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Por Keven Souza

Pertencer à área urbana é estar suscetível, a todo tempo, a constantes mudanças e transformações que como em qualquer outro lugar há sempre adeptos e críticos com o ritmo acelerado. Porventura, iniciar um estilo de vida saudável com o objetivo de diminuir o sedentarismo causado pela rotina agitada, não só garante o bem-estar, como também torna popular a integração branda da natureza nos centros urbanos. 

Pensando nesses hábitos salutares, o Laboratório Ecossistêmico Interdisciplinar de Aprendizagem (LEIA) foi um projeto de extensão sediado pelo Centro Universitário Una, que reteve o objetivo de inserir o “verde” da natureza em ambientes constituídos majoritariamente por concretos. A iniciativa focada na agricultura coletiva e em contraposição a áreas ociosas, promoveu saúde alimentar e qualidade de vida por meio de hortas urbanas sustentáveis desenvolvidas como um modelo funcional e compacto em espaços do cotidiano que, em suma, não possuíssem utilidade.     

O projeto LEIA se propôs a engajar na saúde da comunidade através da gestão coletiva de técnicas agroecológicas e inovadoras ao lado de parceiros e alunos, se tornou um projeto de sucesso que reverbera, até hoje, além da instituição com ações que não só obedecem aos cuidados de preservação do meio ambiente, como também fomenta o contato com a natureza. 

 

O início

O laboratório nasceu a partir de uma pesquisa de mestrado sobre sustentabilidade gastronômica, via projeto de extensão, liderada pela professora de gastronomia da Una, Rosilene de Lima Campolina, também idealizadora da mostra acadêmica “GastroUna”, como fruto de estudos científicos e desenvolvimento local. 

Desde sua estreia em 2016, foi pensado como um grande “guarda-chuva” de saberes plurais que abrangesse tanto um laboratório social, quanto um espaço experimental com foco educativo e ecológico. O LEIA foi o primeiro projeto a implementar uma horta urbana sustentável em Belo Horizonte, sendo idealizado pelas educadoras Rosilene Campolina, Luíza Franco, Edimeia Ribeiro e Gabriela Schott

Como público-alvo integrou alunos e funcionários da Una, e de forma brilhante chegou a conquistar a comunidade local, além de estudantes de outras universidades, que com atuação mútua, totalizaram cerca de trezentos participantes ativos no projeto situados na Cidade Universitária, no terraço da Una campus João Pinheiro II. 

Canteiros do LEIA no terraço do JP II a partir do reaproveitamento de caixas e embalagens de bacalhau.

O laboratório partia da premissa de não se restringir somente ao ambiente acadêmico. As oficinas e ações giravam em torno dos pilares da educação – ensino, pesquisa e extensão. Nesta perspectiva, um dos objetivo era orientar a comunidade sobre práticas sustentáveis por meio da gestão de resíduos orgânicos e inorgânicos com eixo na educação alimentar e no combate ao desperdício, oferecendo técnicas e métodos sobre cultivo, construção e manutenção de canteiros e plantas através das hortas implantadas.

Dentre as principais atividades desenvolvidas, as oficinas “mãos na massa” com construção de canteiros e o “mãos na terra” com a manutenção do espaço LEIA da Una, duravam há cerca de uma e meia com ensino sobre conceitos de arquitetura urbana, agroecologia, compostagem, agricultura familiar, soberania alimentar, aspectos nutricionais dos alimentos e dicas para elaboração de receitas culinárias. Além disso, cada participante possuía seu próprio vaso de tempero, legume ou hortaliça disponibilizados para as atividades. 

Na visão de Rosilene Campolina, que é mestra em Sustentabilidade Gastronômica e foi capitã do projeto, a proposta de usar espaços ociosos em locais otimizados pela sustentabilidade é excepcional para o estudo e desenvolvimento de novas tecnologias que viabilizem reduzir o lançamento de resíduos inorgânicos no meio ambiente. “O Projeto de extensão demonstra o potencial de se tornar um modelo de sustentabilidade para a educação e a integração, o que permite ser exemplo para comunidade por meio do incentivo social”, explica. 

A missão de implementar as hortas era exclusivamente para qualificar a comunidade em relação à manutenção e autogestão de hábitos sustentáveis. O incentivo da criação de feiras de orgânicos e espaços verdes de convivência, gerou transformação social e auxiliou na saúde alimentar de inúmeras pessoas por meio da arquitetura familiar com foco no Slow Food e na produção coletiva. “Foram muitas conexões que, até hoje, reverberam pela cidade em ações que ‘beberam’ na fonte do laboratório. Uma ação incrível que propôs a sistematização sustentável em áreas disponíveis no contexto urbano, tais como os terraços, quintais, parques, jardins públicos, entre outros” ressalta Rosilene, sobre a importância das ações.  

