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*Por Camila Toledo

Há algumas semanas, conversei com minha avó por telefone. A voz dela parecia sem esperança de dias melhores, conformada com toda a dificuldade do momento – não bastando todas as que a vida a fez passar. Não nos víamos, pessoalmente, há mais de um mês, por causa da pandemia, e a distância me fez refletir sobre o que fizemos com nosso tempo enquanto podíamos. Parece que a raiva causada pelo isolamento não é, necessariamente, por estarmos presos – quem pode se dar a esse luxo – em casa, mas, sim, porque somos alvejados com verdades dolorosas demais a partir das limitações impostas pelo surgimento dessa doença.

Eu, por exemplo, já fiquei um mês sem visitar minha avó, quando tudo ainda era “normal”. Dava mil e uma desculpas, de que tinha algo mais importante para fazer, quando, na verdade, preferia gastar meu tempo jogando videogame e comendo besteiras a me levantar e caminhar os quinze minutos que separam minha casa da dela, a fim de lhe dar um abraço. Agora que não posso fazê-lo quando eu quiser, porém, isso me incomoda muito.

Penso em como devem se sentir os idosos, privados de envelhecer em paz, como deveriam, por causa de uma doença nova, que os fez de alvo, uma vez que compõem o grupo de risco. Lembro-me ainda mais de pais e mães, avôs e avós de quem não pode parar de trabalhar porque são as principais fontes de renda numa casa onde os idosos não se aposentaram como previam, devido à reforma da previdência, em 2019. Há, também, os que, sem família e sem amparo do governo, saem às ruas para vender as verduras que plantam na pequena horta atrás da casinha de dois cômodos, ou as máscaras feitas com retalhos costurados à mão, expondo-se ao risco de não acordar no próximo dia, para ter o que comer na próxima refeição.

O isolamento é necessário, mas, assim, também, é o cuidado com a parcela mais necessitada da população. Talvez, a situação fosse melhor caso o panorama se revelasse diferente, caso nos importássemos mais uns com os outros e estivéssemos dispostos a lutar por uma causa que – no momento – não era nossa, mas que pode vir a ser. Escrevo isso de uma cadeira giratória suficientemente confortável, num computador suficientemente funcional, sob um teto que me ampara suficientemente da chuva e do sol. Mas, e se fossemos nós os que não têm o suficiente para viver dignamente? É preciso reconhecer nossos privilégios, para não minimizar as dores do outro.

Fui visitar meus avós no dia das mães, junto a minha mãe. Ao contrário dos tios, que, mesmo de máscara, se aglomeraram na casa dela com seus esposos, esposas e filhos, minha mãe preferiu que fôssemos quando a casa estivesse vazia. O que eu não sabia era que minha mãe havia feito essa escolha para – além de resguardar meus avós – ter privacidade e se emocionar em paz. Diante daquela cena, era realmente impossível segurar as lágrimas. Minha avó apareceu do lado de dentro do portãozinho da varanda, de máscara, e a realidade pareceu nos acometer: não haveria abraço naquele dia das mães. Doeu em mim cada fonema do “eu te amo” de minha mãe para minha avó.

O céu daquele domingo enganava, em seu mais puro azul, limpo, claro. Clareza essa que não temos acerca dos dias que virão. O cachorro – Marley, como o do filme, mas chamado por meus avós de Marlêi – queria meu carinho. Minha avó disse que ele sentia saudades de mim. Naquele momento, contudo, achei que ele sentia saudades de gente, uma vez que sempre me estranhava em minhas idas até lá: latia e rosnava como se eu fosse uma completa estranha. Bem… Pensando melhor, parece que Marley, de alguma forma, viu que era eu quem precisava de afeto e fez o que todos deveríamos fazer: reconhecer e se importar com a necessidade do outro, independentemente de ser ou não um estranho.

