Cotidiano

“Meu trabalho consiste em levar soluções eficientes às famílias, casas e as empresas, de forma em que haja mais qualidade de vida às pessoas”

Por Italo Charles

Organizar espaços e torná-los funcionais nem sempre é uma atividade fácil. Para muitas pessoas pode parecer uma tortura, mas para outras pode ser algo prazeroso e até mesmo  uma profissão.

Em meados da década de 1980, nos Estados Unidos, um grupo de amigas empreendedoras – Bewerly Clower, Stephanie Culp, Ann Gambrell, Maxine Ordesk  e Jeanne Short – se reuniram para oferecer serviços de organização na cidade de Los Angeles.

A partir de então, a prestação de serviços do grupo ganhou grandes proporções e em menos de três anos fundaram a National Association Productivity & Organizing, que atualmente conta com mais de 4 mil membros.

No Brasil, a atividade de organização se iniciou por volta dos anos 2000. Não há registros da primeira pessoa que começou a atuar nesse ramo de forma profissional no país. Mas sabe-se que a maioria começou auxiliando familiares e amigos.

Ao decorrer do tempo, os serviços prestados foram crescendo e em 2006 profissionais da área se juntaram para criar uma associação a fim de subsidiar e regulamentar a profissão, porém apenas em 2013 que de fato a Associação Nacional de Profissionais de Organização e Produtividade (Anpop) foi estabelecida.

Mas, ainda hoje existem rumores e desconhecimentos sobre a profissão  e atuação de Organizers no Brasil. Em entrevista ao Jornal Contramão, Karina Carneiro Elian Costa, personal há três anos e proprietária da Kaetrenos Organização, fala sobre a profissão e dá dicas de como deixar o home office mais organizado e eficiente.

 

Como você descobriu a área de atuação como “Personal Organizer”? 

A organização sempre foi um dom, um hobbie e uma ferramenta de organização dos próprios sentimentos e emoções (organizar algo ou algum ambiente, sempre foi para mim uma forma de me organizar internamente).

Mas, como nenhuma profissão se faz apenas com dom ou habilidades, comecei a ver a possibilidade de profissionalizar esse, até então hobbie, a partir do olhar de amigos próximos, familiares e posteriormente, alguns programas de canais fechados de TV.

Após pesquisas, descobri que a profissão já existia fora do Brasil há mais de 20 anos, mas aqui (Brasil) ainda não era conhecida e muito menos regularizada. Comecei então a ler a pouca literatura existente antes de me profissionalizar em um curso e, como pedagoga de formação, reconheço que é um mercado que exige muito conhecimento (de diversas naturezas).

E, claro, com um olhar empreendedor de natureza, esses conhecimentos foram aos poucos, ao encontro das necessidades das pessoas ao meu redor. Organizar a casa, organizar o espaço de trabalho, a agenda, entre outros.

Apesar de parecer uma novidade, a profissão de Personal Organizer surgiu na década de 1980 nos Estados Unidos,

 

Quais foram/são os maiores desafios? 

No início, confesso que o maior desafio era enxergar a atuação de organizer como profissão reconhecida e valorizada. A grande maioria da população brasileira não sabia o que era (o que ainda é uma realidade hoje) ou, achava que era um serviço supérfluo e destinado à Classe A.

O meu maior desafio hoje é apresentar o serviço de organização para todos os níveis sociais. Mostrar como a vida organizada (interna e externamente) traz inúmeros benefícios e, não necessariamente é preciso ter a casa mais bonita, decorada, os melhores organizadores e etc.

Hoje a profissão tem crescido bastante, mas ainda é preciso percorrer um longo caminho, sobretudo no que diz respeito a valorização de mercado.

Infelizmente, muitas pessoas ainda acham que é só ter o dom e acabam entrando no mercado sem qualificação, o que desvaloriza a profissão.

 

Como funciona a rotina de um profissional Personal? Há passos fundamentais a serem seguidos? 

Sim… Há alguns passos fundamentais na minha rotina de organizer.

O primeiro deles é ouvir o cliente: entender um pouquinho da sua rotina e quais as suas principais queixas em relação à organização atual do seu espaço. Também é  dar a oportunidade de conhecer melhor como funciona o trabalho, o portfólio e esclarecer as suas dúvidas, etc.

A partir daí, começamos o trabalho na visita técnica. É nessa visita, que pode ser presencial ou através de vídeo conferência e até mesmo por vídeos e fotos, que consigo entender a real necessidade do meu futuro cliente, qual a sua rotina, espaço e o que ele espera de mim. 

Uma Personal Organizer não organiza apenas closets, o serviço é amplo e pode ajudar em qualquer âmbito da vida de uma pessoa, desde a organização de documentos, mudanças, residências e empresas inteiras!

