Almanaque: Banda Lamparina e a Primavera

Almanaque: Banda Lamparina e a Primavera

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*Por Bianca Morais

Caretice não existe nessa banda, descontraídos, coloridos, dançantes. Se você perguntar para eles o que tocam, não vão saber responder. Vão tentar te convencer que é uma mistura de Psirico com Djavan, pode colocar um pouco de Baiana System também. O negócio deles é brasileiro, é cultura popular, é Dominguinhos, é Alcione.

São as infinitas possibilidades estéticas da música brasileira e latino-americana (essa parte eu peguei da descrição deles no Spotify).

Beleza, mas quem são eles?

Me perdi um pouco tentando apresentá-los que até me esqueci de falar quem são.

Lamparina e a Primavera.

Diferentes de tudo que você já ouviu e inspirados em um único objetivo: fazer as pessoas dançarem e se movimentarem ao som de suas canções. Eles querem tocar as pessoas por meio do espírito da dança. A maioria das composições tem uma mensagem para passar e socialmente falando, é mais fácil essa mensagem atingir os jovens.

“Não sejam rasos, sejam quem vocês são. Criem bons versos, leiam poesias, leiam textos, escrevam, porque isso vai fazer a diferença na hora das pessoas ouvirem, as pessoas vão querer ouvir.”.

Se você não os conhece, já está mais do que na hora de se atualizar. A banda começou em 2016 e hoje já é conhecida em todo Brasil. Já tocaram em grandes festivais como o MECAInhotim e Planeta Brasil. A galera que antes viajava dentro de um Fiat Uno amontoada com os instrumentos, hoje viaja de avião e fica em hotéis tops.

E como surgiu essa conquista? Como veio a fama? Vou contar um pouco da história deles e como chegaram onde estão hoje.

Arthur Delamarque e Calvin Delamarque são irmãos e tinham uma banda, a Delamarque e a Lamparina. O Arthur também tocava na banda do Hugo Zschaber, a Hugo e a Primavera. As duas bandas começaram mais ou menos juntas e os meninos já se conheciam da época de colégio. Acontece que as duas bandas separadas não estavam evoluindo o tanto que queriam, alguns dos integrantes não estavam tão comprometidos quanto os outros, não faziam muitos shows e não ensaiavam com frequência.

Um dia na casa do Arthur, ele e Hugo estavam reflexivos sobre os problemas das respectivas bandas e decidiram que iriam acabar com as duas e formar com quem realmente queria tocar e fazer música.

O nome da banda Lamparina e a Primavera nasceu da união do sobrenome dessas duas bandas. Até porque se juntasse Hugo e Delamarque viraria uma dupla sertaneja e eles estão longe de tocar sofrência.

Nome decidido, a primeira formação da Lamparina e a Primavera tinha os irmãos Delamarque, o Hugo e a Mariana Cavanellas (que depois tocou no Rosa Neon. Continue lendo o almanaque que em breve falaremos de mais essa banda de sucesso).

A banda precisava de um baterista e então apareceu o Thiago Oliveira, também conhecido como Groove. Ele foi resgatado por eles depois da sua antiga banda onde tocava com o Breno Miranda (aquele do Sede pra te ver, corre lá no Spotify). Nessa formação também tinha o guitarrista Francisco di Flora, amigo de escola dos meninos.

Começou então a banda com 6 integrantes: o Arthur, o Calvin, o Hugo, a Mariana, o Groove e o Chico. Os ensaios aconteciam na casa do Groove lá no bairro Concórdia.

O Fabiano Carvalho era vizinho do Groove e tocava percussão. O Hugo já tocava percussão, mas eles sentiam que precisavam de mais gente na banda e mais swing. Então colocaram o Fabiano, também conhecido como Bino.

A banda crescia, lançaram seu primeiro EP Claraboia em 2017, no Cine Theatro Brasil. Com a presença de familiares e emoções à flor da pele, começaram a ver que o trabalho estava dando certo. Aos poucos iam saindo de Belo Horizonte e tocando para o resto do país.

Foi em 2018 que veio o primeiro baque; Mariana Cavanellas anunciou que sairia da banda. Um clima de muita tristeza tomou conta do grupo que ficou cerca de 5 meses de hiato sem vocalista e muitas canções acabaram ficando caracterizadas pela sonoridade da voz de Mariana. Era necessário uma voz à altura para substituí-la. E é claro que não ficou para menos. Depois de um tempo de procura, apareceu Marina Miglo. E o nome foi apenas coincidência mesmo.

Indicada por amigos em comum, Marina trouxe aquilo que eles procuravam, algo novo, mas não deixando perder a identidade que já tinham criado. A única mulher da banda entrou de uma forma bonita, sincera e leve, trazendo consigo uma personalidade intensa para aquele grupo.

Logo depois da saída da Mariana, outro membro da formação inicial também se despediu da Lamparina e a Primavera, o Chico. Se formou em medicina e teve que escolher entre suas paixões. Aparentemente, existem muitos aspirantes a médicos nas bandas de Belo Horizonte. O Rafael da Devise também teve que sair da banda depois que se formou e o Pedro Martins da Matiza também é estudante de medicina (mas agora é torcer pra ele não sair também).

Com a saída do Chico, entrou o Stênio e foi daí que nasceu a banda com a formação que conhecemos hoje.

