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Cultura do cancelamento

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*Crédito Arte Beró

Por Amanda Gouvêa

Em 2019, “cultura de cancelamento” foi eleita a expressão do ano pelo Dicionário Macquarie, um dos responsáveis por selecionar e divulgar, anualmente, os termos e palavras mais usados, e, dessa forma, analisar comportamentos da sociedade. Esse termo inicialmente tinha o intuito de conscientizar e suspender apoio/consumo a artistas, empresas e pessoas públicas que reproduziam atitudes consideradas inaceitáveis.

Assim, a cultura de cancelamento fez com que a internet, grandes marcas e influencers, mudassem sua forma de agir e pensar. Este ponto foi positivo, para que transformações acontecessem em vários âmbitos e, principalmente, no que se diz respeito à representatividade. Porém, o assunto deve ser tratado com mais cautela e diálogo.

Os indivíduos são construídos com características dos locais que ocupam, das pessoas com quem convivem e das situações que vivenciam. Por meio de tais relações, é perceptível que reproduzamos falas e estruturas do “nosso coletivo”.

Um aspecto a se analisar é o fenômeno causado pelo Big Brother Brasil deste ano, assunto em constante discussão nas redes sociais, com destaque para o Twitter, onde as informações e notícias se propagam com maior velocidade.

O programa é um ambiente no qual podemos ver, claramente, várias questões da sociedade, e onde são levantados debates sobre machismo, homofobia, gordofobia, racismo e assédio. Nesse aspecto, as pessoas confinadas são julgadas a todo o momento, e canceladas, no programa, quase que diariamente.

Os participantes passam, semana a semana, por situações as mais diversas, do pódio á “berlinda” e, consequentemente, à eliminação no paredão. Como exemplo, destaque para o que aconteceu com Daniel e Ivy, dupla escolhida pelo público para ingressar no programa, após confinamento na casa de vidro. Há grande apelo popular pela eliminação de ambos, devido atitudes controversas e polêmicas.

Porém, até que ponto o cancelamento em massa afeta a vida de cada um?

No início do programa, havia um grupo de homens que reproduziam, sem filtros, os aspectos machistas, xenofóbicos e pejorativos da sociedade. Tais atitudes geraram tanto incômodo que eles foram apelidados com o termo “chernoboys”, imediatamente a internet se mobilizou para cancelá-los e eliminá-los, assim que fossem ao paredão.

A cada novo cancelamento feito pelo grande público, percebemos a discussão rasa, despolitizada e seletiva. Mulheres, homens negros e outras minorias são, sempre, mais apedrejados e postos à prova. Exemplo claro disso é o ator Babu Santana, também confinado no programa. Seus posicionamentos são taxados como “agressivos”. Sua pessoa, muitas vezes, é considerada “de difícil convivência” e, por vezes, é cancelado nas redes sociais e ganha muitos hatters.

Enquanto Babu sofre, diariamente, com os reflexos de nossa sociedade racista, vários outros participantes têm seus “defeitos” e falas legitimadas. Um destes personagens, Felipe Prior, caiu nas graças dos telespectadores, e suas atitudes dúbias, muitas vezes, são aceitas.

Portanto, é preciso que esse assunto seja tratado com mais diálogo, e com discussões para fora da “bolha”. Afinal, faz-se necessário analisar o contexto social de cada atitude e de cada pessoa. Todas as pessoas ganham com debates e aprendizados. Levar essa pauta ao grande público torna-se o objetivo principal da cultura de cancelamento.

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr. e da jornalista Daniela Reis