Em seu escopo, a interdisciplinaridade é um dos pilares pensados para desenvolver atividades educativas que estimulavam a participação de diferentes cursos da academia no mesmo propósito – a otimização de espaços ociosos em processo da biodiversidade – que por meio de oficinas e workshops sobre tecnologia sustentável, construtiva e inovadora funcionava com colaboração de alunos dos cursos de gastronomia, arquitetura, nutrição, comunicação, moda e biologia.

Gabriel Benzaquen Magalhães, que está no décimo período de arquitetura e urbanismo e envolveu-se na extensão no ano de 2017, diz que sua participação ativa e engajada, há cerca de um ano na extensão foi imprescindível para ampliar seus conhecimentos sobre a ecoarquitetura. Uma ciência que procura fortalecer cada vez mais projetos arquitetônicos que minimizem o impacto ambiental e prospectam a sustentabilidade. Participar e aprender foi bastante enriquecedor, foi fundamental para entender o que funciona e às vezes não, é ter uma noção real do quão importante é a construção dos mobiliários de forma ecológica. De fato, fica a lição de que, com um pouco de dedicação e pesquisa, é possível se fazer muita coisa de forma sustentável e econômica”, afirma ele. 

Suas ações eram destinadas a desenvolver projetos e layouts que fossem práticos para quem frequentava o espaço do LEIA. O processo era estudar e desenhar os projetos a serem construídos, planejar os insumos e materiais a serem utilizados ou reutilizados, arrecadar materiais em uma articulação voltada à gestão de resíduos, mapear as espécies a serem cultivadas, aleḿ de pensar nas formas de replicar os projetos em outras áreas. Porventura, sua equipe ficou encarregada de elaborar um móvel para o armazenamento de mochilas com materiais recicláveis para a execução. 

Ele explica que, observa a colaboração coletiva como um instrumento poderoso que transforma os meios e as diferentes realidades sociais que existem na área urbana. “Quando várias pessoas se unem em prol de um mesmo objetivo, tudo se torna mais possível de se realizar. E esse é o legado do projeto para mim. É saber que existem iniciativas que vão além da sala de aula e minha trajetória foi ótima, pude fazer amizades, aprender coisas diferentes, ajudar pessoas e construir uma visão mais ampla de tudo que a arquitetura e o trabalho em equipe podem construir”, ressalta Gabriel.

Aula de Ecogastronomia com os alunos colhendo ora-pro-nóbis nas hortas do LEIA no terraço Una JP II para aula de Cozinha Brasileira.

A ascensão da sustentabilidade nos espaços urbanos se tornou um modelo viável para atrair atenção dos jovens a espaços verdes e como resultado positivo, por causa do LEIA, existe a contínua conexão entre todos que acreditam na transformação do meio em que se vive por meio de uma postura ambientalmente sustentável. Para Hemanuel S. De Carvalho e Tomás, gastrônomo formado pela Una e mestre em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local, o projeto, no ano de 2016, foi objeto de estudo para sua pesquisa que tinha o propósito de compreender a capacidade dos discentes em despertar e potencializar ações sustentáveis nos meios produtivos agrícolas, o que significa que observou o desenvolvimento profissional dos estudantes de gastronomia através do LEIA.

“O projeto foi o instrumento pelo qual pude compreender que a alimentação não é o ato de comer. Através dele entendi que alimentação é um ciclo, que começa no campo, e que não termina na mesa do comensal, uma fase produtiva de caráter agrícola que é o início, para que possamos nos tornar cidadãos conscientes e acima de tudo questionadores. Visto que a alimentação é um dos mais importantes traços culturais de todos os seres”, explica. 

Segundo ele, ingressar como extensionista trouxe momentos marcantes, um específico aconteceu na oficina de “mãos na terra”, em que pôde participar ao lado de uma senhora de idade, também extensionista, que por um acaso lhe ensinou muito sobre as plantas que têm potencial alimentícias não convencionais (PANCs), afinal desconhecia esse cultivo de desenvolvimento espontâneo. E a partir deste episódio compreendeu o projeto como um lugar feito de conexões e totalmente transversal. “Naquele momento percebi que o LEIA proporcionava um ensino horizontal, aprendemos uns com os outros, trocamos saberes e construímos conhecimentos coletivos baseados em nossas realidades, valorizando uma pedagogia freiriana”, desabafa Hemanuel.

