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Por Bianca Morais 

Janeiro é o mês da Visibilidade Trans e o Jornal Contramão traz hoje uma reportagem especial com Thabatta Pimenta, a primeira mulher trans no poder legislativo do estado do Rio Grande do Norte. Confira a história surpreendente.

Conheça Thabatta

Thabatta Pimenta tem 30 anos, é do interior do Rio Grande do Norte e é uma mulher trans. Desde pequena Thabata já percebia que não pertencia àquele corpo ao qual ela nasceu. Sem se entender ainda como trans, durante a juventude sofreu muito bullying por ser um “menino afeminado”, foi apenas na adolescência depois de participar de um concurso de miss de sua região e se olhar no espelho caracterizada como mulher que teve a certeza de que era uma.

Apesar do bullying, Thabata carrega uma boa lembrança da infância, de quando ainda em transição foi fazer uma peça de teatro do clássico da literatura brasileira, A Moreninha, e fez o papel da menina, na época o rapaz que contracenou com ela não teve problemas em aceitá la e ser seu par, naquele momento ela pode ser quem era e ter um “príncipe” pela primeira vez.

“Eu acho que a transexualidade é uma descoberta do dia a dia, a gente nasce assim, então com o tempo vamos desabrochando como uma flor, percebendo e se entendendo, comigo foi assim, durante a infância eu percebia, eu tinha meus amigos gays, mas eu via que eu era algo a mais”, conta ela.

A norte-rio-grandense nunca precisou se explicar para família, desde cedo sua mãe e irmãos já notavam sua diferença, sempre foi algo natural e seus entes sempre a apoiaram em todo o processo de transição.

“Um dos meus hobbies é treinar e minha transição física veio com o tempo e me aceitando. Inicialmente, comecei para conseguir forças e cuidar do meu irmão, mas com o tempo meu corpo foi mudando, nunca fui de deixar meu corpo de um jeito de outro, eu fui na questão de olhar no espelho e me gostar. Nunca tive problemas com ele em si, muito menos com meu órgão genital, essa questão da transexualidade vai além do corpo físico, é uma questão mais psicológica”, explica Thabatta.

Um dos momentos mais importantes nessa trajetória foi poder fazer a retificação de seu nome, foi no dia de seu aniversário que ela alterou o nome e ali ela comemorou não apenas o dia que sua mãe lhe pôs no mundo, mas também o dia em que colocou o nome que ela escolheu para si, de se reconhecer dentro de seu gênero. Thabatta é uma mulher trans e torce pelo dia que vai poder ser chamada apenas de mulher.

“Hoje ainda é necessário dizer que sou uma mulher trans, principalmente para mostrar que estamos naquele espaço onde outras deveriam estar. Mulher trans, travesti, na realidade é a mesma coisa, o fato de ser uma travesti é um ato político, um termo político de nos mostrarmos a muito tempo na sociedade, para mim o que eu acho preconceito é se referir travesti no masculino, afinal todas nós somos mulheres”, esclarece ela. 

Thabatta nunca abaixou cabeça para ninguém, toda discriminação que sofreu ao longo da vida ela batia de frente e não deixava a pessoa que cometeu o preconceito sair sem refletir sobre a fala, e foi nessas voltas da vida e buscando pela direito de ser a voz de sua comunidade que a mulher resolveu entrar na vida politica.

Thabatta na política

Thabatta é muito conhecida em sua cidade natal, Carnaúba dos Dantas, é locutora em uma das rádios mais populares da região e querida por muitos devido a sua simpatia.

Em 2016 se candidatou pela 1ª vez a vereadora e apesar de sua alta popularidade, encontrou por dificuldades para encontrar um partido que a aceitasse, isso porquê Thabatta é uma mulher trans, quando um a aceitava, os outros da coligação diziam não querer ter sua imagem associada a uma trans.

Depois de muitas lutas, Thabatta conseguiu se candidatar, no entanto, não foi eleita, sua campanha inclusive, foi duramente atacada, principalmente por partidos mais conservadores.

