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Foto: PiCodeiro

Por Débora Gomes – .as cores dela. – Parceira Contramão HUB

eu desenho o teu retrato. 
pelo grau da nossa distância, é bem possível que eu tenha esquecido de algum detalhe que lhe é importante: uma ruga na testa que surgiu desde que você partiu, um novo fio de cabelo branco se juntando aos vários que você sempre teve na lateral esquerda da cabeça. 
“a gente não tem mais 20 anos”, eu sei.
eu tentei colocar alguma cor no retrato, mas meus dias estão cinza. como os seus, nessa cidade que não te deixa sair. 
ela não te abandona, ela te acolhe, ela se fez seu lar. e não importa o quanto chove… é teu silêncio que me importa. porque ele antecede uma saudade imensa em minha vida, que eu sempre pressinto, e até mascaro com sorriso, floral e aspirina, até você voltar, como se nada tivesse acontecido. e se alojar de novo nas minhas gavetas, nas minhas paredes, no meu peito. 
é quase um ciclo. que eu não fecho porque gosto da dor. e porque tenho medo de perder as lembranças que me salvam em dias assim…
“eu gosto de você”, cê me disse. 
e eu não acreditaria se não tivesse salvo sua voz em uma parte intocável do meu coração. 
“é que eu tenho medo”, cê me respondeu. 
e a gente nunca mais viveria tudo isso de novo, porque não deixou pistas no caminho pra voltar.
“é daqui em diante”, eu te escrevi.
com todos os vícios que adquirimos, com todos os machucados que nos curamos. é assim se a gente quiser seguir…
tem um pedaço seu em cada esquina dessas ruas em que você nunca esteve. 
talvez isso seja amor. ou só saudade…

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Por Débora Gomes – .as cores dela. – Parceira Contramão HUB

Hoje fez um dia bonito, como nem sempre são os dias aqui. As amenidades de outono gelaram minha manhã e, se pudesse, teria ficado todo o tempo em casa, sentada em frente ao computador, lendo, escrevendo, desenhando um pouco. Talvez sentisse menos tua falta. É que a sinto (muito!), principalmente quando saio às ruas e vejo rostos nada semelhantes ao teu. “As pessoas aqui carregam uma alegria triste”, pensei. E concluí que vem daqui essa minha mania de sorrir nos lábios o que os olhos tanto choram.

Te guardo em saudade, já lhe falei várias vezes. Ocorreu-me agora, aquele poema falado pela Matilde Campilho, com seu cantado sotaque “português-de-Portugal”:

“é terrível a existência de duas retas paralelas

porque elas nunca se cruzam. 

e elas apenas se encontram no infinito”.

Sei que se interessas por essas questões de infinito e por qualquer outra coisa que pareça te tirar daqui, das gaiolas desse mundo. Ele às vezes também ressoa como algo do qual nunca fizeste parte, eu sei. Mas consegues lidar com isso bem melhor do que eu, que ando desfazendo um tanto de nó, tentando o encontro de um único laço.

É estranho pensar que o que mais nos afasta foi meu maior começo de amor. Lembro bem quando você me disse: ‘eu ando sempre distraído demais nesse passo que é viver’. E eu compreendi ali que dizias sobre liberdade e teu amor pelo vento no rosto em dias de estrada. Sempre soube ler tuas entrelinhas, embora eu pareça chegar quando você já está partindo.

“Não se esqueça de me escrever”, eu deveria ter dito. No entanto, espero sempre uma fresta de sol nos dias frios, para me aquecer as meias e o moletom escuro. Você não vem, eu já sei. ‘Nem em palavra e nem em verbo’, repito para não esquecer. Porque algumas vezes, eu deixo de me lembrar que te conheci em uma manhã de primavera, quando a gente ainda acreditava no amor. E se hoje eu aprendi a temer os silêncios, é porque entendi que eles podem ensurdecer qualquer coração partido. 

[te guardo nessas palavras. para que se torne o motivo da minha terceira fuga…]

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Arte retirada do blog .as cores dela .

Por Débora Gomes – . as cores dela . – parceira Contramão HUB

era ainda tardezinha quando cê entrou pela porta dos fundos, com os olhos cheios de adeus. eu tava lá, esquentando a água pro seu ‘thé de camomille’, que cê toma todas as noites e que te faz dormir melhor desde que voltou. 
cê não me olhou nos olhos – achei estranho. 
nunca foi do seu feitio encarar a vida com a cabeça no chão. também não perguntei o que tinha acontecido, um pouco porque tive medo, outro pouco porque tive medo também. 
mas se cê vem e me pergunta agora: “medo de quê, criatura?”, eu não saberia jeito nenhum de te explicar. 
talvez medo de que cê fosse embora ou de que me dissesse que era cedo demais pra ficar. vai ver, medo de que cê nunca mais me olhasse nos olhos ou de que cê me contasse que morreram todos os seus girassóis. medo de que cê tivesse desacreditado na gente e tivesse resolvido cortar o mal pela raiz de uma só vez. mas de tudo, o que dava mais medo, era dos seus olhos de adeus. e de que eles te levassem embora pra longe, antes do amanhecer. seria meu amanhecer mais triste: acordar, procurar por eles no quintal, não encontrar nenhum sinal do caminho que fizeram, te levando embora de mim… 
– não caibo aqui faz tempo – cê me disse baixinho, enquanto Holden cantava “Ce Que Je Suis”
aí eu entendi… que o mesmo tempo que te trouxe, também te levava aos poucos pra esse lugar longe de onde cê veio, mas nunca mais ficou.
“J’oublie, je bois, je bois l’oubli
Mais qu’est c’qui m’arrive”
– voa, passarinha – eu quis te dizer. mas uma parte egoísta do meu coração preferiu te aprisionar mais um pouquinho, até a próxima dança.

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Foto reprodução internet

Por Débora Gomes – .as cores dela. – Parceira Contramão HUB

“repara que o outono é mais estação da alma que da natureza”,
ah querido Drummond,

se soubesses o quão feliz fica meu coração nesses dias de sol-devagar!
não sei… mas uma vez me disseram que é por isso que fiz do outono minha estação preferida: por essa possibilidade de viver como se cada passo pudesse ser pensado e dado sem pressa. eu, por fim, não acho que escolhi o outono em momento algum, mas tenho quase certeza de que foi ele quem me escolheu, me presenteando com suas cores… tiveste a oportunidade de ver o céu em lilás, laranja e amarelo, dos fins de tarde de outono? é uma beleza que faz chorar de alegria.
“quanta melancolia!”, talvez alguém nos dissesse. 
“quanta poesia!”, a gente concordaria.
veja só: verso até sem saber fazer rima!
por essa possibilidade do tempo, fico mesmo mais recolhida. ando preferindo silêncios, tento não me irritar, sou capaz de perder mais de meia hora na janela, só observando as nuvens mudarem de lugar no meio do azul. 
é como se o tempo me dissesse lento: 
‘acalma coração! toma sua dose de esperança e vá ser feliz com (c) alma’.
e ele vai… como se sempre valesse a pena.
e porque ele sabe que vale…