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Cotidiano

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Por: Ruan Rodrigues

Maria Odete Magalhães Pinto era minha vizinha de frente, uma senhora de 60 anos, que morava sozinha, e usava adesivos de nicotina. No entanto, ela não era apenas uma senhora fumante qualquer. Maria Odete era a personificação do cigarro. Magra como um graveto, pálida como um copo de leite desnatado, tinha um cheiro curioso de alho com Marlboro vermelho e naftalina. Sempre carregava um grande sorriso no rosto, que, de longe, era realmente fraternal, mas, ao chegar perto, víamos que sua valiosa prótese dentária dourada – sobre a qual tanto se gabava para as demais senhoras do bairro – não tinha quilate algum.

Em nossa família, ela tinha o carinhoso apelido de Maria Fumaça. Tia Mafu era como eu e meus irmãos a chamávamos. Uma vez, ela me deu carona ao voltar da escola. Tinha o carro mais chique do bairro, um Toyota Corolla 2006, automático. No frio ou no calor, o ar-condicionado sempre estava no máximo. Ela só abria o vidro em duas hipóteses: xingar outros motoristas de barbeiro, mesmo errada, em 90% das vezes, e fumar seu Marlboro vermelho. Naquele dia, contei sete cigarros, da escola até lá em casa. Hoje, sei que, desses sete, fumei, passivamente, ao menos seis. Talvez, esse seja o motivo de minha inaptidão em esportes, desde sempre.

Tia Odete era como ela adorava ser chamada. Suas roupas eram todas furadas pelas brasas dos cigarros. Seus beijos, quentes; suas mãos, frias como as de alguém que já morreu. Eu adorava ir a sua casa aos sábados, e ver a disposição dos cinzeiros em cima de cada móvel, em cada cômodo. Uma vez, ela me mostrou todo seu arsenal tabagista: cigarros mentolados, cigarrilhas Talvis, isqueiros Zippo cromados, e, até mesmo, as piteiras de sua época de menina moça. Me mostrou, também, uma foto em que jurava estar a cara da Audrey Hepburn, com seu colar de pérolas, em um vestido longo, cinza, quase preto, por trás da fumaça.

Minha mãe nunca me falou sobre não fumar. Eu sempre soube de seu ódio incondicional por cigarros, mas ela nunca me falou, abertamente: não fume! Quando eu tinha 12 anos, estava brincando de fumar na sala, mas só com gestos de tragar. Tia Mafu olhou para mim e perguntou: “Você quer fumar!? Pra ficar igual à Maria Fumaça, sem saúde, e morrer cedo???”. Claro, com toda a sabedoria que o medo traz, respondi que não, mas, no fundo, no fundo, eu sabia que queria.

Para minha mãe, a tia Odete era o próprio aviso de advertência que vem atrás do maço: “Não fume: esse produto causa câncer”. E, para mim, ela era incrível, como as propagandas de cigarro dos anos 1980.

Aos 15, sucumbi a esse desejo latente. Eu sempre achei tão elegante! A fumaça subindo, o cigarro queimando e um gosto quente em minha boca, um gosto horrível. Pensei que, talvez, não estivesse fumando o cigarro certo. Aguardei o sábado, e lá fui eu, à casa de tia Mafu. Esperei que ela fosse ao banheiro e, de seu maço já aberto, peguei dois cigarros, com a certeza de que jamais perceberia algo. Para mim, era fácil demais, como roubar doce de criança. Não sabia, porém, que essa criança era o próprio bebê fumante da Indonésia.

Quando tia Odete voltou do banheiro, pegou seu maço e, na hora, percebeu que faltava um de seus preciosos Marlboros. Perguntou se peguei e me fez devolver, no mesmo segundo. Entretanto, entreguei só um dos dois que tinha pego. Depois da lição de moral, voltei para casa, e esperei a madrugada. Com uma caixa de fósforo, risquei e traguei. Mesmo não sabendo tragar, me senti o Snoop Dog.

Com 18, me tornei o desgosto da família. Minha mãe, perplexa, não entendia como seu filho, criado a Danoninho, agora, fumava. Um dia depois de contar para minha família, fui até a casa de tia Odete, à espera de apoio dessa senhora de 72 anos, que fumou a vida toda. Ainda me lembro de suas palavras, claras como os fios brancos da raiz de seus cabelos. Ela me olhou nos olhos e disse: “Você tem certeza de que é isso que quer? Esse é um caminho sem volta!”.