Ela sempre foi dona de si, corajosa e destemida, quatro anos depois da primeira tentativa, ela voltou às urnas, dessa vez pelo Partido Republicano da Ordem Social, o PROS, e com 267 votos foi eleita a primeira mulher trans no Poder Legislativo do Rio Grande do Norte.

A vereadora é uma mulher trans no país onde mais se matam pessoas trans no mundo, Thabatta porém não deixou se abalar pelo preconceito, ao contrário, transformou todo aquele ódio vinculado ao que ela representa em força para não desistir.

De acordo com o levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), no Brasil, 90% dessa população tem a prostituição como fonte de renda, muitos não gostariam de permanecer nessa situação, mas o preconceito ainda fala alto na sociedade, e se o desemprego já é uma realidade no país, para o público trans ele é ainda maior.

Thabatta conseguiu vencer as expectativas, alcançou um cargo que poucos de seu grupo conseguem, e além disso, ainda tem que provar diariamente sua competência, trabalhar dobrado para mostrar que merece estar ali, afinal, quando se alcança um local onde poucos dos seus chegaram por preconceito, os outros querem te derrubar.

“Na política hoje eu calo a boca de muitos que duvidaram, sofri preconceito e na primeira campanha fui sozinha e mostrei que eu era capaz, a população também me deu essa resposta, as dificuldade não me abalaram só me fizeram mais forte, entender que era esse caminho que eu tinha que seguir, fazer não só por mim mas por outras pessoas trans, pela minha comunidade lgbt”, diz a vereadora.

Representatividade importa

Depois de eleita, a vereadora aumentou seu número de seguidores nas redes sociais, não só apenas o Rio Grande do Norte conheceu ela, como todo o país. Nascida de uma família humilde do interior, acabou conquistando todos os cantos do Brasil.

Thabatta não apenas levanta a bandeira do LGBTQIA +, mas outra causa que também a motiva e a destaca é a de pessoas com deficiência. Ryan Ricelle, irmão de Thabata, tem 32 anos e paralisia cerebral, ela é responsável por seus cuidados por ele, a “irmãe” enfrenta todos os dias as dificuldades de acessibilidade ao ter que levar seu irmão nos locais, ruas esburacadas, falta de rampas, entre outros. 

Os desafios de Thabatta

Maria Aparecida de Medeiros Silva é mãe de Thabata Pimenta, a vereadora sempre se orgulhou da diversidade de sua família, ela mulher trans, a mãe lésbica, Ryan cadeirante e assexual e Ramon, o hétero. Ela nunca deixou de mostrar tanto em suas campanhas, quanto em suas redes sociais, o amor incondicional a sua família e o amor deles por ela, todos se aceitando como são.

Thabatta e a família

Não é de se surpreender que no dia 29 de dezembro de 2020, quatro dias antes de sua posse, um pedaço de Thabatta se foi, sua mãe, técnica de laboratório no Hospital Regional Mariano Coelho, em Currais Novos, faleceu de covid-19. A mulher que sempre esteve ao lado dela, lhe apoiando e cuidando dela e de seus irmãos morreu, e naquele momento Thabatta que tanto precisa ser forte para encarar a constante cobrança de ser uma vereadora trans precisou ser ainda mais, pois agora a responsabilidade de cuidar de sua família recaia sobre ela, e mesmo precisando ser tudo, ela conseguiu.

Thabatta é sinônimo de fortaleza, durante todo seu mandato vem lutando em favor das minorias, é uma super mulher que carrega muitas causas em suas costas.

A voz da minoria

Ryan, o irmão da vereadora tem um grande talento, o da pintura. Com um suporte na cabeça e um pincel, o rapaz pinta quadros representando as paisagens do nordeste. 

Depois da morte de sua mãe, Thabatta é quem sustenta a família, na casa onde mora vivem Ryan, Ramon, a cunhada e sua sobrinha. Sendo vereadora ela ganha 3 mil reais que precisa ser suficiente para todas as contas. Foi então que através do conhecido site “Razões para acreditar” e de uma vaquinha virtual feita por eles, que a família conseguiu arrecadar 40 mil reais para custear uma nova cadeira para Ryan, uma vez que sua antiga já estava o machucando.

