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Por Bianca Rolff

 

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca”. (SHAKESPEARE, W. in: Hamlet)

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você. (NIETZSCHE, F. W. in: Além do Bem e do Mal)

 

Dinamarca. Neste país de reconhecimento shakespeariano – uma expressão, aqui, literal –, encontramos após algumas centenas de anos, outra arte sobre a qual é interessante nos debruçarmos: o cinema. E mais especificamente sobre o cinema de um artista da contemporaneidade cujas características se mostram, em si, contraditórias e questionáveis: se ao mesmo tempo este cinema se pode dizer, por muitos, necessário, por seu intrínseco paradoxo e possibilidade de discussão, também se faz bastante plausível cogitarmos se a sua existência acrescenta, de fato, algo à evolução do homem enquanto ser. De Shakespeare para Lars Von Trier, de Hamlet para Dogville e Manderlay, falemos sobre a humanidade. Ou sobre uma visão muito particular e decadente dela.

Tomando como material de análise o cinema de Von Trier, inicialmente voltamos o nosso pensamento à sua criação balizadora da produção cinematográfica: o Dogma 95. Mas não mais do que cinco minutos dos filmes aqui retratados, mais especificamente Dogville (2003), por ser o primeiro, para percebermos que o Dogma é descumprido veementemente por seu criador.  O que vemos é uma grandiosa tentativa de um cinema que ostenta técnica e recursos cinematográficos numa tentativa de englobar outras áreas artísticas.

Dogville é o primeiro de uma inconclusa trilogia crítica aos Estados Unidos da América, que pretende, aparentemente, demonstrar como o homem é o lobo do homem. Neste aspecto, não há dúvidas de que o sadismo paulatino dos personagens de Von Trier ilustra a capacidade do homem de ser mau por mera escolha de caminhos. Entretanto, a crítica a esta humanidade animal se esvai de sentido, na medida em que só o que se vê é um caos completo, sem nenhuma maneira de escape ou visão minimamente libertadora para o futuro da humanidade. Ainda que sua “forte” personagem feminina se valha de todos os seus ideais até o último instante, até mesmo ela sucumbe às mazelas inerentes à nossa pobreza de espírito. Se só há a maldade nesse universo tão meticulosamente construído, onde está a crítica?

E esta visão pessimista e desagradável é estendida por outras duas horas e meia de filme em Manderlay (2005). Entretanto, se em Dogville ainda mantínhamos certa esperança, ou mesmo uma curiosidade com aspectos tanto técnicos (o cenário teatral, a câmera na mão – herança do Dogma 95? –, a montagem visível através de cortes assimétricos e ligeiras repetições dos momentos), quanto narrativos (há em nós torcida quando a protagonista Grace foge de Dogville, acreditando estar se libertando daquele lugar tão pequeno e sórdido, e até mesmo certo contentamento com a vingança final, afinal, a catarse nos é intrínseca), em Manderlay não nos resta nada, senão esperarmos por qual final trágico teremos para os personagens.

Dogville, Lars Von Trier. 2003

Não há, para Von Trier, escolhas além do desastre. Manderlay nada mais é do que um prolongamento do martírio de Dogville, sem nem mesmo inovar na técnica e no modo de se contar a sequência. Inicialmente, podemos dizer que são filmes cujo intuito de incômodo e reflexão se concretizam no espectador, uma vez que nos proporcionam contato com aquilo que de pior temos. Mas para além disso, se fizermos uma análise um pouco mais profunda do que se pretendeu, cinematográfica e humanamente, o que vemos é um vazio de causa, já que nem mesmo uma dualidade dos antagonismos Bem e Mal se coloca de maneira convincente nos filmes. Somos todos lobos, e ponto final. Não há humanidade, apenas oportunidade (aliás, Von Trier acredita em algum momento que haverá, para nós, alguma forma de salvação?). O sadismo visto em seus personagens nos leva a um ponto ainda mais controverso e, se conclusivo, assombroso: o sadismo do próprio cineasta em relação aos espectadores de sua obra. Há uma vontade e uma realização de um martírio em cima de nós, desencadeando a desesperança e a crença de que podemos (devemos, quiçá) desistir. Von Trier cria uma crença perigosa a partir da sua descrença na humanidade.