Nessa hora muita gente fica com vergonha, com medo do que a personal organizer vai pensar quando ver a bagunça. Mas, um profissional sério não tem olhos julgadores para o espaço. E pode acreditar que, com nosso olhar apurado, até a bagunça nos ajuda a entender o que não está funcionando ali e buscar soluções que tragam um resultado eficiente. Quanto mais soubermos sobre a rotina no espaço a ser organizado, melhor será o resultado da organização.

É o resultado desta etapa que vai me permitir criar o projeto com mais eficácia e esclarecer o que pode ser esperado do resultado da organização do seu espaço.

Essa é a próxima etapa: criar um projeto baseado no que foi conversado e visto do local, apresentando as soluções pensadas para aquele cliente especificamente. Ou seja: tudo é personalizado porque ninguém tem o mesmo espaço, a mesma quantidade de objetos, a mesma rotina.

No projeto, além das soluções, também envio o orçamento e a quantidade de tempo que será necessária para a transformação acontecer. Não existe uma tabela de preços. Cada profissional decide o seu preço e, em geral, leva em conta a sua experiência, os custos necessários para manter a sua estrutura, entre outras questões. Assim como em qualquer profissão.

Na maior parte dos projetos, também sou eu quem faz a compra dos produtos organizadores, previamente acordados com o cliente. O que também é opcional. Trabalho de uma forma que tento, ao máximo, otimizar e aproveitar tudo o que o cliente já possui. Mas, é claro que, na maior parte das vezes, como as pessoas não costumam investir tanto nisso ou não possuem conhecimento específico em organização, é necessário levar itens básicos que permitirão a “mágica” da organização acontecer.

Uma Personal Organizer também ajuda a cliente a se livrar de objetos que fazem mal emocionalmente para ela (e). Orientar e escutar é uma das rotinas cruciais na organização. 

Como o mercado e o público entendem a profissão e atuação dos profissionais? 

Quando comecei, esse era um grande mercado adormecido no Brasil, o da organização pessoal, residencial e corporativa. Não havia empresas, sites ou blogs que falassem tanto assim no assunto.

Porém, o mercado tem estado cada vez mais aberto e o tema organização e produtividade tem sido referência constante na mídia. Novas empresas, blogs e sites surgem a cada dia. Principalmente pelo fato de que, na pandemia, as pessoas passaram a conhecer melhor os seus lares, e assim, passaram a enxergar os “vilões” de um espaço e uma vida desorganizada. 

Os tempos modernos fazem com que o tempo fique mais curto e mais valioso. É nesse cenário que o trabalho de um Personal Organizer passa a ganhar um papel cada vez mais importante. A tendência é que as pessoas utilizem seu tempo com a sua família, com o lazer ou com o seu próprio desenvolvimento pessoal. 

Hoje, também cresce a compreensão da necessidade de se otimizar os espaços residenciais (mais praticidade e economia) e de trabalho (mais produtividade e menos stress) e, para alcançar tudo isso é necessário organizar, e é exatamente aí que entra o Personal Organizer, oferecendo serviços, orientação e soluções para uma vida mais organizada, e claro, com mais praticidade e produtividade.

Se ficarmos atentos, considerando que tudo evolui, assim como no mercado americano, que já tem quase 30 anos de desenvolvimento, iremos entender que há muito ainda por acontecer por aqui. Até o mercado do varejo está mais atento ao mercado da organização. Grandes lojas já contam com setores específicos para a venda de produtos desse segmento.

 

Acredito que exista um tabu em relação à profissão e que muitas pessoas acham que não é pra elas por ser “caro”, como mudar essa visão? 

Esse tipo de serviço foi por muito tempo e ainda é considerado para para uma classe mais provida de recursos financeiros. É aí que entra um dos meus diferenciais no mercado pois, a organização está para todos, e nos mais variados aspectos das nossas vidas.

Por muito tempo, a organização estava associada a um espaço planejado, decorado, estruturado e, principalmente, para quem tinha espaço. Com a mudança dos espaços residenciais para casas cada vez menores, as rotinas de trabalho e cada vez mais corridas das pessoas e com isso, a falta de tempo, a organização se faz necessária para todas as pessoas. Com ela, deixamos de perder tempo, multiplicamos o espaço que temos, alcançamos uma vida mais produtiva e temos mais prazer em nosso dia a dia. Bem estar é tudo!

 

O serviço de personal organizer não está condicionado somente a casas, certo? Em quais outros espaços ocorre essa atuação? 

Os clientes estão em todos os lugares e as necessidades de uma vida organizada se fazem em todas as áreas. Com os diversos cursos existentes no mercado hoje, já temos especialização para as diferentes demandas: residencial (que é o mais demandado), pré e pós mudanças, organização corporativa, organização baby e infantil, arquivos digitais, organização de fotos e documentos, organização de barcos, luto, malas/viagem.

Depende da segmentação que você fizer do seu negócio. Algumas organizadoras só dão consultoria. Outras, só organizam armários.

Com o crescimento do mercado, as organizadoras profissionais estão se especializando cada vez mais.