Tivemos de nos adaptar, de aprender a viver de forma diferente à que estávamos acostumados. Então, por que não procuramos ser a melhor versão de nós mesmos? Ouvimos, por anos e anos, algo sobre “fazer do mundo um lugar melhor”. Parece que, de tanto esperar, o mundo resolveu que era hora, e não há para onde fugir. Agora, mais do que nunca, precisamos uns dos outros porque a guerra é contra um mesmo inimigo, mas a batalha é mais difícil para alguns de nós.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Raphael Segato

Vivemos um dos piores momentos da história do mundo, devido à pandemia da Covid-19, que nos atinge. O isolamento social é a medida adotada, por três ou quatro meses, devido à falta de vacina ou medicamento que combata o coronavírus. Não temos escolha: precisamos e devemos adotar o isolamento. Isso tudo para que possamos proteger as pessoas, e a nós mesmos, ao mudarmos completamente a rotina, os costumes, as obrigações e os hábitos. Muitas pessoas se perguntam o porquê do isolamento social, e se ele é tão importante. Sim, isolamento é a melhor saída.

Um momento bastante delicado, com muitas mortes, pessoas infectadas, mas há aqueles que defendem somente a restrição de pessoas do chamado grupo de risco, pessoas com 60 anos de idade ou mais, ou portadoras de doenças crônicas, como hipertensão. Segundo tal visão, o restante da sociedade deveria retomar a rotina, para que diminua, assim, um pouco do impacto econômico no planeta.

Com o crescente ritmo de infectados em todo o mundo, a quarentena e o isolamento social são fundamentais para vencer a Covid-19 e diminuir o número de casos e de mortes. Se voltarmos ao normal, como ficará o sistema de saúde? Será possível comportar todas as pessoas que se infectarem? Existirão médicos para todas as pessoas? Logicamente, não. Nem mesmo os países mais desenvolvidos – ou melhor, as nações de “primeiro mundo” – aguentariam tamanha demanda de casos. Não existiria leitos suficientes para todas as pessoas.

O argumento de volta à normalidade não tem tratado, com a devida atenção, o problema da velocidade de pessoas infectadas, ou dos custos de atenção à saúde. Ignora-se o fato de que a volta à “normalidade” antes do prazo correto ampliará consideravelmente a taxa de mortalidade, pois maiores serão os processos de contágio e maior a pressão feita pelo sistema de saúde, já que não se trata de grupo específicos, pois o risco é eminente a todas as pessoas.

Os defensores da volta à normalidade querem simplificar algo da realidade dura e agressiva: a Covid-19 não oferece saída fácil, e as vidas social e econômica serão afetadas profundamente. Isso é inevitável. O isolamento social é de extrema importância, pois pode reduzir a contaminação, de modo a que garanta prioridade ao atendimento médico das pessoas que precisam trabalhar, com vistas às atividades sociais necessárias.

Tudo isso é necessário, para que a normalidade possa se reestabelecer o mais rápido possível. Mesmo com a taxa de mortalidade baixa, o risco de contágio é extremamente alto, e não há sistema de saúde que suporte. Ao invés de buscarem a volta à habitual, os defensores da “normalidade” deveriam trabalhar para minimizar os efeitos diretos humanitários e de saúde pública.

Por mais que a taxa de mortalidade seja relativamente baixa, em comparação a outros casos, os impactos sobre o sistema de saúde, e sobre toda a sociedade, são realmente preocupantes, pelo fato de que muita gente será infectada, e não haverá leitos de UTI, equipamentos respiratórios e médicos suficientes para a população.

O número de infectados que precisariam de maior atenção é tão alto que provocaria desorganização ainda maior. O isolamento está sendo feito em virtude da diminuição da curva da epidemia, para que possa reduzir o número de infectados e pacientes graves, e, principalmente, o número de mortos.

O momento, portanto, demanda atenção. E a não pratica do isolamento social temporário pode gerar catástrofe social sem precedentes, e não só social, mas também econômica. Se não for preservada a renda dos trabalhadores e empreendedores, o que é dramático, tudo ficará catastrófico. Não existe saída individual. Como sociedade, devemos buscar a saída juntos, de modo a respeitar o isolamento até que seja necessário.

A Covid-19 apresenta mensagem duríssima, de modo claro e direto: ou mudamos nosso pensamento, e buscamos uma saída em conjunto – ao pensar mais nas pessoas, e não só em si mesmo – ou perdermos a vida coletivamente. Devemos tirar lições deste vastao problema, para que, no futuro, não passemos, novamente, por uma crise tão grave como esta.