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Popularizado na década de 1990 entre grupos urbanos, da cultura alternativa, Sticker é considerada uma subcategoria da arte pós-moderna e é uma forma de transmitir uma mensagem, sentido, manifestação ou simplesmente o prazer de enfeitar a rua do seu gosto ou ponto de vista seja no alto de um poste, no final de uma placa ou até mesmo em casas abandonadas.
Em entrevista para Contramão Online, Raquel Schembri, 25 anos, formada em artes plásticas e com pós-graduação em Moda, conta um pouco sobre seus trabalhos com arte urbana.

“Acredito muito na arte nas ruas como um convite a mudança na percepção de cada um.” (Raquel Schembri)

Contramão – Quando começou a executar os trabalhos? (Stickers, quadros…)
Raquel Schembri – Comecei a desenvolver o meu trabalho em 2003/2004, tanto o de pintura e desenho quanto o trabalho nas ruas e em lugares abandonados. Na época já estava na Escola Guignard.

Contramão Algum artista o incentivou? Quem, e com qual trabalho?
Raquel Schembri São vários artistas que me incentivaram e que me inspiram. Atualmente de artistas que tem ou tiveram uma ligação urbana, admiro o Blu, o Herbert Baglione e Os Gêmeos. Tem um artista, que cria animações, que pra mim ele é meu “guru”, o Hayao Miyazaki, me identifico muito com as obras dele. Uma de suas obras mais conhecidas é “A Viagem de Chihiro”. Na rua, o artista que me despertou para o mundo da arte na rua foi Xereu, fiquei instigada com  as caras que ele distribuía na cidade, mas só fui conhecer ele pessoalmente um tempo depois. O artista Ramon Martins foi quem me introduziu nesse universo, principalmente no grafitti. Trabalhamos juntos por um bom tempo. 

Contramão Participou de algum curso de desenho, design, etc.?
Raquel Schembri Formei na Escola Guignard, UEMG, em Artes Plásticas. Depois fiz Pós em Design de Moda na Fumec.

Contramão Qual material utiliza na execução dos trabalhos?
Raquel Schembri Minhas pinturas em tela ou papel são na maioria das vezes tintas acrílicas. Comecei esse ano a experimentar tinta a óleo, mas estou “apanhando” muito. O tipo de raciocínio para a execução é muito diferente.
Na arte urbana, utilizo pigmentos, tintas próprias para parede, nanquim, e outros materiais que variam como guache, acrílica, spray, carvão e por aí vai. 

Contramão Quanto tempo gasta?
Raquel Schembri Bom, depende do que estou fazendo. Não gosto de ficar “fritando” muito tempo no mesmo trabalho. Fico feliz quando consigo terminar no mesmo dia! Pinturas em quadros são as que demoram mais, às vezes fico 4, 5 dias em um único retrato. Já na rua o máximo que gastei foram duas tardes, mas normalmente gasto uma tarde só.

Contramão– Qual o horário que faz os trabalhos na rua? Já foi pega executando o trabalho em alguma área proibida? Existe algum risco?
Raquel Schembri – Gosto de trabalhar durante a tarde (não consigo acordar cedo, só funciono legal depois de umas 16h00min) espichando pra noite dependendo do lugar, pois gosto mais de pintar em casas e lugares abandonados, normalmente não tem iluminação. Já fui pega sim umas vezes, mas nunca tive grandes problemas. Primeiro porque mesmo sendo ilegal, pintar num ambiente que vai ser demolido é bem mais tranqüilo do que na fachada de uma casa, de um prédio ou de algum comércio. É mais escondido, poucas pessoas vêem. E sinto que eu sendo mulher e sabendo “trocar idéia” faz diferença. Pra mim o maior risco é de estar pintando sozinha. Adoro trabalhar só, chega a ser espiritual pra mim. Mas também é perigoso. Uma vez numa casa enorme três caras cheirando cola começaram a mexer comigo. Se eles quisessem fazer alguma coisa, ninguém ia ver nada, mas não aconteceu nada.

Contramão O que motiva a continuar a fazer os trabalhos, sendo que não tem nenhum vínculo lucrativo?
Raquel SchembriPra mim tem vínculos lucrativos, sim. Não relacionados à grana, mas pra mim, gerar um questionamento em alguém, despertar algo, mudar nem que seja um pouquinho o cotidiano de uma pessoa, já é um lucro. Acredito muito na arte nas ruas como um convite à mudança na percepção de cada um. São poucas as pessoas que conseguem observar o que está ao seu redor. Acredito que a contemplação é um elemento importantíssimo para saber viver melhor o presente. Faço minha arte sem grandes expectativas, mas gostaria muito que fosse como quando colocamos o dedo num redemoinho de água de uma banheira que está esvaziando. Já reparou que a água se dissipa?