Durante esse período de pandemia em que as pessoas estão a maior parte do tempo em casa, trabalhando em casa, fica até difícil manter uma organização  e talvez, para além disso, dificulte o seu trabalho.  Como tem sido atuar nesse período, quais os desafios e, sobretudo, como as pessoas podem manter o espaço de casa e trabalho organizados? 

De fato, o período da pandemia trouxe um olhar extremamente diferenciado para os ares, adicionando esse ambiente fundamental nos dias de hoje: o home office.

Não é tão difícil assim criar esse ambiente de produtividade, mesmo para aqueles que não possuem um escritório em casa, ou seja, um espaço para ler, trabalhar, produzir…A importância de se manter um escritório em casa organizado vai além da questão estética, auxiliando também na concentração e aumentando a produtividade.

Como personal organizer, recebi muitas demandas de auxílio/consultoria, para organizar e até mesmo criar esses espaços nos lares. O maior desafio do momento, é estar auxiliando meus clientes presencialmente. Porém, com a tecnologia a nosso favor, tenho me re-inventado e criado atendimentos adaptados para trazer soluções ao meu público.

No exemplo do home office, é importante que esse espaço seja pensado de forma específica dentro de casa, através de local que não tenha tanto barulho, que sejam aproveitados ambientes com iluminação natural

Crie um local (casinha) para todos os objetos necessários para o trabalho (agendas, canetas, blocos, fios dos eletrônicos, papéis, livros…) 

Utilize mobília, tapetes e divisórias como painéis móveis para criar múltiplos espaços e aumentar a funcionalidade

Use acessórios organizadores como caixas e revisteiros para manter os itens guardados (nesse caso, para quem não tem gavetas disponíveis). Opte sempre pelos organizadores móveis

Mantenha a mesa limpa: quanto menos objetos espalhados, maior a sensação de limpeza e organização

 

Sua conta no Instagram é bem ativa, como surgiu a ideia de usar a Internet como complemento do seu trabalho? 

Acredito muito no poder da internet há algum tempo. Claro que hoje, além de importante, usar esse espaço é essencial. A melhor forma de ser visto e reconhecido, sem dúvida.

Como comecei na organização atuando como pedagoga empresarial, essa foi uma maneira de dizer às pessoas não próximas a mim que esse também seria o meu trabalho. Fez parte do processo de transição de carreira, me estabelecer como P.O e ser vista assim. 

Existe a possibilidade de prestar o serviço de personal organizer virtualmente? 

Claro!! E como dito anteriormente, após a pandemia, foi necessário me reinventar e deu super certo. Até mesmo para aquelas pessoas que achavam ser impossível contratar uma personal organizer, essa também foi uma solução. Hoje em dia, além da consultoria online, onde conheço virtualmente o espaço do cliente e apresento as melhores soluções, também faço a venda dos acessórios (atualmente estou desenvolvendo uma linha de produtos organizadores que já conta com colméias organizadoras, ganchos e planner), e material exclusivo ensinando as técnicas (dobras) em um ou dois encontros virtuais. A pessoa executa, mas todo o projeto é proposto por mim e acompanhado.

 

Conheça mais sobre o mundo da organização acessando o perfil de Instagram @kaentrenos.organizacao da Karina.

 

“Organizar é solucionar!!!

E todo mundo merece uma vida e um ambiente em ordem”  – Karina Carneiro

 

*A entrevista foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis

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Por Bianca Morais

Hoje, 19 de março, é dia de São José de Nazaré. Biblicamente falando ele é o esposo da Virgem Maria e pai adotivo de Jesus Cristo. Além desse título, São José ainda é tido como “Padroeiro dos Trabalhadores”, de acordo com a tradição cristã, ele era carpinteiro, praticava ofício de maneira artesanal, e por conta disso, divide sua data comemorativa com a linha de profissionais que o tem como protetor, 19 de março também é então Dia Mundial do Artesão.

Artesão é aquele indivíduo que pratica arte ou ofício que dependem de trabalhos manuais. São produtos feitos de formas únicas, por mãos de profissionais que depositam toda sua dedicação para produzir algo exclusivo.

Os produtos artesanais fogem daquela linha de produção em série das indústrias e são encontrados por todo o país, principalmente em feiras livres e eventos de exposições. Na capital mineira existe uma das maiores feiras de artesanato do país, que também é um dos principais pontos turísticos de Belo Horizonte, a Feira de Artesanato da Afonso Pena, popularmente conhecida como Feira Hippie.

Antes da pandemia, todos os domingos, a avenida, que é uma das mais movimentadas da capital mineira, se fechava para receber artesãos e visitantes. Por lá se encontrava de tudo, arranjos decorativos, móveis rústicos, cestos, tapetes, cortinas, calçados, bolsas, bijuterias, vestuário adulto e infantil, enxoval para bebês, brinquedos, pinturas, esculturas e muito mais, quase tudo feito a mão pelos expositores. Atualmente, a feira se encontra fechada para evitar aglomerações, mas muitos desses artesãos continuam a produzir e vender seus produtos de forma online, em sites, redes sociais e aplicativos. Um exemplo é o Fala Feira, um instagram criado exclusivamente para exposição e venda desses produtos na internet.

