Sob novos olhares

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"Batucada", espetáculo do Piauí, é um dos responsáveis pela abertura da 14ª edição do FIT-BH

A 14ª edição do FIT-BH, que estreia nesta quinta-feira, dia 13, propõe um deslocamento do olhar para questões e linguagens ainda não abordadas no evento

Por Patrick Ferreira

As curadoras da 14ª edição do FIT-BH: Luciana Romagnolli, Soraya Martins e Grace Passô

 

O Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH) promete movimentar a capital mineira nos próximos dias. A 14ª edição do evento, que sempre se propõe inventivo, e que estreia nesta quinta-feira, dia 13, traz novos olhares e recortes da cena teatral. Antes mesmo de tomar corpo, a mostra buscou novos caminhos ao lançar edital para a composição da equipe de curadoria, que conta com Grace Passô, Luciana Romagnolli e Soraya Martins.

A abertura do edital de curadoria permitiu, segundo a crítica de teatro e curadora do FIT, Luciana Romagnolli, que outras pessoas que estão pensando e fazendo teatro na cidade e no país pudessem trazer suas experiências e suas perspectivas para o desenho da programação. “É bastante rico para que o público belo-horizontino tome contato com uma maior pluralidade de visões de teatro. Como ainda estamos em meio a esse processo, cuja forma é inédita para todas as partes, é cedo para fazer qualquer análise e, com certeza, haverá ajustes a serem feitos para a continuidade do edital, o que faz parte de qualquer primeira experiência”, explica.

Uma das diretrizes das curadoras do FIT-BH é de que assuntos pouco explorados em outras edições, como o teatro nordestino e africano, ganhasse espaço na programação. “Nosso projeto vai ao encontro de uma expectativa já expressa no edital, de que lugares teatrais pouco presentes ou ausentes na história do FIT fossem contemplados. E o nosso desejo era, justamente, propor uma programação que ampliasse o imaginário sobre teatro para além dos lugares hegemônicos, reconhecendo que nossa sociedade é muito mais plural, e nosso teatro, também”, elucida.  

“Batucada”, espetáculo do Piauí, é um dos responsáveis pela abertura da 14ª edição do FIT-BH

Abertura

Na abertura, nesta quinta-feira, o público terá a oportunidade de ver a apresentação de “Batucada”, do coreógrafo piauiense Marcelo Evelin, e “Looping: Bahia Overdub”, dos artistas baianos Felipe Assis, Leonardo França e Rita Aquino. Luciana destaca a configuração e a expectativa para as montagens que serão apresentadas em espaço público e que irá envolver cerca de 200 pessoas da cidade. Para ela, essas apresentações podem ressaltar a força que o movimento coletivo possui.

“Embora os dois trabalhos sejam muito distintos nos afetos que eles mobilizam, ambos apresentam alguns traços que se conectam aos nossos desejos para este FIT-BH. Um deles é o fato de serem feitos com pessoas da cidade, tanto aqueles artistas ou não que passaram por uma oficina ou workshop e estarão conduzindo a ação, quanto o público. Outro, por provocarem a experiência do encontro dos corpos em um coletivo ou na multidão, permitindo questões como: Quais as potências dos nossos corpos quando estão juntos, no espaço público, em ação?”, reflete.

Diversidade

Em todo o processo de idealização da 14ª edição do FIT-BH, houve uma preocupação por parte da curadoria em deslocar um pouco o olhar. Assim, montagens nordestinas, latino-americanas e africanas ganharam dentro do evento um espaço que não tinham até então.

Na apresentação concerto “Black Off”, Ntando Cele vira o jogo ao colocar em debate, no palco, o controverso “blackface”

“A noção ampliada de teatro que buscamos diz respeito também à linguagem artística. Entre os trabalhos do Norte e Nordeste, temos muitos fronteiriços com a dança (“Batucada”, “Looping…”, “Do Repente”), uma instalação imersiva (“Quaseilhas”); Alesanda Seutin (“Ceci nes pas soire”) e Dorotheé Munyaneza (“Unwanted”) também aproximam dança e performance, Ntando Cele fecha o “Black Off” com um show de música (estes são três trabalhos afro-diaspóricos, feitos por artistas de origem africana, que atuam hoje na Europa); de Portugal vêm um espetáculo-palestra (“Um museu vivo…”), com linguagem documental, como também tem “Libertação”; da Escócia, um solo da Jo Clifford (“Eve”); na América do Sul, “Simón, el topo” é teatro de bonecos para crianças e “Arde brillante…” funde atuações, teatro de bonecos e cinema; etc. Há uma pluralidade grande de linguagens, portanto”, comenta.

As escolhas curatoriais perpassaram pelo conceito Corpos-Dialetos. Esta edição busca evidenciar a movimentação de corpos e de culturas como o dialeto, que é a raiz de uma linguagem regional, porém não é uma língua oficial.

“Antes de tudo, corpos-dialetos nos recorda que o teatro é uma linguagem baseada no corpo. E um dos caminhos que buscamos nessa curadoria foi investir nas potências dos corpos – corpos que se movem, como os das diásporas africanas, corpos que se insurgem e celebram, que se mobilizam e transformam o mundo. A nós, interessava enormemente contrapor justamente as narrativas oficiais, os lugares hegemônicos, e apresentar mais perspectivas de teatro. Assim, chegamos a um conjunto de trabalhos que muda quem são os protagonistas das histórias, quem são as pessoas que as contam, numa revisão crítica do nosso passado e numa abertura para imaginarmos outras formas de vida”, evidencia Luciana Romagnolli.

Janela local

Além de obras de todo o Brasil e do exterior, o edital abriu chances para espetáculos da cidade. “Convidamos o ‘Assembleia Comum’ a se apresentar em ocupações da cidade e a artista Nina Caetano a apresentar uma nova performance, ‘Chorar os filhos’. A programação de espetáculos produzidos em Minas ficou a cargo de uma comissão de seleção, da qual um dos curadores-assistentes, o Anderson Feliciano, fez parte, propondo uma aproximação com nosso projeto curatorial”, relata Romagnolli.

 

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