Depois da conversa, ela me deu um presente. Um charuto, contrabandeado, na Itália, por seu falecido marido, expedicionário da FEB, ao lutar na 2ª Guerra Mundial. Fumamos. Nesse dia atípico, ouvi os sábios conselhos de uma velha que contribuiu mais para o efeito estufa que o próprio agronegócio.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

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*Por Jéssica Oliva

Ao me levantar, pela manhã, sinto como se fosse uma borboleta, em suas fases até a libertação. A rotina se torna rotina, a janela do quarto continua sendo uma janela. E o sol das dez? Ele nunca será o mesmo. A cada dia que passa, o Sol tem características alteradas. Posso sentir quando ele exala tristeza, ou alegria. Em tempos de pandemia, o Sol tem ficado tão, mas tão quente!, que chega a rachar a minha pele.

Antes, eu corria para vê-lo entrando pelas frestas de minha janela, logo ao amanhecer. Sentia o vapor na minha pele, e logo me deitava diante dele, para me sentir melhor. Hoje, só tenho corrido para sair do quarto, sair da sala, sair do banheiro, pois tudo tem sido tão monótono que não consigo me movimentar como antes. A mistura de sentimentos aparece, as crises são expostas por sensações de desespero e inquietação, e o medo toma conta do meu Sol. Não posso sair à rua, não posso me movimentar. Às vezes, não consigo nem respirar.

Já não sei como me sinto. Os quatorze dias já viraram cem. Minha alma foi roubada, assim como meus sentimentos, minha disposição… Tenho me sentido como um objeto. O quarto fica escuro, o sorriso já não vem mais, e a vontade de sentar numa mesa de bar, e pedir uma cerveja, também já não existe. Por onde anda toda essa vontade, se não tenho sequer um minuto para abraçar meus entes queridos? Esqueci a sensação do abraço, do apego, do desapego, de estar ou não apaixonada. Tudo isso me foi tirado. Já tentei convencer o Sol de sua beleza estonteante, já lhe disse o quão importante é. Meus cabelos brilhavam, ao me pôr de frente para ele; meus olhos reluziam, ao ver raios de luz atravessando as ruas, os comércios, e a minha casa.

O vento já não vem mais, o frio chega devagar, atravessa as paredes das casas e arrepia a pele. O sentimento de perda chega a ser indolor, quando a dor já nem se é sentida mais. As valas são cavadas como buracos nas plantações de flores, a luz amarela, que vem do céu, já não reluz e reflete nos esquifes expostos ao chão. A terra é derramada junto às lágrimas de saudade. Os minutos parecem horas, e o adeus se torna, apenas, a Deus. Milhares de perguntas são feitas, e minha cabeça já não absorve sequer a soma de um mais um. A história fica, literalmente, no passado; mas e daí? Talvez, meu corpo atlético sobreviva a toda essa experiência obrigatória; talvez, eu tenha que derramar mais lágrimas para o Sol voltar.

A falta é tão grande que, quando escuto o som do famoso “Money”, a cabeça vibra e a verdadeira aglomeração começa. Talvez, eu precise viajar cinco mil quilômetros para escutar esse som tão esperado e almejado. Às vezes, fico parada na janela do quarto, e sinto que estou vivendo como no “Mito de Platão”: me sinto em uma caverna, mas a única diferença é que posso ver as pessoas falando comigo, através da TV ou do rádio. Todos falam sobre o Sol, e sobre quando ele voltará. A idealização da liberdade vai e volta de meus pensamentos. A perna chega a tremer em pensar. A sensação deve ser maravilhosa, mas ainda não sei dizer qual é. O tempo vai se fechando e a única certeza que tenho é de que os raios de luz não entrarão por minha janela tão cedo. As máscaras não cairão, e eu ainda estarei presa por uma grade, que me separa das ruas e do meu Sol das dez.

Meu cabelo não vai brilhar, meu corpo não vai se tornear, minhas unhas não crescerão, meu sorriso não vai se abrir espontaneamente, mas sei que uma vida vai ver a cor dourada que nasce todas as manhãs, vai respirar, vai gritar, sorrir, abraçar, amar, gostar e desgostar. Essa pessoa vai acreditar na liberdade, na pureza da vida, usará máscaras e álcool em gel, vai se preocupar com o próximo, e vai se doar em prol de outras vidas.

A vida não é uma peça do quebra-cabeças, mas também não é um leite derramado. A vida é importante para quem respira, grita, chora. Talvez, seja importante para mim, mas gostaria que fosse importante assim como uma flor que nasce, um bebê que chora, uma idosa que sorri. E como o Sol que entrava, todo os dias, pela minha janela.

 

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

 

 

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Por: Ana Flávia da Silva

O barulho do ventilador ecoa por todo o quarto. Chato, o som reverbera em minha mente confusa e faz com que eu volte à realidade. Estamos enfrentando uma pandemia. Gostaria mesmo de voltar, àquele tempo em que podíamos sair às ruas sem máscaras, sem nos preocuparmos em ficar a um metro de distância das pessoas, sem sentir falta de ar e, instantaneamente, pensar: “Será que fui infectado?”.

Quando saí à rua pela primeira vez, depois de duas semanas em casa, fiquei em choque. Naquele momento, percebi que o mundo em que vivíamos já não era o mesmo: poucas pessoas nas ruas, olhar de espanto e medo notório nos diversos rostos cobertos por máscaras. Agora, já me sinto acostumada com o momento atual, e creio que também outras pessoas. O sentimento de impotência, tristeza e medo, porém, continua o mesmo.

Meu bairro, sempre silencioso, ficou ainda mais. Só se ouve o barulho dos pássaros e dos pouquíssimos carros que circulam. Na verdade, o ruído que causa mais incômodo vem de dentro. Todos os planos cancelados, viagens suspensas, reencontros adiados… e a mente tentando lidar com os diversos acontecimentos; no caso do Brasil, a bagunça é generalizada, o que gera um misto de emoções a nos atormentar, dia e noite.

Hoje, saí à rua pela segunda vez. Fiquei em choque com o tanto de pessoas a circular nos espaços públicos. Chamou-me atenção um senhor de idade, que costuma ficar sentado, numa cadeira de plástico branca, à porta de sua casa. Sempre que passo por lá, ele está assim. Dessa vez, não foi diferente: permanecia lá, sentadinho, mas com uma máscara no rosto. Apesar de correr perigo, ninguém se atreve a tirá-lo dali. Com olhos tristes, observa o movimento, sem esboçar reação.

Acredito que todos estejam um pouco como esse senhor. Observamos os dias e as horas passarem, desacreditados da nova realidade. Fazemos nossa parte, e a vontade de voltar à vida “normal” é enorme, mas os números sobem desenfreadamente. Fica difícil acompanhar e prever quando tudo vai voltar.

Milhares de pessoas já morreram pela Covid-19 no Brasil e no mundo. As notícias são atualizadas a todo momento. O que me chateia é a falta de empatia de muitos cidadãos. Com tanta gente morrendo, há aqueles que se recusam a seguir as orientações recomendadas pelos órgãos de saúde. O vírus tem altos níveis de contágio e, ao sair na rua sem necessidade, participar de festas, e não usar máscara, pode-se prejudicar inúmeras pessoas, além de nós mesmos.

É o momento de ter consciência e empatia pelo outro. O silêncio de certas das autoridades brasileiras, diante de tal fato, também me intriga. Acredito que o respeito ao próximo deveria começar pelas pessoas encarregadas de nos representar. O poder público tem pecado nessa parte. O momento é de se ajudar, de reconhecer os erros e de lutarmos contra o vírus que assola a população mundial.

Olhar para o futuro nos leva a sentir medo. Como será a vida pós-coronavírus? Antes, tínhamos pensamento positivo. Hoje, não sabemos quando será possível abraçar aquela pessoa, ou quando poderemos aproveitar um show do artista de que gostamos. Além disso, há preocupações muito maiores, como a tão temida recessão econômica. Como estará o país daqui a um ano? Só o tempo será capaz de responder à pergunta.

Se, em 2019, me contassem que a vida, agora, seria assim, eu teria aproveitado para ter bastante contato físico com as pessoas que amo. Teria saído mais de casa e iria valorizar cada momento ao lado dos meus amigos. Afinal o amanhã é incerto, principalmente, nas condições atuais. O fato é que ainda não acabou, e é muito triste pensar nisso. Espero que tudo passe logo.

Queria não ter escutado o tal barulho do ventilador e continuar a viver no meu mundo. Aqui, podemos abraçar as pessoas que amamos. A alegria é genuína, a rotina é um presente. Neste mundo, as festas são permitidas, assim como as aglomerações. Podemos sair livremente às ruas, e nosso único medo é o de não aproveitar a vida de todas as formas possíveis. Vivemos como se não houvesse amanhã, mas na torcida para que o sol nasça novamente – e que, então, possamos repetir as doses de alegria.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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Ana Carolina Nunes de Abreu

Ninguém quer mudar seus costumes. Digo: sair da rotina somente por sentir vontade de tal feito. São raros os impulsos de vontade do diferente. Dar-se ao trabalho de sair logo pela manhã, quando os olhos ainda doem, acostumando-se com a cintilação do dia, e passar por um caminho diferente – rua acima, rua abaixo. Observar gritos silenciados e estampados nos muros de chapisco, com o cantarolar dos pássaros ao fundo, que sobrevoam ou observam o nada. Sentir a brisa-quase-vento que passa pelo canto das orelhas e coça o braço com o dançar dos pelos. Não, ninguém quer sentir essas coisas se é preciso chegar no horário em um ofício qualquer.

A saída da comodidade exige esforço. Durante as festas carnavalescas, me deparei com o gosto aguçado por uma dança que, antes, só era conhecida por nome. É absurdamente lindo e instigante ver o ritmo e a cadência de um Vogue. O corpo se move como se entrasse nas partituras e abraçasse todas as notas.

Recebi o convite despretensioso para participar de uma aula. Apesar do interesse, jamais tivera empenho suficiente para seguir com novidades que me demandassem tempo, deslocamento e, principalmente, dedicação. E o convite ficou para trás, como quem lê uma carta que lhe palpita o coração e faz o Zigomático maior tracionar-se ao canto da boca em direção às orelhas, com a sinceridade de quem respira fundo e sente a nostalgia nas pontas do dedo, e na textura do papel. Logo depois, porém, guarda numa caixa, com certo desleixo, e encaixa no único canto disponível dentro do guarda-roupa, próximo a outros pertences que nunca são usados, nem pra servir de decoração.

No entanto, o descontentamento com a situação fez com que eu escolhesse esse espaço para revelar minhas palavras. Não que seja digna, ou que sejam as melhores. Que eu possa, contudo, dar minha contribuição, e que não seja na irregularidade de meus passos e na falta de malemolência de quadris, braços, pernas e desconhecimento musical. Lembro-me de ter decidido ir, numa sexta-feira qualquer, entre trabalhos, happy-hour e a necessidade de um cigarro, ao Centro de Referência da Juventude, onde as aulas de Vogue são realizadas, a partir das 18h, ministradas por uma moça-talvez-menina com um corpo traçado pelo padrão, tal como a pele e o fenótipo. Bonita, além de se aparentar uma pessoa agradável.

Por fora, o contraste de rotas. Pessoas acumuladas em um canto da Praça da Estação, com malas, bolsas e sacolas no chão. Pessoas acima de cinquenta anos, diria. Suas bagagens são coloridas, bem como seus papos e amenidades. Esperam, pacientemente, por um ônibus que as levará a uma cidade do interior de Minas Gerais, da-qual-não-me-recordo-o-nome, para a festa de uma padroeira, à qual também não me atentei o bastante para anotar.

De fora, observo a dança que já havia começado. O grupo, majoritariamente de negros e LGBTs, une-se por uma vontade comum. Seus saltos parecem sapatos comuns, pela facilidade com que os usavam. São 15 cm que, para eles, complementam a performance, perfeitamente. O suor da dança respinga pelo cabelo e traça o maxilar dos rostos, evidente em corpos que se mexem com facilidade, ao passar da música que não ouço, devido ao barulho externo, de carros e pessoas. 

Não há coreografia, até porque tudo vem de orientação própria. É seu corpo a conversar com você, e você a conversar com a música. Um diálogo que exige “o querer”, pernas próximas uma da outra e fôlego para um death drop — um fragmento da dança em que eles, simplesmente, se jogam ao chão, virando uma das pernas para trás, e, logo em seguida, levanta-se, como se nada acontecera. Você, não. Você, mero espectador, demora alguns segundos para absorver tamanho movimento.

As pernas se abrem no chão, fora da preocupação do relógio. Pernas, essas, que não cabem em outro sentimento que não seja o amor à dança (a não ser que, claro, elas queiram,). Não há obrigação de continuidade dentro de seu momento performático. Só a linearidade do que se quer tornar linear. Eles caminham como quem passa por uma famosa passarela, sobre a qual o foco são os movimentos e o que se decide fazer com o que aprendeu. Ficao perplexa ao perceber como o corpo faz traços estranhos, incrivelmente lindos. Lá de fora, o cheiro de um final de semana no centro traz os sussurros de quem passa por ali, a observar, pelos vidros do CRJ, as habilidades que também são meu foco. Decido entrar.

A elegância agora tem som, e um som familiar, conhecido por vídeos aos quais já assisti. Misturam-se e entrelaçam seus corpos com a música, do funk brasileiro ao hip hop gringo. De perto, tão mais leves em seus passos, causam certa inveja, ao passar pelos espaços do salão, enquanto esticam seus braços para o alto e fazem círculos, quadrados. Ali está toda a geometria existente, e não existente. Uma alma concreta; almas que podem ter lá seus problemas, mas, ali, parecem esquecê-los. 

O Centro é repleto de movimentos. Caminhadas mais à frente, no corredor de um espaço branco, mostram passos de hip hop, funk, e, mais ao fundo, capoeira. Um alívio percorre meu corpo, ao saber que existem tantas pessoas dispostas a descobrir, em seus corpos, o próprio limite. O contraste que faz total sentido. Crianças, sorrisos, gritos de felicidade e estilos que agradam a meus olhos, mesmo na maior distância. Ali, um sentimento de pertencimento, que pertence a eles.

Transmissão de corpos tão encantadora me faz ter vontade de abaixar a câmera e fazer minha própria dança, dentro de estilos que fogem aos padrões e acendem chamas em qualquer um. E me faz perceber que, talvez, aquela ali seria a comodidade deles. E a simpatia, mesmo que distante, é tão grande, que gostaria de convidá-los a também conhecer outras situações. Assim como os vi encantados ao final da noite, enquanto perguntam pelas fotos que me viram tirando, bem como sobre o que eu anotava numa caderneta, de forma rápida e precisa. Não necessito de muito. Afinal, as palavras sairiam com naturalidade e amor nesse registro de uma paixão que nasceu.

Esta é uma história pré-quarentena, quando os sentimentos à flor da pele me traziam a sensação de estar viva, e de poder observar a vida que pulsava além de mim. Esta é uma história que foge à falta de abraços, beijos e suores. Esta é uma história de aglomeração, contato do qual sinto falta, diariamente, e que só pude perceber no isolamento, sem pessoas em seus trajetos à casa, ao bar, à cidade do interior ou à linha de frente de um Vogue.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Por Izabela Avelar

Ao menos uma vez na semana, meu smartphone apita com uma notificação importante. Trata-se de meu relatório de tempo de uso do aparelho. Basicamente, ele me detalha quantas horas por dia eu permaneço conectada na rede, quais os aplicativos mais executados e por quanto tempo fico “dentro” deles. Vale ressaltar que essa opção foi ativada manualmente, ou seja, o próprio usuário é quem decide se quer ou não esses dados. Foi satisfatório quando li o último relatório. Descobri que permaneci 47 minutos a menos com o celular na mão, nos últimos sete dias – o que significou diminuição de 63% em relação ao mês anterior. Minha média diária não ultrapassa cinco horas.

Segundo levantamento feito pela Hootsuite e pela We Are Social, em 2018, o Brasil é um dos campeões mundiais em tempo de permanência na rede. O estudo diz que o internauta brasileiro fica, em média, 9 horas e 14 minutos conectado por dia. Desse modo, tenho ido contra as estatísticas, o que ótimo! Atribuo a mudança, principalmente, ao isolamento social, recomendado neste momento de pandemia. Já se passaram 45 dias. E, por falar em data, às vezes, me pego questionando que dia é hoje? Quantos dias tem esse mês? Quantas horas até o dia acabar? Como diz Sócrates: “Só sei que nada sei”. Logo eu, que sou absolutamente minuciosa quando se trata de calendários e prazos. Como pode? Além disso, sou entusiasta de toda aquela coisa de agradecer por um novo dia, por acordar novamente.

A questão é que os dias perderam o sentido, e as datas passam despercebidas. Não se tem liberdade para reclamar que é segunda-feira e o ônibus está cheio, seguir para a terça-feira no modo avião, ou à quarta, o meio da semana… Ufa! Quinta-feira é aquela expectativa de que se acabe, e, finalmente, a sexta-feira do sextar. Não dá para sair com os amigos, com o companheiro(a), nem almoçar com a família aos domingos. A semana perdeu suas peculiaridades. Saudade da rotina.

Onde está o mundo real? As ruas já não são as mesmas. Os rostos, agora cobertos com máscaras, não são os mesmos. Abraços e outras formas de carinho físicos estão fora de cogitação. O encontro dos cotovelos, até então esquecidos como parte do corpo, é a nova forma de se cumprimentar. O álcool em gel virou a nova companhia inseparável de nossas mãos. Saudade do afeto. Lembro-me de chegar em casa e ver a vizinha, que punha a cadeira para fora, em nome da fofoca, mas, agora, se atém a sua janela com grades. O universitário, que se ocupava, quase sempre, de reclamar do semestre, sequer tem semestre para isso.

Uma coisa é certa: desde sempre, estávamos (ou estamos) com o paradigma de que a internet e o império virtual revolucionaram nossa forma de comunicar, e de que a rede mundial seria suficiente para “visitar” alguém, demonstrar e sentir algo. De certa forma, sim, mas a tecnologia não é capaz de nos conectar com o mundo real. Nem as mais variadas redes sociais, os aplicativos de mensagens ou o próprio zoom são capazes de acabar com a saudade – ou de fazer com que não a sintamos.

Já vi gente dizendo, e/ou postando, que estão cansados do celular; gente que está com saudade do bar, saudade do namorado(a), saudade das aglomerações. Já vi gente chorando por não poder comemorar o aniversário da forma que queria. Seja de quem ou qual for, é gente com saudade de gente. Então, começamos a perceber, neste momento, o quanto as pequenas coisas importam, e as muitas coisas que perdemos por estar com os olhos ligados somente às telas.

Enquanto tudo isso não passa, continuo com minhas muitas tentativas, em casa, e meus 17 “eus”. Quero sempre levar comigo um novo hábito, que incorporei a minha velha nova rotina – e olhar para fora da janela, antes de desbloquear meu celular.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

 

Feito por:  Henrique Faria

No Brasil, o Cinema Nacional é comemorado no dia 19 de junho, data que homenageia o ítalo-brasileiro Afonso Segreto, o primeiro cinegrafista brasileiro que registrou imagens do nosso território em 1898, virando a seguir o filme: “Uma vista da Baía de Guanabara”. Desde então a sétima arte vem fazendo e sendo história no nosso país e para entendermos um pouco mais sobre a importância deste dia, o Jornal Contramão conversou com produtor, crítico e professor de cinema Ataídes Braga.

 

Jornal Contramão: Qual a importância do Dia do Cinema Nacional?

Ataides: Tem a importância, não necessariamente de uma data comemorativa, mas sim histórica, como uma espécie de certidão de nascimento e a partir daí vira uma necessidade de afirmação de todas as lutas desenvolvidas contra a hegemonia de cinematografias externas que em diversos momentos nos deixaram em uma posição de inferioridade e opressão.

Jornal Contramão: Estamos na Época de Ouro do Cinema Nacional?

Ataides: Sim e não, o cinema brasileiro é muito complexo, diversificado, do ponto de vista mercadológico, temos uma certa produção, majoritariamente comédias, que estão muito bem de bilheterias, mas existem muitos outros filmes que nem se quer são ou serão lançados.

Jornal Contramão: Quais as dificuldades de se fazer um filme independente hoje no Brasil?

Ataides: A ausência de uma política pública específica; falta de controle do mercado exibidor. Controlado ainda  hoje,  pela majors americanas; dificuldade, mesmo quando feitos, não conseguem distribuição e exibição, quase todas voltadas para filmes de mercado.

Jornal Contramão: Vemos cada dia mais faculdades abrindo o curso de CINEMA, quais seriam os benefícios e malefícios disso?

Ataides: A formação teórica e prática é fundamental, mas nem sempre essas faculdades tem professores capacitados e quando os tem, não tem a liberdade criativa para desenvolverem projetos que possam pensar o cinema. Eles só reproduzem o mesmo tipo de filmes e possibilidades que já estão saturados por aí.