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Cleuza Maria Teixeira Reis - Professora e supervisora da rede pública de educação

As aulas online são uma saída para a educação durante a pandemia, mas a rede pública ainda enfrenta problemas com famílias carentes

*Por: Jéssica Reis, Marcelo Duarte e Mariana Aroni

A inesperada pandemia de Covid-19 afetou todos setores importantes do Brasil, e a educação é um dos mais afetados. Segundo a Unesco, estima-se que cerca de 776,7 milhões de crianças e jovens estão sem aula em 85 países que adotaram o isolamento social. Na rede pública os desafios diários, como falta de acesso à internet, à computadores e telefones, têm sido enfrentados pelos professores, que tentam diminuir o impacto no ensino dos alunos.

Novas medidas tiveram que ser acionadas para que o ano letivo pudesse continuar a ser ministrado. A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) preparou uma metodologia integrada com suporte de três ferramentas para utilização de um material construído por professores da própria rede pública para este momento. Os materiais disponibilizados são: o Plano de Estudo Tutorado (PET), o programa de TV Se Liga na Educação e o aplicativo para telefone Conexão Escola.

A professora e supervisora da rede pública, Cleuza Maria Teixeira Reis, pós-graduada em psicopedagogia e especialista em educação inclusiva, falou ao Jornal Contramão um pouco das dificuldades e barreiras que este momento de isolamento social tem trazido para os professores.

 

 Como estão sendo ministradas as aulas para os alunos da rede pública?

As aulas estão sendo ministradas de maneira remota, através da formação de grupos no WhatsApp com cada turma, através do “Conexão Escola”, aplicativo do governo, e pela Rede Minas,com o programa “Se Liga na Educação”. E também, por meio de grupos em facebook, blogs da própria escola, etc

 Quais os maiores desafios que as aulas online trouxeram para a educação? Como está sendo o processo de adaptação para todos os envolvidos?

As aulas online trouxeram mudanças bruscas para o setor público educativo,  levando a mudanças em nossa rotina para que pudéssemos nos adaptar a esta nova versão de ensinar. Quanto ao processo de adaptação, depende do querer de cada um envolvido. Para o servidor público são muitas indagações, principalmente no que se refere à valorização dos nossos serviços. De como se dará isto, já que nas aulas presenciais era preciso ir para as ruas adquirir direitos que nos foram negados. Agora, em casa com a pandemia, a luta só fica nas redes sociais. Quanto às famílias, percebemos uma grande dificuldade de adaptação pois, muitas vezes, a falta de acesso à internet e [baixas] condições financeiras, impossibilitam que o material chegue até elas. Outras famílias não querem saber deste novo jeito, acham que a escola é obrigada a ensinar e não elas.

 Você acha que o sistema de aulas remotas será capaz de suprir as necessidades e trazer um conhecimento efetivo para os alunos?

Acredito que se houvesse uma adaptação melhor por ambas as partes poderíamos à longo prazo, sim. Mas… como temos visto, há dificuldade para chegar naquela criança sem telefone, sem televisão, até mesmo [sem] o que comer em casa. Impossível haver efetividade de ensino diante de tantas desigualdades sociais e educacionais.

 Vocês, professores, diretores e comunidade escolar, participaram da elaboração do material e dos conteúdos que estão sendo ministrados por meio das videoaulas e da apostila da Secretária de Educação? Como foram feitos?

Como professora, não. E acredito que uma parcela muito pequena dos servidores tivesse informações sobre este material.

 Desde o começo do ano letivo de 2020 a rede estadual está em greve. Em meio à greve surgiu a pandemia e, logo em seguida , as diretrizes de isolamento. Você acha que este ano letivo está perdido ou vê saída

Talvez, depende de vários fatores que nos ligam. O problema maior são nossas famílias que não possuem condições de terem telefones com internet, muitas vezes também não querem ter trabalho… Enfim, o novo é sempre difícil, mas o querer sair de onde estamos precisa acontecer de ambas as partes.

 Assim como estudantes, os professores também são prejudicados por falta de estrutura na migração das aulas presenciais para online. Como vocês têm sido afetados?