Como já aprendemos neste almanaque, a vida de uma banda independente não é fácil. Alguns de seus membros irão se perder no caminho, mas é a paixão pela música e a vontade de dar certo que servirão de força para os que ficam.

Saem Mariana e Chico, entram Marina e Stênio e a Lamparina e a Primavera finalmente se entende por completo como banda.

A Lamparina não começou a tocar sua música autoral nos clássicos lugares de Belo Horizonte conhecidos por abraçar esse meio, como a Obra e a Autêntica. Com essa pegada brasileira, a banda era convidada para tocar em bares como o Quintal da Jabu e Catavento Cultural, frequentados por bandas que tocam samba e brasilidades, exatamente o forte deles.

Corajosos e destemidos, assim como os parceiros da Chico e o Mar, se arriscaram em não colocar cover nos repertórios e mostrar para as pessoas o que eles tinham de original. Assim foram conquistando um público que se identificava com o som.

O público cresceu, a música popularizou e a banda que antes tirava do bolso para ir tocar nos lugares, agora voa de primeira classe e toca para milhares de pessoas. Eles, que antes estavam acostumados a ter na frente do palco os amigos cantando bem alto, agora têm o reconhecimento de pessoas que nunca viram na vida, várias delas cantando o que saíram da cabeça deles.

Sair de Belo Horizonte significa ver pessoalmente que a música está chegando a outros lugares. Uma coisa é ver números de visualizações pela internet, encarar de frente é outro assunto. O comentário de “viu a galera cantando a nossa música?” por muito tempo deixou de existir nos shows em casa, até porque já estavam acostumados com o público local. Mas ir para outra cidade, como quando tocaram no Sul do país, e ver a galera esgoelando as músicas, mostra para eles o retorno. Tocar em casa, ou seja, na própria cidade, faz com que as pessoas acabem te conhecendo como pessoa, mas em um lugar novo o que chega primeiro é a música. As pessoas ficam mais distantes da banda e mais próxima do trabalho.

O segredo do sucesso

Nada veio por acaso, o que vive hoje a Lamparina e a Primavera é o resultado de um esforço em criar uma personalidade só deles. Não é preciso muito para ver como o estilo deles é diferente. A dica que eles deixam para quem está começando é:

“Sejam vocês mesmos e não tentem copiar o do outro”.

Se você vê na Lamparina um sucesso, use como inspiração. Mas não tente imitar, porque você não vai conseguir ser exorbitante do jeito como a Marina é, nem tranquilo como o Calvin, trabalhador como o Bino, otimista como o Stênio, reflexivo como o Hugo, admirador de bons fumos como o Groove ou maluco como o Arthur. Pode até ser que você seja algo disso aí de cima, mas não da forma que eles são.

Não é porque eles têm dado certo que se você tentar fazer do mesmo jeito deles também dará. Provavelmente não dará mesmo. Você tem que usar uma fórmula diferente. O segredo de dar certo é ser você mesmo e, se for pra ser sua hora, vai acontecer.

Clichê? Sim. Mas verdade seja dita. Principalmente quando você é um artista autoral. Isso significa que você quer fazer o que gosta com originalidade, então não é imitando o outro que gerará bons resultados.

A Lamparina e a Primavera faz o que gosta, do jeito que quer e caiu no carinho do público. Acreditam no som que fazem e autoconfiança é tudo. Acredite que “eu estou fazendo a melhor música, o meu show é muito doido”. Quando você consegue acreditar 100% em você, você vai colocar 100% de si no seu trabalho e só irá colher bons frutos.

E sabe como eu sei que isso está dando certo para eles? Porque eles me contaram, claro. E porque eles estão sendo parados na rua para tirar fotos e quando estão na mesa de um bar percebem que o pessoal da mesa ao lado está se cutucando e apontando para eles. Porque a amiga que fazia circo com o Stênio desde o ano passado, quando voltou das férias foi tremendo e vermelha falar com ele porque não acreditava que ele tocava na Lamparina e a Primavera.

Agora quando eles não conseguirem mais nem ir ao supermercado, você vai se lembrar do que registrei aqui e se não tiver seguido essas dicas vai pensar: poxa, eu poderia ter seguido aquelas dicas do almanaque sobre bandas independentes.

A música não é hobby

Ok, a música pode ser hobby para muitas pessoas, mas para quem quer entrar realmente nesse mercado não pode tratá-la apenas assim. A Lamparina e a Primavera afirma que música é profissão e se você quer que dê certo, tem que se dedicar.

Muitas bandas concordam que não mudariam seu som por algo que está na moda, mas a Lamparina e a Primavera segue uma linha diferente. Ela jamais irá se entregar para a caretice. Porém, se é o pop que está na moda e as pessoas estão consumindo, ela vai fazer um pop, mas vai ser o pop com o jeito e a pegada dela, para que possa se identificar com aquilo e conseguir chegar às pessoas da sua maneira.

Você tá na moda e eu no sufoco

No Brasil, se você trabalha com música e não é rico, muitas vezes você pensará em desistir. “Não podemos romantizar a música porque para quem está começando é zero romance, é mais trampo.”. Então corra atrás e garanta o seu lugar.

Não tenha medo de ser você. Esse povo é raso, amor, mas você não.

 

*Esse produto resultado do Trabalho de Conclusão de Curso do Centro Universitário Una da Jornalista Bianca Morais.

 

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