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Artigo de opinião

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Por Luiza Vinte e Matheus Velleda

O High End da moda, mais conhecido como alto luxo e as práticas da  sustentabilidade sempre tiveram conotações contra-intuitivas, já que o luxo por muito tempo refletiu o excesso, hedonismo e ostentação, enquanto a sustentabilidade sempre teve fortes mensagens de reestruturação do consumo desenfreado. Entretanto, a sustentabilidade e o luxo carregam valores parecidos, como respeito pela matéria-prima de qualidade, uma mão de obra qualificada, respeitada, o que nos fazem acreditar que há a possibilidade dessa vertente coexistir dentro do mercado de moda e de luxo.

A indústria do luxo em sua primariedade não foi associada junto às questões ambientais e às mudanças climáticas, porém com todas mudanças sociais obtidas nos últimos anos, o luxo passou a evocar um significado diferente em seu conceito, tais conceitos de qualidade, feitos à mão e atemporalidade são intrinsecamente sustentáveis. Além disso com o crescimento do poder aquisitivo entre a gerações mais novas, que tem pensamentos muito mais sustentáveis e eco-friendly que as gerações anteriores, é preciso que as marcas se adaptem e comuniquem com essa nova demanda que cada vez mais se concretiza, não como tendência mas sim uma forma de garantir um futuro justo para as futuras gerações.

Seguindo a linha do raciocínio do mercado de luxo e o crescimento de tendências sustentáveis, listamos algumas tendências que ganharam ao longo das últimas semanas espaços e interpretações dentro das grandes marcas de moda e luxo.

Patchwork

O patchwork, técnica milenar de juntar retalhos de tecidos já era usado no século 9 a.C no Egito antigo como uma forma de reutilizar sobras de tecido e prolongar a vida útil de uma peça, já na idade média o seu uso foi para criar peças que iam por baixos das armaduras para proteger a pele das armaduras, a técnica se espalhou por toda a Europa.

Mas só foi no fim da década de 1960 que a técnica foi  de fato introduzida à moda, graças à forte influência da cultura hippie e a valorização crescente das habilidades e do trabalho manual, que são necessários para produzir patchwork. Neste período o surgimento do artesanato tradicional  se tornou uma alternativa à moda dominante, e como a técnica do patchwork é barata e fácil de se fazer, era uma ótima maneira de adicionar individualidade a uma roupa.

Nos dias de hoje, com o agravamento da pandemia e as formas de repensar moda e consumo, a tendência nostálgica aos anos 60,  traz consigo a ideia de que nada é jogado fora, mas sim reaproveitado. Desde o inverno de 2020 a tendência do remendos, vem ganhando presença nas passarelas e assumindo muitas interpretações, como a Marni que exibiu  um sneaker feito de aproveitamentos, Alexander Wang apresentou um terno abstrato em patchwork, o crescente pensamento de conscientização e reaproveitamento foi até uma das principais tendências abordadas no desfile primavera/verão de 2021 da Dolce e Gabbana, abordou o maximalismo do patchwork, fazendo referência a ilha de Sicìlia na Itália, onde diferentes culturas se encontraram, como os espanhóis e os árabes.

Dolce e Gabbana desfile primavera/verão 2021
Tênis da Marni

 

Tecnologia

Couro que costuma a ser sinônimo de luxo, passou a ser questionado com a medida que o veganismo se torna cada vez mais popular e debatido em todo o mundo. Por muitos anos alternativas como o “couro ecológico” eram facilmente anunciadas como veganas e sustentáveis, mas na realidade o couro de poliuretano (PU) ou policloreto de vinil (PVC) são tão ruins e maléficos ao planeta, muitas vezes piores que o couro animal. 

Com a evolução da tecnologia e avanço em pesquisas de têxteis, alternativas começam a surgir para o mercado/consumidores empenhados em consumir produtos sustentáveis. Um exemplo de como a tecnologia vem se tornando uma aliada do mercado sustentável, foi apresentado esse ano pela marca francesa Hermès, que em parceria a startup de ciência de materiais, a Mycoworks, um material similar ao couro, porém feito de cogumelos. Até o final deste ano um dos modelos de bolsa mais famosos da marca, o “Victoria”  passará a ser confeccionado com esse material.