 

Parcerias e ações externas

As parcerias do LEIA intituladas como “marketing verde”, foram sediadas em colaboração com empresas e entidades que, assim como o projeto, possuíssem uma preocupação inerente ao futuro em relação à sustentabilidade nas próximas gerações. As ações em conjunto vieram com o intuito de desvincular o atual modelo planetário de desenvolvimento que compromete a manutenção das diversas formas de vida. Neste contexto, a Una através do curso de gastronomia projectava e ansiava contribuir para o bem-estar social ao lado da sociedade, por isso vieram a acontecer inúmeras colaborações voltadas a ações sustentáveis.

Ao longo dos anos houveram diversas parcerias marcantes que foram benéficas a todos envolvidos na extensão, como a parceria com EMATER, SENAC, ABRASEL, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Fazenda Engenho D’água, Frente da Gastronomia Mineira (FGM), Eja do Colégio Imaculada, Circuito Aproxima, grupo Skank com o fornecimento do Bioneem do Henrique Portugal e dentre outras, que ajudaram não só nas oficinas, mas em diferentes atividades externas desempenhadas pelo projeto. 

Uma das parcerias significativas ocorreu a partir da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), através da professora Rosângela Míriam Lemos Oliveira Mendonça, que é pesquisadora e coordenadora do curso de design gráfico da presente universidade mineira. 

No ano de 2016, Rosilene Campolina e a professora de design gráfico, fizeram o primeiro contato para pleitear ações interdisciplinares que prezavam a sustentabilidade econômica, social e ambiental por meio de hortas e jardins urbanos. A partir disso, após as atividades e ações promovidas pelo LEIA, a parceria surgiu com o propósito de atuar com mutirões para ampliação e a manutenção da horta no terraço JP II, através dos recursos didáticos baseados em design sistêmico.  

Rosângela afirma que atuou em parceria com o projeto para fortalecer o potencial das hortas urbanas, comunitárias e agroecológicas, sendo significativo para que unisse forças no projeto. Explica também que a partir das ações desempenhadas, houve-se a motivação para atuarem juntas e que por meio dos valores pessoais e profissionais que ambas possuem, tornaram-se amigas para além do projeto. 

“Nossa parceria é a prática coerente dos nossos valores. Visamos a importância de relacionamentos duradouros com apoio mútuo para o crescimento conjunto, e para contribuir para a melhoria da qualidade de vida da nossa sociedade”, define Rosângela, sobre a parceria com o LEIA através de Rosilene Campolina.  

 

Visibilidade e alcance social 

Em sua trajetória, o laboratório veio a conquistar relevância social para se tornar um dos projetos de maior destaque dentre outros da intuição com uma grande visibilidade mútua, sua história de desafios e lutas, mas de sucesso, trouxe reconhecimentos nacionais e diversas premiações eminentes. Atualmente, o LEIA faz parte Relatório de Sustentabilidade (RS) do Grupo Ânima, criado para estimular e parabenizar projetos de desenvolvimento social/sustentável de inovação nos modelos de ensino-aprendizagem; além de ter tido reconhecimento internacional com participação em pesquisa na Universidade de Hamburgo na Alemanha, como um grande instrumento para cooperação na implantação e difusão dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para Agenda 2030.

Indicado ao Relatório de Sustentabilidade do Grupo Ânima
Indicação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para Agenda 2030.

Recebeu ainda certificados da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH) e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado Minas Gerais (EMATER-MG) como parceiro pelas metas favoráveis aos Objetivos do Milênio (ODM) que se referem a um conjunto de ações a serem alcançadas até 2030 para a redução da fome e da pobreza, por meio da soberania alimentar e da proteção ao meio ambiente.

Por definição, é um projeto de sucesso, vigoroso e totalmente complexo. Realizado através do esforço e engajamento dos envolvidos que acreditam na sustentabilidade como uma filosofia de vida. O LEIA, em síntese, tem como legado a proliferação de hortas urbanas e periurbanas na sequência de habituar práticas saudáveis no cotidiano das pessoas, e é uma extensão que repercute nos dias atuais para além do espaço da Una. Sendo capaz de ecoar luz a temáticas importantes e ajudar aqueles que procuram por novos modelos de vida, mais próximos da natureza e mais engajados com as causas sociais. 

 

Depoimentos dos participantes 

“O LEIA concretizou, na prática, a interdisciplinaridade das disciplinas na grade curricular da graduação de Arquitetura. Além do olhar social urbano, os alunos tiraram, literalmente, do papel os projetos que orientava em sala e em outras disciplinas. Participamos de ações fora da universidade, levando-os para as comunidades como a Vila Estrela na Barragem Santa Lúcia. Estas ações geraram muitas trocas e contribuições de saberes, necessidades e desafios reais para desenvolvimento de tecnologias para a sustentabilidade urbana, incluindo métodos alternativos de agricultura urbana e gestão de resíduos entre comunidade acadêmica e sociedade civil”, diz Luiza Carvalho Franco, que é Especialista em Sustentabilidade e foi uma das idealizadoras do projeto, sobre sua participação como coordenadora na parte de Arquitetura. 