Thabatta desde cedo lida com o preconceito, é uma mulher trans e tem um irmão cadeirante, segundo ela, o irmão é um dos responsáveis pela força que ela tem para enfrentar as dificuldades, que são muitas. Thabatta enfrenta todos os desafios de ser uma mulher trans e mesmo assim ainda consegue cuidar do irmão como se fosse a própria mãe, luta pela educação inclusiva, acessibilidade e direito às pessoas com deficiência, carrega seu irmão, literalmente, todos os dias para diversos lugares para que ele se sinta parte da sociedade, que muitas vezes, exclui o diferente.

Thabatta e o irmão

A busca por políticas públicas para os trans e travestis

Dentro do mercado de trabalho, Thabatta se encontrou e é muito feliz em suas atuais posições, tanto na área da comunicação quanto na política, porém não são todas as mulheres trans e travestis que têm a mesma sorte dela, por isso, uma das principais lutas que ela trava dentro do governo é a de colocação desse público na sociedade.

Uma dessas questões é a da hemoterapia, muitas mulheres trans e travestis por falta de condições acabam se harmonizando sem uma ajuda médica e tendo vários problemas de saúde em consequência disto.

“Eu custei a tomar hormônio, essa é uma questão delicada no cenário trans, no cargo que ocupo hoje eu venho lutando para que essa política pública, a da hemoterapia e da transição em si chegue a mais pessoas trans aqui no meu estado”, comenta a vereadora.

Thabatta é ativista e faz questão de dar voz a seus iguais, já que eles ainda não alcançaram esse espaço, ela como primeira mulher trans e travesti eleita parlamentar do estado fala por eles.

“Eu acho que o que nos falta é cada vez mais políticas públicas que nos incluam, que entendam que a gente existe de verdade sendo na educação, que chamem mais pessoas trans para estudar, cursar uma faculdade futuramente, sou muito a favor das cotas. Hoje a minha luta é principalmente para isso, moro em uma cidade pequena do interior do estado lutando para que a política da mulher seja fortalecida, que a gente tenha cada vez mais acesso ao sistema de saúde, tenhamos um ambulatório para nos tratar, e que com o tempo se entenda que apenas queremos viver e passar dos 35 anos”, posiciona-se.

Nesse mês da visibilidade trans, histórias como a de Thabatta mostram que apesar de muito a se percorrer na luta pela igualdade, é sim possível vencer e reconhecer em Thabatta uma figura tão forte que ajuda milhares de pessoas a não desistir é muito importante, ela é prova que é possível sim vencer as barreiras do preconceito e conquistar seu espaço.

“Na política e como figura pública eu faço o máximo para que as pessoas nos enxerguem, acolham, entendam, e respeitem porque o que mais vemos notificando é as mortes de pessoas trans e travestis e isso dói em mim, não quero que isso aconteça com o futuro de outras trans, quero mudar hoje e amanhã o futuro dessas pessoas que é algo que eu posso fazer”, finaliza a vereadora.

Com a palavra, Thabatta Pimenta

“A população não pode dizer ‘eu não entendo muito, você tem que me explicar’, isso acontece muito, as informações estão ali, a internet está aí, você ser preconceituoso hoje é porque você quer, você entender o direito do outro de ir e vir é muito importante, você tem que respeitar porque isso é o mínimo. A sua obrigação é respeitar o outro, seja qual for a orientação sexual, a identidade de gênero, a cor, a religião, você tem que respeitar o outro. 

A mídia também tem que continuar essa visibilidade, a gente não quer só ser a primeira, ser a primeira trans vereadora, primeira trans médica, primeira trans professora, queremos que cada vez mais tenha outras, mas para isso acontecer as oportunidades tem que chegar até nós, a sociedade tem que nos acolher, nos empregar, tem que nos dar a chance de mostrar que somos capazes.

Hoje lutamos muito na questão da capacitação desses espaços públicos, seja em hospital, escola, banco, que não nos respeitam, quando chegamos nesse espaço que o povo não quer nos aceitar quer te chamar no masculino mesmo vendo uma mulher na sua frente é um absurdo. A sociedade tem que cada vez mais se capacitar e entender o outro, o direito do outro, o respeitar o outro”.