O artesanato é sem dúvida a profissão mais antiga do mundo e nesse dia não poderíamos deixar de homenageá-los. Hoje o Jornal Contramão conta a história de Maria Aparecida dos Santos Ferreira,também conhecida como dona Cida, uma das milhares de talentos da feira. Ela que cresceu com a feira e dela tirou o sustento para criar seus filhos. 

Cida, a artesã

Linha, agulha, tesoura, cola, arco, bico de pato, fitas dos mais diversos modelos, tamanhos e larguras, decoração à gosto. Esses são os materiais utilizados pela artesã Maria Aparecida dos Santos Ferreira, 68 anos, para produzir a mão seus artigos de cabelo para crianças e vendê-los na Feira de Artesanato da Afonso Pena. O material é este, agora a criatividade de inventar o que vai sair dali com intuito vender é um elemento a mais.

Maria Aparecida, está no ramo de artesanato há 40 anos. Começou seu trabalho como artesã por meio de uma oportunidade que teve de trabalhar com uma senhora, a Dona Carmem. Era Cida que colava as caixas, produzidas por Carmem, e trabalhava em cima delas dando seu toque especial e único para cada uma delas. Essas caixas se transformavam no final em lembrancinhas de casamento, aniversários de 15 anos, ou para qualquer finalidade que o cliente quisesse. 

Através de dona Carmen, Cida, teve a chance de aprender e confeccionar para si própria, foi então que conseguiu sua primeira licença na prefeitura e começou a trabalhar como feirante, na Praça da Liberdade. Na época, conseguir uma barraca era menos burocrático e demorado, diferente dos dias de hoje, que os trabalhadores manuais esperam meses e até anos para receberem a licença para expor seus produtos em feiras ao ar livre. Nesse período, não existiam concorrências, a feira era muito grande e tinha espaço a favor de todos. Na Praça da Liberdade, Cida trabalhou durante muitos anos, todas as quintas e domingos. Lá ela fez seu pé de meia e conquistou sua clientela.

Em 1991, a Feira Hippie, foi transferida da Praça da Liberdade para a Afonso Pena, onde se tornou a maior desse estilo a céu aberto da América Latina.

Um novo lugar, uma nova história 

Cida, com outros feirantes, lutaram muito com objetivo de continuar na Praça da Liberdade, afinal, ali já tinha um ponto fixo reconhecido por seus clientes. A artesã sabia que ao mudar de área precisaria começar de novo e foi exatamente isso que aconteceu.

O recomeço teve início com um sorteio, onde os vizinhos de barraca se perderam, os pontos das barracas foram redefinidos, a feira passou a ser dividida por setor, letra e fila. Maria Aparecida havia perdido seus clientes, ninguém encontrava ninguém, logo, ela precisou se reinventar.

A história recomeçou com o conselho de uma amiga, a Dona Hilda, que sugeriu a ela que aprendesse a fazer lacinhos de cabelos, pois os mesmos sempre foram acessórios obrigatórios nas meninas quando crianças. Dessa forma, a feirante entrou em um novo ramo, agora de arranjo e complemento e comercializava laços, tiaras, faixas, tic-tacs, clips e carequinhas.

Como todo recomeço foi preciso se organizar, planejar, plantar o novo, procurar clientes, tratá-los bem em prol de fidelizá-los. Sua rotina era puxada, chegava à feira todos os domingos às duas da madrugada e finalizava seu dia de comércio às três da tarde. Grande parte dos clientes vinham de fora, a maior parte das vendas eram pelo meio de atacado. A Afonso Pena recebia em média cem ônibus por final de semana, eram visitantes do mundo inteiro. Cida já enviou laços para os quatro cantos do Brasil, além de vender presencialmente para gringos e exportar seus adereços. 

É com muito orgulho que a artesã relata que em seus 40 anos de feira recebeu apenas um cheque sem fundo, que guarda até hoje. Numa época em que não existia máquina de cartão e os feirantes trabalhavam apenas com dinheiro e cheque. Ter tido apenas um prejuízo é muita sorte, garante ela orgulhosa.

Artesãos x China 

Após anos expondo sua arte, dona Cida, acredita que os artesãos de verdade, de linha, agulha e tesoura, perdem muito seu espaço para a China, que é grande produtora em larga escala de diversos tipos de produtos. 

“A China tomou conta da feira hippie, nem se fala que é feira hippie mais. Você vai em São Paulo, compra qualquer coisa a 50 centavos e vende aqui a 5 reais” desabafa.

A principal ferramenta do artesão são suas mãos e o diferencial é a criatividade. Muitas pessoas preferem pagar mais barato em algo industrializado e importado da China, desmerecendo o trabalho desses profissionais milenares, que passam seu ofício através de gerações. No entanto, ainda existem aqueles que entendem o quão especial é ter um produto único, feito a mão, produzido por alguém que saiu de sua casa, pegou ônibus, foi até o centro da cidade, comprou meio metro de fita e desenvolveu com todo cuidado cada detalhe da peça. O que vem da China é barato, mas o valor pago a um artesão pelo serviço, é resultado de muito esforço e carinho depositado em cada produto.  

