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Pandemias

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Por Flávio Figueiredo, Patrick Ferreira, Tales Ciel e Tawany Santos

A atual pandemia da Covid-19 tem gerado muitos debates sobre a gestão dos governos diante do controle da doença. Hoje o Contramão traz uma matéria especial para outras crises sanitárias em nosso país.

O mundo já passou por inúmeras crises sanitárias globais e a Covid-19 tem se mostrado a mais grave que as gerações atuais já viram. No século XX, os governos precisaram enfrentar desafios em quatro graves doenças que assustaram as pessoas: a gripe espanhola, a AIDS, a gripe suína e agora, a Covid-19. Relembre como foram as gestões dos governos diante das crises.

Pandemia da gripe espanhola – 1918/1920

Gripe Espanhola também foi tratada com negligência no Brasil

De origem misteriosa, a Gripe Espanhola foi uma pandemia que ocorreu entre os anos de 1918 e 1919 atingindo todos os continentes deixando uma marca de no mínimo 50 milhões de mortos. Não se sabe ao certo em qual país a doença surgiu, mas existem suspeitas que tenha sido na China ou mesmo nos Estados Unidos, onde se tem os relatos dos primeiros casos.

Pesquisas da época identificaram que o vírus da gripe espanhola era uma mutação do vírus Influenza (H1N1), que se espalhou das aves para os humanos fazendo suas primeiras vítimas em uma instalação militar no Kansas (USA) em meio às movimentações das tropas no período da 1ª Guerra Mundial, impactando de maneira direta países que participaram desse conflito.

Naquele tempo, assim como recentemente com o Coronavírus, houve negligência por parte de autoridades, Woodrow Wilson presidente americano da época (1856-1924) além de não notificar os demais países da existência do problema, censurou a imprensa para que as mortes não fossem noticiadas, bem como as demais autoridades participantes do conflito não divulgaram as informações em seu país, ficando assim a Espanha que não estava diretamente ligada ao conflito incumbida de trazer as notícias sobre a doença e por isso ela ficou conhecida como Gripe “Espanhola”.

No Brasil, a Gripe Espanhola fez números catastróficos, os dados mais exatos vinham do Rio de Janeiro, a capital da República na época. Estima-se que a doença fez cerca de 15 mil óbitos entre os meses de setembro a novembro de 1918, devido aos recursos escassos e à falta de conhecimento sobre a doença, autoridades da época demoram muito a tomar as primeiras atitudes e ajustar ações e criar medidas efetivas contra a enfermidade.

Naquele tempo, assim como atualmente, algumas das medidas que foram tomadas consistiam no distanciamento físico, uso de máscaras e restrição às aglomerações. No início, a doença foi tratada como piada pela mídia da época, quando Carlos Seidl, então diretor-geral de Saúde Pública, cargo hoje competente ao ministério da saúde, falou sobre a doença e não foi ouvido por muitos. A situação ficou insustentável após ataques da mídia que fizeram Seidl renunciar ao cargo.

Após o acontecido, coube ao médico carioca Theóphilo Torres assumir o posto de diretor-geral de Saúde Pública convidando o também médico e pesquisador Carlos Chagas para assumir as ações de combate à gripe espanhola junto a ele. Em diferença aos tempos de hoje os governantes da época, não foram contra as ações tomadas pelo diretor-geral de Saúde Pública e quanto menos fizeram propagandas de medicamentos ineficazes a doenças.

A pandemia do HIV/Aids – 1981/atualmente

Governos começaram a criar campanhas de conscientização e prevenção ao HIV

Em anos anteriores à década de 1980, uma doença acometia muitos jovens, causando sintomas que não eram uniformes. Alguns tinham complicações como uma pneumonia, uma tuberculose, ou um sarcoma, uma doença de pele, que de forma avassaladora os levava até à morte. Mas foi em 1981 em que foi catalogada, a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) causada pelo vírus HIV. Ele ataca matando as células de defesa (CD4) deixando a pessoa sem imunidade para vários tipos de doença.

Mesmo 40 anos depois, ainda é uma pandemia ativa, porém com tratamentos muito eficazes em que a pessoa vive de forma plena, sem nenhum comprometimento na saúde caso siga corretamente tomando as medicações devidas. O Brasil é referência mundial no tratamento à pessoa vivendo com HIV. Porém, o mundo nos anos 1980, fez vista grossa a essas pessoas, por conta dos infectados e mortos serem principalmente homossexuais. O preconceito fez com que a AIDS se tornasse também uma doença social.

O Brasil não tinha nenhum tratamento no início de tudo. A partir de 1987 que surgiram os primeiros recursos, onde em 1996 deu-se um passo maior, onde a ciência descobriu que uma combinação de medicamentos antirretrovirais, conhecida popularmente como “coquetel”, que era capaz de controlar a multiplicação do vírus, em média eram até oito comprimidos. A partir de 2017, entre um e três comprimidos apenas já são capazes de controlar. Também há como prevenção a PREP (Profilaxia Pré-exposição), onde a pessoa toma regularmente um medicamento que impede a infecção pelo HIV e a PEP (Profilaxia Pós-exposição) que após uma situação de risco, a pessoa pode tomar um medicamento para impedir que o vírus infecte o organismo.

O papel dos governos brasileiros na prevenção e tratamento da AIDS sempre foi satisfatório, apesar das dificuldades biológicas e preconceitos. A partir de 1987, o governo de José Sarney se voltou ao incentivo do uso de preservativos e os “perigos” que as práticas sexuais e uso de drogas guardavam, até que em 1990, no governo de Fernando Collor, intensificou as campanhas educativas muito polêmicas. Em determinado comercial, quatro pessoas deram um depoimento, sendo três de outras doenças e um de AIDS, onde este dizia que a doença dele era incurável e vinha um slogan: “Se você não se cuidar, a AIDS vai te pegar!”. Isso causou muita revolta de grupos ativistas da época por discriminar e estigmatizar a pessoa que estava com a doença. O governo de Collor foi marcado pela indiferença com a epidemia que com a crise fiscal, congelou preços e salários, porém autorizou o aumento em todos os medicamentos de tratamento à doença.

A abordagem do governo de Fernando Henrique Cardoso foi de mais leveza. Deram atenção mais devida às pesquisas e descobertas e passaram a fazer uma campanha mais leve onde incentivava o sexo seguro, para proteção de quem ama, tirando o teor terrorista de anos anteriores. Foi nesta época onde surgiram os primeiros tratamentos mais eficazes e mais pessoas puderam se tratar.

O governo Lula seguiu a favor do tratamento à AIDS, chegando a cometer um ato histórico. A primeira quebra de patente de um medicamento no Brasil. O então presidente Lula decretou a quebra do Efavirenz, do laboratório americano Merck Sharp&Dohme, usado no tratamento da AIDS -e ameaçou repetir a medida com outros fabricantes se considerar que os preços praticados são injustos. O governo Dilma seguiu com medidas semelhantes, acompanhando as evoluções da ciência.

O HIV/AIDS ainda persiste nos dias de hoje. Várias evoluções ocorreram, incluindo testes de uma vacina no Brasil e até mesmo um tratamento de cura desenvolvido pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), onde um paciente vivendo com HIV, com a junção de várias drogas ficou por 17 meses sem replicar o vírus no organismo. Porém, o governo Bolsonaro segue indiferente com as conquistas. Não há investimento para a pesquisa e Ciência, já manifestou preconceitos em falas como “A pessoa que vive com HIV, além de ser um problema para ela, é um gasto para o país”. Se mostra contrário a tudo que favorece a população LGBTQIA +, que embora não seja mais a maioria que é infectada (58% dos infectados hoje se declaram heterossexuais) segundo dados do Ministério da Saúde). Apesar disso, as pessoas que vivem com HIV recebem um acolhimento adequado pelo SUS. Os medicamentos, exames são gratuitos e recebem até mesmo assistência social e psicológica para manter a vida mais plena possível.

Pandemia H1N1 – Gripe Suína -2009/2010

Em 2008, o ex-presidente Lula (PT) e o então governador de São Paulo, José Serra (PSDB), se uniram para divulgar campanha de vacinação em massa contra a gripe.  Foto: Ricardo Stuckert

A Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou o estado de pandemia moderada para a Influenza A (H1N1) em 11 de junho de 2009, após os casos se espalharem por países da América, Europa e Ásia. Contudo, os primeiros casos de gripe suína já haviam sido registrados um ano antes, no México. Dados da Organização mostram que  foram diagnosticados 504 mil casos da doença e cerca de 6.300 mortes. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou entre os anos de 2009 e 2010, 44.544 casos e 2.051 mortes. O estado de pandemia foi encerrado em agosto de 2010 após estudos reconhecerem que a doença estaria sob controle e passaria a se comportar como outras enfermidades localizadas.

Na época, o país apresentou um comportamento ativo no combate à pandemia e se consolidou como a nação que mais vacinou cidadãos pelo sistema público no mundo. A imunização contra o vírus H1N1 começou em março de 2010. O plano de vacinação definido pelo Ministério da Saúde contemplou cinco grupos prioritários para a vacinação: indígena, gestantes, portadores de doenças crônicas, crianças entre seis meses e dois anos de idade e jovens com idade entre 20 e 39 anos. Diferentemente da Covid-19, os idosos não eram considerados grupo de risco.

Sob o governo de Lula foram mais de 100 milhões de pessoas vacinadas. Destas, 88 milhões em apenas três meses. A ideia do Governo Federal era conter uma “segunda onda” de casos da doença no outono e no inverno. A fim de combater os boatos que colocavam em dúvida a eficácia e a segurança dos imunizantes, o governo também lançou uma campanha contra essas fake news. Como resultado, mais de 45% das pessoas foram vacinadas. Nenhum lugar do mundo imunizou tanto quanto o Brasil.

Pandemia COVID-19 – 2020/atualmente

Manaus 06/05/2020 – Cenas dos leitos semi intensivos do hospital Platão Araujo sob responsabilidade do Governo de Manaus. Foto Jonne Roriz/Veja

O surto de vírus do Covid-19, nem precisa de introduções, completando agora quase um ano e quatro meses de crise infectológica no país. E de acordo com um estudo australiano, o Brasil é o país que pior lidou com a pandemia. Esse levantamento foi feito com base em análises com mais de 100 nações sob critérios como casos confirmados, mortes e capacidade de detecção da doença. Segundo dados, adicionalmente, do consórcio de imprensa, o país possuía, até janeiro de 2021, quase 9 milhões de infecções confirmadas e 220 mil mortes, para uma população de 209,5 milhões de habitantes.

Esses números são ainda mais indignantes quando olhamos para os países que sofreram intensamente nos primeiros meses de pandemia, como a própria China, onde tudo começou, a Itália e Espanha, têm visto suas infecções despencaram, as do Brasil continuam a subir. De acordo com a maior pesquisa feita sobre o surto em terras tupiniquins, de Darlan Candido, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, é possível que as infecções tenha vindo de muitas mais fontes internacionais, o que indica que a movimentação dentro do país pode ter sido um contribuinte para a disseminação do vírus.

“Quando as diminuições de mobilidade foram impostas, houve uma queda importante do R0, que chegou a menos de 1 em São Paulo entre 21 e 31 de março, no início do isolamento social. Só que, depois dessa redução, o número subiu de novo, estimulado pela diminuição na adesão à quarentena. ”sumariza a jornalista Chloé Pinheiro, em reportagem da revista Saúde Abril.

Na análise australiana, elaborado pelo Lowy Institute, na Nova Zelândia, aponta que, por exemplo, nos países europeus, um comportamento similar ocorreu. “Isolamentos sincrônicos (…) conseguiram parar a primeira onda [de infecção], mas as bordas abertas deixaram os países vulneráveis para renovação de surtos em países vizinhos [tradução nossa].”. Ou seja, o primeiro passo para o controle da pandemia seria o isolamento social e fechamento das fronteiras e aeroportos, coisas que não aconteceram no Brasil. Aqui, cada estado foi deixado, por abandono do supremo, a si próprio, muito como os Estados Unidos no início de seus contágios.

Segundo dados da Universidade Johns Hopkins, os Estados Unidos registraram 33.478.513 casos e 600.935 óbitos, até junho de 2021. Assim como aqui, um governo negacionista, deixou os estados por conta própria e minimizou a gravidade da doença e a importância de medidas de prevenção – como o uso de máscara e o distanciamento social. O ex-presidente, Donal Trump.

Porém, após a troca de presidentes e um plano de vacinação, a média semanal de mortes pela Covid-19 nos EUA caiu em quase 90% do pico em janeiro. O país, que ocupa, por enquanto, o maior número de mortalidade pelo vírus do planeta, fechou suas fronteiras oficialmente em 2020 e começou a reabertura gradual já em setembro do mesmo ano. De acordo com a Hopkins, a campanha de vacinação em massa teve um grande impacto na redução das mortes. Em dezembro de 2020, o país começou a vacinar seus cidadãos e, desde então, de acordo com a universidade, cerca de 44% da população americana já recebeu as duas doses e, por consequência, o número de mortes caiu 18% e o número de internações por infecção pelo coronavírus também baixou 28%.

Já no Brasil, as mesmas campanhas anti-ciência continuam e os casos só aumentam. Em entrevista para a revista Saúde Abril, o pneumologista Fred Fernandes faz uma análise das relações humanas e como foram afetadas pelo Coronavírus. Quando questionado sobre a situação no Brasil, Fernandes destacou a falta de coerência no discurso sobre a doença, citando como exemplo a situação em que o presidente falava uma coisa e os médicos outra. Isso fez com que a população ficasse perdida e diminuindo a eficácia das orientações médicas.

“Quando falamos do uso da cloroquina, por exemplo, isso não está baseado em evidência científica.”, ele cita. “Tem muita gente advogando a favor da cloroquina logo na fase inicial e em indivíduos de baixo risco. Mas trata-se de uma medicação que traz efeitos colaterais conhecidos. E isso pode fazer mais mal que bem.”

 

Edição: Daniela Reis