 

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Por Keven Souza

Ao longo das inúmeras reportagens já produzidas no nosso jornal, demos vozes a diferentes ações, projetos e vivências. Tivemos a oportunidade de apresentar pessoas e personalidades, cuja narrativa é ímpar e para lá de especial. 

E hoje, em comemoração ao Mês da Visibilidade Trans, é dia de contar a história de Gabriel Carneiro, homem trans, que passou pelo processo transitório com determinação e representa todos aqueles que não se identificam com o gênero que lhe foi atribuído em seu nascimento. O jovem detém uma trajetória de vida que irradia coragem, além de superação. Conheça-o!

Quem é Gabriel 

Gabriel Carneiro Campos é belo-horizontino, empresário, criador de conteúdo digital e ativista assíduo do movimento LGBTBQIA+. Com 27 anos de idade, é um rapaz apaixonado por acampamento, trilha, viagem e como grande parte dos mineiros, pelo Atlético/MG. Gabriel um dia fora Gabriela. Gabi, como ele a chama, fez parte da sua história enquanto indivíduo e moldou a personalidade do imponente ser que se tornou hoje. 

“O Gabriel é a junção do que a Gabriela construiu até uma determinada parte do caminho. Então, muito do que me tornei é sobre a Gabi”, conta ele, que apesar de ser um grande homem atualmente, sua história com a incongruência de gênero é antiga, quando ainda estava na adolescência. 

Aos 15 anos, em 2010, ardia em seu peito alguns instintos da não identificação com o seu gênero designado biologicamente, na época, o rapaz não entendia muito bem os ensejos do seu próprio eu, mas ia compreendendo os sinais que surgiam e de forma natural, e inconsciente, acabou ouvindo a sua real identidade. “Consigo entender perfeitamente que naquele momento algo já estava sendo reproduzido, mesmo que inconscientemente”, conta.

Durante essa fase havia pouco acesso e representatividade acerca do tema transsexualidade, no entanto, mesmo com a falta de informação sobre o assunto, a boa relação com si próprio trouxe a confiança e a firmeza de dar pequenos passos para se conectar com o universo masculino. 

A partir daí, Gabriel começou a discernir que não se encaixava naquele corpo feminino, a entender que os questionamentos eram apenas a inquietude de quem estava em busca da sua verdadeira identidade e que, desde sempre, se enxerga como homem. 

Relação com família e transição 

Seu vínculo com a família é uma exceção com base nos históricos de relacionamento familiar de transexuais no Brasil. O jovem, criado pelos pais, obteve o companheirismo e a empatia dos seus entes queridos durante todo processo de transição. Dentro de casa, estudou a melhor forma de contar que tinha tido coragem de ser quem ele realmente era. 

“Busquei a forma mais didática para falar com eles, entendi que eu teria que abordar o assunto de formas diferentes… não teria como ter a mesma conversa com minha avó e minha prima de 8 anos, por exemplo”, explica ele. 

Quando começou a obter independência financeira, deixou de raspar os pelos de seu corpo e iniciou a troca das peças de roupas femininas pelas masculinas. Uma decisão crucial, pois acreditava realçar sua masculinidade. “Com minha ‘liberdade financeira’ iniciei a troca do meu guarda roupa, não usava mais peças íntimas femininas, não tinha mais roupas daquele universo”. 

Na época, o menor dos problemas de Gabriel era dizer sobre o desejo de transacionar, já que o assunto vinha sendo trabalhado para não haver certas emoções. “Não tive problema! Era algo que eu deixava bem claro e muito certo do que estava fazendo, não queria e nem aguentava usar nada feminino mais”.

Foi próximo aos 22 anos que deu início ao tratamento hormonal. A aceitação da família foi fora da curva, de modo leve, pautado por trocas e descobertas. “Eles não entendiam nada sobre o assunto, porém estavam lá se esforçando dia após dia para me acolher da forma mais honesta possível. Havia alguns deslizes, mas eu entendia que acabaria com o tempo e foi assim, com respeito, que fui levando e recebendo todo apoio.”