“Fui criada em uma cidade do interior que desde muito nova já sabia de cultivo, manejo e manutenção de hortas e o LEIA, só me fez aumentar meu prazer pelas plantas. Carrego até hoje as lembranças do início do projeto, passamos pelo processo de implantação, onde participei desde a escolha do nome e foram várias reuniões. Formamos tudo e começamos a plantar as primeiras sementes e mudas, a partir daí várias pessoas e equipes começaram a se formar. Lembro também das primeiras flores comestíveis que a professora Rosilene Campolina colheu e enfeitou um prato com hortaliças e temperos colhidas pela horta do projeto e no terraço comemos eu, ela e outros colegas”, relembra Maria Galdina da Conceição de Menezes, formada em Gastronomia pela Una e ex-extensionista da extensão.

“O LEIA me fez valorizar muito mais o alimento, me ensinou a utilizar os insumos de todas as formas possíveis e a dar devida importância aos produtores. Um projeto que não se resumiu apenas a uma universidade, pois ele sempre envolveu todas as camadas da sociedade e todas as áreas de estudo. Nunca foi direcionado apenas aos alunos, seu propósito era estimular o consumo consciente dos alimentos e sempre esteve de portas abertas para aqueles que estivessem dispostos a trabalhar para a disseminação desse conhecimento sobre hortas”, diz Maria José Avelino Victória, professora de gastronomia da Una.

 

Edição: Daniela Reis

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O debate sobre sustentabilidade e consumo consciente de moda são fatores essenciais para a construção de uma cadeia produtiva mais justa

Por Italo Charles

Nos últimos anos a globalização e o crescimento exacerbado das mídias publicitárias têm impulsionado transformações em diversos âmbitos e no campo da moda não é diferente. Muito se fala em sustentabilidade e consumo consciente, mas poucas pessoas sabem realmente o significado desses conceitos.

Compreender o que se diverge entre moda sustentável e consumo consciente é o primeiro passo para desmistificar os processos que abraçam uma cadeia produtiva enorme como a da moda.

A indústria mundial de moda é responsável pela promoção de empregos, maior rentabilidade e produção de produtos com custos acessíveis, entretanto, não existem apenas pontos positivos nesse grande meio.

Por trás de tamanha produção estão ocultos os malefícios que o setor carrega. O uso de mão de obra barata e insalubre, insumos químicos usados no processo, descarte de resíduos e poluição do meio ambiente são alguns fatores.

A produção sustentável é pautada pelo processo de fabricação que tem como base o uso de insumos não poluentes ou que causem o mínimo impacto ambiental, uso de fibras orgânicas, reciclagem, reaproveitamento de materiais e a responsabilidade social que está atrelada à condições de trabalho dignas.

Mudanças 

Até o século 18, confeccionar roupas fazia parte de um processo longo ocasionado pela dificuldade de acesso a tecidos e materiais, além da mão de obra para produção, o que tornavam as peças mais caras.

Devido a tais condições as roupas tinham mais qualidade e eram feitas para durar, dessa forma, o consumo, na época, era menor e mais consciente, uma vez que se sabia a origem das peças.

Com a chegada da Revolução Industrial em 1970 e com a criação da máquina de costura, os processos para fabricação começaram a se otimizar e com isso o aumento da produção. Mas, foi em 1990 com os avanços tecnológicos que o termo “fast-fashion” foi criado.

Classificado como o padrão de produção, consumo e descarte acelerado, o fast-fashion ganhou espaço no mercado tanto pela mão de obra barata, facilidade e agilidade na produção quanto no custo de matéria prima.

E, com o tempo, o ramo foi tomando maiores proporções sendo que a cada semana eram lançadas novas tendências que imitavam a alta costura, mas com baixa qualidade, custo e durabilidade.

A partir disso, nos últimos anos, debates sobre sustentabilidade e consumo consciente tiveram mais espaço devido ao volume excessivo produzidos pelas indústrias de fast fashion, questões ambientais e principalmente após o desabamento do Rana Plaza em 2013 – prédio de uma fábrica têxtil em Blangadesh.

Dado o acontecido, surgiu o movimento “quem faz minhas roupas?”, difundido pela Fashion Revolution, organização que luta pela transparência e melhoria na cadeia de moda. As manifestações a respeito da causa suscitaram uma análise sobre os processos e padrões da moda.

Consumo Consciente

Por outro lado, enquanto a moda sustentável, de certa forma, está relacionada aos métodos de produção da indústria têxtil e aos fabricantes, a moda consciente faz com que o consumidor esteja presente e manifeste suas preocupações com os meios de produção e com os impactos ambientais.

