meninas quando crianças. Dessa forma, a feirante entrou em um novo ramo, agora de arranjo e complemento e comercializava laços, tiaras, faixas, tic-tacs, clips e carequinhas.

Como todo recomeço foi preciso se organizar, planejar, plantar o novo, procurar clientes, tratá-los bem em prol de fidelizá-los. Sua rotina era puxada, chegava à feira todos os domingos às duas da madrugada e finalizava seu dia de comércio às três da tarde. Grande parte dos clientes vinham de fora, a maior parte das vendas eram pelo meio de atacado. A Afonso Pena recebia em média cem ônibus por final de semana, eram visitantes do mundo inteiro. Cida já enviou laços para os quatro cantos do Brasil, além de vender presencialmente para gringos e exportar seus adereços. 

É com muito orgulho que a artesã relata que em seus 40 anos de feira recebeu apenas um cheque sem fundo, que guarda até hoje. Numa época em que não existia máquina de cartão e os feirantes trabalhavam apenas com dinheiro e cheque. Ter tido apenas um prejuízo é muita sorte, garante ela orgulhosa.

Artesãos x China 

Após anos expondo sua arte, dona Cida, acredita que os artesãos de verdade, de linha, agulha e tesoura, perdem muito seu espaço para a China, que é grande produtora em larga escala de diversos tipos de produtos. 

“A China tomou conta da feira hippie, nem se fala que é feira hippie mais. Você vai em São Paulo, compra qualquer coisa a 50 centavos e vende aqui a 5 reais” desabafa.

A principal ferramenta do artesão são suas mãos e o diferencial é a criatividade. Muitas pessoas preferem pagar mais barato em algo industrializado e importado da China, desmerecendo o trabalho desses profissionais milenares, que passam seu ofício através de gerações. No entanto, ainda existem aqueles que entendem o quão especial é ter um produto único, feito a mão, produzido por alguém que saiu de sua casa, pegou ônibus, foi até o centro da cidade, comprou meio metro de fita e desenvolveu com todo cuidado cada detalhe da peça. O que vem da China é barato, mas o valor pago a um artesão pelo serviço, é resultado de muito esforço e carinho depositado em cada produto.  

Um artesão que dedica sua vida àquilo, enfrenta diversas dificuldades para estar ali todos os domingos e entregar suas peças. Tem o perigo de chegar tarde da noite e trabalhar no escuro, enfrentar as chuvas e o sol quente debaixo de uma barraca de lona, e tem também, a dificuldade financeira.

O padrão de consumo tem mudado bastante, ultimamente não são todos os consumidores que têm dinheiro para gastar em supérfluo e acabam por comprar apenas o necessário. No caso de dona Cida, se antes os clientes compravam seus adereços aos montes, hoje as vendas se resumem em uma ou duas peças para uma ocasião especial, onde os laços e apetrechos são considerados peças essenciais, como as datas comemorativas.

São muitas décadas de profissão e Maria Aparecida garante que é preciso gostar muito da profissão. É o prazer de trabalhar durante toda a semana e se encontrar aos domingos com os outros amigos feirantes a fim de vender. Ali tudo se cria e também se copia, e não existe problema nenhum nisso. Cida conta que um criava uma novidade e compartilhava com o vizinho de barraca e assim ela se espalhava. “Eu fazia um modelo, quando é na outra semana elas apareciam com um igual o meu, aí eu pegava o modelo delas e fazia a mesma coisa”.

A feira para Cida é uma segunda casa, é uma família que ela construiu, lá ela conversa, ela ri, chora, brinca. Alguns já se foram, como é o caso da dona Hilda, aquela que lhe ensinou a fazer os artigos de bebê, mas sua herança e seus ensinamentos sempre estarão presentes. Na feira é um por todos e todos por um. Se alguém está prestes a perder uma venda devido a não ter troco, todos se unem com o propósito de ajudar. Alguma pessoa não tem dinheiro para comprar material para produzir, eles se juntam e auxiliam.

Hoje existe uma saudade do que foram esses tempos. A feira, sem dúvidas, é um lugar de aglomeração, e era uma aglomeração boa, todos alegres, trabalhando e comprando, porém a realidade que vivemos atualmente não nos permite isso, infelizmente no momento presente aglomeração é sinônimo de medo. Vivemos em uma pandemia que já levou milhares de vida embora. A grande maioria dos feirantes são de idade avançada e não podem se expor.

Maria Aparecida relembra com carinho e emoção os velhos tempos, em muitos domingos durante a pandemia ela acordou cedo e chorou ao lembrar que não tinha mais feira. Toda vida, a senhora já de idade, gostou de ir trabalhar e acredita que a cada dia que passa se torna mais próximo a hora de entregar sua barraca.

A satisfação de ser uma artesã, dona Cida irá carregar para sempre. As memórias de seus parentes indo visitá-la em sua barraca e elogiar sua mercadoria, a sobrinha que por anos foi sua modelo favorita. Essas lembranças ela não entregará junto com a barraca, essa nem mesmo a pandemia poderá tirar, essas ela irá carregar para sempre consigo.

 

*Edição: Daniela Reis

Mostra traz mais uma chance para o público contemplar obras de mestres artesãos do estado. A Exposição Coleção Sesc Mestre de Minas – Dia do Artesão apresenta trabalhos de artistas populares em um dos mais representativos acervos da arte popular mineira. A galeria, que é comemorativa ao Dia do Artesão (19/3), poderá ser visitada, gratuitamente, na Sala de Exposições Temporárias do Centro de  Arte Popular – Cemig.

Na seleção de trabalhos figuram obras expressivas, realizadas por expoentes do artesanato mineiro, representantes de diversas regiões do estado, como Dona Izabel, Noemisa Batista, Geralda Batista, Joana Batista, Ulisses Pereira Chaves, Zefa, Geraldo Teles de Oliveira (GTO), Ana do Baú, Rosana, Jacinta Francisca, Margarida, Clemência e Dida.

Geralda Batista  Boneca-Cerâmica
Geralda Batista
Boneca-Cerâmica

A exposição mostra os artistas divididos por cidade, dispostos de forma a reforçar elementos visuais e textuais que evidenciam os valores, a diversidade e a qualidade da cultura no estado.

Para Jorge Cabrera Gómez, gerente de Cultura do Sesc MG, em todo o estado, são muitos os mestres e os representantes dessa arte feita por autodidatas, que já foi fonte inspiradora de grandes artistas brasileiros, tais como Tarsila do Amaral, Guinard, Guimarães Rosa, Villa-Lobos, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Para o auditor João Guilherme, de 24 anos, as artes são diferentes. “As formas de arte são bem contrastantes uma das outras. As obras de Divinópolis do GTO são totalmente diferentes das do Caraí, que são totalmente diferentes das de Acaçuaí. Então acho que a diversidade, ela é gigantesca. Temos um país inteiro aqui, em arte”, destaca o visitante.

Visitação:

De hoje, 27/03 a 10/5.

Horário: Terça, Quarta e Sexta-feira – das 10h às 19h

Quinta-feira – das 12h às 21h

Sábado e domingo – das 12h às 19h

Texto: Victor Barboza

Imagens: Divulgação

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Em meio à correria do dia a dia, várias pessoas passam pela Rua da Bahia, e não percebem a presença do artesão capixaba Larilson Jesus, 40, o Jesus, como é conhecido na região. Os brincos, colares e correntes são produzidos a partir de fio de ouro e materiais como penas e sementes. Ele chega a produzir 80 pares de brincos por dia e tudo é vendido.

Jesus está em BH há dois anos em BH e é fácil identificá-lo, pois ele tem tatuado na testa uma coroa de espinhos. A cruz que Jesus carrega todos os dias é a fiscalização da Prefeitura Municipal, que costuma apreender todo o material produzido e, até mesmo, a matéria-prima. Jesus não tem licença da Prefeitura por preferir não ter local de trabalho fixo. “Hoje estou aqui, mas amanha não sei, posso estar em outro lugar, em outro estado”, salienta.

Apesar de tudo Larilson garante que tem uma vida tranqüila com o seu trabalho. “Dá para viver do jeito que eu gosto, não preciso de luxo. Com os meus artesanatos consigo pagar o aluguel, a pensão a minha filha e, ainda, cuidar dos meus dois cachorros”, afirma. “Se tiver um trabalho você não se perde, tem que ganhar o sustento com o próprio suor”, ensina.

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Jesus, artesão da Rua da Bahia

O Jesus da Rua da Bahia não tem conhecimentos provenientes do estudo, só cursou até a sexta série, o resto foi com a vida e com as às diversas viagens que ele fez. “Já estive no Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo. Acredito que aprendi muito mais com as minhas viagens do que se estivesse em uma escola, pois conheci diversas culturas”, revela. “Escolhi Minas Gerais porque as pessoas aqui valorizam a cultura”, explica.

Há outra razão que motivou o artesão Jesus a ficar em Minas Gerais: a filha que mora em Ribeirão das Neves. “Quero que minha filha, tenha o melhor, tenha o que eu não tive”, conclui.

Por Anelisa Ribeiro/Bárbara de Andrade

Fotos: Andressa Silva