O processo, a priori, foi libertador e tranquilo. Em 2018, custeava cerca de duzentos reais mensais para a terapia de reposição hormonal que acontecia através do atendimento particular. Durante esse período, após um ano de acompanhamento médico, Gabriel acabou perdendo o emprego – que era sua principal fonte de renda na época – e teve que continuar o tratamento através do Sistema Único de Saúde (SUS), no Ambulatório Trans do Hospital Eduardo de Menezes em Belo Horizonte, oferecido gratuitamente. 

O rapaz sentiu grandes emoções com a demissão, mas jamais pensou abrir mão da terapia. “Em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir. Muito pelo contrário, estava ciente de tudo que eu poderia perder com minha escolha, mas nada no mundo me assustava mais do que não ser eu, então desistir nunca foi uma opção!”

Hoje em dia, Carneiro mantém o acompanhamento médico, uma vez que o processo tende a durar toda a vida, e para ele chegar onde chegou é dar valor à sua própria trajetória. “Eu sempre deixo claro sobre ser um homem trans e o orgulho que sinto disso”.

Gabriel e a família

Empenho à luta trans

Ser uma pessoa trans no Brasil não é fácil – o país mantém liderança no ranking mundial de estado que mais mata transexuais, de acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU). Mas Gabriel, mesmo com tantas adversidades e talvez certos privilégios, se empenha pela causa, na qual tem orgulho e enxerga importância. 

Sua luta pode parecer única, invisível, diante de tantas outras, porém, a coragem de ser quem realmente é realça o desejo permanente pelo reconhecimento e a liberdade de existência da sua população. Por isso, participar de projetos, ações e movimentos ligados à transexualidade é um ato constante que faz parte de seu propósito. “Meu corpo é político e a urgência dessa luta é enorme, já que o nosso país é o que mais mata pessoas trans no mundo”, desabafa. 

Atualmente, Gabriel tem sido voluntário ativo de uma ação para pessoas trans que foram afetadas pelas fortes chuvas em BH. Trabalho significativo que representa a sensibilidade pelo outro. “A pessoa que eu ajudo, de algum modo, fortalece outro companheiro(a) de caminhada e juntos vamos tendo acesso, chegando em lugares que nossos corpos não tem espaço para ocupar”.  

Nas redes sociais não é diferente! Com serenidade, seu trabalho social ganha voz, corpo e imagem através de vídeos de conscientização e publicações voltadas à causa. Onde busca de forma politizada dar fim a preconceitos, baixa representatividade trans e atuar na falta de informação. “A maioria das pessoas têm acesso à internet, por isso o objetivo central é criar uma rede de apoio e conhecimento de forma didática, além de levar acesso às pessoas trans e aqueles aliados ao nosso universo”. 

Recado para marcar o Mês da Visibilidade

“Ser você é o maior presente que você pode lhe dar. Então se acolha, se permita e seja carinhose com você mesmo. A transição é a maior universidade da existência, a viagem muitas vezes é dura, o caminho incerto, mas pode ter certeza que o trajeto começa aparecer à medida que você vai dando seus passos. Para este mês da visibilidade deixo uma frase autoral que diz assim: ‘Que sua imensidão não seja limitada por pessoas vazias’. Então, fique firme!”, diz Gabriel.

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Por Italo Charles

No Brasil, janeiro tem sido marcado pelas manifestações de pessoas transexuais e travestis. O mês se tornou referência em 2004 através de um movimento de Trans Ativistas na porta do Congresso Nacional e, desde então, o Ministério da Saúde estabeleceu o dia 29 de janeiro como Dia da Visibilidade Trans.

Em meio a todas as manifestações políticas que a causa carrega, que tem como objetivo dar espaço as pessoas transexuais e travestis, há ainda alguns tabus a serem desvendados, por exemplo, o entendimento acerca da “identidade de gênero”. Mas, para começar, precisamos entender o que significa gênero. 

As discussões sobre gênero começaram, no Brasil, por volta dos anos 70 através de grupos feministas que lutavam por igualdade de direitos em pleno período de ditadura militar e, a partir desse período, os movimentos se intensificaram e têm ganhado forças dia após dia.