Um artesão que dedica sua vida àquilo, enfrenta diversas dificuldades para estar ali todos os domingos e entregar suas peças. Tem o perigo de chegar tarde da noite e trabalhar no escuro, enfrentar as chuvas e o sol quente debaixo de uma barraca de lona, e tem também, a dificuldade financeira.

O padrão de consumo tem mudado bastante, ultimamente não são todos os consumidores que têm dinheiro para gastar em supérfluo e acabam por comprar apenas o necessário. No caso de dona Cida, se antes os clientes compravam seus adereços aos montes, hoje as vendas se resumem em uma ou duas peças para uma ocasião especial, onde os laços e apetrechos são considerados peças essenciais, como as datas comemorativas.

São muitas décadas de profissão e Maria Aparecida garante que é preciso gostar muito da profissão. É o prazer de trabalhar durante toda a semana e se encontrar aos domingos com os outros amigos feirantes a fim de vender. Ali tudo se cria e também se copia, e não existe problema nenhum nisso. Cida conta que um criava uma novidade e compartilhava com o vizinho de barraca e assim ela se espalhava. “Eu fazia um modelo, quando é na outra semana elas apareciam com um igual o meu, aí eu pegava o modelo delas e fazia a mesma coisa”.

A feira para Cida é uma segunda casa, é uma família que ela construiu, lá ela conversa, ela ri, chora, brinca. Alguns já se foram, como é o caso da dona Hilda, aquela que lhe ensinou a fazer os artigos de bebê, mas sua herança e seus ensinamentos sempre estarão presentes. Na feira é um por todos e todos por um. Se alguém está prestes a perder uma venda devido a não ter troco, todos se unem com o propósito de ajudar. Alguma pessoa não tem dinheiro para comprar material para produzir, eles se juntam e auxiliam.

Hoje existe uma saudade do que foram esses tempos. A feira, sem dúvidas, é um lugar de aglomeração, e era uma aglomeração boa, todos alegres, trabalhando e comprando, porém a realidade que vivemos atualmente não nos permite isso, infelizmente no momento presente aglomeração é sinônimo de medo. Vivemos em uma pandemia que já levou milhares de vida embora. A grande maioria dos feirantes são de idade avançada e não podem se expor.

Maria Aparecida relembra com carinho e emoção os velhos tempos, em muitos domingos durante a pandemia ela acordou cedo e chorou ao lembrar que não tinha mais feira. Toda vida, a senhora já de idade, gostou de ir trabalhar e acredita que a cada dia que passa se torna mais próximo a hora de entregar sua barraca.

A satisfação de ser uma artesã, dona Cida irá carregar para sempre. As memórias de seus parentes indo visitá-la em sua barraca e elogiar sua mercadoria, a sobrinha que por anos foi sua modelo favorita. Essas lembranças ela não entregará junto com a barraca, essa nem mesmo a pandemia poderá tirar, essas ela irá carregar para sempre consigo.

 

*Edição: Daniela Reis

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Dia 02 de dezembro é comemorado o aniversário do estado

*Por Bianca Morais

O estado, conhecido como um dos maiores do Brasil, recebe anualmente milhares de turistas interessados em se aventurar pelas maravilhas que são as cidades históricas, as cachoeiras, a estrada real, os museus e a gastronomia. Minas Gerais é abraçado por serras que contemplam um encanto só delas, e como já se dizia a letra da música: “Ó Minas Gerais quem te conhece não esquece jamais”.

Quando se trata de música, a mineira conquista milhares de corações ao redor do Brasil e do mundo. Artistas não apenas na área da música, mas jogadores de futebol, políticos, e tantos outros famosos mineiros que marcaram o mundo.

Hoje Minas comemora seus 300 anos com muita bagagem de quem à muito tempo mostra ao mundo o que é história de verdade.

300 anos de história

Como o próprio nome já diz “Minas Gerais”, um estado repleto de minas que por anos foram exploradas pelos bandeirantes em busca de ouro e pedras preciosas.

Em 1709, foi criada a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, que mais tarde, em 1720, com objetivo de facilitar a administração dos territórios foi desmembrada pela Coroa Portuguesa, sendo criada a Capitania de Minas, que se tornou conhecida como Minas Gerais. O alvará dessa separação foi datado no dia 2 de dezembro daquele ano, data oficial do nascimento do estado.

As Minas Gerais, quem conhece não esquece jamais

A atividade minerária sempre foi grande no estado, principalmente na época Brasil Colônia, e com isso uma das heranças deixadas pelo período foi a Estrada Real, primeira rota feita pelos portugueses para levar as pedras preciosas de Minas até o mar.