Consumir moda conscientemente não é apenas usar peças de origem sustentável ou eco-friendly, para além disso, é ter o autoconhecimento e entender os motivos pelos quais nos leva a adquirir determinado produto.

Para se tornar um consumidor consciente é necessário observar como tem sido seu comportamento nos últimos tempos. Abrir o guarda-roupas é o primeiro passo a ser tomado, só assim, será possível identificar o que realmente é usado e o que não é.

Entender que a peça tem um ciclo e analisar a qualidade de insumos, de trabalho dos prestadores envolvidos e principalmente a forma como será usado e descartado a peça é parte principal do consumo consciente.

Ser um consumidor consciente é avaliar que  “velhos hábitos podem ser melhores”.

 

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*Por Ana Carolina Nunes Abreu

Por muito tempo – e principalmente antes da Segunda Guerra Mundial – a ideia de moda se concentrou na Europa, oriunda de maisons luxuosas na elite europeia, com tecidos raros, vindo das melhores grifes e produção feita à mão pelos estilistas, para os nomes da mais alta sociedade. Até hoje, por exemplo, a rainha Maria Antonieta é vista como o símbolo do pioneirismo da moda.

Com as guerras, os estilistas precisaram migrar para regiões pouco afetadas economicamente, como os Estados Unidos. Por esse motivo, foi necessária a criação de um modelo de compra e venda de peças que facilitasse tanto a produção, quanto a recepção dos artigos de moda. Assim, surgiu o prêt-à-porter. Pierre Cardin, estilista francês, criou este termo para denominar sua primeira coleção para uma loja de departamento. Ou seja, a primeira ideia de peças de roupas feitas de forma idêntica, apenas com tamanhos diferentes para a clientela. Foi o primeiro passo para o Fast Fashion e, também, para a democratização da moda.

O termo Fast Fashion foi criado em 1990, para denominar a produção massiva e industrial de artigos de moda, em grande escala, grande margem de lucro e baixa qualidade. Lembra das calças e jaquetas jeans que sua mãe usava e se gabava dizendo que duravam 10, 20 anos? Pode esquecer.

A ideia é criar lançamentos frequentes, sazonais e que buscam suprir o mercado com as tendências atuais e que, com a mesma velocidade que é feita, pode ser descartada. A cada segundo no mundo, o equivalente a um caminhão de lixo de roupas é descartado ou queimado em aterros sanitários no mundo inteiro. Em 2014, um consumidor médio comprou 60% mais artigos de moda do que em 2000.

A revista Environmental Health realizou, em 2018, uma pesquisa apontando que aproximadamente 85% das peças de roupa consumidas pelos norte-americanos são enviadas para o aterro sanitário como resíduo sólido.

Você consegue imaginar o impacto ambiental de tudo isso? Apenas para ilustrar: para fabricar uma camisa de algodão, são necessários 2.700 litros de água. O bastante para uma pessoa beber por 2,5 anos. Toda produção de roupa enquadrada no modelo de “moda rápida” exige gastos em água, emissão de poluentes e desmatamento, para a plantação de algodão, por exemplo.

A luta para conscientizar e diminuir o consumo do Fast Fashion começou há pouco tempo. Para amenizar os danos, foi criado um movimento, em 2004, que vai de encontro com o modelo anteriormente citado: O Slow Fashion.

Promovendo uma consciência socioambiental, valorizando e priorizando comércios e recursos locais,  essa produção visa a prática de confiança entre os produtores e seus respectivos consumidores, praticando preços reais, muitas vezes com os custos sociais, estimulando uma criação de pequena e média escala. De acordo com a professora Valesca Sperb Lubnon do curso de Design de Moda do Unipê, “Assim como houve na primeira Revolução Industrial, quando saímos do artesanal e fomos para a produção em escala, agora estamos em um início de uma nova era, na qual voltamos nossa atenção à qualidade do produto, à valorização do profissional e do conhecimento”. 

Este novo cenário fez as gerações mais atuais repensarem o conceito de moda, principalmente a facilmente descartada. E bem antes desse movimento ser considerado, já havia um modo de consumo que partia da sustentabilidade, baixo preço e apreciação do comércio local, os brechós e bazares.

Existentes desde o final do século XIX, esses comércios visavam atender a população mais carente, que não tinha condições financeiras de ostentar produtos de departamentos, mesmo aqueles com preços mais baixos. Com peças e artigos usados e de segunda mão, os brechós eram, antes de tudo, a única forma de consumo de roupas que muitas pessoas tinham.