Contramão Acredita que com os manifestos, você cria nas pessoas uma idéia critica?
Raquel Schembri A minha preocupação não é criar uma idéia crítica, mas despertar algo nas pessoas.

Contramão– Como surgem as idéias, qual é o sentindo? (na arte urbana)
Raquel Schembri- As idéias não são muito elaboradas. Normalmente eu decido na hora o que eu vou fazer, e as idéias são meio vagas. O resultado final sempre é uma surpresa pra mim.

Contramão- Qual a idéia que acha que passa para os conhecedores e não conhecedores desse tipo de trabalho?
Raquel SchembriCada um interpreta como quer e com a sua percepção. É muito mais individual que imaginamos.

Contramão Se os trabalhos servem como uma forma de manifesto, para quem é esse manifesto direta ou indiretamente?
(Sem resposta)

Contramão Os trabalhos já foram apresentados em alguma exposição de arte? Qual e onde?
Raquel Schembri Já cheguei a pintar duas casas inteiras junto com o artista plástico Ramon Martins e fizemos um convite da exposição, chamava “Sem Dono”. Era legal porque ninguém esperava que fosse uma casa abandonada, suja, com mau cheiro. Teve gente que teve que pular o muro para poder ver. A galeria para os artistas de rua é a cidade. Como a característica desse trabalho é a efemeridade, o registro que tenho são as fotos. Expus algumas delas em Torino, na Itália, na exposição “Viver Minas”.  Minhas pinturas e desenhos já foram expostos em galerias e em feiras nacionais e internacionais como em Montevidéu (Uruguai), Hollywood, NY (EUA), Londres (Inglaterra).


ContramãoQual trabalho foi mais importante? Por quê?
Raquel Schembri Pra mim, todos os trabalhos têm sua importância. É claro que tem uns que eu gosto mais que outros. Teve uns que foram mais especiais, como a pintura que eu fiz para a minha mãe, nos dias das mães. O pássaro de duas cabeças que eu fiz no dia do Natal também estava incrível o ambiente. Senti uma paz muito grande enquanto fazia, minha mente estava em outro nível.

Contramão Qual a diferença do seu trabalho para outras consideradas poluições visuais, como pixações e outdoors?
Raquel Schembri A intenção. Isso muda completamente. A intenção das propagandas é o dinheiro, e o povo tem que “engolir” essa imposição diariamente. Muitos pixadores e grafiteiros já têm a questão da auto-afirmação muito forte. As pessoas têm que parar de pensar muito nelas mesmo e voltar um pouco no outro. Todos têm uma responsabilidade com o que mostram com o que passam à diante. O mundo está precisando de pessoas que acrescentam. Sempre tenho o cuidado de não passar algo negativo (apesar de que isso é subjetivo). Também não faço questão de assinar.

Contramão Qual é a sensação depois do trabalho feito?
Raquel Schembri Normalmente, quando termino um trabalho, não tenho uma opinião formada sobre ele. Não sei se gostei. Vou sentindo com o tempo que vai passando. Fico feliz em rever um trabalho, mas na maioria das vezes duram muito pouco tempo, as demolidoras não perdem tempo. A sensação durante e depois do processo nunca é igual, mas pra mim é sempre íntimo.

Conheça mais o trabalho da artista em nossa  Galeria

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Confira o vídeo com a coordenadora do Museu, Luiza Azevedo Meyer, contando um pouco sobre a história do local.

Neste outro vídeo, Luiza nos mostra uma área do Museu dos Brinquedo que visa ensinar aos visitantes de onde surgiu alguns brinquedos.

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dsc00031Pilhas de vinis espalhados pelo chão, em caixotes, mesinhas e estantes. Nem os LPs estragados são desperdiçados, eles viram cortinas e enfeites. Assim é a discoteca pública. Discoteca não no sentido popularizado, visto como um lugar em que se vai para dançar, mas sim no sentido real da palavra que é um lugar para guardar vinis. Edu Pampani, coordenador da discoteca, conta que a idéia é montar um mosaico com o que foi produzido no Brasil dos anos 50 até hoje. O objetivo é resgatar e manter a memória da música, fazendo com que as pessoas voltem a ouvir vinis para que eles não sejam esquecidos e mal cuidados.