A rota começa em Ouro Preto, localizada em meio às serras mineiras, a cidade reúne o maior e mais importante acervo da arquitetura e da arte do período colonial de todo o Brasil.  O trajeto ainda passa por cidades históricas e marcantes do turismo mineiro como Mariana, a primeira capital de Minas Gerais, Diamantina e seus povoados encantadores, Congonhas, terra dos 12 profetas de Aleijadinho, Lagoa Dourada, lar do famoso rocambole, tradição passada entre famílias, Resende Costa marcada pelo artesanato local, São João Del Rei e Tiradentes, ligadas pelo passeio de Maria Fumaça, cidades que até hoje possuem casarões coloniais, ruas de pedra, igrejas barrocas, e claro, a boa e velha culinária mineira.

A estrada Real corta muitas outras cidades mineiras, algumas delas como Carrancas, São Tomé das Letras, Aiuruoca, Pouso Alto e Itamonte, que são conhecidas pelas suas cachoeiras, fauna e flora diversificadas. MG é a caixa d’água do Brasil, recebe nascentes de grandes rios, por isso, é um dos estados que mais tem cachoeiras no país, recebendo visitas de todo o mundo para conhecer as famosas quedas-d’água.

O turismo no estado vai muito além da rota da estrada Real. As serras que rodeiam o estado, são um desses atrativos, Serra da Piedade, Serra da Mantiqueira, Serra do Cipó, Serra da Canastra, Serra do Caparaó, Serra da Moeda, todas com lindas paisagens, atraem os diversos públicos, desde casais buscando aconchego, até aventureiros que exploram suas trilhas, escaladas e voos de parapente.

Minas ainda é o lar do maior museu a céu aberto do mundo, o Inhotim. Localizado na cidade de Brumadinho, o instituto recebe anualmente milhares de visitantes, repleto de galerias com artes contemporâneas, o museu ainda abrange uma espetacular área verde, com um jardim botânico impecável onde se encontra a maior coleção em número de espécies de plantas vivas entre os jardins botânicos brasileiros.

Minas Gerais é repleto de peculiaridades e elementos que a tornam única. Poucos sabem, mas o estado concentra o maior número de grutas e cavernas do país, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), das 16.034 cavidades naturais registradas, 6.184 (38,5%) estão em Minas. São lugares com mais de 600 milhões de anos de história, esculturas naturais moldadas pela ação da água e formações rochosas.

Duas grutas muito populares são a Gruta do Rei do Mato em Sete Lagoas e a Gruta da Lapinha em Lagoa Santa, na última se encontra o museu Peter Lund com acervo de 80 fósseis e é conhecida como uma das maravilhas da Estrada Real, ambas se localizam na região metropolitana de Belo Horizonte. Para um turista que esteja disposto a se aventurar um pouco mais longe, a Gruta de Maquiné, localizada em Cordisburgo, apresenta pinturas rupestres e outros vestígios arqueológicos. As três grutas formam a Rota das Grutas de Peter Lund, naturalista dinamarquês considerado o pai da paleontologia e arqueologia no Brasil.

A cidade de Cordisburgo não abriga apenas a famosa Gruta de Maquiné, lá também é o local de nascimento de um dos escritores mais importantes do modernismo no Brasil, João Guimarães Rosa. Em seu conto Recado do Morro ele retrata o lugar “(…) tão inesperada de grande, com seus enfeites de tantas cores e tantos formatos de sonho, rebrilhando risos na luz – ali dentro a gente se esquecia numa admiração esquisita, mais forte que o juízo de cada um, com mais glória resplandecente do que uma festa, do que uma igreja”.

Berço de grandes artistas

Guimarães Rosa que assinou importantes obras da nossa literatura como o Grande Sertão Veredas, sempre tratou com admiração o estado em que nasceu. “Minas, são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais.” E estava certo.

Minas Gerais é solo de grandes escritores, e outro nome muito conhecido também nasceu em terras mineiras, mais especificamente na cidade de Itabira no dia 31 de outubro de 1902. Um dos mais importantes nomes da poesia brasileira de todos os tempos, poeta, contista e cronista, o nome dele, Carlos Drummond de Andrade.

Itabira foi a primeira casa do escritor que se orgulhava disso, em diversos poemas Drummond, faz referência a cidade, que em forma de carinho e exaltação a sua imagem criou o Museu de Território Caminhos Drummondianos. O lugar é uma espécie de museu a céu aberto, com 44 placas-poemas distribuídas por diferentes pontos da cidade, identificando os locais citados nos poemas de Drummond.

(…) Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação (…)

O verso acima faz parte do Confidência do Itabirano, um dos poemas espalhados pela cidade de Itabira, esse em específico se localiza no Memorial Carlos Drummond de Andrade, desenvolvido por seu amigo Oscar Niemeyer. Localizado em um dos pontos mais altos da cidade, o Pico do Amor. Ao chegar no lugar o turista se depara com uma estátua do poeta sentado num banco, o memorial ainda abriga um precioso arquivo de livros de Drummond. A cidade de Itabira mantém a lembrança do poeta sempre viva.

Mas não é apenas dos grandes escritores que nós, mineiros, podemos sentir orgulho. Aleijadinho e Mestre Ataíde, reconhecidos como maiores artistas do período Colonial, o primeiro escultor e o segundo pintor, nasceram nas terras mineiras e nelas deixaram eternizadas suas obras.

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, nasceu na cidade de Ouro Preto em 1738. Ele é considerado o maior representante do barroco mineiro, conhecido por suas esculturas em pedra sabão, um exemplo delas são os profetas do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas.

Próximo de Ouro Preto, em Mariana nascia no ano de 1762, Manoel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, produziu um acervo imenso de pinturas espalhadas pelo estado, principalmente em igrejas. Na famosa Matriz de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, se eternizou uma de suas criações, a Assunção de Virgem Maria, rodeada de uma orquestra de anjos.

E é assim, com grandes Mestres como Ataíde, Reis como Pelé, ou até mesmo aqueles que não nasceram em Minas, mas são mineiros de coração, como é o caso do excepcional e único Milton Nascimento, que Minas se consagra como um berço de grandes artistas.

“De uma terra tão distante do mar 

Vem trazendo esperança para quem quer

Nessa terra se encontrar

E o trem…

Gente se abraçando

Gente rindo

Alegria que chegou no trem

(o trem…o trem…o trem)”. 

 

*Edição: Daniela Reis

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*Por Moisés Martins

Antoine Laurent Lavoisier, conhecido como Lavoisier foi um grande químico do século XVIII, o parisiense se interessou pela ciência  e  tomou gosto pela química, e logo ficou conhecido por derrubar teorias científicas. 

Em 1777, era o princípio da conservação de massas, conhecido pela frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Hoje, em pleno século XXI, a então frase ainda é muito usada, e é por isso que resolvi usar ela para falar de transformação.

Do lado de fora da janela do meu quarto, me chama atenção um pé de Sechium edule, o famoso “pé de chuchu”, em algumas regiões recebe o nome de machucho, caiota e pimpinela, mas aqui, é só chuchu mesmo.

Mas vocês devem estar se perguntando: O que o pé de chuchu tem haver com transformação? É aí que começa a história!

Por se tratar de uma trepadeira herbácea (Plantas de caule macio ou maleável, normalmente rasteiro), o pé de chuchu necessita de um apoio superficial para que consiga crescer e se ramificar, o daqui de casa por exemplo cresceu sobre uma goiabeira.

No princípio havia a dúvida se o pé de goiaba seria sufocado pelos ramos, mas logo descobrimos que plantas trepadeiras não são parasitas, então optamos por deixar a natureza seguir o seu curso. Meses se passaram, e já não era mais possível ver as folhas e nem se quer o próprio tronco da goiabeira. O pé de chuchu tomou forma e logo veio a colheita.

Nos primeiros meses o chuchuzeiro surpreendeu a todos, teve mês em que foi colhido quatrocentos frutos, uma média de quinze por dia. Foi uma grande transformação, com tanta fartura, a felicidade de quem o plantou foi duplicada e famílias foram contempladas com a hortaliça que foi ganhando cada vez mais cuidado e atenção, além da fama.

Ninguém se quer lembrava do infrutífero pé de goiaba, nem mesmo os pássaros, que aproveitaram os raminhos fechados para fazerem seus ninhos e se reproduzirem, as borboletas faziam os seus casulos e os filhotes de Gambá ficavam escondidos nos emaranhados do chuchu, enquanto sua mãe os alimentavam. 

Uma verdadeira obra da natureza. Dia e noite quando olho para o chuchuzeiro vejo uma cena diferente.

Pela manhã, o lindo assobio dos pássaros me acorda, a noite o barulho dos grilos e gafanhotos me incomoda, mas isso me deixa feliz, vejo que na natureza nada se cria tudo se transforma.

Às vezes o perder se faz necessário para entendermos o poder das transformações, podemos não assimilar logo de imediato o que está acontecendo, mas quando olhamos para trás podemos ver o quão a mudança é linda se faz importante.

Hoje com a pandemia de COVID 19, e com o pedido de isolamento social para diminuir o contágio do vírus, as pessoas precisam ficar em casa. É necessário entender e olhar para trás, o mundo é outro, os olhares são outros, as prioridades já não são mais as mesmas, o tempo corrido já não existe mais. O que vai ser de nós no futuro? Estamos sempre em processo de mudanças e transformações.

O cenário não nos permite caminhar mais sozinho, o pensamento egoísta e o egocentrismo tomou novas formas, é necessário agora aproximação (mesmo que distante), é preciso ter empatia, escutar e entender o outro, só será possível erradicar esse vírus se a humanidade pensar e agir coletivamente.

Dentro de casa, buscamos afeto, o carinho de quem está do nosso lado, é como o apoio que o pé de chuchu precisa, sabe?. Estamos todos psicologicamente abalados, o momento é delicado precisamos de afeto.

Da minha janela, vejo todos os dias o verdadeiro exemplo de transformação, e é com a brisa gelada do vento batendo agora em meu pescoço, que encerro meu texto com a esperança de que dias melhores virão, que a humanidade entenda que tudo que estamos passando agora faz parte de uma transformação e que só colheremos os resultados positivos dessa crise mundial, no futuro. Às vezes a dor se faz necessária para que haja um bom aprendizado. 

 

*A crônica foi produzida sob a supervisão do professor Maurício Guilherme Silva Jr. e da jornalista Daniela Reis

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Conheça o projeto do Programa Universidade Aberta para cuidados e inclusão dos idosos

Por: Italo Charles

Hoje, dia 1º de outubro, é celebrado o Dia Internacional do Idoso. Para além de festejar é importante cultivar os cuidados e lutar por direitos juntos as pessoas da categoria. E, com o  intuito de promover a longevidade e o empoderamento das pessoas idosas, o Instituto Ânima criou o programa Universidade Aberta.

Fundado em 2011, o Programa Universidade Aberta possibilitou formação  através de cursos, oficinas e palestras a vários idosos. “Até o momento, se considerarmos todos os projetos desenvolvidos, já conseguimos beneficiar mais de 5 mil idosos”,  comentou a Gestora de Projetos, Naiane Santos. 

Ao passar dos anos, surgiram várias possibilidades de atuação voltadas ao público da terceira idade e,  uma delas, o Projeto Plenitude 60+ que surgiu no primeiro  semestre deste ano (2020).

Definido a partir dos pilares de saúde física e mental, saúde financeira do idoso,  sociabilidade e direitos, o Projeto Plenitude 60+ é um Núcleo de Comunicação e Campanhas Educativas para idosos e tem por finalidade produzir conteúdos para as redes sociais a fim de promover a autonomia e a inclusão social do idoso.

O coordenador do Projeto, Elias Santos, comentou que a universidade precisa olhar para o público idoso, uma vez que a sociedade e o mercado de trabalho não oferecem oportunidades.  “A Universidade Aberta foi um grande mudança para mim, primeiro como professor e segundo como radialista, profissional do mercado, pois o mercado não respeita as pessoas da categoria”.

o Plenitude 60+ também atua através do Conselho Municipal do Idoso (CMI), órgão responsável pela mediação entre o poder público municipal e a sociedade na execução das políticas em atendimentos aos direitos dos idosos.

Para conhecer mais sobre o Programa Universidade aberta, acesse o Facebook .

 

*A matéria foi produzida sob a supervisão da jornalista Daniela Reis.

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*Por Ana Luiza Passos (aluna do curso de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário Una)

Desde que iniciou-se o isolamento social notei, principalmente nas redes, a crescente pressão em ocupar todo e qualquer tempo ocioso que temos. No início estava seguindo a receita ao pé da letra e depois de esgotar minha lista de atividades, o que me restou foi aquilo que antes era o que mais queria: tempo. E o tempo se mostrou um péssimo amigo. Ficar comigo mesma me obrigou a visitar algumas questões que, inconscientemente, evitava. Isso é nenhum pouco divertido.

Nós criamos distrações, fazemos de tudo para fugir de nós mesmos para não lidar com nossas dores. Mas sofremos ainda assim, a cada nova batalha travada, sangramos por razões que sempre se renovam. Nós apostamos e perdemos, amamos e nos magoamos. Um inquebrável ciclo centrado na nossa ideia do ‘eu’ e do ‘meu’. Construímos mil caminhos e esconderijos dentro de nós para fugir de nossos fantasmas, e, no fim, acabamos mais confusos e perdidos.

Uma parede com infiltração não deixa de estar danificada só porque colocamos um belo papel decorativo por cima. Enterrar os problemas com mil afazeres é apenas uma solução paliativa, não resolve e nem os faz, milagrosamente, desaparecer. Estamos cada vez mais doentes e o esforço para sempre aparentar estar bem é justamente o que está nos adoecendo. E se, ao invés de ignorar, nós olhássemos para nossos sofrimentos e os encarássemos, sem medo? Se lidássemos com as nossas questões a fim de entendê-las, será que ainda sentiríamos tanta dor? Nos mantemos em situações ruins por medo da mudança, do desconhecido. Mas nos escondemos tão profundamente de nós mesmos que nos tornamos desconhecidos. Nosso medo de encarar o que é real, muitas vezes é o que impede que nossas feridas se curem, o que nos atormentam o sono, o que nos corrói por dentro.

Talvez, nesse momento de isolamento social, o melhor mesmo seja desacelerar. Talvez não realizar várias atividades seja a coisa mais proveitosa a se fazer. Talvez repensar nossa vida, rever nossas prioridades, cuidar da nossa mente, do nosso emocional, seja a melhor ocupação para a quarentena. Talvez o que realmente precisamos é ser mais improdutivos.

 

*Revisão: Daniela Reis