Vislumbrando as décadas mais antigas, os comércios de segunda mão passaram a ser vistos como espaços retrôs e vintages, usado por jovens para reconstruir o estilo de gerações anteriores. Isso mesmo, roupas de cós alto, alfaiataria, oxfords, blusas estampadas de botões, jaquetas jeans e outros acessórios que compõem looks conhecidos como “anos 80”, já faziam parte do vestuário de quem não podia consumir em lojas conhecidas em shoppings e demais malls, mas não com a visão crítica da moda, e sim por necessidade.

Uma reflexão acerca desse estilo de vida se baseia nas estruturas excludentes das lojas de departamento aliadas ao Fast Fashion. E por mais informal que a loja seja, ainda tem, em si, atributos capazes de afastar a população de classes mais baixas. Desde a modernização das lojas aos acontecimentos cotidianos e estruturais, como pré conceitos estabelecidos de acordo com o padrão de consumidor que a loja espera. Frequentemente você pode ouvir um atendente falando para outra pessoa “é pra parcelar de quantas vezes?”, mesmo diante de uma compra com o valor baixo. Já parou pra pensar nisso?

Com a ascensão do brechó, muitas vertentes da discussão acerca da moda surgiram. “Por que eu compraria uma peça por R$100,00, se eu posso comprar por R$10,00 em um brechó?”, questionam os novos consumidores. Esse comportamento, apesar de contribuir para os pequenos comerciantes e donos de brechós, traz consigo a problemática de outro consumo massivo e vazio, aquele no qual você usa de pretexto a sustentabilidade, mas consome o dobro de peças por ser mais acessível, por ser mais “cool” e por ser pauta de elogio dos seus amigos em bares.

Esse tipo de consumo pode, consequentemente, encarecer os brechós, que entendem que seus consumidores atuais são, na verdade, pessoas mais preocupadas com a estética do que realmente um público que tenha a necessidade de comprar ali.

As vendas diretas no mercado de peças usadas passa por um momento de aumento expressivo no Brasil. Nestes últimos 10 anos, o consumo cresceu de forma quase exponencial. O mercado dos brechós, conhecido também como second hand, deve dobrar até 2025. De acordo com a pesquisa do GlobalData, o valor desse segmento deve ir de US$ 24 bilhões para US$ 51 bilhões.

Você, consumidor de brechó ou apenas um curioso, já entrou em uma loja com essa denominação, mas ao conferir os produtos e os preços percebe que, além de terem em sua maioria peças de primeira mão, precificam as roupas de forma a beirar o absurdo com o pretexto de “curadoria e garimpo bem feitos”? É o reflexo do consumo acelerado, que dita aos proprietários dos brechós a glamourização daquele ambiente, já que atualmente é tendência.

Entenda: não é para você parar de consumir em brechós e bazares. Mas esses dados aqui servem para abrir seus olhos diante do seu consumo. Ele é consciente, ou você só compra usando o conceito e a tendência como seus aliados?

Outra forma de mudar seus hábitos de consumo é, também, conhecer lojas e comércios que buscam a produção desacelerada e sustentável dentro do Slow Fashion. Não só roupas, mas também produtos de beleza, sapatos, acessórios etc. Esses ambientes podem, muitas vezes, apresentar um preço maior, mas em troca oferecem um produto eco consciente, sem grandes danos ao meio ambiente e, muitas vezes, não testados em animais.

Como dica para se inserir nesse movimento e conhecer ainda mais sobre essa proposta, listamos algumas lojas com a política Slow Fashion.

Confere aí:

Gioconda Clothing 

Comas

Pântano de Manga

Nuu Shoes 

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

Fotografia: Lucas D'Ambrosio

Em comemoração à chegada do natal de 2016, o circuito cultural da Praça da Liberdade recebe uma série de ações para comemorar a data. Uma delas é o Circuito de Presépios e Lapinhas de Minas Gerais, que pretende ampliar a participação de todo o estado na promoção do patrimônio cultural mineiro. Entre os dias sete de dezembro e oito de janeiro, Belo Horizonte e outras cidades do estado irão participar da programação que, além dos presépios, conta também com apresentações gratuitas de corais, bandas e diversas atrações para o público.

Com iniciativa do Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA/MG), 250 presépios podem ser visitados em 150 cidades por toda Minas Gerais, que possui uma tradição desde o século 18. O objetivo do circuito é promover a Folia de Reis, uma manifestação cultural celebrada na noite do dia cinco para o dia seis de janeiro, em que pessoas saem às ruas, tocando músicas populares e celebrando a chegada dos reis magos e o nascimento de Jesus, uma manifestação folclórica e religiosa.

Fabiano Lopes de Paula, 60, é arqueólogo e funcionário do IEPHA. Um dos curadores da mostra de presépios, ele ressalta a importância de criar um resgate de manifestações culturais pelo estado, como as festividades natalinas. “Resolvemos fazer essa homenagem aos artesãos mineiros festejando as celebrações natalinas que se perdem ao longo do tempo. Temos diversos artistas, tendências e modelos de presépios”, comenta.

Da Paraíba para Minas Gerais

Um dos artistas expositores é Oceano Cavalcante. Filho do nordeste brasileiro, o jovem de 56 anos nasceu “em uma pequena família de 14 irmãos”, como costuma dizer. É enfermeiro de profissão e artista plástico por vocação. No ano de 1979, ao lado de sua família, saiu da sua cidade natal em Areia, interior do estado da Paraíba, com destino às Minas Gerais. Morou em Esmeraldas e posteriormente, Belo Horizonte.

O enfermeiro e artista plástico, Oceano Cavalcante abraçou o estado de Minas Gerais com sua sensibilidade artística e traços da sua terra natal. Fotografia: Lucas D'Ambrosio
O enfermeiro e artista plástico, Oceano Cavalcante abraçou o estado de Minas Gerais com sua sensibilidade artística e traços da sua terra natal. Fotografia: Lucas D’Ambrosio

Sua principal referência artística é o legado deixado pelo mestre barroco Aleijadinho. Porém, o entalhe na madeira como era costume e presente nas obras do artista do Brasil Colonial, deu espaço para a reutilização de materiais encontrados na rua: a essência da obra realizada por Cavalcante. “Meu trabalho de arte possui uma visão ecológica e sustentável. Procuro retirar do meio ambiente o material do meu trabalho. Todos eles vêm da rua”, explica o artista.

Oceano Cavalcante e seu presépio. O reaproveitamento de materiais encontrados na rua criam a estética singular na obra do artista. Fotografia: Lucas D'Ambrosio.
Oceano Cavalcante e seu presépio. O reaproveitamento de materiais encontrados na rua criam a estética singular na obra do artista. Fotografia: Lucas D’Ambrosio.

No presépio que está exposto no salão de entrada do IEPHA, Oceano Cavalcante utilizou três matérias-primas: papelão, garrafa pet e jornal. Suas peças possuem uma estética e tonalidade que referenciam, além das obras barrocas, a terra e o povo nordestino. “Além do barroco, tento transmitir o nordeste com minhas peças. Ele está no meu sangue. Nem o sotaque a gente esquece. Posso estar por anos longe da minha terra, mas ele nunca sai da gente”, ressalta.

Além do IEPHA, outros pontos turísticos que fazem parte do circuito da Praça da Liberdade também recebem exposição de presépios como, a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, o Espaço do Conhecimento da UFMG, o Memorial Minas Gerais Vale, MM Gerdau, Museu Mineiro, Palácio Cristo Rei, entre outros.

Detalhe do presépio exposto na Casa Fiat de Cultura, no Circuito Cultural da Praça da Liberdade. fotografia: Lucas D'Ambrosio
Detalhe do presépio exposto na Casa Fiat de Cultura, no Circuito Cultural da Praça da Liberdade. fotografia: Lucas D’Ambrosio

 

Detalhe do presépio exposto no Memorial Minas Gerais Vale, no Circuito Cultural da Praça da Liberdade. Fotografia: Lucas D'Ambrosio.
Detalhe do presépio exposto no Memorial Minas Gerais Vale, no Circuito Cultural da Praça da Liberdade. Fotografia: Lucas D’Ambrosio.

Fotografias e Reportagem: Lucas D’Ambrosio

Com a valorização dos alimentos locais, orgânicos e naturais a ideia de uma horta em casa vem se tornando a saída para aqueles que os procuram. E para os muitos que não possuem espaços viáves para a construção desses canteiros há espalhadas pela cidade hortas urbanas, onde os moradores podem compartilhar e adquirir alimentos frescos prontos para serem servidos à mesa.

De olho nessa inicitiva que está tomando conta da grande Belo Horizonte, conversamos com o engenheiro agrônomo Fernando Godoy Ferrari, o idealizador e responsável pelo projeto/empresa Casas, hortas e jardins.

A empresa é composta por agrônomos, técnicos especializados e colaboradores e tem como objetivo a promoção da Agricultura Urbana, seguida do paisagismo e com base na Agroecologia e Agricultura Orgânica em diferentes espaços da cidade.

  • O que é o projeto/empresa Casa, hortas e jardins?

 Atuamos em diferentes espaços, como residências, condomínios, escolas, chácaras, centros de terapias e restaurantes. Prestamos os seguintes serviços: elaboração e execução de projetos agronômicos (hortas, jardins e pomares); manutenção (poda, controle natural, adubação orgânica, …); cursos e oficinas; educação ambiental e agronômica em escolas.