Manderlay, Lars Von Trier. 2005

Talvez este seja um ponto para refletirmos porque a trilogia não se concretizou até o momento. Ou porque não há mais nada para mostrar, ou porque o autor percebeu a sua falha argumentativa e preferiu não bater na mesma tecla quebrada pela terceira vez. Parece que Von Trier busca uma ilustração cinematográfica do pensamento forte e também negativista de Nietzsche a respeito do homem como ser que precisa dos abismos e das desigualdades para evoluir. Ir além do bem e do mal, significando uma ausência de crença em Deus e de suas proteções aos mais fracos e oprimidos. Mas ao camuflar o seu discurso como crítica à humanidade, Von Trier se afasta de Nietzsche e nos mostra apenas um produto artístico que não visa solução, mas constatação generalizada. Nietzsche, por mais controversas e perigosas fossem as suas elucubrações, via uma evolução humana, ainda que pautada em atitudes que justificariam a nossa Vontade-de-Poder. O que Lars Von Trier faz é uma involução, ao nos colocar num mundo onde há apenas um lado: o do desastre.  Permanece a sensação de que o abismo que nos olha de volta é, ao contrário do abismo de Nietzsche, muito raso.

 

 

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O cineasta que já teve uma experiência anterior com webséries quando lançou Hérois, há quase um ano, explica que há um entrave muito grande para a “popularização” de produtos como esse, que é a distribuição. “Quando a gente faz um filme, a gente tem que pensar, ‘onde vou passar este filme’. Ao menos no meu conceito o filme só existe quando há um telespectador. Eu não posso fazer um filme para ficar guardado no armário ou estocado em algum lugar. Então, preciso fazer com que este produto chegue em algum lugar”, destaca o diretor.

 Ainda segundo o Guto Aeraphe, a Internet é um meio extremamente eficaz para ajudar a contornar esse problema e isto está mais que provado. “A gente tem hoje, algo em torno de 16 milhões de internautas conectados em banda larga, então são pessoas que tem conexão que dá possibilidade de assistir vídeos e se tiver um pouco mais de paciência, vídeos em alta definição”,

O cineasta acredita que a tendência é que este tempo fique cada vez maior até atingir os padrões da TV, que são 40, 50 minutos por episódio. “Por que isso? Primeiro a tecnologia: cada vez a banda está ficando mais larga. A gente tem cada vez mais tecnologia, mais acesso a esta tecnologia, as pessoas estão substituindo seus telefones por smartphones”. “Hoje, para se ter uma ideia, o mercado de smart tvs, que são as TVs conectadas a Internet, já representam 20% de todas as TVs vendidas no país, e elas vão ficam cada vez mais inteligentes”, diz .

Por: Bárbara de Andrade

Ilustração: Diego Gurgel (4° período – Publicidade e Propaganda)

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A websérie ApocalipZe, do cineasta mineiro Guto Aeraphe retrata um Brasil vítima de um ataque terrorista, que deixa poucos sobreviventes e dúvidas no ar. O cineasta conta que existe a possibilidade de uma segunda temporada da trama, que recém estreou. “Nós já estamos buscando parceiros, e o que é melhor, sem depender da lei de incentivo a cultura, com investimento direto”, explica. “Mas, ainda é muito cedo, porque temos que esperar o retorno todo, os cinco capítulos e tudo mais e ver a repercussão disso tudo. E, então, termos números para poder chegar e negociar com os futuros investidores”, destaca Aeraphe.

Segundo o diretor de ApocalipZe os efeitos visuais ou especiais tem certa diferença. “Só pode acontecer no filme se tiver uma função dramática. A partir do ponto que não tem nenhuma função dramática, que está lá por uma mera explosão, para só impressionar o público, na minha opinião, perde a função”, opina. “Então, se um personagem recebe um tiro, se uma ponte explode, ou aparece explodida, se um helicóptero cai, eles têm uma função dramática ali, eles têm uma função de gerar no expectador ao menos uma curiosidade do que vai acontecer”, explica o diretor.

ApocalipZe conta com cinco capítulos de aproximadamente oito minutos cada. Guto Aeraphe afirma que já é um padrão das webséries. “Os webseriados têm que ter um tempo reduzido, porque as pessoas vão assistir de dispositivos móveis. Então, vão fazer isso em horários alternativos, um horário de café, uma fugidinha do trabalho, uma fila de banco”, explica.

Ainda segundo Aeraphe, no caso da websérie ApocalipZe, a questão central da websérie é o inusitado, o inesperado, algo nunca antes imaginado: um ataque terrorista no Brasil. “Os efeitos dentro de ApocalipZe tem esta função dramática, do espanto das pessoas de veem algo que elas nunca imaginavam dentro do país”, afirma. “Elas veem isso sempre fora, na Europa, nos Estados Unidos, sempre tem um ataque terrorista e, no Brasil a gente acha isso distante. Então, a gente resolveu colocar esta cena, deste ataque para poder ‘criar este pânico’”, conclui o cineasta.

Por: Bárbara de Andrade

Ilustração: Diego Gurgel (4° período – Publicidade e Propaganda)