Sylvania, nome dado ao material, foi resultado de uma colaboração de três anos entre a MycoWorks e a Hermès. Com esse lançamento Hermès se junta a outras grandes marcas de moda e luxo no percurso para encontrar alternativas viáveis e não plásticas ao couro animal, devido às crescentes preocupações ambientais. 

Ano passado grandes marcas como Stella Mccartney, Kering e Adidas também anunciaram que estavam investindo em outra alternativa à base de micélio (parte vegetativa de um fungo) chamada Mylo. Para uma marca tão tradicional como a Hermès, lançar um produto como esse foi surpreendente, já que a marca é conhecida mundialmente pelas suas bolsas, que são consideradas um dos produtos de luxo mais procurados em todo o mundo.  Se sua influência conseguir tornar o couro de cogumelo algo cobiçado, seria uma grande vitória para o meio ambiente. Iniciativas como essas são exemplos de atitudes que podem gerar bons frutos para um consumo mais sustentável e a esperança é que, se bem sucedida, a ideia inspire o resto da indústria de luxo para alternativas mais ecológicas.

Bolsa da Hermès

 

Upcycling

Em junho do ano passado, quando as fábricas da Chanel reabriram, Virgine Viard, diretora criativa da marca francesa, montou uma coleção de resort usando botões e fios que sobraram da última coleção, o que parece soar algo bobo é na verdade uma inovação dentro da marca. Já a Prada, lançou um ano anterior o Re-Nylon, uma coleção composta inteiramente por um nylon regenerado, criado através de um processo de reciclagem e purificação de plástico coletado dos oceanos, redes de pesca, aterros e resíduos de fibra têxtil em todo o mundo.

A prática nomeada de upcycling se consolidou até na alta costura. Em janeiro deste ano, os designers holandeses Viktor e Rolf lançaram a sua coleção nomeada de “Haute Fantaisie”, que revitalizou vestidos, tecidos e materiais reaproveitados de anos anteriores, a coleção que foi descrita como uma “rave de alta costura”, proteja uma energia positiva, desafia ideias do que alta costura pode ser.

Upcycling, como descrito nos exemplos anteriores, é o processo de criação de novos itens a partir de materiais já existentes, duplicando o ciclo de vida das peças, e de um ponto de vista criativo, cria uma nova perspectiva estética e de informações ao produto, tornando-o único. O objetivo dessa tendência que está se tornando mainstream é fazer com que o consumidor e o mercado percebam as consequência de uma produção irresponsável e sem consciência. Além de tudo ainda é uma ótima iniciativa para momentos de incerteza econômica, já que a sua produção é feita com peças antigas, descartando então a necessidade de compra de mais matéria prima.

Viktor e Rolf – primavera 2021

 

Não é nenhuma novidade que a pandemia, nos obrigou parar e repensarmos toda a nossa realidade. A sociedade se isolou, sem saber ao certo quando tudo ia passar, e se de fato vai passar, diversas empresas, sejam grandes ou pequenas, enfrentaram e ainda enfrentam grandes desafios. A garantia de um futuro se tornou incerto para nós e para o planeta. Com o levantamento de pautas como a ameaça à sobrevivência humana, a constante degradação dos recursos naturais, a exploração de animais, o abuso ambiental e o aquecimento da temperatura devido à emissão de gases poluentes tornaram a questão ambiental um assunto urgente e necessário. Os consumidores, que cada vez mais se demonstram abertos a discutir tais pautas, e se tornam cada dia mais preocupados com os impactos ambientais e sociais da indústria da moda,  por sua vez decidem apoiar marcas que promovam a  transformação do setor em uma indústria ecologicamente e socialmente responsável. 

E com essa crescente preocupação em processos e cadeias produtivas responsáveis, ideias de reaproveitamento, adesão de uma tecnologia limpa e ecologia são bastantes interessantes. A esperança é que essas inovações veganas, lideradas pelas grandes marcas cheguem no mainstream e possam ser cada vez mais debatidos. 

Um ponto que chama atenção, são as contradições entre discurso e prática da cadeia de moda, resta saber se as marcas de fato se preocupam com uma mudança limpa e responsável ou se é apenas uma estratégia  de marketing para se manterem relevantes no mercado. É importante que as marcas e as pessoas entendam que a sustentabilidade vai muito além de um couro produzido de cogumelos ou a utilização eventual de retalhos. Para entender a sustentabilidade na moda é importante que olhemos para todos os bastidores de uma marca, seja a origem, os processos químicos dado ao tecido, processo de produção, quem costura, quem e como se distribui. 

Uma roupa sustentável não pode ser produzida em larga escala, não há como padronizar, por exemplo, uma peça feita de patchwork já que a ideia da técnica é utilização de retalhos, e não um mix de texturas, tecidos e estampas. Roupas sustentáveis tem uma produção individual, dentro do seu tempo, se preocupando com os impactos ambientais e sociais. As marcas de luxo andam por um campo minado, por muitos anos as grandes marcas de luxo foram responsáveis por ditar tendências e comandar o mercado, agora sob uma nova pressão de um consumidor mais rigorosos, e com a estrondosa força das redes sociais, se tornou fácil para que todos os consumidores ao redor do mundo se juntem e possam de fato cobrar atitudes ecológicas, transparentes, honestas e responsáveis das marcas.

 

 

Edição: Keven Souza

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Em comemoração ao Dia do Estagiário, o Contramão traz hoje, um artigo de opinião que simplifica o estágio como um processo enriquecedor e que, consequentemente, tem capacitado os estudantes a serem profissionais do futuro. O texto foi escrito pelo estudante de Jornalismo e nosso estagiário aqui no jornal, Keven Souza.

Confira! 

Processo que salienta o profissional do futuro

Por Keven Souza

Almejar um futuro que contenha êxito profissional, é um sonho de inúmeras pessoas que acreditam na educação como instrumento transformador de realidades. Tudo começa com a difícil decisão de qual curso ingressar e em que área atuar como profissionais realizados e felizes, dilema de quem busca, incansavelmente, o sucesso. 

Desde o início são oferecidos inúmeros conhecimentos, as disciplinas se iniciam interligadas a outros cursos, os meses vão se fluir e a sensação de estar preparado para adentrar no mercado é aguçada a cada semestre concluído. Para além das habilidades fomentadas em sala, nós graduandos, temos necessidade de estimular a relação ensino-aprendizagem com o treinamento prático em situação real, o objetivo é aperfeiçoar o acadêmico em sua totalidade. 

Através dos semestres, o momento de pensar em um estágio não obrigatório se aproxima, aquele momento ímpar pro currículo, que vai enriquecer a jornada dentro e fora do curso. Talvez estar em uma graduação aos dezenove anos é viver uma dicotomia entre ser jovem demais para absorver tantas técnicas, e formar aos vinte e dois para iniciar o quanto antes no mercado de trabalho. Em muitos momentos a insegurança de não ser bom o suficiente e o medo de não absorver na íntegra os conteúdos, são sentimentos constantes. É normal, afinal, ao ingressar na faculdade, tudo é novo e pouco se sabe. 

De modo geral, uma das maneiras de dizimar as inseguras e o medo ao longo do curso é atuar como estagiário, uma etapa importante para aprendermos e nos desenvolver enquanto profissionais em processo de crescimento. São a partir dos ambientes corporativos que pautam pela inclusão, prezam pela diversidade e fomentam a experiência, que se constrói habilidades para além do currículo. Hoje, ser um profissional vai muito além de exercer um cargo, é preciso ser capacitado, indivíduos comprometidos e multifacetados que operam em diferentes âmbitos ocupacionais. 

No entanto, o cenário quase nunca é positivo, um levantamento realizado pela consultoria IDados, diz que no Brasil 40% dos jovens com ensino superior não tinham emprego qualificado até o primeiro semestre de 2020. Um quadro que intimida e informa que inúmeros profissionais formados ocupavam lugares que não exigiam curso superior e que como resultado não exerciam a sua profissão. À vista disso, digo que os alunos carecem de espaços que propiciem oportunidades de alavancar o currículo ainda na graduação, um processo que oferte uma maneira de conectá-los com a profissão e demasiar, com maior sucesso, sua atuação em suas respectivas áreas após a formação.

Estagiar, em suma, solidifica os momentos reais e diversificados dentro da academia é um período que beneficia o crescimento intelectual e a construção de uma carreira profissional brilhante. A prática e a dedicação, adquiridas ao longo desse processo, podem agregar valores e conhecimentos cruciais para cultivar a capacidade de ir de fato ao encontro do mercado de trabalho com diferentes técnicas, habilidades e qualificação necessária. 

Em um panorama positivo, anseio que as empresas, instituições e universidades sejam lugares disruptivos e indispensáveis aos alunos, que possam incentivar e reconhecer a força e a vontade de um aprendiz. A fim de que o mercado de trabalho, que exige capacitação em totalidade máxima dos profissionais, coloque em xeque as oportunidades que concedem aos estagiários. Será que propiciam novos saberes? Será que fomentam um ambiente experimental? São muitas perguntas que deverão ser questionadas para que o estágio continue a abrir novos horizontes aos graduandos e de fato se tornar um processo corriqueiro e imprescindível que, consequentemente, molda o profissional do futuro.

Comas Brasil no desfile Eco Fashion Week

Como um dos pilares da instituição, os projetos de extensão tem como princípio construir uma visão aberta e plural nos alunos, capaz de estimular o contato de ambos com a profissão ainda na graduação. Uma maneira que enriquece os conhecimentos acadêmicos e salienta o dinamismo profissional em diversas áreas de atuação. 

E hoje, o Contramão traz um artigo de opinião construído por meio do projeto de extensão Jornalismo de Moda, liderado pela professora Gabriela Ordones, que tinha como propósito fomentar o senso crítico e a escrita jornalística dos alunos dos cursos de Design, Comunicação e Moda. 

por Helena Coutinho

“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, como bem expressou Lavoisier. Esse é o precedente de um dos movimentos de mercado mais fortes da atualidade, que ressignifica o descarte e o transforma em novo, apontando uma direção importante para a segunda indústria mais poluente do mundo, a da moda. 

Há relativamente pouco tempo, o mercado tem caminhado em um mesmo sentido: o da sustentabilidade. Tal movimentação, já mostrava sua previsibilidade em diversos veículos de tendência, visto que, há muito, já vínhamos percebendo que a escala na qual produzimos é insustentável para o nosso planeta e esse não é um reflexo a longo prazo. Para as marcas, o que antes era uma escolha e um diferencial é agora uma obrigação e uma exigência crescente dos consumidores, principalmente no que diz respeito às novas gerações. Vemos hoje a assinatura de tudo isso em colabs eco-friendly, técnicas de Upcycling e linhas de produção mais transparentes e atentas aos seus reais impactos.

Mas, cá entre nós, o consumidor de luxo e de grandes marcas, no geral, não dispõe de muita atenção no que diz respeito à temática da sustentabilidade, apesar disso, nitidamente, veio se fortalecer a cada dia. Uma das fortes ondas do momento são as técnicas de otimização de recursos e a reestruturação de materiais que seriam descartados. Uma das mais vistas recentemente é o Patchwork.

A técnica não é novidade: desde o Egito Antigo já deixou suas pegadas e, na moda, marcas como Vivienne Westwood e Versace foram algumas das pioneiras. Porém, o discurso do Patchwork aliado à sustentabilidade é relativamente fresco e quase que simbiótico. Contudo, em um momento onde a narrativa de empatia com o nosso planeta é crescente, marcas que ousam experimentar técnicas de Upcycling e reaproveitamento devem se atentar, também, ao seu discurso e analisar, diante de um mercado cada vez mais atento, se o seu propósito enquanto marca converge ou não com os princípios que precisam nortear uma coleção ecologicamente segura.

É notável que o movimento efetivo relacionado à sustentabilidade na moda, teve seu ápice nos brechós, bazares e com pequenos artesãos que, com um talento impecável, transformavam o que antes era considerado lixo em peças comercializáveis e exclusivas. Feliz ou infelizmente, grandes corporações, ao perceberem a crescente valorização mercadológica desse tipo de produto, viram-se diante de uma grande oportunidade: vender mais, com um discurso que até então ia na contramão das suas crenças e da sua linha de produção. É aí que a discussão ganha novos rumos.

A pandemia impactou a escassez de matérias-primas de todo e qualquer setor, inclusive o da moda. Gigantes da indústria fashion deram de cara com a incerteza, investimentos perdidos e uma estrada nebulosa diante do que viria pela frente. Ao mesmo tempo, pessoas que estavam em casa, esgotadas pelas exigências do isolamento social, começaram a utilizar como forma de escape a arte e a criação. O famoso “inventar moda” deixou de ser apenas um termo e ocupou um lugar importante no cotidiano das pessoas, principalmente no TikTok, onde ficou famosa a reformulação de peças já existentes no guarda-roupa. E essa foi a estratégia também adotada pelas marcas, agora obrigadas a utilizar dos seus recursos em meio à escassez, vendo-se impelidas a aproveitar o seu estoque que, há pouco, era integralmente carbonizado. 

Dolce & Gabbana, marcada pelas suas polêmicas contraditória se ética questionável, foi uma das gigantes a adotar o reaproveitamento, estratégia carimbada na sua coleção de verão 2021 ready-to-wear, executada a partir da mescla de diferentes retalhos que, juntos, se transformaram em uma explosão de cores e peças bastante atraentes ao olhar. Por um lado, nossos olhos brilham por saber que a adesão de grandes marcas a temas e propostas mercadológicos do tipo é um passo enorme para a expansão destes. Porém, reconhecendo o aspecto pendular da moda, sabemos que toda tendência tem data de validade. E o reaproveitamento de retalhos, pode ser uma delas.

Dolce Gabbana no desfile primavera/verão 2021

O poder do capitalismo é ainda maior do que parece e o mercado da moda anda ao lado dele. Um dos impactos disso é o greenwashing, que, segundo o Politize, é uma prática que promove discursos ambientalmente responsáveis, o que, na prática, não ocorre. É então, bastante coerente questionar se o imperialismo das grandes marcas usa do seu poder com verdade e propósito ou apenas como o “branding ideal” para vender cada vez mais.

A relação de poder no mercado da moda é o maior patrocinador dos seus impactos, sendo urgente que nós, como consumidores, consigamos enxergar isso. Grandes redes de fast-fashion já foram responsáveis por criar peças com design sustentável que, no entanto, utilizavam tecidos novos, produzidos especialmente para aqueles modelos. Para onde vai o discurso da sustentabilidade? Ecologia está na moda, mas será essa uma nova postura ou mais uma das brisas do mercado que passam adiante com a chegada do novo?

Historicamente, conhecemos os inúmeros dos grandes artistas que se perderam ao baterem de frente com a fama descomunal. Halston, Amy Winehouse, Michael Jackson, todos engolidos pelos holofotes que idealizavam seres humanos. Com esse final, já estamos familiarizados, mas o que a indústria como um todo nos mostra são grandes empresas que se perdem diante da escuridão da sua efervescência, esquecendo-se de que arte e equilíbrio socioambiental podem e devem ser inseparáveis. O mercado muda, os discursos mudam, o público muda. Mas será que o mundo vai se manter o mesmo? Diante disso, nos cabe questionar: será que “fazer o que se vende” é mesmo a melhor escolha?

 

 

Edição: Keven Souza

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Por Keven Souza

Nas redes sociais é quase improvável você rolar o feed do Instagram ou visualizar os vídeos do Tik Tok sem ao menos perceber que tanto as mulheres, quanto os homens estão usando a nova tendência do momento. A nail art é uma técnica que prioriza pintar as unhas de forma elaborada e criativa, e que podemos encontrá-la desde os salões de beleza no gueto ou até mesmo nos espaços da alta sociedade. A moda, que é queridinha de muitas pessoas, alcançou seu pico de sucesso na era digital e veio com o objetivo de apostar em unhas divertidas que possam ser usadas para agregar valor ao look. 

No Met Gala de 2019, evento tradicional que reúne diversos famosos internacionais, a nail art foi consagrada e apresentada ao mundo como uma nova tendência do universo masculino, e naquela noite, concedeu holofotes no red carpet a diversas celebridades. O ex- One Direction, Harry Styles, foi um dos anfitriões do evento que se tornou o assunto mais comentado entre as revistas de moda pelo sucesso das unhas pintadas em preto e verde. Entretanto, não darei o prazer, novamente, aos homens héteros de levarem os créditos de serem pioneiros em uma prática que não é de hoje que existe.

O ego masculino faz com que, até hoje, os homens sejam como uma “estrela” inapagável do centro da sociedade, com o reflexo hipócrita de que mesmo com a evolução de debates sobre apropriação cultural, identidade de gênero e igualdade social, a liberdade de se expressar sem ao menos serem julgados é um privilégio restrito somente à eles. 

Talvez seja doloroso aceitar que quando um homem branco e heteronormativo, se apropria de algo, seja uma tendência ou uma causa social, logo em seguida ela se torna relevante e é pautada em diversos veículos de comunicação. 

E, por incrível que pareça, a moda vai muito além do que dispor de uma tendência, é por si só um sistema que acompanha o comportamento humano e que ao longo do tempo desempenha um papel imprescindível na vida das pessoas. É em torno dela que as roupas e as tendências carregam significados sociais, econômicos e culturais, que nos dizem quem somos e de onde viemos, sendo significativa no que se refere a nos comunicarmos, e a nos expressarmos mediante ao que usamos.  

Para nós da comunidade lgbtqia +, usar esmalte não é só mais uma tendência passageira que grandes celebridades usam e usufrui quando querem. É uma vivência, uma prática cotidiana que faz parte da construção da identidade de diversas pessoas e que existe muito antes da nail art chegar ao red carpet como um momento estético e eufórico.  

Um dos exemplos de que pintar as unhas não é uma pauta atual, temos o ator, cantor e supermodelo, RuPaul Andre Charles, que desde os anos 90 nos EUA comanda o seu programa “RuPaul ‘s Drag Race” montada de drag queen com roupas, cabelos e unhas do universo feminino. 

Na comunidade, ele é celebrado como um ícone da arte drag que atua no audiovisual (televisão) sendo homem, gay, e afeminado, que não se compara com o Harry Styles, Bad Bunny ou Zac Efron que se apropriam de uma estética efêmera para estarem em alta na sociedade. RuPaul é a prova de que há muito tempo a nail art existe, e que os LGBTs afeminados lutam para fazerem parte do palco principal e se expressarem como seres humanos livres de rótulos, mas que em suma são ofuscados e esquecidos pela mídia. 

No Brasil, a realidade é pior, celebridades como Gui Araujo, Leo Picon e Lucas Jagger, são alguns dos homens que na maior parte das vezes fazem sucesso nas redes sociais exibindo as unhas coloridas e divertidas, aplaudidos pelo uso da técnica e aceitos por um grande número de  pessoas.

Eu diria que as transexuais e as travestis que pintam as unhas, fazem o cabelo e assumem a sua identidade, não têm a mesma sorte, já que ultrapassam até mesmo os gays em números de mortes violentas no Brasil. Esse dado é do Relatório Anual de Mortes Violentas de LGBT no país, realizado pelo o Grupo Gay da Bahia (GGB), que nos diz que só no ano de 2020, 161 travestis e trans foram vítimas da transfobia e 237 pessoas da comunidade morreram de forma violenta por serem quem são.

O cenário é super cruel e me faz pensar, o que falta para sermos considerados pautas relevantes, e sobretudo, o quanto os holofotes permanecem voltados somente aos homens héteros com estereótipo padrão. Até quando iremos aceitar que, o que os homens heteronormativos fazem é normal, bonito e relevante, e o que produzimos não é plausível suficiente ao ponto de sermos lembrados de um movimento na qual fazemos parte há décadas? Até onde é possível romantizar o ato de usar esmalte em aspecto divertido e bonito, para alguns e para outros que exercem a prática como parte da sua identidade, o resultado ser a morte? 

 

Edição: Daniela Reis 

Hoje o Contramão traz o artigo opinativo da nossa ex-estagiária de jornalismo, Joyce Oliveira. Ela que conclui sua graduação ainda esse semestre e atua como social média e produtora de conteúdo.

A mudança das redes sociais

Por Joyce Oliveira

Em 2020, o mundo se deparou com uma realidade completamente atípica. A chegada da Covid-19 forçou a sociedade a mudar sua rotina e as formas de relacionamento. Isso, obviamente, influenciou na maneira como as pessoas utilizam as redes sociais. A distância física fez com que os indivíduos procurassem se conectar ainda mais virtualmente, a ponto de comerciantes, empreendedores e empresários buscarem, no ambiente on-line, uma maneira de se reinventar. Todo esse ciclo tem transformado os padrões de consumo na internet e a presença das pessoas nas redes sociais.

Essa necessidade de conexão tem explicação na psicologia. De acordo com tal campo de estudo, as pessoas precisam se conectar umas às outras para manter qualidade de vida e boa saúde mental. Portanto, estar presente nas redes, em um momento de distanciamento físico, tornou-se a forma mais fácil de manter as relações e, também, de aliviar um pouco da saudade e da solidão.

Esse movimento acelerou ou adiantou mudanças nos padrões de uso e consumo da sociedade. O marketing digital e as estratégias de mídia mostraram, às pessoas, que a enorme necessidade de conexão com o outro acabou se tornando algo rentável– e até as empresas começaram a buscar humanização.

Por falar em negócios, até as próprias redes sociais iniciaram uma corrida sobre quem alcançaria mais pessoas e quais atualizações poderiam fazer para que o público ficasse cada vez mais “preso”. Só no último ano, o TikTok ganhou mais de 600 milhões de novos usuários, o Instagram aderiu a mudanças na plataforma– incluindo “Reel” e “Instagram Shop” – e muitas outras alterações no algoritmo. O que nos leva a pensar que são estratégias para tornar o público cada dia mais dependente das plataformas, além de mostrar que elas podem ser extremamente versáteis, tanto para posts pessoais, quanto para compra e venda de produtos e serviços, criando a sensação de uma realidade paralela, na qual é possível encontrar tudo em um só lugar.

A cada dia, está mais claro que toda essa transformação causada pela pandemia, mundo afora, não é uma coisa temporária. Na verdade, há novos padrões que, provavelmente, sofrerão mudanças e avanços, mas farão parte de nossa rotina, ou, como costumamos chamar, nosso “novo normal”. Cabe a nós aprender e nos adaptar a esse turbilhão de informações, que, agora, mais do que nunca, circula por todas as redes sociais. Precisamos, também, entender se estamos preparados para acompanhar tudo. Mas, isso é assunto para outra conversa.

 

 

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Por Igor Tiago Ribeiro

Você já se perguntou hoje quem está mais exposto a este tiroteio que é a pandemia de covid-19? Conheço quem tenha a coragem de dizer “eu”, ou “todos nós”. Mas, infelizmente, os dados provam que essa não é uma verdade absoluta. A periferia tem sofrido cada vez mais porque o mal que a acomete não é somente a pandemia de covid-19, a distância dos centros de saúde, a falta de acesso ao saneamento básico, a quantidade de pessoas que moram na mesma casa, mas também a falta de acesso à educação, o aumento da presença messiânica da igreja nas comunidades e o quanto isso, infelizmente, a aproxima do discurso negacionista escancarado no mais alto escalão da política brasileira.

