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*Por Caio Adriano Martins Leite

Com essa epidemia, a cidade parou, muitas pessoas respeitam a orientação da OMS e não estão saindo de casa. Neste novo momento, a natureza aproveita para tomar conta do que é seu, e metrópoles estão cada vez mais verdes, trocando, de vez, o tom cinza do dia a dia.

Muitos não têm a sorte de poder ficar em casa, de quarentena, por vários motivos. Há aqueles, porém, que preferem dar sua “voltinha” matinal. Crianças brincam na rua, como se estivessem nas férias de julho; idosos, do grupo de risco, tomaram coragem, nunca vista antes, de sair as ruas.

Em meio ao silêncio predominante nas metrópoles, os animais tomaram as rédeas das coisas. Ouvimos cantos de sabiás, canarinhos, avistamos pica-paus e muitos outros pássaros, que sequer conhecemos. Tais cantos perduram durante todo o dia, e é como se dissessem: “Obrigado”. Árvores, como ipê e mangueira, florescem à moda da primavera, e é possível vê-las, durante o dia inteiro, lotadas de pássaros, que cantam como se tivéssemos em um show lírico, ou melhor, no show dos pássaros. É o grande espetáculo da natureza.

Os cachorros e seus donos estão, a cada dia, mais entrosados. Pets, que antes ficavam sozinhos em casa, agora, saindo ao menos três vezes ao dia. Vejo os donos com mais empatia, uma vez que entenderam como é ruim ficar em casa o dia todo. Parece engraçado, mas, hoje, somos nós que usamos “focinheira”.

Casais passaram a ter mais paciência com seus parceiros(as). Agora, além de viver juntos, trabalham juntos. Diálogo, neste momento, é muito importante. No entanto, descobriu-se que respeitar o espaço do outro é primordial. Famílias estão se redescobrindo, e mudando a forma de conviver diariamente. No final das contas, esta epidemia trouxe união jamais observada.

As ruas, à noite, ficam lotadas pelo vai e vem das motos que entregam comidas. Tal serviço, agora, é fundamentao às famílias, que pedem comida por aplicativos. Ir ao supermercado é algo raro, algo a ser feito, por muitas pessoas vão, de 15 em 15 dias. Tudo isso para diminuir o risco de contágio. O consumismo desacerbado também diminuiu, pois descobrimos que é a hora de manter o controle de tudo. O medo das pessoas, que não têm certeza se terão emprego amanhã, fazem-nas gastar menos.

O novo momento em que vivemos nos faz refletir. Será que, realmente, o mundo estava no caminho certo? Sairemos pessoas melhores desta epidemia. É o momento de se pôr no lugar do outro e rever conceitos. O mundo caminha para uma grande mudança.

Uma frase que se encaixa no contexto em que vivemos é a do grande escritor Alvin Toffler: “Os analfabetos desse século  não são mais as pessoas que não sabem ler e escrever, mas, sim, aqueles incapazes de aprender, desaprender e aprender de novo”.

Acredito que, em 2020, a sociedade, como um todo, terá que exercer o hábito de desaprender, com certa propriedade. Desaprender conceitos que nos trouxeram até aqui. Claro que a gente há de valorizar o que funcionou, e deu certo. É preciso, porém, desaprender um pouco, deixar verdades de lado, e abrir espaço, em nossa cabeça, para aprender conceitos novos. Afinal, está muito claro que o que nos trouxe até aqui não será o que nos levará à frente. Então, é preciso ser humilde o suficiente para entender que tudo o que sabemos tem prazo de validade, e teremos que abrir nossa mente, sempre, para coisas novas.

Teremos que, antes de tudo, sermos resilientes, e entendermos que nada será como antes. A covid-19 mudou nossas vidas para sempre, e o mais correto é preparar-se para o que vem por aí.

Qual o possível cenário, logo após a pandemia? O Biólogo Átila Iamarino foi bem feliz ao dizer: “Mudanças que o mundo levaria décadas para passar, que a gente levaria muito tempo para implementar voluntariamente, estão sendo implementadas no susto, em questão de meses”.

Em tão pouco tempo, tivemos que reinventar a forma como trabalhamos, convivemos e lidamos com outras pessoas. A palavra-chave é empatia. Tudo, ao final, se resume a isso.

 

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Crédito Arte Beró

Por Amanda Gouvêa

Em 2019, “cultura de cancelamento” foi eleita a expressão do ano pelo Dicionário Macquarie, um dos responsáveis por selecionar e divulgar, anualmente, os termos e palavras mais usados, e, dessa forma, analisar comportamentos da sociedade. Esse termo inicialmente tinha o intuito de conscientizar e suspender apoio/consumo a artistas, empresas e pessoas públicas que reproduziam atitudes consideradas inaceitáveis.

Assim, a cultura de cancelamento fez com que a internet, grandes marcas e influencers, mudassem sua forma de agir e pensar. Este ponto foi positivo, para que transformações acontecessem em vários âmbitos e, principalmente, no que se diz respeito à representatividade. Porém, o assunto deve ser tratado com mais cautela e diálogo.

Os indivíduos são construídos com características dos locais que ocupam, das pessoas com quem convivem e das situações que vivenciam. Por meio de tais relações, é perceptível que reproduzamos falas e estruturas do “nosso coletivo”.

Um aspecto a se analisar é o fenômeno causado pelo Big Brother Brasil deste ano, assunto em constante discussão nas redes sociais, com destaque para o Twitter, onde as informações e notícias se propagam com maior velocidade.

O programa é um ambiente no qual podemos ver, claramente, várias questões da sociedade, e onde são levantados debates sobre machismo, homofobia, gordofobia, racismo e assédio. Nesse aspecto, as pessoas confinadas são julgadas a todo o momento, e canceladas, no programa, quase que diariamente.

Os participantes passam, semana a semana, por situações as mais diversas, do pódio á “berlinda” e, consequentemente, à eliminação no paredão. Como exemplo, destaque para o que aconteceu com Daniel e Ivy, dupla escolhida pelo público para ingressar no programa, após confinamento na casa de vidro. Há grande apelo popular pela eliminação de ambos, devido atitudes controversas e polêmicas.

Porém, até que ponto o cancelamento em massa afeta a vida de cada um?

No início do programa, havia um grupo de homens que reproduziam, sem filtros, os aspectos machistas, xenofóbicos e pejorativos da sociedade. Tais atitudes geraram tanto incômodo que eles foram apelidados com o termo “chernoboys”, imediatamente a internet se mobilizou para cancelá-los e eliminá-los, assim que fossem ao paredão.

A cada novo cancelamento feito pelo grande público, percebemos a discussão rasa, despolitizada e seletiva. Mulheres, homens negros e outras minorias são, sempre, mais apedrejados e postos à prova. Exemplo claro disso é o ator Babu Santana, também confinado no programa. Seus posicionamentos são taxados como “agressivos”. Sua pessoa, muitas vezes, é considerada “de difícil convivência” e, por vezes, é cancelado nas redes sociais e ganha muitos hatters.

Enquanto Babu sofre, diariamente, com os reflexos de nossa sociedade racista, vários outros participantes têm seus “defeitos” e falas legitimadas. Um destes personagens, Felipe Prior, caiu nas graças dos telespectadores, e suas atitudes dúbias, muitas vezes, são aceitas.

Portanto, é preciso que esse assunto seja tratado com mais diálogo, e com discussões para fora da “bolha”. Afinal, faz-se necessário analisar o contexto social de cada atitude e de cada pessoa. Todas as pessoas ganham com debates e aprendizados. Levar essa pauta ao grande público torna-se o objetivo principal da cultura de cancelamento.

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr. e da jornalista Daniela Reis

Uma coluna publicada, nesta semana na revista Veja, vem gerando polêmica nas redes sociais, especialmente o Facebook, por envolver a liberdade de expressão, a homofobia e os direitos constitucionais.  O jornalista J.R. Guzzo escreveu um artigo em que afirma que as “pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais. Mas a sua ligação não é um casamento – não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco”. Essa é uma das diversas declarações polêmicas do jornalista.

Segundo a professora do curso de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG Joana Ziller, o fato de alguém escrever num veículo público que o casamento não pode ser outro além de uma união entre homem e mulher e que casais que não podem gerar filhos naturalmente não devem ser considerados como família, exclui da entidade familiar casais estéreis, que tem como única alternativa, assim como os casais do mesmo sexo, a adoção.

“Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo: pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar”, essa é uma afirmação que causou indignação na educadora. “O preceito da liberdade de expressão é a democracia, e quando um jornalista escreve um artigo desumanizando um determinado grupo, é um verdadeiro atentado à democracia e, consequentemente à liberdade de expressão”, opina Joana Ziller.

O colunista de Veja posiciona-se contra a criminalização da homofobia e defende que não há razão para essa luta constante dos “gays” em busca de igualdade, pois, segundo o autor, eles já possuem esses direitos, como qualquer outro cidadão. “A tendência a olharem para si mesmos como uma classe à parte, na verdade, vai na direção exatamente contrária à sua principal aspiração – a de serem cidadãos idênticos a todos os demais”, escreveu Guzzo.

Para Joana Ziller, essa afirmação não procede, “a partir do momento que um grupo ofende o outro e incita a violência, reconhece que o grupo ofendido não tem os mesmos direitos”, explica.

No artigo, Guzzo afirma que nenhuma lei obriga as pessoas a gostarem de homossexuais, assim como não obriga a gostarem de espinafre. “Não estamos em busca de empatia, mas sim de respeito”, retruca um leitor que preferiu não ser identificado.

Outro ponto levantado pelo jornalista e professor de Comunicação Roberto Reis, coordenador do projeto de extensão Una-se contra a Homofobia, refere-se à ética do jornalista. “O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros diz, claramente, que é dever do jornalista combater a discriminação por motivos de orientação sexual. O documento entende os direitos dos LGBTs no âmbito dos direitos humanos de um modo geral, fundamentais para a consolidação da democracia brasileira”, esclarece.

O artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros informa que é função de todo jornalista: “combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza”.

Por Rafaela Acar

Ilustração: Diego Gurgell