  • Sobre as hortas que foram emplementadas pela cidade, há supervisão?

Sim, realizamos visitas de manutenção e formação na maioria das hortas que implementamos. Entendemos que a educação é a base de nosso trabalho. Na execução de projetos, procuramos aliar a implantação/manutenção das hortas e jardins com a capacitação dos clientes nos fundamentos técnicos básicos de horticultura e jardinagem (plantio das estações, podas, controle de doenças, colheitas, consórcio e rotação de culturas, preparo do solo orgânico, irrigação, …). Nas escolas, além da implementação da horta/jardim, organizamos uma série de aulas/oficinas, para estudantes de todas as idades, na temática da Agricultura Urbana. Também promovemos cursos e oficinas abertos para a comunidade em diversos temas que envolvem o universo das plantas e da terra (horta urbana, plantas medicinais, minhocários domésticos, berçário de mudas, hortas verticais, agricultura biodinâmica, …).

  • Sobre a colaboração: qualquer pessoa pode utilizar a horta e ajudar a aumenta e mantê-la?

Em hortas coletivas como as implementadas nas escolas, qualquer pessoa envolvida no coletivo pode utilizar a horta para plantar, colher, participar das oficinas de capacitação, ser parte do processo. Nas hortas particulares fica a critério de cada família ou cliente escolher quem usufruirá da horta.

  • Se os moradores de algum bairro se interessarem pelo projeto como é feita a adesão?

Contatando nossa empresa. Precisam marcar uma reunião e/ou visita de consultoria ao espaço urbano sugerido para os plantios. Para cada situação construímos um contrato diferente de trabalho, conforme a realidade local. Podemos coordenar mutirões técnicos de plantio, realizar oficinas de capacitação, fornecer insumos, entre outras ações.

Reportagem Ana Paula Tinoco/ Fotos: Ana Sandim

As comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado hoje, 5 de junho, prometem alegrar as tardes para a criançada que for aos parques municipais de Belo Horizonte até o dia 16 de junho. A programação especial que começou no dia 2, promove atividades de lazer e educação ambiental com o intuito de reforçar a importância da prevenção de incêndios e a preservação da fauna e flora. Porém, a data também serve para lembrar o tema sustentável e fiscalizar a população.

Segundo a estudante do 7º período de Engenharia Ambiental, Aline Lima, 23, “o Dia Mundial do Meio Ambiente é importante principalmente para promover a conscientização acerca da importância de se cuidar e respeitar o meio ambiente”. O estudante do 4° período de Engenharia Ambiental, Ricardo Cassiano, 22, diz que a data “faz com que pensemos com mais atenção em atos que já estão automatizados pelas rotinas do dia a dia”.

Utilizado com grande frequência há alguns anos, o termo sustentabilidade é o assunto principal neste dia. Como alternativa para a cidade se tornar mais sustentável, Aline Lima propõe que a população tome atitudes simples, que em conjunto farão diferença:

– Os principais problemas de BH são problemas muito elementares, muito bobos se for pensar. Precisam acontecer mudanças como a conscientização sobre jogar lixo no lixo, fazer a coleta seletiva, e efetivamente encaminhar para a reciclagem aqueles resíduos que são passíveis de reciclagem, pois infelizmente, mesmo com a coleta seletiva, pouquíssimos são os resíduos que realmente vão pra reciclagem, a maioria deles, acaba indo parar em aterros sanitários como os demais resíduos gerados por nós que não são recicláveis.

Em contrapartida à fala de Aline Lima, Ricardo defende o investimento em educação ambiental, para que a cidade possa, de fato, ser sustentável.

– A mudança começa no ser humano, tem de partir da consciência e do comportamento de cada cidadão belo-horizontino. Saber a necessidade de não poluir já é um grande começo. Não adianta nada uma cidade ter todo um planejamento sustentável, com pontos de coletas de materiais recicláveis, dias alternados na semana para a coleta seletiva. Todo esse processo é em vão se não houver a reeducação da população. Acredito que o principal ponto para uma sustentabilidade viável e a reeducação de uma atual e futura população de mineiros.

E não é somente neste aspecto que os estudantes discordam. Sobre a divulgação da data, Ricardo tem uma visão positiva e afirma ter uma boa repercussão. “A divulgação é de fácil entendimento, clara e bem convidativa. Tanto no meio acadêmico quanto no meio profissional é um assunto que e tratado com bastante seriedade e ao mesmo tempo com recreações culturais”, assegura. Enquanto Aline percebe a pouca visibilidade da data, esclarecendo que “a divulgação é muito pequena, acho que coisas muito maiores poderiam ser feitas”, reclama.

Por Ana Carolina Vitorino

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