Pode soar conspiracionista demais que estes fatores se somem aos péssimos que já existem e resultem em uma chacina da população menos favorecida de um país, mas onde já vimos estes fatores acontecer, a história posterior fez questão de mostrar que nunca é somente só o fato, mas, sim, tudo o que está por trás dele. E eu, como jornalista, seria um irresponsável se não estivesse atrás da origem do fato de o Brasil ter ultrapassado mais de 300 mil mortes por covid-19, e elas estarem, em maioria, na população mais pobre.

Você ainda lembra que a primeira vítima fatal de covid-19 no Brasil foi uma empregada doméstica? Essa cena se repetiu outras milhares de vezes e foi um estudo publicado pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-Rio que primeiro confirmou tudo. Levando em conta as primeiras 30 mil notificações de casos de covid-19 disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, o estudo concluiu que quanto maior a taxa de escolaridade, menor era a letalidade da doença, ficando em 71,3% entre pessoas sem escolaridade e 22,5% em pessoas com nível superior.

Se aprofundarmos os dados e cruzá-los com as características de raça, vemos que pardos e pretos sem escolaridade representam 80,35% dos dados de frente, com 19,65% dos brancos com nível superior. E esse é apenas o resultado de uma pesquisa no início da pandemia, em maio de 2020. O problema mesmo está no fato de que, com a permanência da pandemia, os dados ficam mais específicos e confirmatórios – por vezes, até mais assombrosos.

Pesquisa do estúdio de inteligência de dados Lagom Data, feita em exclusividade para o jornal El País, comparou os dados de 2020 com os de 2021 e confirmou aumento de até 60% das mortes entre as pessoas com vínculos profissionais comprovados que não puderam ficar em casa. Em especificidade, as profissões que não exigem formação de nível superior e não ganham o suficiente para sair das regiões marginalizadas onde habitam são as mais afetadas.

Mas o que a igreja tem a ver com isso? É meio difícil imaginar como a religião possa impactar numa crise humanitária quando seu papel, na história da sociedade, sempre foi o de passar uma imagem humanizada para a sociedade que a cerca [e a sustenta].

Segundo pesquisa divulgada pelo instituto Datafolha, em janeiro de 2020, pré-pandemia, 60% das pessoas que compõe o perfil do brasileiro evangélico se autodeclaram pretas ou pardas. Isso é resultado do crescimento da presença dessas igrejas nas regiões onde essa população está, em sua maioria, nas regiões mais periféricas. Essa representatividade não existe somente nesta população. Pelo contrário, está, até mesmo, no cenário político brasileiro, no qual compõe 20% do Congresso, em Brasília.

Só nas eleições municipais de 2020, foram, aproximadamente, 13 mil candidatos espalhados pelo Brasil, que usaram a própria religião como bandeira política, segundo o Instituto dos Estudos da Religião. E o maior problema é que a religião faz oposição à ciência, e, quando forma representatividade política, colocamos os estudos científicos em xeque na mão dos representantes do povo. Afinal, a voz do povo é a voz de Deus.

É com esse discurso que o próprio presidente Jair Bolsonaro conseguiu puxar para si a taxada irresponsabilidade social durante a gestão da pandemia. Principalmente, porque representa o combo perfeito entre negacionismo, religião e poder. E, quando esse discurso ecoa entre as pessoas que frequentam os centros religiosos neopentecostais, que é são as mesmas, mas sem acesso à educação, e representam a maioria entre os seus eleitores, temos o resultado catastrófico de um número maior de mortes nesta população.

Infelizmente, ainda estamos numa realidade longe do ideal de conseguir separar política de religião, formar cada vez mais pessoas em ensino superior, e voltar a investir em educação pública para aumentar o acesso da população mais pobre a melhores oportunidades de vida. Em 2021, já não bastava que brasileiro, o que, no geral, já é difícil? Também ser pobre e preto é a certeza de que não há como sobreviver a mais uma pandemia.

 

*Edição: Professor Maurício Guilherme Silva Jr.