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Imagem do filme “Imperméavel pavio curto” de Higor Gomes.

O 20° Festival Internacional de Curtas (FESTCURTASBH) trouxe como temática, nesta edição, o olhar sobre o cinema negro

Por Marcelo Duarte

Entre os dias 10 e 19 de agosto, Belo Horizonte recebeu a 20º Festival Internacional de Curtas – FESTCURTASBH, que exibiu 138 obras, de 70 países e doze estados brasileiros, distribuídos ao longo de mais de 65 sessões. Durante o evento, o público ainda teve a oportunidade de participar de seminários, oficinas e shows. A mostra foi exibida em três espaços diferentes da cidade, o Cine Humberto Mauro, Sala Juvenal Dias e jardim interno do Palácio das Artes.

Para Gabriel Martins, cineasta e sócio-fundador da produtora Filmes de Plástico, festivais potencializam encontros entre realizadores, entre a obra e o público, e entra obra e crítica. “Os festivais sempre irão favorecer o despertar de novas ideias e dão muito combustível pra quem está começando entender que as obras encontram caminhos e se transformam a partir do momento em que são projetadas. Este festival, que tem um olhar cuidadoso, me parece uma excelente vitrine para novos realizadores que buscam uma janela para seus olhares”,  pontua.

O festival contou com 2.518 inscrições, sendo 405 brasileiras e 2.113 estrangeiras. O cinema negro foi o foco da temática curatorial, trazendo três janelas especiais dentro da mostra. A partir da participação do curador e crítico Heitor Augusto, o FESTCURTASBH voltou seu olhar tanto para a pujante produção recente de cineastas negras e negros, quanto para a história dessa produção, largamente desconhecida e vítima da invisibilização que tem tradicionalmente acometido as diversas expressões artísticas e culturais da população negra no Brasil.

O cinema negro em foco

A coordenadora de Programação e Curadoria do Festival, Ana Siqueira, destacou a importância do tema para o festival. “Desejamos que o público tenha acesso a essa filmografia, e às discussões em torno dela, nas sessões, seminário e debates, permitindo o engajamento em torno do cinema negro de forma mais complexa. Dessa forma, buscamos contribuir para se pensar como esses trabalhos são realizados estética e politicamente, trazendo uma série de implicações para nosso olhar, nossa forma de perceber os filmes, além dos necessários questionamentos de como a história do cinema é construída, nunca de forma neutra, sempre atravessada pelos diversos processos políticos e sociais em curso”, explica.  

Para Gabriel Martins, que exibiu o seu curta-metragem “Dona Sônia pediu uma arma para seu vizinho Alcides”, durante o seminário de cinema negro, os filmes ainda precisam chegar até as pessoas que não têm acesso. “Precisamos de melhores políticas de distribuição que, dentre vários caminhos, consiga levar o cinema às periferias do Brasil. Este tema sempre é fundamental, principalmente frente a uma história de cinema que apagou cruelmente diversos de seus artistas negros. Rever essa história é fundamental para darmos alguns passos adiante”, sustenta.

Como nas edições anteriores, o enfoque do festival girou em torno de valorizar a construção de curta-metragens em suas diversas formas, contextos e abordagens, possibilitando reflexões sobre a contemporaneidade. “É fundamental e algo que pensamos em todos os projetos. Temos como meta principal abastecer a cena dando oportunidades para as pessoas trabalharem e ganharem dinheiro com seu talento”, indagou Gabriel Martins, ao ser questionado sobre o enfoque do festival.

Premiação

As mostras competitivas Minas, Brasileira e Internacional premiaram produções recentes com o tão sonhado troféu capivara. O grande vencedor da categoria regional foi Higor Gomes, com o filme Impermeável Pavio Curto. “Ver o Higor ganhar é um orgulho imenso e uma felicidade pois antes de tudo é um amigo e uma pessoa fascinante. Tive o prazer de fazer parte da banca do projeto na universidade e fiquei muito feliz de ver um grupo unido como o dele fazendo um filme tão lindo e sincero”, comenta Gabriel Martins.

Na próxima segunda (29), será lançado, em exibição gratuita, no Cine Cento e Quatro, o curta “O tecido dos sonhos”, de Carlos Rocha e Marcelo Braga. A exibição do curta-metragem será às 20 horas. O projeto é um experimento audiovisual que une o universo shakespeariano ao cotidiano das ruas de Belo Horizonte. O título do filme remete à citação atribuída ao dramaturgo que diz: “Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos”.

O elenco é formado por pessoas em situação de rua e associadas à ASMARE e ao Centro de Referência da População de Rua. Os diretores esclarecem que o encontro com esses grupos de ações sociais contribuiu para a consolidação da obra. “A posição passiva, anda de mão dada com a indiferença”, declara Carlos Rocha.

Com 17 minutos de duração, o curta traz textos de Shakeaspeare interpretados pela população que vive nas ruas da capital mineira e redescobre a literatura produzida no século XVI e aclamada no século XIX, vista por tipos populares que habitam, trabalham e cruzam a cidade de Belo Horizonte. Sobre a estreia na próxima segunda-feira Marcelo Braga, um dos idealizadores e diretores do projeto, afirma: “A expectativa é a melhor possível”.

As dificuldades encontradas foram as mais naturais possíveis: nem todos os moradores de rua estavam dispostos à participar das gravações devido a problemas particulares, outros inicialmente participaram, mas por fatores externos não finalizaram. Foram seis meses de trabalho, sendo três dedicados a oficinas de preparação do elenco, já que nenhum deles era profissional e mais três de filmagens – para levar essa realidade para as telas.

Cine Cento e Quatro está localizado Praça Ruy Barbosa (Praça da estação), número 104, no Centro de Belo Horizonte.

 

Por: Alex Bessas  e  Aline Viana

Foto de divulgação.