Nesse contexto, o conceito de gênero refere-se sobre os aspectos sociais atribuídos ao sexo. Ou seja, gênero têm relação às construções sociais e não a condições naturais (biológicas). Dessa forma, gênero é compreendido como tudo que foi definido socialmente ao longo da história e que se atribui como função ou comportamento designado a alguém baseado no seu sexo biológico.

É entendido também que, o gênero faz parte de relacionamentos de grupos de determinada cultura e que impõe certas características  sejam designadas ao homem ou a mulher. 

Há quem já tenha ouvido “isso é coisa de mulher” ou “cuidar da casa e dos filhos é dever da mulher”. Ao observar essas situações fica claro que existe por trás dessas falas alguns estigmas atribuídos ao “ser mulher”. Dessa forma, é possível entender que o gênero extrapola as percepções acerca do sexo biológico e se torna uma construção social.

Identidade de gênero

A identidade de gênero está relacionada à construção do indivíduo perante a sociedade, ou seja, como este mesmo indivíduo se enxerga e em qual gênero ele se identifica. Sendo assim, o sexo biológico não está relacionado a identidade de gênero, mas sim na relação ao masculino, feminino e gênero fluido.

Geralmente, ao nascer as pessoas são designadas a determinado gênero a partir da genitália com a qual nasce, sendo assim, os pais e a sociedade escolhem os caminhos que o indivíduo deve seguir a partir disso.

Entretanto, algumas pessoas ao passar do tempo se identificam com um gênero que difere com o qual lhes foi imposto ao nascimento tendo em conta o sexo biológico e através das relações sociais, portanto, isso é a identidade de gênero.

Existem três principais identidades de gênero, mas é importante destacar que uma pessoa pode apresentar características apontadas como ‘masculina’ e ‘feminina’ em todos os casos. 

São: cisgênero, transgênero (Transexuais e Travestis), e não-binário.

Cisgênera é a pessoa que se identifica com o sexo biológico que lhe é designado no momento do nascimento.

A pessoa transgênera é aquela que se identifica como não pertencente ao gênero que lhe foi designado através da sua genitália durante o nascimento.  Entre trangeneres estão, homens e mulheres trans e travestis.

A pessoa não-binária é aquela que não se identifica completamente com o gênero designado no nascimento nem com o outro. Dessa forma, a pessoa não-binária pode não se ver em nenhum dos papéis atribuídos a mulheres e nem ao dos homens, mas também pode vivenciar entre os dois.

Vale ressaltar que muitas pessoas ainda se perguntam como um “homem ou mulher” podem nascer no corpo errado ou então como não se identificam com nenhum ou ambos gêneros. É possível dizer que não existe um aspecto causador.

Orientação afetivo sexual

Outro ponto importante nessa leitura é sobre as características que diferem a identidade de gênero com a orientação sexual. Muitos não sabem, mas não existe uma relação entre ambos conceitos.

De maneira fácil de ser interpretada, diz-se que orientação sexual é o desejo sexual que uma pessoa sente pela outra. Sendo assim, existem algumas características de orientação sexual principais.

Estas são: assexual,  bissexual, demissexual,  heterossexual, homossexual e pansexual.

Vamos lá!

A pessoa assexual é aquela que não manifesta interesse sexual por outra pessoa, entretanto é capaz de manter um relacionamento amoroso/romântico com outro indivíduo.

A Bissexualidade é compreendida como orientação afetivo-sexual a partir de um indivíduo seja ele cisgênero, transgênero ou não-binário que se sente atraído sexualmente ou romanticamente por pessoas dos gêneros masculino e feminino.

Os demissexuais, são pessoas que sentem atração afetiva, sexual e romântica somente quando há um envolvimento e laço emocional ou intelectual. De tal modo, pessoas demissexuais precisam estar “conectadas” para que haja algum tipo de relação. 

Heterossexuais são pessoas que sentem atração afetiva e sexual por pessoas do sexo oposto.

Homossexuais são os indivíduos que se sentem atraídos tanto sexualmente como romanticamente por pessoas do mesmo sexo. Gays e lésbicas se encaixam neste conceito..

Já a pansexualidade é compreendida como uma pessoa que sente atração afetiva sexual por um indivíduo independente do seu sexo e gênero.

 

*Edição: Bianca Morais e Daniela Reis

**A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis