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cenário da música em BH

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Crédito: DIVULGAÇÃO

Retornamos do recesso!!!! A partir de hoje estamos de volta com as nossas matérias e publicações. E para dar start na primeira postagem do ano, trazemos a Banda Duetê que faz parte do Almanaque produzido pela jornalista Bianca Morais.

DUETÊ

A autora deste almanaque que aqui vos fala pede que antes de começar a ler sobre essa banda, vá imediatamente na sua plataforma preferida de streaming e procure a banda Duetê. Em seguida, clique na música Tô na Tua e coloque no último volume.

Ok, não precisa ser no último, mas alto o suficiente para que você sinta a energia.

Sentiu de primeira? Não? Tente de novo, e de novo, e somente quando você conseguir sentir pelo menos um pouquinho de energia volta aqui, porque agora vou falar de uma das minhas bandas favoritas de Belo Horizonte, o nome dela é Duetê.

Nada do que eu posso fazer vai te tirar de dentro de mim vem dizer que é aqui que quer viver uhuuuuuuuuuuu

Todas as bandas que estão neste almanaque são muito boas e eu gosto de todas. Não queria e nem sei se poderia me dar ao luxo de escolher uma favorita, mas a Duetê com certeza tem um espaço especial no meu coração, e eu digo o porquê.

1-         Acho que eu definiria o som deles como brasilidade e isso me atraiu desde a primeira vez que escutei.

2-         Os caras são simpáticos, viu?

3-         Eles têm uma produtora muito incrível, que faz de tudo para ajudá-los a alcançar o sucesso, inclusive ser legal com todo mundo que conhece a banda.

Tem outros vários motivos, mas talvez através desses três, o sentimento de conhecê-los cresça em vocês.

Mas agora vamos falar um pouco sobre eles.

Gabriel Costa, Gustavo Rabelo (também conhecido como Peixe) e Pedro Lacerda são melhores amigos desde o colégio.

A banda de pop rock começou inicialmente como um projeto solo do vocalista, o Costa. Lá em 2017, depois de um tempo tocando em bares, ele decidiu que queria gravar suas próprias músicas, quando nasceu Natureza e Sou Litoral.

Na época, o Peixe e o Vitin (ex-integrante da banda, tecladista, saxofonista e sanfoneiro) acompanhavam o Costa pelos botecos mineiros, enquanto o Pedro Lacerda, o Lamac, estava lá na Nova Zelândia.

O Lamac voltou da Nova Zelândia, entrou na banda dos amigos e quando foram lançar as músicas, o Costa não quis assinar sozinho um trabalho que teve participação de todos. Foi então que no dia 16 de julho de 2017 nasceu a primeira banda dos meninos, Costa e os Mitos.

Curiosidade n°1: O Lamac, segundo ele próprio, aprendeu a tocar baixo uma semana antes dessa data aí em cima. Ok, provavelmente não foi uma semana antes. Mas até entrar na banda, o baixista não sabia tocar baixo. Antes de voltar de viagem ele era DJ, mas cansado da vida de mixagem, ao retornar ao Brasil e ver os amigos tocando em bares pediu para acompanhá-los com um violão ou uma guitarra, instrumentos que ele tocava. Como o Costa já tocava o violão, o Lamac pegou o baixolão do pai do Costa e falou:

“Ah, então vou tocar ele.”.

Isso mesmo, sem medo de desafios, o guitarrista pegou o baixolão, começou a se dedicar, aprendeu, comprou seu próprio baixo e hoje está firme e forte.

Fica a dica: se você tem uma banda e está faltando um integrante, não procure alguém de fora com quem você não tem uma conexão. Pegue um amigo e o obrigue a aprender a tocar o instrumento.

O baixolão ele provavelmente devolveu ao pai do Costa.

A medida que os meninos começaram a entrar de cabeça no projeto, tomando decisões, investindo dinheiro e pensando juntos, o nome Costa e os Mitos já não fazia mais sentido. Não era mais um projeto solo do Costa, mas sim um trabalho em equipe. A partir disso, decidiram mudar o nome.

Em busca de ideias para o nome da banda, a Lu, namorada do Costa e grande inspiração para canções da banda, sugeriu a eles que procurassem uma música deles que tivesse um nome legal. E daí veio a Duetê.

Duetê é uma música que conta a experiência que o Costa teve com um ser de outro planeta. Inicialmente, a música não tinha um nome. Porém, durante os shows, a galera pedia para tocar “aquela do et”; do et; du e tê.

Nesse meio tempo, o Vitin saiu da banda para seguir seus projetos.

A Duetê se formou então no dia 19 de fevereiro de 2019 com o trio Costa, Peixe e Lamac.

Provavelmente também o Vitin saiu porque não se encaixava mais na banda que é formada apenas de olhos claros, vai saber.

O objetivo dos meninos sempre foi ser autoral, compor suas músicas e gravar tudo que fosse possível, singles, EPs, álbuns e, é claro, viver de tudo isso.

Peixe e Lamac são formados em Engenharia. Peixe sempre escuta dos pais um “você acha que música vai te dar alguma coisa?”

Já Costa, o garoto rebelde, largou a faculdade de Direito e resolveu se dedicar a música. Dando aulas e se entregando com tudo a banda. No começo a mãe não gostou, mas hoje é uma das principais fãs. O pai, ao contrário, amou a ideia. Ele, que sempre quis ser músico, foi um grande incentivador do filho.

Curiosidade 2: se você já foi a um show da Duetê com certeza já viu o pai do Costa. Mas se você ainda não foi e depois de ler este almanaque já vai procurar a data pro próximo show deles, não vai ser difícil reconhecê-lo. Sempre na frente do palco, com o boné da Duetê, cantando todas as músicas. O dono do primeiro baixo que o Lamac tocou, é um verdadeiro apoiador da banda.

Dessa experiência de sair da faculdade para seguir a carreira musical que nasceu a música Valeu! da Duetê.

Valeu mamãe, valeu meu pai

Por continuar acreditando que seu filho ainda vai

Crescer e ser alguém de sucesso, por mais

Que muitas vezes não apresente progresso, eu confesso

As composições da Duetê são todas do Costa e o garoto é bom nisso. Dê uma palavra para ele que já nasce uma canção. Vamos aos exemplos (já deixa o Spotify aberto para acompanhar):

Lá fora: um dia em uma resenha na casa do Costa, entre uma cerveja e outra ele vira para alguém e pede uma palavra. Sorriso, alguém respondeu.

Vira para o Peixe e fala: canta essa palavra.

O Peixe: sorriso (leia no ritmo da música)

Dali o Costa tirou de letra o resto.

Quando vejo seu sorriso

De nada mais preciso, só consigo em ti pensar

E pelas ruas não canso de procurar

Sem saber o que tenho pra falar

Curto: A Lu, namorada do Costa, mandou mensagem para ele contando que iria cortar o cabelo. O Costa respondeu: Curto seu cabelo curto

Mais uma música saindo dali:

Curto seu cabelo curto, tô meio que viciado

É complicado sem você do lado

Não é justo seu vestido justo, aquele azul decotado

Assunto encerrado, eu tô grudado

Natureza:

Costa acorda em um sítio e vê um dia lindo. O que ele faz? Isso mesmo, música.

Havia dias que não via um dia como este dia

Havia tempos que não via um tempo como este tempo

Templo de inspiração, vou me preocupar somente

Em manter uma única vibração entre corpo alma e mente

Um dos diferenciais da Duetê são as letras, com certeza. Não são só sobre amor ou tristeza, são sons leves e fáceis de gostar. Nascem de uma palavra, de uma frase ou simplesmente de cantar algo sem letra no violão. Costa com a letra e o violão, depois o Peixe e o Lamac trabalham suas partes testando em seus respectivos instrumentos, vão para o estúdio e lá a produção fica por conta de moldar, acrescentar e dar vida aos singles.

A visão de mercado da Duetê

Diferente de algumas bandas que já apareceram aqui neste almanaque, a Duetê não se importa em, de vez em quando, precisar retirar um pedaço de uma música para torná-la mais aceitável ao gosto de um determinado público.

Com um objetivo muito centrado na cabeça, os três músicos, junto com a produtora e amiga Cristiana Corrieri, a Cris, passaram a ver a banda como uma empresa. Eles pensam na visão de mercado e apostam muito no marketing e conteúdo no Instagram para chamar a atenção das pessoas.

Desde o início da banda até hoje, eles admitem terem mudado como pessoas e profissionais, deixaram de lado a “banda com meus amigos” e adotaram uma visão de “banda que quer fazer isso para sempre”. Exigindo de si cada dia mais qualidade, quanto mais a banda cresce, mais procuram não cometer erros.

A Cris, produtora da banda, tem uma visão ampla de mercado musical e é uma pessoa de fora. O trio tinha uma visão romantizada da música, fazendo coisas criativas como queriam para mostrar ao mundo. Mas se tem uma coisa que o mercado musical não é, é romântico.

O Coto, lá da Lamparina e a Primavera, falou algo muito interessante em relação a esse mercado. Nas suas palavras, “a sociedade põe muito a música e outras artes como hobbies alternativos, só que não é nada alternativo, é profissão igual a qualquer outra.”.

Quando a Duetê toma para si uma versão de banda comercial, não quer dizer que eles vão perder a identidade, apenas que decidiram tomar um rumo que acreditam ser o certo.

Muito influenciados pela banda Lagum, como empresa, tomaram decisões e fizeram mudanças. Admitem que às vezes pode ser difícil desapegar de uma música para torná-la mais comercial, mas acreditam que trará resultado.

Quando você acredita no seu potencial e concentra seu foco naquilo, todo o esforço vale a pena.

Todas as bandas têm o sonho de alcançar seus objetivos, impactar pessoas através da música e subir em um palco e ver milhares de pessoas cantando suas canções. Como o próprio Costa já disse nos shows da Duetê é emocionante ver tanta gente cantando junto com ele as letras de músicas que compôs num pedaço de papel.

Ninguém sabe a receita certa do sucesso. Se alguém soubesse, milhares de artistas já estariam estourados por aí. Diferentes caminhos são tomados pelas bandas tentando alcançá-lo e, enquanto acreditarem no que fazem, nunca será tarde para tentar.

 

*Esse produto resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do Centro Universitário Una da Jornalista Bianca Morais.

 

 

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*Por Bianca Morais ,

E hoje é dia de música!!! Sim, vamos dar continuidade ao Almanaque de Bandas Independentes. Na publicação de hoje, destaque para a banda Devise.

DEVISE

Mote:

Substantivo masculino.

[Literatura] Estrofe que, localizada no início de uma composição poética, é utilizada como razão da obra, desenvolvendo o tema do poema.

Ok, mas por que eu estou explicando isso?

Porque em francês a palavra Mote é traduzida como Devise. E é dessa banda que vamos falar agora.

Não, eles não são franceses, muito menos falam francês. Mas o vocalista, Luís Couto, na procura de um nome para a banda, para além de um significado, procurava por algum nome forte que soasse legal e marcasse a imagem da banda. Começou então a pesquisar qualquer coisa que viesse à cabeça e traduzia para outras línguas para ver se soava interessante em português.

Estudando um pouco a estrutura de poesia, acabou lendo sobre o mote, o tema central da poesia, a essência de tudo.

Pensou então “bacana, mas Mote é um péssimo nome para uma banda.”.

Jogou em um dicionário e em francês deu Devise.

Pronto, é isso.

Apesar de no final ter um significado marcante, não foi esse o principal objetivo.

A banda nasceu em 2012 na cidade de São João Del Rei, onde o Luís e o Bruno Vieira (Mike, guitarrista) cursavam administração na UFSJ (o Mike era calouro do Luís). O Luís já conhecia o Daniel Mascarenhas (D2, baterista) lá de Bom Despacho, cidade natal dos dois, onde tocavam covers. O Bruno Bontempo (baixista) foi o último a entrar, substituindo o Coruja que ficou um ano na banda, pois havia substituído o Rafael Carvalho, que virou médico em 2016 e saiu da banda.

O Luís e o D2 tinham uma banda cover, o Luís possuía algumas músicas engavetadas e pensou em colocá-las para jogo. Ele já fazia parte de uma banda autoral, a Churrus, (escutem Oldfield Park da Churrus, também nas plataformas digitais), mas sentia que os estilos não combinavam muito e resolveu começar um novo projeto.

Luís chamou seu calouro Mike para gravar algumas dessas músicas e foi instantâneo, a banda precisava de um guitarrista como ele. Na época foram gravando três ou quatro músicas, guitarra e voz, e foi quando decidiram começar a ensaiar com a banda toda. O Rafa e o Daniel iam para São João Del Rei e a banda começava nascer ali.

O primeiro EP saiu no mesmo ano. Houve o lançamento e começaram a fazer shows, principalmente em Belo Horizonte, Bom Despacho e São João Del Rei, as cidades com as quais tinham um vínculo pessoal. O repertório no início era mesclado com alguns covers, mas apenas para preencher o setlist, já que o EP contava com 5 faixas. Como uma boa banda independente no começo, por mais que tocassem cover, a Devise sempre procurou dar o seu estilo para essas músicas.

Durante o ano de 2013, a banda ficou um pouco parada voltando apenas no final quando começaram a gravar o álbum Lume. Em 2014, houve o lançamento do disco e desde então não pararam mais. Posteriormente, em 2017, veio o Petricor e diversos singles.

Informações úteis para você continuar lendo sobre a Devise: o apelido do Daniel é D2 por causa da época do colégio. Na sua turma tinham três alunos com o nome de Daniel e ele era o segundo (não tem nada a ver com o Marcelo D2).

O Bruno Vieira é o Mike. Quando era mais jovem, era branquinho, magrinho e o cabelo grande levou os amigos a chamá-lo de Mick Jagger ou Michael Jackson, então a junção desses apelidos deu origem ao Mike.

Explicações dadas, como bons rockstars, vou me referir a eles aqui pelos apelidos que são conhecidos.

Banda geradora de caixa, não é uma banda geradora de lucro

A Devise está no mercado de bandas independentes há oito anos e hoje é uma das bandas de rock mais conhecidas da capital mineira. Já tocou no mesmo palco de grandes nomes da música brasileira, como exemplo, a participação no Breve Festival com Mano Brown, Iza e Djonga.

Já produziu com Jean Dollabella, tocou junto com Andy Summers, do The Police e João Barone, do Paralamas do Sucesso. Foram entrevistados pelo Henrique Portugal e sempre é lembrada pelo Samuel Rosa, do Skank.

Mas nada veio de mão beijada para os meninos vindos do interior, que não cresceram na capital, não tinham contatos do meio musical e não conheciam produtores musicais, que são as principais pessoas para abrir portas para shows. Tudo que conseguiram até hoje foi porque desde cedo eles correram muito atrás para conquistar. Foi com o tempo e entregando shows de qualidade que passaram a criar os contatos.

Realidade seja dita que para uma banda independente se manter, principalmente quando quer atingir um material de qualidade igual ao da Devise, há um custo financeiro alto por trás. Todos os rendimentos deles são para a subsistência da banda, seja na gravação de discos ou clipes.

A Devise é uma banda geradora de caixa, não de lucro. O Mike, Luís, D2 e Bontempo não sobrevivem à custa da Devise. Eles, assim como a maioria das bandas independentes, têm outros empregos e são realistas quando afirmam que é necessário ter outro trabalho que permita fazer o que querem. No meio da música independente, é fundamental que uma banda ame o que faz, pois somente isso fará com que continuem.

Os meninos da banda sempre correram muito atrás de tudo que conquistaram e entre eles existe admiração mútua e amizade muito grande. Viver de música não é fácil e desistir nunca foi uma possibilidade, mas sempre que alguém estremece, o que os mantêm firmes e fortes são os shows. O vício dos quatro integrantes é o palco. Quando se reúnem em cima dele para tocar, sentem a energia, a força e a vontade de não se render.

A amizade é outro elemento fundamental para a sobrevivência de uma banda independente, porque quando um companheiro de banda pensa em desistir ou começa a ficar distante, é pela amizade que os outros o trazem de volta. É uma questão pessoal.

Parar? Jamais. A sensação que os novos lançamentos proporcionam a eles dá a sensação de que o trabalho está acontecendo e, mesmo com as dificuldades e perrengues, a banda está viva.

A sintonia da banda

A Devise é uma banda que trabalha em sintonia, cada um de seus membros traz ao grupo diferentes referências e, todas unidas, cria-se uma liga. Cada cabeça consome influências diferentes e também conversam entre si.

Uma analogia breve sobre a Devise, por Bontempo:

A música tem que funcionar como um carro.

D2: funciona como uma força, tanto fisicamente por tocar a bateria, como no som dele, que é bem particular e bate no peito de uma forma diferente dos outros bateristas. Sendo então o motor desse carro, algo que move. Mesmo com seu jeito caladão, ele faz as coisas acontecerem. Segundo os outros colegas de banda, também pode ser o tanque de gasolina, porque bebe muito.

Bontempo: seria o volante que, em suas próprias palavras “o chato que só dá a direção, mas não faz nada”. Manda ir para lá, vir pra cá, mas, na verdade, é apenas o famoso palpiteiro. Os colegas, no entanto, afirmam que é um homem franco, tanto na personalidade quanto no seu som.

Mike: os adornos, os kits. Tudo de requinte e tudo que a gente reclama em um carro. Todas as coisas bonitas, os detalhes, a atenção.

Luís: as rodas. Não importa se você tem um baita carro, um motor excelente, os adornos e kits mais bonitos ou quem está na direção, sem as rodas não se vai a lugar nenhum. É o essencial para o carro andar.

O Mike fissurado em Led Zeppelin, o Bontempo em Red Hot Chilli Peppers, o Luís em britpop e o D2 metaleiro. Essas referências são muito encontradas nas músicas.

Se você escutar Go With the Flow do Queen of the Stone Age, vai gostar de Bodatista.

Se você escutar Berlin do Black Rebel Motorcycle Club, vai gostar de Indra.

Resgatando todas as referências, acabaram produzindo uma identidade sonora que vem amadurecendo muito desde o primeiro EP até hoje. A mudança do som de um disco para outro se dá principalmente pelo reflexo do que eles estão consumindo como música.

Em oito anos de banda, a Devise aprendeu a ousar mais. Sem medo de arriscar, atribuem elementos que gostam e escutam em suas músicas. Já colocaram órgão por influência de Deep Purple, guitarras mais barulhentas por causa de Oasis e guitarras mais rasgadas por causa de Led Zeppelin e Whitesnake. Em um disco da banda você vai tudo isso e muita referência do britpop e indie rock. E assim eles se enquadram no famoso rock alternativo.

Cada música surge de um jeito. Algumas enquanto estão passando som antes de algum show, alguém começa a tocar alguma coisa e dali sai uma base que é trabalhada na produção. Tem as músicas que o Luís escreve, tem outras que saem de um riff do Mike. No Whatsapp, a banda tem um grupo destinado apenas às ideias sonoras, então quando finalmente se reúnem no estúdio o processo flui bem rápido. Eles apenas unem o que foi discutido anteriormente no grupo, consolidam e colocam em ação.

É claro que essa rapidez e fluidez vem também do tempo de banda, que faz cada um entender mais de si e do grupo, se comunicar e pensar melhor. Criar playlists com referências também é uma dica que a banda dá para que todos entrem em sintonia e entendam melhor o projeto que um deles está propondo.

O Luís é o compositor principal e o grupo trabalha em volta fazendo os arranjos ou interferindo em alguma letra que ele compõe. As composições mudam de acordo com o momento de vida pelo qual passam. As letras, em sua maioria, são inspiradas em situações cotidianas e pessoais.

O bilhete de Kurt Cobain a Arnaldo Baptista

Nem somente de algo pessoal falam as músicas da Devise, um exemplo disso é Bodatista. A música nasceu depois que Luís assistiu ao documentário do Arnaldo Baptista, mais precisamente no momento em que o artista fala do bilhete que Kurt Cobain, ex-vocalista e guitarrista da banda grunge Nirvana, escreveu para ele. Na época, Kurt veio ao Brasil e queria encontrar o integrante da banda Os Mutantes, porque o considerava sensacional. Porém, o encontro não aconteceu e, por isso, ele escreveu um bilhete ao músico:

“Arnaldo, te desejo o melhor e cuidado com o sistema. Eles te engolem e te cospem de volta como o caroço de uma cereja marrasquino. Com amor, Bill Bartell da Gasatanka Records e White Flag e Kurt Cobain do Nirvana”.

Isso o tocou muito, porque o vocalista enxergou que os dois artistas compartilhavam a mesma dor do julgamento das pessoas por ser quem eles queriam ser. Assim, resolveu fazer uma homenagem a ambos.

O nome da música vem da capacidade incrível do Luís de dar nomes (por mais que ele diga que não) a tudo. Fã de Kurt Cobain, Luís estudou o músico e descobriu que Cobain tinha um amigo imaginário e que o nome era Boddah, por isso Bodatista, vindo do encontro dele e do Baptista.

Luís, tenha a certeza de que sua imaginação e criatividade para nomes é realmente muito boa e muito diferenciada, por assim dizer.

Mesmo o rock não estando no seu auge, ainda há um grande público em seu favor. A Devise procura atrair a galera que quer conhecer bandas novas, abrindo a mente deles para o rock local, além de atingir pessoas que não querem ouvir AC/DC, Strokes e Oasis para o resto da vida (não que isso seja um problema).

Abrir a mente é algo essencial para começar a gostar de bandas autorais e independentes. A Devise foi a primeira que escutei. Me lembro como se fosse ontem o dia que uma amiga me fez ir ao show deles em um evento onde só tocariam bandas independentes e o ingresso custava 20 reais, no Espaço Do Ar. Imagina um lugar longe, é lá mesmo. E outro detalhe, só vendia cerveja artesanal e… xeque mate!

Para mim, jovem que ama cerveja barata e escutar bandas covers que tocam um pouco de tudo que eu gosto, ir a um rolê onde eu não saberia cantar nenhuma música e também não beberia, era um sacrifício enorme por uma amizade que valia ouro (a minha, no caso).

Chegando ao evento, para minha surpresa, não somente as bandas eram autorais, mas até o DJ só tocava música autoral. Me senti perdida e entediada, até que chegou a hora do show.

A minha amiga já era muito fã da banda e, como boa fã (e a amiga da boa fã), nos posicionamos na frente do palco. A Devise começou e imediatamente algo mudou. Tudo que eles tocavam me remetia a bandas que eu gostava muito. O show foi acontecendo e as músicas entrando na minha cabeça de uma forma involuntária. A voz do vocalista parecia tanto com a do Liam Gallagher que, quando ele abriu a boca para cantar Além do Próprio Espelho, na primeira frase “deixa o dia recomeçar”, eu achei que ia sair um “today is gonna be the day” ali. Não saiu, mas que música boa.

O show foi todo autoral e juro para vocês, nem um coverzinho. Eu não conhecia nenhuma música. A minha boca nem mexeu, mas a minha cabeça estava a milhão. Quando entramos no Uber para ir embora, fui despejando na minha amiga tudo que eu conseguia lembrar de frase ou de melodia para que ela me falasse o nome da música. No dia seguinte eu já estava com a playlist Devise pronta no meu Spotify e dali não parei de ouvir mais.

O segundo show que fui deles e o primeiro com as letras na ponta da língua, foi n’A Obra. Ali eu me sentia em um mega show, de uma banda super famosa que eu era muito fã. Eu realmente cantava as músicas com emoção e eu conhecia todas. Foi incrível. Dali para frente, em todos os shows consigo ir, eu vou e me divirto muito.

Agora eu vou falar porque você deve escutar as bandas independentes da sua cidade. Sempre vai ter show. Sabe a sua banda internacional favorita que vem ao Brasil de 2 em 2 anos e olhe lá? Então, sempre haverá show das bandas da sua cidade. Você sempre vai ter a oportunidade de sair pelo menos uma vez no mês para se divertir e cantar ao vivo as músicas que canta lá no busão ou no banho. Tem coisa melhor? Além disso, por que ouvir uma cópia de grandes sucessos se você pode ouvir algo original e diferente? É ótimo passar a madrugada bêbado com amigos ouvindo e vendo alguma banda cover reproduzir Live Forever do Oasis, Californication do Red Hot e You Shook Me All Night Long do AC/DC, mas experimenta a sensação de ir a um show da Devise e ouvir toda a plateia cantando o refrão de Sem Fim, em coro. Abra sua mente e dê uma chance para o cenário local.

 

*Esse é um produto resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do Centro Universitário Una da Jornalista Bianca Morais.