A discoteca tem mais de 12 mil discos somando também os que não funcionam, pois até as sucatas Pamponi conta como LPs. Ela tem álbuns de todos os estilos musicais, “quanto mais desconhecido melhor, porque são esses que não serão regravados”, enfatiza o coordenador do espaço. Nas estantes da discoteca os discos são organizados por estilo e ordem alfabética. As obras são disponibilizadas para audição, gravação e pesquisa.

Tem trilha sonora de novela, musical infantil, discos de piadas, hinos de times, etc. O espaço tem uma sessão só de disco de artistas mineiros, são quase dois mil títulos. A discoteca não vende discos, mas troca os repetidos seguindo o critério de “dois por um”. Segundo Pampani muitas pessoas vão a discoteca para fazer pesquisas, monografia e olhar as capas de discos antigos para ver como as pessoas se vestiam nas décadas passadas.

No site da Discoteca os internautas podem encontrar dicas de onde comprar equipamentos para as vitrolas, fazer manutenção dos aparelhos e comprar ou trocar discos raros. De dois em dois meses a discoteca promove a Feira do Vinil e CDs Independentes onde os músicos lançam CDs e LPs. Durante as feiras as bandas tocam e DJs (muitas vezes os próprios freqüentadores) escolhem as músicas que vão tocar. Edu Pamponi abriu a discoteca em 2005 com o auxílio do fundo municipal de incentivo a cultura. Hoje, ela continua a funcionar, mesmo sem esse incentivo econômico. Confira o vídeo da discoteca Pública:

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Imagem: http://poro.redezero.org

Como seria o mundo se você não pensasse? Pacato, sem graça, sem vida… Talvez. Mas para os grandes idealizadores da frase Siga Sem Pensar, a vida tem mais cor, mais sentido. E com pequenos gestos que iniciamos nossa sequência da arte de fazer pensar.

Ao deparar com aquele minúsculo dizer que apenas não dizia, gritava na minha mente, Siga sem pensar, tentei não mais pensar, tentativa em vão. Por mais que eu tentasse, o não pensar era mais forte. Pensei no mundo, pensei em tudo só não consegui seguir sem pensar.

Aqueles que sem pronunciar uma palavra sequer, nos fazem pensar. Qual é o sentido disso tudo, o que aqueles que vivem do silêncio da madrugada, querem nos dizer? Vivem do risco e da arte, vivem do encanto e do desespero.  São idealizadores da ação, geradores da reação mútua. Os stickers são pessoas comuns, mas com uma forma idealizadora e diferente, onde mostram o ponto de vista sobre o mundo com a arte. Pode-se dizer que é um grito de inconformismo, contestador e bem humorado, onde o ataque se dá em vários sentidos. Atingem galerias de arte, ruas das grandes cidades e o imaginário coletivo. Andamos tão habituados a aceitar como correto, bonitos ou muitas vezes únicos os manifestos de arte; eles não.

A essência e a crítica andam sempre juntas e vêm sempre condimentando nossas vidas com ataques de humor, misturando ícones da mídia em massa e das mídias alternativas, questionando suas tendências manipuladoras.

Acesse a nossa Galeria e veja trabalhos de artistas anônimos  feitos na região da Savassi.

Confira nesta segunda-feira a entrevista com a artista Raquel Schembri.

Imagem: http://poro.redezero.org

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Quando foi criada, sua principal função era ligar o centro comercial de Belo Horizonte, que se localizava nos arredores da Praça da Estação, com a Praça da Liberdade, centro administrativo da cidade. No início do século XIX, a Rua da Bahia era a parte boêmia da cidade, ponto de encontro de poetas, jornalistas, escritores e diversos intelectuais da época. Hoje ela apresenta uma parte sofisticada e outra decadente, ambas frequentadas por pessoas de todas as classes sociais. A Rua da Bahia “nasce” na chamada “boca do lixo” e “morre” naquela que seria a parte “chique” de Belo Horizonte. Ela se transformou em muito mais que uma rua de ligação, se tornou um espaço democrático e com muita diversidade.

A seguir um vídeo com um ensaio fotográfico que mostra a diversidade encontrada na rua.

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Toda segunda-feira você encontrará uma entrevista com artistas ou jornalistas no nosso site. Na primeira edição, conversamos com  alguns integrantes da banda Graveola e o Lixo Polifônico.

Reciclagem Polifônica

O título traduz bem a musicalidade da banda belo-horizontina, Graveola e o lixo Polifônico, que faz um som difícil de definir. Experimentando e reciclando as sonoridades “pop”, suas melodias vão da poesia ao deboche. permeadas por um samba, rock, jazz, tango, mpb, etc. As letras mantêm uma intertextualidade com a bagagem dos integrantes. Com bom humor, uma das músicas chama-se: Chico Buarque de Holanda vai à copa de 2006.

A banda mistura instrumentos propriamente musicais, com brinquedos e utensílios domésticos. Em palco a voz grave e as “dancinhas” do vocalista José Luiz contagiam quem os assiste e ouve. Em meio às músicas ele e Luiz Gabriel conversam com o público, criando uma interação entre a banda e  seus ouvintes. Durante as músicas os integrantes da banda trocam várias vezes de instrumentos, sendo que fica difícil definir quem toca qual instrumento.

Os músicos do grupo são José Luis Braga, Luiz Gabriel Lopes, Flora Lopes, Marcelo de Podestá, Yuri Vellasco, João Paulo Prazeres e Bruno de Oliveira. Em 2008 eles gravaram o primeiro e único CD da banda e construíram um site com o fundo municipal de cultura. O CD está disponível para download no site da banda. Os integrantes Luiz Gabriel e João Paulo deram entrevista ao Contramão.

Contramão: De onde surgiu o intrigante nome da banda, Graveola e o Lixo Polifônico?

Luiz Gabriel: “Graveola” não tem muito uma explicação, é mais pela sonoridade, foi um insight meio aleatório. E o “Lixo Polifônico” tem origem numa lixeira, propriamente, que o Marcelo Podestá usava para batucar nas nossas primeiras rodinhas de violão, lá pelos 2004 da vida. Se relaciona com uma vontade de buscar sonoridades vindas de coisas não necessariamente “musicais”, instrumentos de brinquedo, coisas que tínhamos à mão nessa época. Também a idéia da reciclagem enquanto uma espécie de metodologia de trabalho, tanto nas composições, como nos arranjos, no pensamento todo sobre a coisa. Então a coisa de “reprocessar” uns gêneros, fazer plágios, etc.

João Paulo: Graveola é uma “palavra valise” nela estão implícitas várias outras como: Graviola, Grave + (Radi) ola / (Vitr)ola.

Contramão: Essa reciclagem seria no sentido de criar algo novo?

Luiz Gabriel: A idéia de “criar algo novo” por si só não é necessariamente interessante. O nosso som não tem o “novo” como característica que salte à primeira vista. A maioria das coisas são “formas clássicas” da canção pop, “contaminadas” pelos vários gêneros e sonoridades com os quais convivemos. Aí entra o jazz, o axé, a música erudita, a MPB, o samba, o pagode, a música eletrônica, em diferentes níveis e intensidades, mas sempre presentes de alguma forma, mesmo até que a gente não perceba. O que é uma coisa muito doida, porque nós mesmos ficamos buscando as referências e garimpando para ver de onde que vem cada coisa. Isso vira uma grande brincadeira na composição, no arranjo, na hora de tocar.

Contramão: Como vocês se conheceram?

Luiz Gabriel: Eu, João e Marcelo formamos no mesmo curso. No início era eu, Zé e Marcelo, “hipongagem” mesmo, fazendo um som, rodinha de violão. Depois entrou a Flora, minha irmã, que já tocava comigo em outros projetos há mais tempo. O João já fazia umas participações, mas era no “chove não molha”, aí de repente ele tocava o show inteiro e não tinha mais jeito.

João Paulo: E aconteceu a mesma coisa com o Bruno, o baixista.

Luiz Gabriel: O João tinha um quarteto de jazz, o Criado Mudo, com o Yuri, que também entrou na banda.

João Paulo: Eu conheci o Yuri ele era molequinho. Não tinha nem barba. Tocamos juntos há uns sete anos.

Contramão: Apesar da banda não estar na grande mídia os shows estão quase sempre lotados e costuma não ter ingresso para entrar. A que vocês atribuem este fato?

Luiz Gabriel: Vai formando uma galerinha que gosta, fica sabendo dos shows, aí passa e-mail para a banda, nós avisamos sobre os shows, colamos cartaz, fazemos a divulgação toda “na tora.” Não é tempo no sentido de que “temos uma longa carreira”, na verdade é tudo recente. Mas muitas pessoas que vão aos shows, é a galera que via a gente em rodinha de violão da FafichMG (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas).Um fala pro outro. Nunca tivemos preguiça de trabalhar na divulgação. Tem também o sensacional mérito do Marcelo Podestá, com a identidade visual-divulgatória da banda. Os cartazes têm uma “tradição estética” bem interessante. O myspace foi uma porta legal também, muita gente conheceu por lá, principalmente no último ano, eu acho.

João Paulo: O Graveola é uma banda que se comunica. A banda não só toca e se apresenta no palco, ela interage. Tem também a equipe da banda, que consiste em todo o pessoal da banda e mais os “agregados”: fotógrafos, videógrafos, técnicos, produção, e etc. Eles são carinhosamente chamados por nós de família Graveola e produzem tudo que você vê, ouve ou não vê nem ouve nos shows.

Luiz Gabriel: Mas calma que quem vê falando assim até pensa que a gente tem uma mega estrutura. Na verdade só temos um bando de amigos talentosos e muito animados.

Contramão: Vocês pensam em viver unicamente da banda, como profissão?

João Paulo: O negócio é a condição do músico e do artista.

Luiz Gabriel: O coitado do músico (do artista, de forma geral) tem que fazer um milhão de bicos, dar aula, tocar em um milhão de grupos, animar festinha de criança e vender sanduíches. Eu acho que a gente vai viver de música, de qualquer forma, ou viver “pra música”, talvez seja mais o caso. O Graveola é uma das coisas nessa conta, nesse momento. Entra a questão da dificuldade de levar pra frente trabalhos independentes, sem nenhum incentivo de grana. Você tem que compor, ensaiar, tocar, fazer o cartaz, xerocar, colar na rua, mandar e-mail para a galera, passar som, carregar os instrumentos depois do show. Tudo isso “na tora productions.”.

João Paulo: Esse disco nosso mesmo, e o de vários amigos nosso músicos de BH, só foi possível graças a esse mecenato estatal contemporâneo (Lei Municipal de Incentivo a cultura).

Luiz Gabriel: Que é uma coisa muito pequena, tendo em vista a quantidade de gente disputando e precisando disso como única alternativa pra viabilizar os trabalhos. Rolou grana de incentivo para o projeto da gravação do CD, e só, até agora. Fora isso é a gente mesmo botando pra frente. Mas sem essa grana do fundo municipal de cultura seria impossível ter rolado o CD, da forma como rolou.

Contramão: O som da banda é bem diferente e difícil de classificar dentro de algum estilo musical como vocês se definem?

Luiz Gabriel: Acho que o som da banda é mais uma junção de várias coisas clássicas, muito identificáveis em si, mas unidas num todo. Falar de um “estilo”, no sentido de um gênero, é difícil mesmo, porque tem várias absorções, tipo plágios estilísticos mesmo. Um bolero, um sambinha, uma bossinha-jazz, um rock e várias coisas que a gente ouviu, ouve, e gosta. Referências roubadas de toda parte. Fica uma sacanagem de  inventar termos.  “Barroco beat” é o melhor, eu acho, é o meu preferido. É de um amigo nosso, o grande teórico Gabriel Schunemann.

João Paulo: O negócio é sempre estar pronto para “puxar o tapete” da galera, sabe?

Contramão: Como assim puxar o tapete da galera?

João Paulo: Vou dar um exemplo. Tocamos duas semanas seguidas no Estúdio B e de uma pra outra mudamos radicalmente o arranjo da música  “Benzinho”. Isso deixa aquela confusão gostosa na cabeça da galera.

Luiz Gabriel: É estar sempre disposto a não fazer o que é mais cômodo, ou o que é mais esperado, de uma forma geral.

Contramão: Porque vocês escolheram disponibilizar o CD também no site?

João Paulo: Não é uma escolha. Aliás, acho que a escolha foi disponibilizar também na loja. Porque a idéia é tocar e que a banda seja ouvida. A música é a arte do instante. Só existe enquanto está vibrando no ar.  Então restringir o disco a um público comprador é restringir a nossa música.  Vira e mexe no myspace ou no last.fm a gente vê gente de cada lugar maluco do mundo ouvindo o Graveola.

Contramão: Vocês optaram por utilizar vários instrumentos diferenciados, porque não utilizar somente os tradicionais?

Luiz Gabriel: Porque não tínhamos um baixo, ou uma guitarra. Uma questão totalmente material, quando começamos tínhamos um violão, meia dúzia de brinquedos, uns copos, umas colheres e uma lixeira. Mas na verdade, se você for ver a ficha técnica do disco, esses elementos não são as coisas mais presentes, estão em conjunto com uma porção de instrumentos convencionais. Ficou meio marcada, a coisa dos instrumentos de brinquedo, das sucatas, mas é apenas uma das facetas, nem sei se a mais representativa.

graveola e o lixo polifônico – samba de outro lugar from bernard machado on Vimeo.