Com certeza, ambas as partes saem prejudicadas. Principalmente o professor por ser cobrado e não ter condições de pagar a própria conta por atraso do pagamento salarial e continuar ministrando suas aulas. Quanto à mim, sou afetada somente quando a internet não pega na região. Tenho buscado me adaptar.

 Além do atraso nos salários e no décimo terceiro, os professores da rede pública enfrentam ainda a dificuldade de trabalhar com escolas sem estrutura e alunos carentes, que por vezes não têm o básico para estudarem. Como esse cenário tem se agravado neste período de quarentena?

Cenário triste das periferias, onde as condições são precárias e a estrutura familiar sofre com a falta do que comer. Há crianças que iam à escola para se alimentar. Agora, com toda a situação de pandemia, são obrigadas a se virarem pelo pão de cada dia. Ficam sem condições de estudar, não se encaixam ao novo.

 

* A entrevista foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis e do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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Nutricionista e Preparador Físico falam sobre cuidados para manter o corpo saudável 

Por: Amanda Gouvêa e Camila Toledo

A pandemia global do novo coronavírus, fez com que várias pessoas trocassem a sua rotina normal de trabalho pelo “home office” (teletrabalho) e pelo ensino remoto, no caso das universidades. Além disso, essas mudanças também afetaram as formas de lazer e de se exercitar, impactando diretamente na saúde física e emocional de diversas pessoas pelo país.

Muitos estabelecimentos comerciais (bares, restaurantes, academias e afins), estão com funcionamento reduzidos ou fechados, com isso, as pessoas cada vez estão a procura para alternativas de consumo, o que contribuiu significamente para o aumento de pedidos de delivery e, consequentemente, o sedentarismo.

Com o intuito de entendermos as consequências da má alimentação e da falta de exercícios físicos, conversamos com Clara Marcelle, nutricionista que atua na rede pública de Vespasiano, e com o preparador físico da equipe feminina de vôlei do Itambé/Minas, Alexandre Marinho, sobre os impactos e cuidados que devem ser tomados devido ao isolamento social ocasionado pela Covid-19.

Cuidados com a alimentação

Clara, Quais os hábitos que devem ser evitados durante esse período de isolamento social?

CM: Você deve evitar criar “falsos hábitos” Mudar horário do sono, alimentação, trabalho, você mesmo que esteja em casa, tente manter os hábitos e horários, da sua vida habitual antes.

A crise que vivenciamos devido a pandemia da Covid-19 influencia na formação de comedores compulsivos?

CM: O período de quarentena que estamos vivenciado influencia muito na nossa alimentação. Quando estamos em casa e ansiosos nossos hábitos compulsivos afloram, por este motivo é importante tentar manter os horários habituais.

Como se alimentar em tempos de pandemia? Quais alimentos ajudam no fortalecimento da imunidade?

CM: Precisamos ficar atentos a algumas fontes que podem fortalecer nosso sistema imunológico. A vitamina C por pode ser encontrada na acerola, limão, goiaba, caju, laranja, brócolis, pimentão, espinafre, salsinha e tomate. Estas opções podem ser incluídas em saladas, sucos, temperos e consumo in natura. Podemos inserir o Zinco na alimentação através de semente de girassol, abóbora, chia, farelo de aveia, castanhas e nozes – que podem ser adicionadas em vitaminas, sucos, bolos, na preparação de alguma refeição ou consumidas in natura, e carnes em geral. É importante incluir também o Ferro no cardápio, consumindo carnes e vegetais verdes escuros, e Vitamina A, presente nos alimentos alaranjados como cenoura, mamão, abóbora, além de ovos, manga, couve, espinafre, pimentão vermelho, leite e derivados.

Uma boa hidratação é essencial para combater infecções virais, por isso alerta-se para o consumo diário de no mínimo dois litros de água potável evitando assim a desidratação. Lembrando que uma alimentação equilibrada não é cura para o vírus, mas fortalecerá o sistema imunológico.

Com o isolamento social as pessoas tem pedido com mais frequência comida em Delivery. Existe algum tipo de dica pra que isso não afete tanto na saúde das pessoas?

CM: A dica é: se for pedir um Delivery, evite sanduíches, pizzas e outros tipos de massa, dê preferência a pedidos de comidas in natura, frutas, legumes frescos e sucos naturais.

Existe uma forma correta para a higienização dos alimentos?

CM: Sim, a forma correta é: Para cada 1 litro de água, coloque 1 colher de sopa de hipoclorito de sódio (água sanitária), e deixe verduras e legumes imersos nesta solução por 15 minutos. Para produtos embalados, você deve borrifar álcool líquido sobre as embalagens lacradas. Nunca faça isso com embalagens abertas. Caso prefira usar álcool em gel, você deve adicionar um pouco do álcool em um pano limpo e passar sobre toda a embalagem.

Cuidados com o corpo

Alexandre, em meio ao isolamento social devido à pandemia de Covid-19 muitas pessoas só estão saindo de casa em casos muito necessários, então, até atividades simples praticadas no dia-a-dia – como subir escadas no trabalho ao invés de usar o elevador e preferência à caminhada ao percorrer distâncias curtas, por exemplo – foram paralisadas. Como as pessoas podem inserir atividades em seus cotidianos sem sair de casa?

Hoje a gente tem várias opções, os profissionais estão cada vez mais criativos e estão elaborando treinos de acordo com as coisas que as pessoas têm em casa: é possível transformar toalhas em TRX – que é um treinamento de suspensão – amarrando na porta, por exemplo, e (utilizar) principalmente o peso corporal que, com a criatividade de quem está prescrevendo, a gente consegue variar bastante o tipo de estímulo: pranchas, puxadas, flexões de braço, agachamentos são alguns dos exemplos que conseguimos fazer em espaços bastante limitados. É a criatividade de quem prescreve (os exercícios) que vai mandar, pensando também na individualidade para conseguir ajustar essas cargas em função da demanda da pessoa

Qual a importância da mobilidade para quem está trabalhando em home office?

AM: A mobilidade e a flexibilidade são alguns dos pilares do treinamento em casa no período de pandemia, então é fundamental que a pessoa se preocupe com esse tipo de exercício porque a tendência é ficarmos cada vez mais parados. Muitas pessoas estão casa, então os deslocamentos são pequenos e as atividades do dia-a-dia estão cada vez menores.

Quais prejuízos de se ficar muito tempo sentado em uma única posição?

AM: Nada que é exagerado é bom, então ficar na mesma posição pode gerar dores nas pernas, na região lombar, na região torácica. Manter uma mesma posição durante muito tempo é prejudicial em relação à dor e obviamente ao ficar muito tempo sentado você diminui ainda mais o gasto calórico. O ideal é, mesmo dentro de casa, se locomover o máximo possível.

Quais os efeitos do isolamento no corpo de um atleta com a paralisação das atividades dos clubes? E nas pessoas não atletas, qual a diferença?

AM: O atleta tem várias demandas físicas, a qual depende da modalidade. Independente de qual esporte é praticado, as perdas são muito grandes: força muscular, potência, agilidade, velocidade, além de mudanças ruins na composição corporal, ou seja, ele tende a perder massa magra e ganhar gordura. Isso porque o tipo de estímulo que a gente dá em casa está longe de ser o estímulo que ele, o atleta, trabalha no clube com disponibilidade de equipamentos, com a intensidade do treino.

Nós não conseguimos reproduzir isso de uma forma ideal para a demanda de um atleta. Uma pessoa normal, como ela não tem a mesma demanda, tem perdas um pouco menores, mas elas existem também. Se você para de treinar, começa a se alimentar mal – e a tendência é comer mais. Assim, a composição corporal vai variar de uma forma muito ruim, então temos que estar atentos a isso.

O Minas Tênis Clube têm realizado lives no instagram e preparado vídeos no Youtube com exercícios físicos instruídos por seus profissionais de cada área. Qual a importância disso nesse momento?

AM: A importância dessas lives nas redes sociais é minimizar essas perdas que vão ocorrer, não tem jeito, o período é muito extenso. No vôlei feminino, por exemplo, eu dou férias de inatividade de uma semana apenas para as atletas, já estamos estendendo muito o tempo. Se não fizer nada, a perda é muito grande. Então, a ideia dessas lives é minimizar as perdas das capacidades físicas e, no caso das atletas, prepará-las para retornar em uma condição melhor.

Quais os perigos de se fazer um exercício sem a instrução devida de um profissional?

AM: A pessoa adequada, para instruir os exercícios, é o profissional de educação física, porque ele organizará a sua demanda, seus problemas e eventuais lesões. Não recomendo as pessoas pegarem vídeos de blogueiros, porque, estes podem fazer coisas erradas e passando treinos sem ver quem está do outro lado, perdendo a orientação. Fazer qualquer coisa é melhor do que nada? Nesse momento, sim. A orientação é mover-se, mas com cuidado. Temos muitas opções tecnológicas para um preparador físico ou um personal trainer conseguir, virtualmente, ajudar. Não é o ideal, mas conseguimos ajudar sim.

Como está trabalho com as atletas do Minas? Quais as recomendações e dicas você e sua equipe estão passando para as jogadoras?

AM: No momento, não só para as atletas, mas para a população em geral, a gente tem que se exercitar, mas é preciso alguns cuidados. Não é a hora de fazer exercício extenuante, em altíssima intensidade ou exercício muito prolongado. A gente sabe que o nosso sistema imunológico pode sofrer e não é a hora dele estar debilitado.

Exercícios moderados a moderado intenso são mais curtos, via de regra hoje eu recomendo em torno de 45 minutos – talvez um pouco mais, um pouco menos, mas por volta disso. Esse é o principal recado que eu passo para as atletas porque elas acham que, como está parado, tem que se dedicar ao máximo e não é bem assim. Tem que se dedicar fazendo o que é para ser feito, mas com os devidos cuidados. Elas vêm treinando, algumas tem a estrutura própria que facilita (as atividades), e eu personalizo o treino, mando vídeos explicativos com as todas as variáveis do treinamento e, pra quem não tem estrutura, eu passo um treino com peso corporal, utilizando o menor espaço possível. Tudo isso dentro da base que eu disse, que é estimular o gasto calórico, diminuir as perdas das valências físicas, de potência, de força. Então é um pouco nesse sentido.

 

 

*A entrevista foi revisada por Italo Charles e Daniela Reis

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Projeto disponibiliza toda semana dois filmes para o público acompanhar direto de casa

Por Guilherme Sá

Sem poder receber o público em sua sala, o Cine Cento e Quatro, um dos poucos cinemas de rua ainda em operação, disponibiliza através da plataforma online vimeo obras do cinema elogiados pela crítica especializada e premiadas em grandes festivais.

A curadora do projeto Mônica Cerqueira comentou que a ideia nasceu da realocação de uma verba já capitaneada pelo espaço – “Foi uma ideia mais que natural, temos um projeto aprovado pela lei federal de incentivo à cultura e patrocinado pelo BMG, a gente tinha recursos para fazer alguma coisa, pedimos uma readequação ao Ministério tendo em vista essa coisa da pandemia e lançamos esse projeto em março.”

A escolha dos filmes, segundo Mônica leva em conta dois critérios, primeiro a vasta filmografia, no catálogo filmes de países como França, Argentina, Israel, Estados Unidos, Coréia do Sul, Canadá, Brasil e outros, e o segundo, a análise profissional. “Eu leio muito para conhecer o filme, peço lead, mas tento ser o mais abrangente possível, mais universal e mantendo essa coisa do que eu chamo de Outro Cinema, que não seja um filme de apelo estritamente comercial, não que eu tenha algo contra o cinema comercial mas é que esses já tem muito espaço, prefiro os com corte independente, autoral eu diria.” conclui.

A programação tem sido elogiada e repercutido positivamente junto ao público, com cada vez mais acessos, um exemplo é o longa ‘Arábia’ dos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans, rodado em Ouro Preto e vencedor do 50º festival de Brasília, campeão de visualizações no projeto. Segundo a curadora foram cerca de 2600 clicks. Em virtude do sucesso e atendendo a pedidos, a organização adotou a estratégia de re-apresentar algumas obras as quartas-feiras. 

A exibição funciona da seguinte forma: toda quarta e sexta a partir do meio dia fica disponível nas redes sociais e no site do Cento e Quatro o link de acesso e senha para plataforma vimeo, o público tem 48 horas para assistir. 

A programação segue enquanto durar as medidas de restrição de circulação impostas devido a pandemia de Covid-19.

CENTO E QUATRO

Inaugurado em 2009 o espaço de ocupações culturais e eventos abriga cinema, restaurante e galerias multifuncionais. No casarão construído no início do século XX funcionou a primeira fábrica industrial da nova capital. Localizado no coração de Belo Horizonte, perto da estação central e o CRJ (Centro de Referência da Juventude), o edifício é tombado pelo poder público e integra o conjunto arquitetônico e paisagístico da Praça da Estação. 

Acesse as redes sociais do Cento e Quatro e fique por dentro: 

Instagram Facebook

 

 

* Matéria supervisionada por Italo Charles e Daniela Reis

 

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Por: Thainá Andressa Hoehne

Quem nunca sentiu extrema revolta diante do anúncio de um fenômeno completamente raro e incrível no céu, para, na hora “H”, nada existir além de nuvens pairando, cobrindo toda a expectativa?

Inesperadamente, quando a gente não se dá conta do que está por vir, somos pegos de surpresa, como na chuva de meteoros que inundou o céu em dezembro de 2019.

“Observadores poderão ver de 50 a 150 meteoros por hora, dependendo do local”, dizia a manchete. Com razão, não me preocupei em me programar para o show, já a imaginar que, mesmo se esperasse a hora exata, não seria capaz de ver algo, fazendo a notícia cair, rapidamente, em esquecimento.

Contudo, numa madrugada qualquer, sem motivo algum, me levanto entre as duas e três da madrugada e decido tomar um ar. Foi o que fiz. O “ar que fui tomar”, aliás, foi todo embora quando me peguei a observar vários pontos luminosos caindo do céu. No momento, nem me dei conta de que acabara de presenciar algo que já havia sido noticiado. Ao me recordar da notícia, só pensava que, se tivesse planejado, não daria tão certo. Vejo meteoros, logo existo.

Chuva de meteoros não é como nos filmes. Para quem já viu estrela cadente, basta imaginar várias delas caindo ao mesmo tempo. Nada absurdo, mas totalmente surpreendente. Um encanto sutil, que gruda na cabeça, como o flagrante de um momento único, que dificilmente se repete. Aqueles momentos que gostamos de viver, sem sombra de tédio.

Por falar em tédio, estamos, agora, imersos numa pandemia. A humanidade está amedrontada com o novo coronavírus, e, com certeza, o Brasil nunca esteve tão entediado, sem futebol, sem festa e sem buteco. Álcool? De preferência, em gel, e 70%! Ou para espantar o tédio de ficar em casa, afinal, devemos respeitar o isolamento social.

Acontece que, numa dessas, decidi ir a um monte, para assistir ao pôr do sol. Uma montanha bem alta, que serviu como opção para sair um pouco de casa, já que, mesmo antes da pandemia, eu ia até lá para me isolar. Ao cair da noite, as estrelas começaram a se mover, numa imensa fila, que parecia infinita. Quando as primeiras estrelas sumiam na escuridão, outras tantas apareciam, enfileiradas e brilhantes.

Boquiaberta, olhava para o céu, a imaginar soluções para a incógnita em minha cabeça, que iam de óvnis a um exército alienígena. Decidi procurar informações sobre o que poderia ser aquilo. Mal esperava que se tratava de, nada mais, nada menos, do que Starlink. Conversa de doido? Não! Era só eu, novamente, caindo de paraquedas num desses eventos que ocorrem no céu, sem mesmo saber do que se tratava.

Paralelamente à grave situação que o mundo enfrenta, um projeto do bilionário Elon Musk cruzou o céu do Brasil, como um trenzinho de estrelas, enganando muita gente, inclusive eu, que me sentia como uma senhorinha do interior a observar, pela primeira vez, a passagem de um avião.

Eram mais de sessenta satélites, cuja visibilidade é relativamente rara, já que a Starlink só pode ser vista, a olho nu, durante as três ou quatro semanas seguintes de seu lançamento. Futuramente, se tudo der certo, o projeto pode chegar a quarenta e dois mil satélites lançados, que circundarão a órbita terrestre  formarão um sistema global que poderá fornecer internet de alta velocidade, inclusive, a áreas rurais ou remotas.

Confesso que, após a descoberta do plano de Elon Musk, fiquei dividida. Por um lado, a humanidade se afunda em notícias ruins, assolada pelo número assustador de mortes pela covid-19, que parece não ter solução. Ao mesmo tempo, admiro a incrível capacidade humana de investir na ampliação do acesso à internet.

Em contrapartida, muitas pessoas não terão a oportunidade de olhar para o céu e presenciar algo tão benéfico à humanidade, já que estão vivendo um caos, que, em parte, pode ter sido gerado por nossa dificuldade em encontrar soluções que possam salvar vidas – ou, quem sabe, pela falta de investimentos bilionários em pesquisas da saúde.

Experimento a sensação de estar presente entre a calamidade e o brilho da nova era tecnológica. É como estar entre a vida e a morte.

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Por João Paulo Rocha

Com a proibição de shows e eventos, que causam aglomerações de pessoas, muitos cantores, dos mais variados estilos, investem em lives, feitas, principalmente, em seus canais no YouTube. Nesta época de shows ao vivo via internet, os cantores sertanejos têm se destacado: além de apresentar seus maiores sucessos, têm feito um trabalho social importantíssimo, em período economia “fechada”.

Na maioria da lives sertanejas, capazes de atingir milhões de espectadores, além de cantar, os artistas arrecadam milhares de doações para projetos sociais, como cestas básicas, frascos de álcool em gel, mascaras e diversos outros insumos indispensáveis durante a pandemia. Os shows são patrocinados por grandes marcas, e alguns festivais, que reúnem várias duplas e cantores, fizeram versões online, da casa dos músicos, de modo a que todos sempre mantenham o isolamento recomendado pelas autoridades de saúde.

Certos artistas, porém, têm sido criticados nas redes sociais, pelo excesso de bebida e de espontaneidade que demonstram durante as apresentações. Alguns chegam a ficar completamente embriagados, o que chamou a atenção do Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária (Conar), que abriu processos, contra eles, por suas atitudes.

Em partes, o órgão está certo ao obrigar os artistas a alertar, durante os shows, sobre a venda de bebidas para menores de 18 anos, e sobre a importância de não dirigir se tiver bebido. Contudo, obrigar os sertanejos a parar de beber durante a realização da live, sob o risco de suas apresentações serem derrubadas, é uma atitude, no mínimo, desnecessária, pois eles irão beber de toda forma.

Para além de levar música e entretenimento a quem está de quarentena em casa, inúmeras pessoas têm sido beneficiadas, por causa das numerosas doações e da solidariedade deles. Particularmente, não me importo com o tanto que bebem durante as lives, desde que incentivem a moderação e digam não ao consumo de menores de idade e de quem for dirigir. No mais, podem beber o quanto acharem necessário, pois estão em suas casas, são maiores de idade e responsáveis pelo que fazem.

Por fim, a espontaneidade que demostram é importante para a diversão que tanto buscamos neste isolamento social. Independentemente da bebedeira, os sertanejos têm dado um show de solidariedade e entretenimento, fazendo-nos esquecer, mesmo que por alguns momentos, da complicada situação em que estamos.

 

*O artigo foi produzido sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.

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*Por Dara Alamino

Domingo, 05 de julho.

Na verdade, já são 06, 1h05 da madrugada.

Hoje, tirei aquele característico cochilo das tardes de domingo da tradicional família brasileira. A última vez em que fiz isso? Sinceramente, não sei. Dormi tão de mau jeito que meu ombro esquerdo está doendo bastante. Com qualquer mínimo movimento, meu pescoço faz questão de me lembrar de todos os nervos que passam por ele.

Acordei com a boca aberta, sem noção de qual horário é e de onde estava. Demorei alguns segundos para me localizar, e demorou pouco tempo para que percebesse que eu sentia, no braço, uma das piores câimbras da minha vida. A sensação era terrível: muita dor e um incômodo surreal.

Dava pra ver como as tranças marcaram muito minha pele, e, sem querer, algumas ficaram enroladas em meu pescoço. Um dia, isso ainda vai me matar sufocada. Ao mesmo tempo em que sentia a dor e o incômodo, não conseguia, de jeito nenhum, fazer com que meus braços se movimentassem de acordo com os comandos dados por meu cérebro.

Demorou alguns minutos para que eu conseguisse fazer pequenos e superdoloridos movimentos.

Por ter dormido de dia, agora à noite, não estou com tanto sono, como de costume. Normalmente, sou muito boa em dormir em menos de dois minutos após me deitar. Lembro-me de ter almoçado com a minha família, um almoço tradicional, regado a vinho, caipirinha e cerveja. É um costume, e quase uma regra, para nossos almoços de domingo. Depois dele, vim ao quarto e fiquei um pouco na janela, a sentir o ventinho frio e a pensar em vários nadas, em absolutamente nada.

O bairro onde moro se chama Heliópolis, e é conhecido como “a cidade dos ventos”. Dizem, por aí, que “hélio”, em grego, significa “ventos”, e que “polis” quer dizer “cidade”. Isso explica por que venta tanto aqui. Contudo, nunca apurei, ao certo, esse fato. 

A ideia de pegar o computador, a essa hora da madrugada, veio quando saí da janela e fui para a frente do espelho. Fiquei um bom tempo me olhando de corpo inteiro, e com vários pensamentos. Pensamentos aleatórios, impossíveis de escrever na ordem cronológica.

Pensei no quanto amo minhas tranças, extremamente longas, e no quanto amo o fato de elas terem me libertado de um padrão estético absurdamente prisioneiro. Pensei nas prisões que ainda hoje carrego.

Pensei no quanto amo ter um namorado na quarentena. Pensei no quanto engordei desde que fui obrigada a me isolar em casa, após perder um emprego no último ano de faculdade. Eram 10 kg a menos, que ficam bem nítidos em fotos antigas. Pensei no quanto o “interno” pode se refletir no “externo” – mas observei bem as marcas, cicatrizes e tatuagens que já fiz ao longo da vida. Lembrei de muitas coisas que já passei e passei. 

Pensei no quanto, hoje, tenho consciência de não me prender em padrões estéticos, mesmo que me incomodem, muito, meus quilos a mais. Aliás, foram resultados de dias de desequilíbrio, o principal fator com o qual devo me preocupar.

Pensei no quanto acho meu corpo bonito, mas buscando defeitos, e não qualidades, em fotos que tiro, e em roupas que uso, principalmente, as muitas que já não servem mais.

Pensei, também, que tenho feito atividades físicas em casa, e me alimento melhor. Penso, contudo, se o faço para meu bem-estar, ou se, na verdade, seria para tentar, mesmo que inconscientemente, ter aquele corpo antigo,.

Pensei no quanto cresci como mulher. Pensei, também, no quanto é forte saber que já sou uma mulher, e não uma menina que sonhava muitas coisas, mas, ao fim, sabia que não iria conseguir conquistar nem metade.

Pensei no quanto essa menina estava enganada e, hoje, coleciono experiências que nunca imaginei viver.

Pensei se a menina de 10 anos atrás realmente teria orgulho da mulher de hoje, ou se iria se decepcionar pelos “ene” planos que não deram nada certo ou pelas “ene” vezes em que fiz papel de trouxa.

Pensei no quanto tenho muitas coisas a fazer de faculdade, mas não consigo ter energia, vontade e cabeça para tal.

Pensei no quanto estou com (muito) medo real de morrer nessa quarentena.

Pensei no medo de perder alguém que amo para esse coronavírus.

Pensei no quanto senti a falta de meus amigos nessa quarentena. Mas pensei, também, no quanto não ando tendo paciência para ficar nas redes sociais, para dialogar por WhatsApp ou realizar qualquer outra interação digital.

Enfim (pela segunda vez no texto, este enfim!)…

Deu para pensar em muita coisa, em um intervalo de pouquíssimos minutos me olhando no espelho. O silêncio da madrugada e a solidão da quarentena têm despertado diversos sentimentos e humores em mim.

Os pensamentos estão a mil! Mas sabe no que pensei agora? Por que, à tarde, não tiro outros tantos e tantos cochilos?

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr.